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Sempre desobedecer, nunca reverenciar: o legado possível de Fernanda Young para as mulheres

No episódio nove da segunda temporada de Mad Men, Don Draper (Jon Hamm) chega à Sterling Cooper e encontra as mulheres do escritório chorando por toda a parte. O motivo é a notícia da morte de Marilyn Monroe, estrela do cinema e símbolo de uma época. Em determinado momento, o episódio contrapõe a reação emotiva das mulheres com a maneira como os homens recebem a notícia: enquanto eles lamentam que uma mulher bonita, com aquele corpo fenomenal, tenha morrido tão cedo, elas sentiam o pesar de outra maneira e Peggy (Elisabeth Moss), no elevador, diz que não sabia que a atriz, tão famosa e tão amada, era tão sozinha. A complexidade da figura de Marilyn, tão palpável entre as mulheres, sempre escapa aos homens no último minuto.

No último domingo, 25 de agosto, a notícia de que Fernanda Young, atriz, escritora e roteirista, havia falecido vítima de uma complicação respiratória chegava às redes sociais e tomava todos de surpresa. Fernanda tinha apenas 49 anos, se mantinha ativa criativamente e estrearia uma peça em breve. Era presença constante no seu Instagram, onde publicava seus típicos textões e respondia aos haters. Não se sabia de nenhuma condição grave de saúde imediata que ameaçasse a sua longevidade dessa forma. O que foi que deixamos escapar?

Por todo lado, no Twitter, no Instagram, e mais tarde, nas colunas de jornal, pessoas lamentaram a morte totalmente fora de roteiro de Young, mas entre os que sofriam, as mulheres eram destaque. Letrux, Sarah Oliveira, Fernanda Nobre, Fernanda Torres, famosas, anônimas, amigas, conhecidas, mulheres por toda a parte contaram histórias sobre a Fernanda, compartilharam fotos, memórias, homenagens, suas frases icônicas e textos diversos.

A comédia Os Normais, exibida entre 2001 e 2003 na Globo, e especialmente a personagem Vani, interpretada por Fernanda Torres, apareceu em muitos desses trechos dessa memória coletiva. Em seu texto para a Istoé, Fernanda Torres agradece por ter podido se fundir à outra Fernanda para criar uma mulher que era a mistura perfeita do anarquismo de uma, com o absurdo da outra. Vani era hilária, reclamava sobre o sucesso alheio enquanto usava calcinha e sutiã bege ou debatia longas questões com Rui (Luiz Fernando Guimarães), mas também sabia olhar direto para a câmera, para nós, mulheres “doidas demais” do lado de cá. Fernanda Young sempre foi mestra em se autorreferenciar, mas ao fazê-lo, ela também referenciou uma geração inteira de mulheres que nunca haviam se visto tão de perto assim na tela da televisão.

“Minha persona pública se mesclou com a da Fernanda sem que eu tivesse de ter o peito, a ousadia e a coragem dela de encarar a cafonice do mundo, de denunciá-la e virá-la do avesso.” (Fernanda Torres, “Por caminhos que ninguém explica, nos fundimos numa mesma Vani”)

Seus outros trabalhos na televisão, como Os Aspones, Como Aproveitar o Fim do Mundo, e mais recentemente, Shippados, também foram lembrados com carinho. A Mão Esquerda de Vênus e Vergonha dos Pés foram alguns dos seus livros mais queridos, citados por quem teve a sua vida mudada após a leitura. A peça Ainda Nada de Novo, onde atuaria ao lado de Fernanda Nobre, também foi motivo de interesse e curiosidade.

Mas, mais do que tudo, o tema que aparece em todos os textos sobre a sua partida é aquele que é talvez o seu maior legado: sua própria personalidade. Fernanda foi gigante não só pelo que fez, mas por ser quem foi.
Sua rebeldia feroz, muitas vezes lida como loucura pelo espectador apressado, vazava por todos os lados. Em seu texto, Fernanda Torres diz que Young e seu marido, Alexandre Machado, eram “dois punks vestidos de cordeiro”, mas no caso de Fernanda acho que o disfarce nunca chegou a existir. Sua recusa à cafonice e à caretice do mundo estavam lá, no estilo inegável dos chapéus, do preto constante no armário, do batom vermelho, das tatuagens.

Num mundo onde mulheres ainda são vistas como um corpo sem cabeça ou uma cabeça sem corpo, nunca os dois, Fernanda mais uma vez jogou fora o protocolo. Foi admirada e reconhecida a vida inteira pela sua genialidade inegável, mas quando tentaram aprisioná-la novamente na gaveta da intelectualidade fria, posou nua para a capa da Playboy em 2009. Sobre o ensaio, o fotógrafo Bob Wolfenson relembra:

“Hoje, vista assim em retrospectiva, a metáfora de alguém ainda engaiolada pode dizer: nada me aprisiona, estou aqui nua inteira, altiva, corajosa dona do meu corpo. Fernanda era assim. […] Ela sempre se sentia injustiçada pelos, como ela os chamava, “coronéis da cultura”. De fato, seu comportamento e obra não cabiam na miríade de compartimentos que nós na tentativa de entendermos procuramos ensacar a todos em definições pré ou pós concebidas.’’

Em um dos seus últimos textos publicados no Instagram e largamente compartilhados após a sua morte, Fernanda fala que as pessoas lhe veem como maluca, apesar do seu trabalho duro e esforço incansável para produzir arte. Apesar de nunca ter feito um censo na população, vale arriscar dizer que muitas dessas pessoas deveriam ser homens, já que em muitas das palavras de mulheres nesse momento de luto, o que mais se via, antes da tristeza e da dor, era uma tentativa de agradecimento. Não era necessário ser uma fã apaixonada de Fernanda Young para saber a força do que ela representou. Sua coragem, inconformidade, mente criativa e borbulhante eram conhecidas por muitas de nós e talvez seja essa a entrelinha do “obrigada” visível em tantos dos nossos textos nesse momento.

É 2019 e sabemos que ninguém é ou precisa ser o exemplo perfeito da moralidade. Apesar de sempre se colocar ao lado dos desfavorecidos em suas palavras, lutando contra o machismo, a homofobia e o racismo, Young também possuía opiniões controversas a respeito de política e sociedade, incluindo o feminismo. Também ela era um acúmulo de seus privilégios e vivência, assim como todas nós somos. Então, esta é a lição que fica: se nós, mulheres, somos o resultado de todas as outras mulheres inspiradoras que nos atravessam, esta é uma oportunidade para guardar mais um exemplo de mulher admirável para o futuro.

Esse é o legado possível de Fernanda Young: seu humor e criatividade que definiram uma geração, sua intelectualidade admirada num país em que raramente mulheres são vistas como intelectuais e, por fim, sua recusa em obedecer às regras cafonas inventadas pelos outros. Em uma imagem compartilhada no Instagram, Fernanda escreveu num guardanapo a frase: “Deve ser difícil me perder”. Essa é, definitivamente, a melhor fala possível sobre a sua morte.

Nesse momento, num país que encareta a cada segundo e parece andar pra trás por vontade própria, é difícil dar adeus a quem lutou para levá-lo pra frente, criando e pensando por si mesma até o fim. Mas também é doce comemorar a existência de uma mulher que ajudou a empurrar a porta e abrir caminho para tantas outras de nós. Mais uma vez, muito obrigada, Fernanda.


*O título faz menção à letra da música “Como o Diabo Gosta’’, do cantor Belchior.
** A imagem em destaque é de autoria da editora Paloma Engelke

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