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Masculinidade x feminilidade: o debate de padrões em Euphoria

Em junho, a HBO inaugurou a sua nova programação das noites de domingo com a já então polêmica Euphoria. A trama é de criação de Sam Levinson, responsável por Assassination Nation, que usou a própria vida como inspiração para a série, e tem no elenco nomes já conhecidos pelo grande público como Zendaya e Eric Dane, e novatos como Hunter Schafer e Barbie Ferreira. Euphoria tem como foco da narrativa a juventude da geração Z, onde os dramas usuais adolescentes são intensificados pelas redes sociais e a internet, mergulhados em um mundo de vícios, excesso de sentimentos e emoções, além da vontade de descobrir quem são no mundo.

Entre todos os padrões e conceitos que a série está questionando, Euphoria parece ter como missão abolir a heteronormatividade em seu universo e explorar os extremos e as nuances desses conceitos dentro da sociedade e as consequências do mesmo. A série explora o tóxico, o esperado e a conquista do que significa a masculinidade e feminilidade de forma que é representado em estágios diferentes em diversos personagens.

Aviso de gatilho: este texto fala sobre transfobia e violência.

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A herança tóxica da masculinidade

No último episódio da primeira temporada, “And Salt the Earth Behind You”, acompanhamos Nate Jacobs (Jacob Elordi) enfrentar o seu pai, Cal Jacobs (Eric Dane), o que resulta em Nate se debatendo no chão aos gritos. A cena chama a atenção por ser a primeira vez em que vemos Nate externalizar o que vem sendo construindo ao longo de toda a temporada, como se seus gritos fossem tudo aquilo que ele acumulou ao longo da vida sobre o que é ser homem e, no momento, não aguenta mais segurar.

Segundo Joe Ehrmann, do documentário A Máscara em que Você Vive, disponível na Netflix, existem três fatores que associamos à masculinidade: habilidade atlética, poder e sucesso econômico, e conquistas sexuais — objetivos que todos os meninos aprendem a buscar logo no início de suas vidas. Aos doze anos de idade, Nate Jacobs sabia que só “venceria na vida” se fosse maior do que todos os outros garotos o que o leva aos treinos para se tornar um atleta de alto nível e quando o adolescente chega ao ensino médio, ele já é capitão do time de elite de futebol americano do colégio em que estuda. Como se não bastasse o sucesso conquistado nos esportes, Nate é um jovem branco e cisgênero vivendo em um típico subúrbio norte-americano onde seu pai é dono de metade dos imóveis, o que faz com que o adolescente se acha no direito de fazer o que quer apenas pela influência da sua família.

Nate Jacobs também tem ideais muito específicos a respeito da sexualidade da própria namorada. Ele se sentiu atraído por Maddy (Alexa Damie), justamente por ela representar, aos seus olhos, o exemplo perfeito de feminilidade. O adolescente mantém uma lista de coisas que ele aprova em mulheres e o que ele desaprova, desde a quantidade de pelos que deve ter no corpo, o tipo de roupa que elas devem usar e até mesmo o tipo de sapato que ele acha bonito; a moça precisa ser sempre discreta, mas atraente o suficiente para deixar outros garotos com inveja dele. Nate também acredita que a agressividade que demonstra quando alguém se aproxima de Maddy é um exemplo de como um homem deve “proteger” a sua garota caso algo aconteça com ela ou alguém queira chegar perto dela.

A agressividade é talvez o resultado de tudo para Nate. Quando Maddy o desafia, em “Shook One Pt. II”, Nate a agride e, em uma ato de manipulação, pede seu perdão aos prantos mais tarde. É na violência e na manipulação que Nate encontra a forma de se salvar quando a polícia é chamada na escola pela marca da agressão que deixou em Maddy. Nate não demonstra medo ou arrependimento, pois ele acredita de verdade que ele não tem culpa de nada e que ele é a vítima em tudo isso. A masculinidade tóxica de Nate é uma herança da masculinidade tóxica de seu pai, Cal Jacobs. É como uma religião que Nate leva para a vida as palavras ditas pelo seu pai, que ele deve desafiar todos e passar por cima de todo mundo se ele quiser vencer. É a postura de homem de sucesso, firme e responsável de seu pai que Nate admira; e não pelo desleixo pela vida e a falta de interesse de vencer de seu irmão, muito menos pela submissão de sua mãe.

