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Lorena Bobbitt: série documental mostra que ela cortou foi pouco

Coisa de quase 30 anos atrás, em 1993, Lorena, uma manicure venezuelana radicada nos EUA, fez o impensável e cortou fora o pinto do marido.

Pois é, simples desse jeito.

Dito assim, de maneira tão direta, parece o começo de um conto erótico niilista. No entanto, isso realmente aconteceu. Tratado com espanto, sensacionalismo e até humor (!) pela mídia, o caso sacudiu a sociedade no começo dos anos 1990. Seria Lorena completamente louca?

De fato, não. Por trás do ato extremo de violência escondia-se uma história muito mais profunda de abuso, que levou essa jovem, de então 20 e poucos anos, ao centro de um circo midiático. Mas o que de fato aconteceu? Quais foram as motivações de Lorena? E, ainda, dentro de que contexto seu ato pode ser visto como um ato político? Trazendo luz para essas questões e contando a história com muito mais detalhes e, principalmente, com o devido respeito, Lorena, a série, tem produção executiva de Jordan Peele, e chegou há pouco na Prime Video, serviço de streaming da Amazon.

Quem foi Lorena Bobbitt?

De origem venezuelana, Lorena Gallo trocou sua festa de 15 anos por outro presente que era seu maior sonho: uma passagem só de ida para os Estados Unidos. Cheia de expectativas, ela embarcou no avião com algumas economias e um plano: conseguir um emprego, juntar dinheiro e ter uma profissão.

Aos 20 anos, cinco após mudar-se para o país, Lorena ainda lutava para conquistar seus sonhos, trabalhando como manicure na cidade de Manassas, na Virgínia. Em uma festa, conheceu John Wayne Bobbitt, um jovem militar. A paixão foi imediata e, em pouco tempo, os dois estavam casados. Mas o que antes era um namoro tranquilo e doce, com a rotina conjugal tornou-se um inferno. Lorena, agora Bobbitt, vivia diariamente situações de abuso físico e psicólogo, experimentando uma vida de agressões, que era mantida em segredo, já que a jovem tinha medo de piorar a situação e também de se expôr.

Após quatro anos de relacionamento, ela estava em seu limite. Então, na noite do dia 23 de junho de 1993, após ser estuprada mais uma vez por seu marido, dentro de sua própria casa, Lorena acordou subitamente no meio da noite. John ainda dormia. Sem muito pensar, ela foi até a cozinha, pegou uma faca, voltou até o quarto e cortou fora o pênis dele. Ainda com o órgão nas mãos, pegou o carro e fugiu, escondendo-se no salão de beleza onde trabalhava. No meio do caminho, jogou o órgão fora, pela janela, para dirigir melhor.

O caso rapidamente chegou à imprensa. Pela aparente frieza de Lorena em seus atos, ela foi instantaneamente taxada pela mídia como vilã inescrupulosa, posteriormente passando a ser vista como um tipo de personagem cômico, a mulher histérica que corta fora o pinto do marido que apronta. Esse olhar perdurou por muito tempo e até mesmo hoje, quando sua história é relembrada. No entanto, é preciso entender o crescendo de violência que Lorena suportou em silêncio até explodir naquela noite de junho. Em Lorena, a série documental de Jordan Peele, a venezuelana conta que não recorda ao certo o que aconteceu. Só lembra que estava esgotada, machucada demais, e que queria acabar com o que causava aquele mal. Em sua desorientação urgente, cortar o pênis do marido solucionaria o problema: era dele que vinham todas as violências que ela sofria.

Um raciocínio simplista vindo de uma mente angustiada. Lorena pagou por seu crime de muitas maneiras. Foi a júri popular, acusada de ferimento intencional. John Bobbitt, seu marido, também foi julgado, mas por violência sexual. Ambos foram absolvidos, mas coube à Lorena viver sob o escrutínio da mídia, tendo que se explicar em inúmeros programas de TV e rádio, sempre sob a pecha de “mulher louca”. De fato, chegou a ser internada por 45 dias em um hospital psiquiátrico, por conta do veredicto de “insanidade temporária” que recebeu em julgamento. Enquanto isso, Bobbitt subia em um espiral de fama, aproveitando a imagem de vítima e escarnecendo a de Lorena.

Ao ser convidada por Jordan Peele para dar seu testemunho em Lorena, a manicure viu a oportunidade de mostrar a sua versão dos fatos. Além disso, como contou ao The New York Times, apenas com o passar dos anos pôde entender como muitas mulheres são vítimas de violência doméstica assim como ela foi — um aspecto de sua história que não recebeu a devida atenção à época, inclusive por parte da imprensa.

Lorena, a série documental de Jordan Peele

Com edição primorosa e um viés conscientizador potente, Lorena vai além de contar uma história improvável. Analisando o contexto em que o caso aconteceu, nos mostra como a sociedade enxergava as mulheres então — nada tão diferente do que vemos hoje, quase 30 anos depois. Dividida em quatro episódios de pouco mais de uma hora de duração, a série traz depoimentos das pessoas mais próximas ao caso, como policiais, enfermeiros, amigos e parentes do então casal, além de testemunhos da própria Lorena. Mesmo John Wayne Bobbitt dá seu lado da história.

Fazendo uma forte crítica à imprensa e o tratamento desumano dado por ela ao caso, a produção mostra como o incidente foi o precursor da cobertura 24 horas na mídia, o que hoje é padrão no jornalismo. É interessante ver como o julgamento de Lorena virou um circo e, em uma época onde as redes sociais ainda não eram sequer uma ideia, se tornou assunto no mundo todo. Para além disso, no entanto, Lorena tem o triunfo de humanizar sua personagem título, lhe dando voz e lhe fazendo justiça após tantos anos. Um crédito quase exclusivo de Jordan Peele, que escolheu pessoalmente a história de Lorena dentre tantas. A docusérie faz sua denúncia sobre abuso doméstico e mostra como, de 1993 para cá, pouca coisa mudou no olhar que a sociedade destina para esse tipo de violência: o tribunal é o julgamento popular, sendo este quase sempre desfavorável à mulher, não importa o quanto ela tenha sofrido.

Por que essa história ainda mexe tanto com todas nós?

Para além de discutir o papel da imprensa, Lorena é importante por dar destaque a um debate sobre violência doméstica que já não pode mais ser menosprezado. Embalados em uma narrativa pop atraente, produtos de entretenimento como esses nos ajudam a entender o mundo em que vivemos e como podemos nos educar cada vez mais para então melhorá-lo.

Ao tornar público seu drama pessoal, Lorena Bobbitt “ajudou a desestigmatizar a violência doméstica, o abuso sexual e o estupro dentro do casamento”, como a própria afirma. Foi um avanço tal para a época que no ano seguinte ao caso, em 1994, foi aprovada nos Estados Unidos uma lei sobre violência contra a mulher.

Novas gerações podem hoje desconhecer essa história, é verdade. Por isso, Lorena cumpre seu papel nos mostrando que a luta contra abusos contra a mulher é algo tão antigo quanto atual. Conscientizando de uma maneira direta e sem paternalismos, a série de Jordan Peele nos mostra que toda história de violência tem um começo — e nos ajuda a encontrar maneiras de lutar por seu fim.

Tati Lopatiuk é redatora e escritora em São Paulo. Gosta de romance em seriados, filmes, livros e na vida. Seu grande sonho é receber uma ordem de restrição de Lionel Messi, algo pelo o que vem trabalhando em seus oito livros e três fanfics já publicados. Suas séries favoritas são Gossip Girl e Breaking Bad. Pois é.

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