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Malcom & Marie: toxicidade cansativa

Malcom & Marie é um filme de 2021 escrito e dirigido por Sam Levinson, o criador de Euphoria e estrelado por Zendaya (Euphoria) e John David Washington (Ballers). A crítica não gostou muito do filme, que foi feito todo em preto e branco durante o período da quarentena. A CNN chamou o filme de “uma grande dor de cabeça”. A Vulture concluiu que o filme é “inautêntico”. Mas será que Malcolm & Marie é realmente um filme ruim? E por quê?

Atenção: este texto contém spoilers!

A história do filme

Malcom & Marie conta a história de um casal que mora junto. O filme acontece todo na casa deles (que por sinal, é linda). Malcolm é um diretor de cinema que mesmo ainda começando já é bem sucedido. O filme se passa na noite de estreia de seu filme. Depois da cerimônia, Malcolm está feliz porque até aquele momento seu filme parece estar se saindo bem perante as críticas. Quem não está feliz é Marie, e logo descobrimos que Malcolm esqueceu de agradecê-la em seu discurso na cerimônia de estreia. Esse é o ponto de partida para uma briga de casal que dura todo o filme. E é isso, basicamente.

A ideia do filme surgiu durante a pandemia. Zendaya pediu para seu então namorado, Sam Levinson, o diretor de Euphoria, escrever um filme em que ela pudesse atuar durante os tempos de Covid-19. É importante ressaltar para contexto que apesar de estrelar dois atores negros, o diretor e escritor Sam Levinson é um homem branco.

Críticas 

O filme não tem muito enredo. Não que isso seja uma má ideia, é a execução que falha. Tudo acontece em tempo real e com apenas dois atores, é essencial que o diálogo seja impecável. E ele não é. Para ser um filme que foca apenas em duas pessoas tendo uma discussão, essa precisa ser uma boa discussão. No caso de Malcom & Marie o texto é arrastado, pretensioso. São voltas e mais voltas nos mesmos assuntos que não levam a lugar nenhum porque, como não existe enredo, o final também não fecha. Não é uma longa espera por um final emocionante. É uma briga de casal que não parece ter fim. Logo, muita gente acha o filme cansativo, e não estão errados.

Além do texto que deixa a desejar, também precisamos falar sobre os atores. John David Washington e Zendaya não parecem ter muita química na maior parte do tempo. Talvez seja um pouco pela diferença de idade, ou apenas uma questão de afinidade. John David Washington não consegue levar Malcolm para muitos lugares. Zendaya está ótima, mas a falta de química com John deixa tudo meio estranho. O filme tenta vender a história de uma relação complicada, mas a atuação e o roteiro só mostram uma relação tóxica que beira o abuso. Malcolm é extremamente egocêntrico, grita sem parar e passa o tempo todo menosprezando a parceira.

Entretanto, Malcolm levanta questões interessantes sobre seu trabalho como cineasta e a percepção das pessoas e da crítica sendo ele um homem negro. O problema é que Malcolm é egoísta demais para perceber que ele também tem seus privilégios e suas falhas. É aqui que a maioria dos críticos até agora focaram sua atenção. O fato de um diretor branco utilizar um ator negro para falar sobre assuntos como a politização da arte e privilégios realmente soa estranho.

A questão aqui é que o filme não traz apenas a versão de Malcolm. Marie está o tempo todo atestando contra suas opiniões. Quando Malcolm tenta dizer que seu trabalho não é político e que a crítica só o vê como tal por ele ser negro, Marie o lembra que ele está produzindo um filme sobre Angela Davis. Ou quando ele reclama dos críticos “elitistas” e Marie lembra que ele também faz parte da elite. As questões que Malcolm levanta são importantes e pertinentes. É difícil fazer apenas arte pela arte sendo uma pessoa negra. O mundo te coloca em uma caixa. O problema aqui é que o personagem de Malcolm é extremamente tóxico em todas as suas atitudes e é meio hipócrita. Ele não pode ser levado totalmente a sério. Marie está o tempo todo zombando da cara dele, por exemplo.

Entendo o desconforto de ver um diretor branco escrevendo um filme que, para falar a verdade, está sendo tratado como um filme negro. Artistas negros precisam de mais espaço e visibilidade, e cineastas negros também. A questão aqui é: a crítica de que Malcom & Marie não é autêntico porque foi escrito por uma pessoa branca implica na ideia de que somente pessoas negras possam escrever sobre pessoas negras.

Temos muitos exemplos de filmes e séries escritos e dirigidos por pessoas brancas para pessoas negras que são muito ruins. Porém não acho que seja impossível uma pessoa de uma raça escrever sobre uma raça diferente. Isso pode acontecer de uma maneira boa ou ruim. No caso de Malcom & Marie, a questão racial não é um problema, na minha opinião.

O filme é ruim?

A constante briga de casal realmente causa desconforto, mas a gente também consegue encontrar coisas boas em Malcom & Marie. A cinematografia é impecável. Tanto na escolha do cenário, do preto e branco, até a atenção a detalhes e os movimentos de câmera. O filme inteiro é muito bonito e os atores ajudam bastante nessa parte. A trilha sonora também é espetacular. Vale a pena checar a playlist oficial.

Com um orçamento modesto e financiado basicamente por Zendaya, Sam Levinson e demais produtores, Malcom & Marie poderia ser considerado mais um filme independente low-budget que ganhou fama pela protagonista ou pelo diretor famoso. A diferença aqui é como o dinheiro que eles conseguiram fazer com a venda do filme foi gasta.

Zendaya fez questão de garantir que todos os envolvidos na produção e no elenco de Malcom & Marie tivessem ações sobre o filme. Isso quer dizer que, além do salário, todos os envolvidos no filme ganharam uma quantia na hora da venda da produção. O filme foi vendido para Netflix por 30 milhões de dólares. Em entrevista à Today, Zendaya comentou: “Conseguimos criar esta estrutura financeira onde todos os membros da nossa equipe também ganharam ações, então quando vendemos o filme, eles ganharam dinheiro também. Esperamos que seja um sistema que possa continuar. Acho que é importante cuidarmos da nossa gente”. Essa não é uma estrutura comum de pagamento em Hollywood. Fazendo isso, Zendaya abre portas para uma cultura de divisão de renda mais democrática entre os envolvidos.

Malcom & Marie tinha bastante potencial para ser um filme lindo, mas acaba sendo cansativo demais. Talvez com mais recursos e menos pandemia mundial teria dado certo. Ou também com um pouco mais de tempo e revisão de roteiro. De qualquer forma, foi uma tentativa de Sam e Zendaya de produzir algo original. Vale como experiência.

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