Algo que também é incentivado pela masculinidade é o silêncio e a discrição. É por isso que, quando Nate descobre os vídeos caseiros pornográficos de seu pai, ele não diz nada, ele não o confronta ou o acusa de nada. Cal é um homem casado com uma mulher que mantém relações sexuais com pessoas de gênero não-conformante, porém ele não expõe isso e se mantém, pelas aparências, como o homem casado e chefe de uma família perfeita de comercial de margarina. Cal é discreto e Nate mantém o silêncio.

Quando Jules Vaughn (Hunter Schafer) chega na cidade, a discrição que Nate acredita ser uma verdade incontestável, é quebrada e desafiada. Jules não esconde quem é, e Nate não aguenta ver a ordem de seu universo ser desequilibrada. Ele se sente ameaçado por Jules não ter medo ou vergonha de ser Jules. Segundo a Dra. Caroline Heldman, no documentário A Máscara em que Você Vive, “a masculinidade não é orgânica, é reativa. É a rejeição de tudo o que é feminino”, então Jules representa aquilo que Nate rejeita ao máximo, que é a feminilidade em um corpo trans.

No mesmo episódio, no momento em que Maddy questiona a sexualidade de Nate, o adolescente explode, porque, para ele, ter a sua sexualidade questionada é questionar a sua masculinidade e os três fatores que a definem. Existe um conflito interno acontecendo com ele, que nega a feminilidade que também existe dentro do masculino, que rejeita interações com outros homens (como, por exemplo, a forma como abomina o vestiário masculino e como os outros meninos ficam confortáveis em estarem nus lá), e que o faz curioso para entrar nesse universo, o que acontece quando Maddy encontra fotos de um pênis em seu celular.

No último episódio, quando o garoto explode com o pai e com os seus próprios sentimentos, podemos pensar que Nate poderia estar finalmente sentindo o peso da toxicidade impostas a ele, silenciosamente e por meio de diversos padrões anteriores, desde a infância. Tanto Nate quanto Cal Jacobs são como bombas-relógio chegando cada vez mais próximos da auto-destruição ao negarem se explorarem e se permitirem serem reais.

A conquista da feminilidade

No penúltimo episódio de Euphoria, “The Trials and Tribulations of Trying to Pee While Depressed”, Jules Vaughn pega um trem para sua antiga cidade para passar o fim de semana com seu amigos. Em uma cena cheia de significados, a adolescente conversa com Anna (Quintessa Swindell) e TC (Bobbi Salvör Menuez) sobre conquistar a feminilidade por meio da conquista de homens.

Jules: Na minha cabeça, é tipo… Se eu conseguir conquistar homens, então eu consigo conquistar a feminilidade.
Anna: Por que você precisa de um menino para fazer com que você se sinta mais feminina?
Anna: Nós vamos voltar nisso depois. Então você conseguiu?
Jules: Conseguiu o quê?
Anna: Conquistar a feminilidade?
Jules: Eu não sei. Mas, não é como se eu quisesse mesmo conquistá-la. Eu quero aniquilá-la. E então mover para o próximo nível.

Jules é uma menina trans que se encontra com homens em motéis baratos e em lugares remotos da cidade por meio de um aplicativo de encontro para homens homossexuais. Esses encontros transformam-se em momentos agressivos e quase nunca agradáveis para Jules. Ela sempre se relaciona com homens iguais: brancos, cisgêneros, casados ou em relacionamentos longos, e sempre héteros. Os encontros de Jules com homens não possuem caráter romântico, mas são um caminho que a adolescente encontrou para se afirmar e se validar como mulher após a transição. Essa discussão também pode ser vista na websérie Her Story, que foca em narrativas transgênero, quando Violet (Jen Richards) pergunta para sua melhor amiga (Angelica Ross) se ela se relacionar com uma mulher lhe faz menos mulher, e mais tarde comenta com Allie (Laura Zak) que ela se relacionar com homens não tem nada a ver com eles, mas sim com ela porque quando está com um homem não há dúvidas sobre a sua feminilidade.

O verdadeiro objetivo de Jules, porém, não é alcançar a feminilidade ideal, “mas sim conquistá-la para então aniquilá-la”. Esse é uma cena importante não apenas para Euphoria, mas para a conversa sobre o que são os papéis de gênero e o que existe além do binário. Quando são colocados três atores transgêneros (dois deles não-binários) conversando sobre as suas experiências e então desafiando os conceitos binários, o que temos são jovens desafiando o que existe depois disso, o que acontece quando somos libertados dos padrões de gêneros impostos. Jules não quer se prender a um padrão de gênero porque a sua expressão de gênero vai muito além disso.

