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Copo Vazio, uma narrativa do agora

Copo Vazio, de Natália Timerman, foi lançado em fevereiro desse ano; eu recebi uma cópia em seus primeiros dias e enquanto ela esperava pacientemente por mim em uma pilha interminável, o romance se tornou o livro do ano. Pelo menos nas minhas redes sociais. Todos os dias alguma amiga minha pegava o livro e via ali representada sua experiência de mulher relativamente jovem nesse mundo.

O livro, primeiro romance da escritora que já publicou contos e não-ficção, conta a história de Mirella, uma mulher de talvez vinte e poucos, trinta anos que começa um romance intenso com Pedro, um homem que um belo dia desaparece. Não porque foi abduzido, sequestrado ou morreu atropelado ou de doença misteriosa. Pedro continua bem, vivo, inteiro. Ele só parou de telefonar, de mandar mensagens, de responder e sequer deu satisfação sobre a viagem que ele e Mirella fariam em breve.

O resumo torna fácil entender a popularidade da obra, mas quando comecei a lê-lo seu poder de identificação ficou ainda mais claro. O relacionamento entre Mirella e Pedro é contado de forma extremamente real e contemporânea, captando dinâmicas que só nos últimos anos obras literárias começaram a representar, mas que é a experiência de leitores há algumas décadas. É em parte essa capacidade de capturar formas contemporâneas de se relacionar que explica a popularidade de Sally Rooney, por exemplo, e outras tantas jovens autoras que trazem para a página uma experiência até aqui não registrada. Timerman é diferente de Rooney em vários aspectos: seus personagens são mais velhos — e um pouco mais seguros de quem são, por consequência — e seu retrato da interioridade deles vem marcado por um subtom psicanalítico em detrimento do quadro marxista da irlandesa, mas ambas falam de uma fluidez dos relacionamentos atuais e dos vazios e desarranjos desse novo momento.

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Sei que parece quase obrigatório comparar qualquer escritora atual que fale de relacionamentos a Sally Rooney, mas acho que nesse caso há algo de iluminador: livros inesperadamente populares porque falam a um anseio de um certo público.  A autonomia sentimental, sexual e financeira das mulheres nas últimas décadas foi acompanhada de novas formas de relacionamentos e impactos na subjetividade que nada da literatura clássica poderia abarcar. É verdade que as grandes obras o são por conterem algo de universal, mas há um mérito imenso em capturar também o atual, o fugidio, o momento cultural. Uma série de escritoras tem feito isso e surgem como ar fresco para leitoras que querem encontrar nas páginas as nuances de suas experiências reais e, igualmente importante, uma representação de novas formas de se relacionar sem julgamentos.

É assim que Timerman toma sua história, com um olhar clínico e analítico de uma situação corriqueira e ao mesmo tempo dolorosa. Pedro e Mirella são típicos em muitos sentidos: jovens de uma classe média alta paulistana, ela nativa da cidade, ele migrante de Minas Gerais; ambos envolvidos em carreiras intelectuais, eles circulam por um meio jovem e urbano que é o mesmo da maior parte de seus leitores. Nenhum dos dois é também um personagem extraordinário, uma personalidade extremamente apaixonante, um gênio em qualquer sentido. Mirella não acaba em seu buraco emocional porque Pedro é um homem sem igual — muito pelo contrário — e essa escolha permite uma análise melhor das circunstâncias do abandono do que desse abandono específico.

De forma semelhante, o relacionamento deles tampouco é coisa de novela. Os dois se gostam e vivem sem arroubos aquele início frouxo de encontros e falta de rótulo, com o romance saltando entre o passando — quando estavam juntos — e o presente — após o sumiço de Pedro. Essa escolha é um dos pontos fortes do livro, pois permite à escritora sobrepor os fatos do relacionamento ao monólogo interior de Mirella, que interpreta situações para além das apresentadas e narra para si mesma uma história de amor extraordinária que não está lá. Sem esse desencontro entre os acontecimentos mostrados e o que a protagonista faz deles, o livro poderia ainda ser uma experiência de identificação catártica para muitas leitoras, mas perderia muito de sua profundidade e capacidade de ser uma narrativa reveladora e investigativa dos relacionamentos contemporâneos. Timerman se recusa a idealizar sua vítima e a aumentar o crime de Pedro (doloroso independente disso) o que traz a complexidade necessária à literatura memorável.

A narração da protagonista é também a melhor parte do livro em termos de prosa e nela a autora demonstra um ouvido atento e afinado para os movimentos internos de sua personagem e os tons com que fluem os pensamentos. De forma parecida, os ritmos da vida na cidade, aquele tecido feito de aniversários, táxis, encontros que se emendam é, ainda mais nesse momento, dolorosamente realista. Contudo, a escrita perde um pouco da sua força e exatidão nos diálogos ditos em voz alta que por vezes soam artificiais em um livro cujo ponto forte é precisamente seu naturalismo.

Ainda assim, o que emerge é uma narrativa que ao mesmo tempo funciona como espelho e expansão. Como toda boa literatura, Copo Vazio oferece aos seus leitores algo de específico e algo de universal, uma identificação e um mergulho em uma subjetividade completamente diferente da sua. E Natalia Timerman emerge como uma excelente narradora da cidade, do tempo moderno e urbano e de uma experiência cultural específica que é se relacionar na década de 2020.

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