Categorias: ENTREVISTA, LITERATURA

AHO: Amanhã Hoje é Ontem, o reviver de Daniella Zupo

Receber o diagnóstico do câncer não é fácil. Independente da idade, o estigma que vem junto com a doença é certeiro e paira como uma sentença em cima da cabeça das pessoas diagnosticadas, um rótulo do qual dificilmente se livrarão. Os tratamentos são invasivos, longos, doloridos. O paciente sofre, a família e os amigos buscam conforto uns nos outros, desejando que tudo passe, que tudo fique bem. Por mais esperança e fé na ciência que se tenha, lá no fundo da mente soa aquela vozinha dizendo que é isso, esse é o fim. Nos últimos anos acompanhei de perto amigas queridas perderem pessoas amadas para essa doença, e nunca fica menos difícil. E foi aí que o livro de Daniella Zupo, AHO: Amanhã Hoje é Ontem, veio parar nas minhas mãos.

Talvez você já conheça Daniella Zupo, mas não tenha ligado o nome à pessoa. Nascida em Belo Horizonte, ela é jornalista e trabalhou em programas de rádio e TV por muitos anos, inclusive na Globo Minas e na Rádio Inconfidência, também de Minas Gerais. Com sua carreira progredindo da maneira como deveria ser, Daniella esteve à frente de telejornais, programas de debate e cultura, além de ter atuado como comentarista e produtora em programas de rádio. Sua vida e carreira se desenvolviam tranquilamente, mas em 2016 Daniella recebeu o temido diagnóstico: ela estava com câncer de mama.

Seu mundo precisou pausar. Daniella precisou se recolher. Afastou-se do trabalho, submeteu-se a um ano de tratamentos de quimioterapia e radioterapia, além da temida cirurgia de mastectomia. E foi durante essa pausa, em meio aos tratamentos, que Daniella começou a documentar sua trajetória em uma websérie, AHO: Amanhã Hoje é Ontem, que se transformou no exemplar que chegou em minhas mãos por intermédio da editora SOMOS Livros. A obra é relativamente curta, mas contém uma imensidão de sentimentos, de mensagens esperançosas e também de reflexões a respeito da maneira como temos vivido em pleno século XXI, atando uma coisa à outra, nunca parando de pensar no próximo item a ser riscado de uma infinita lista de tarefas, correndo sem parar para o próximo momento, a próxima viagem, a próxima selfie.

Em meio ao tratamento, Daniella decidiu refletir sobre diversos aspectos de sua vida e os caminhos que a fizeram chegar até ali. Em seu livro ela escreve como “a morte é feita do mesmo rio que a vida”, uma metáfora bonita e delicada que ficou ressoando comigo por dias após eu finalizar a leitura de AHO! — e este texto. O relato de Daniella acerca de sua experiência com o câncer consegue ser gentil até mesmo com quem o lê, ainda que ela não doure a pílula em nenhum momento. Seu livro é corajoso, amável. É poderoso, sensível. Consegui me identificar com seus questionamentos e ratificar que, no final, quando chegar a hora de deixar a vida, o importante é ter certeza dos afetos, das alegrias e das tristezas. Entender que havia alma em cada instante vivido é o que importa — mas, para isso, é preciso sair do automático.

Outro aspecto da narrativa de Daniella Zupo que me fez reler por algumas vezes o mesmo capítulo é sobre aceitação. Ou melhor, o não questionamento dos motivos pelos quais ela, entre todas as pessoas, estava com câncer. Uma vida sob controle, com exames em dia, ausência de histórico familiar — nada disso foi impeditivo para o câncer de mama descoberto em 2016. E seria normal, perfeitamente aceitável, jogar para o universo: “mas por que comigo?” Porém, ao contrário do que se espera, Daniella buscou na negação a afirmação que a acompanhou durante o tratamento: “por que não comigo?”. A autora explica: acontece com outras pessoas também, e ela não é melhor do que ninguém.

As pessoas buscam nesse tipo de questionamento uma razão para, muitas vezes, não surtar diante um diagnóstico como o do câncer. Mas nenhuma resposta ajudará, a não ser que se encare de frente, com honestidade, como diz Daniella, todo o processo que advém de se ter uma doença. Comparações não ajudam, não aliviam. Existe o medo e a dor e a escritora os encarou, sem negar nada. Claro que essa é uma experiência entre várias, mas ler as palavras de Daniella, que dançam entre a vida e a morte, é algo único — principalmente se levarmos em consideração que entramos, junto com 2022, no terceiro ano de pandemia. A morte nunca esteve tão presente, e as palavras de Daniella Zupo, ainda que direcionadas às suas reflexões a respeito do câncer, são capazes de agir como um bálsamo em espíritos tão fragilizados.