Ao chegar na cidade, Jules desenvolve uma amizade instantânea com Rue (Zendaya) e, que logo percebemos, pode se transformar em algo mais. Seguindo a sua linha de pensamento, Euphoria não impõe rótulos ou faz deles algo com que os personagens e o telespectador precisem se preocupar a respeito, e a relação entre as duas adolescentes é natural e progride a cada episódio. É também quando chega na cidade que Jules conhece Tyler por meio do aplicativo de encontros, um garoto ainda no armário e que procura algo sério.

Quando descobrimos que Tyler é, na verdade, Nate, vemos Jules se apaixonando por Tyler e não entendemos quais as reais intenções de Nate. É apenas no quarto episódio da série que Jules descobre quem é Tyler e sentimos a frustração, medo e confusão dela quando se encontra com Nate horas depois de descobrir que o homem com quem ela se encontrou no motel anteriormente é, na verdade, o pai de Nate, Cal. Jules se vê refém de Nate ao ameaçá-la por pornografia infantil (nudes que ela havia mandado em privado para Tyler) e entra em um comportamento auto-destrutivo que coloca em risco todas as suas relações, principalmente com Rue.

É com o objetivo de se distanciar dos problemas recentes que a adolescente viaja no penúltimo episódio da série e termina em uma balada psicodélica e drogada com Anna após terem concordado que o espectro é infinito. Em uma série de alucinações, enquanto beija Anna, Jules vê Nate com olhos cobertos de maquiagem e glitter que representam o seu delírio; Nate, que se diz Tyler, e se entrega a ela. Logo, Nate desaparece e dá lugar à Rue quando Anna e Jules estão na cama. Para Jules, Nate é a personificação da masculinidade, o que lhe proporciona a feminilidade. Por mais doentio que sejam as ações de Nate, a garota ainda tem sentimentos pela a imagem de Tyler e ela ainda espera que Nate se transforme em Tyler. Quando ela visualiza Nate na balada e ele diz que é dela, Nate se agacha e Jules imita os gestos performados por Cal Jacobs no motel e é como se ali mesmo Jules estivesse conquistando a sua feminilidade por meio da dominação de Nate.

Assim como Nate representa a conquista da feminilidade para Jules, Rue significa o que vem depois dela, o próximo nível. Até então, Jules havia perseguido sexo com homens cisgêneros para se sentir mais próxima de sua feminilidade, porém, com o sexo com Anna, Jules consegue encontrar algo que ela não experimentou com homens ao passo que a permite imaginar no avanço de seu relacionamento com Rue. No entanto, após o sexo e conforme as luzes coloridas se transformam em luz branca, Jules e Rue se abraçam e a última sussurra: “Eu sei que isso não vai terminar bem” — é como se a própria Jules dissesse isso a si mesma. Enquanto fica sóbria após a balada, Jules percebe os conflitos internos e externos que a levaram a tantos comportamentos tóxicos, percebendo, também, que poderá ter um relacionamento saudável pela primeira vez. Jules sabe, no entanto, que nada disso terminará bem devido a carga emocional que tanto ela quanto Rue carregam.

O espectro é infinito

Todos os personagens de Euphoria representam um grau no espectro de gênero. Nate Jacobs estaria em um extremo representando a masculinidade tóxica, em que é agressivo e manipulador com quem se atreve a desafiar a ordem do seu mundo. Jules estaria do outro lado, em que desafia as próprias regras de um espectro linear.

Enquanto Nate acredita ser o defensor dos bons costumes e protetor da feminilidade binária que ele tanto preza em Maddy, Jules atua como sua oponente, representando a disruptiva desse conceito. Jules não preenche nem metade da lista de Nate sobre o que ele aprova e desaprova em garotas, porém ela se encaixa em outros requisitos e isso o deixa confuso e enfurece. Nate não entende Jules e é por isso que ele a ataca da forma como a masculinidade tóxica ensina.

É importante perceber como esses dois personagens navegam no mundo de Euphoria e contracenam no mesmo ambiente e batem de frente. Em um universo onde rótulos ficam em segundo plano, a existência de padrões rígidos talvez seja um lembrete de que sempre existirá a presença de um antagonista.

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1 comentário

  1. Ótimos levantamentos no texto. Euphoria foi uma ótima surpresa esse ano. Além de ser uma série linda visualmente, traz reflexões acerca de vários temas importantes hoje (gênero, sexualidade, saúde mental). Mal posso esperar para ver o desenrolar de tudo isso na próxima temporada!