“A morte é feita do mesmo rio que a vida. Um dia a gente entra nesse rio. Um dia a gente não sai mais. Morrer é esse mergulho que a gente dá na vida e fica lá… dentro dela. O rio me disse. Eu sei.”

Mesmo que pareça, a princípio, que em AHO: Amanhã Hoje é Ontem a autora queira dizer sobre o quanto cresceu e se compreendeu melhor durante o período em que se tratava, ela, em nenhum momento, deixa de apontar que não vê lado positivo em uma dor. “Uma dor é uma dor é uma dor.” O que Daniella se propôs, com sua websérie e depois com o livro, foi encontrar uma forma de ressignificar sua dor, o que acabou por ser o seu processo particular de cura compartilhado para quem quiser ouvi-la.


A seguir, você acompanha uma entrevista que Daniella Zupo gentilmente cedeu ao Valkirias.

Qual foi o objetivo inicial ao criar a websérie? No livro você diz no capítulo “Sobre Deus e os camelos” que aquela foi uma forma de ressignificar sua dor e que o projeto se transformou em seu processo particular de cura. Foi assim que você enxergou AHO! — websérie e livro— desde o início ou durante a jornada isso se transformou e se ramificou em outros objetivos?

Daniella Zupo: Não foi planejado. Eu comecei a escrever o que se transformaria no livro e a fazer os registros em vídeo que depois se transformaram em um documentário, como forma de continuar produzindo — já que tive de me afastar do trabalho na TV — e  para elaborar o diagnóstico da maneira que podia. Com as ferramentas que tinha. A partir de um determinado momento, achei que era um material sensível sobre um tema geralmente cercado de informações técnicas, que poderia fazer sentido para outras mulheres que recebem o diagnostico: um olhar humanizado sobre o câncer, longe de estigmas e vitimismos. Eu queria falar de câncer sem medo, sem tabus nem moralismos. E sem nos resumirmos aos efeitos colaterais do tratamento.

Era um período em que não havia vídeos no Instagram, minha websérie foi a primeira sobre câncer de mama no Brasil em 2016. Ela continua disponível no meu canal no YouTube com legendas em inglês e acessível a mulheres do mundo todo. Quanto ao livro, acho que amplia o alcance desta história, para além do câncer. É, enfim, um livro sobre a vida e um sentido mais profundo que ela adquire a partir do confronto com a morte. Pensando nisso, AHO! foi sim, o meu caminho de cura.

Como você imagina que as pessoas reajam ao seu livro? Ele causou uma grande impressão em mim, principalmente ao considerar que algumas das perguntas que você se fez, algumas das reflexões, são coisas que também passam pela minha cabeça há algum tempo. AHO! não é só “um livro sobre uma pessoa que passou pelo câncer”, eu o vejo muito maior do que isso.

D.Z.: Fico feliz que você faça essa leitura, porque acho que é disso que se trata AHO! De questões que fazem parte da vida de todos nós: é sobre a vida e a morte, sobre autoconhecimento, sobre estabelecer prioridades, sobre a verdade dos nossos afetos, sobre nossa relação com o trabalho, sobre autocuidado, sobre felicidade, sobre o tempo da vida perdido com bobagens e sobre sermos capazes em algum momento de nossas vidas de assumirmos escolhas importantes. São questões com as quais todos nós um dia vamos ter que nos confrontar mas que, diante  da morte como uma possibilidade concreta, elas se tornam mais urgentes. Acho que aproveitei bem essa oportunidade pra repensar tudo na vida e AHO! é também sobre isso.

Uma passagem do seu livro que me chamou muito a atenção foi a descrição que você fez sobre o receio de tirar seu chapéu na praia, quando estava sem cabelos devido aos tratamentos, para entrar no mar com sua filha. O diagnóstico do câncer, por si só, muda completamente a vida de uma pessoa, mas para as mulheres ainda há toda a questão das mudanças na aparência física com a queda dos cabelos e, em alguns casos, até a mastectomia. Como conseguir lidar com a doença e ainda todos esses estigmas tal essencialmente das mulheres?

D.Z.: É um capítulo muito bonito sobre coragem, não é? Em que eu me assumo cheia de medos, mas por minha filha e por mim, eu decido enfrentar este medo paralisante do olhar do outro, que é um medo tão humano, afinal. No caso das mulheres, esse medo talvez seja ainda maior, porque muitas e muitas de nós ainda somos criadas em função da aprovação do outro, inclusive no que diz respeito aos nossos corpos. É muito bom que isso esteja mudando. Essa parte do livro é o meu “manifesto feminista” — lenços, perucas, chapéus: usá-los não é o problema, se isso te fizer sentir melhor. Ninguém tem o direito de julgar você por isso. Mas o problema é que, quase sempre, o que fazemos é esconder uma cabeça sem cabelos por receio do olhar duro do outro. E isso tem efeitos profundo em nós que nenhuma peruca ou lenço pode proteger. Não ser refém desse olhar é o grande aprendizado.

Como eu escrevo no livro “o outro é apenas espelho do que eu mesma sou capaz de enxergar”. É preciso descobrir essa autoestima mais profunda, que vem da descoberta desta enorme beleza que vem da força e da dignidade de quem enfrenta estas perdas.  Eu decidi enxergar como uma nova mulher nascendo ali. Sou grata.

Senti, por meio da leitura de AHO!, que você humanizou a doença de uma maneira única. Não é que falte material sobre pessoas lidando com o câncer, filmes, livros e séries estão repletos do tema, mas ainda não havia lido nada que tornasse a trajetória humana em sua essência, com as dúvidas, as reflexões. Me lembrou muito da graphic novel Mamãe Está Com Câncer, do Brian Fies, que é um relato delicado e sensível, e muito pessoal, do que o artista passou em família. E agora, o seu livro. AHO! é um relato cru do que você experienciou que conta, ainda assim, com muita esperança em suas palavras. Você o enxerga dessa maneira?

D.Z.: Eu tive a honra de escrever a quarta capa deste livro do Brian Fies, você sabia? A  maneira como ele faz este relato, do adoecimento da mãe, é realmente  muito sensível. Não por acaso é um livro tão premiado, porque além do talento como quadrinista, ele trata de um tema muito importante: o  impacto deste tratamento na vida da família, que é imenso. Ninguém atravessa um longo tratamento de câncer sozinho. Nem deveria.

Acho que existe esse diálogo que você enxerga entre os dois livros, porque considero que tentei evitar todos os estereótipos que cercam o câncer e qualquer tom que pudesse soar piegas, e ambos os livros buscam humanizar o diagnóstico, porém sem vitimismos. Até porque eu definitivamente não me senti uma vitima dos acontecimentos ao receber o diagnostico de câncer. Sessenta mil mulheres também o recebem todos os anos apenas no Brasil. A vida não tinha nada contra mim. É uma fatalidade, uma dor que você tem que contornar.

Desde que me entendo por gente, sou uma pessoa que escreve. Escrevo para me entender e entender o que está acontecendo ao meu redor. Imagino que a escrita também seja significativa para você de alguma maneira. Qual foi o papel da escrita no seu entendimento do que estava acontecendo com você após o diagnóstico recebido?

D.Z.: Imenso. Nem posso imaginar esse entendimento sem ela. Como você, desde criança eu escrevo pra elaborar o mundo. Quando recebi o diagnóstico, senti que escrever seria o melhor caminho pra elaboração daquela realidade. Mas eu busquei outros caminhos também: a psicanálise, a meditação e a música, por exemplo, me ajudaram muito nesse processo.

Enquanto lia AHO!, estava com um lápis por perto pois queria grifar muitas coisas, rs (o que o próprio Marcel Souto Maior disse ter feito no prefácio, e eu só pude concordar). Uma das frases que grifei, foi a seguinte: “Não fiz desse diagnóstico uma sentença de morte, mas uma reflexão sobre a vida. E aprendi enormemente sobre compaixão, humildade e profundidade.” Mesmo tendo lido (e relido) o livro, ainda me pego pensando: como chegar a esse entendimento enfrentando algo como um câncer de mama? Sei que foi um processo, e ele está documentado no livro, mas ainda há algum conselho que você queira dar pra quem está vivendo algo parecido com o que você viveu em 2016?

D.Z.: Bom, antes de mais nada, obrigada por sua leitura (e releitura!) tão generosa e sensível. Ela permite que falemos do câncer de maneira sensível, sem tabus e estereótipos, e acredito que só assim a gente consiga mudar a “mentalidade” que cerca o tema.

O que eu diria a quem enfrenta esse diagnóstico está no livro, como você disse, mas, antes de mais nada, eu diria: aceite-o. Brigar com ele vai lhe roubar uma energia preciosa que você precisa para encarar o tratamento. A partir daí, permita-se essa jornada de auto conhecimento e transformação. E, enfim, lembre-se: Amanhã Hoje é Ontem. Tudo vai passar. Tudo é impermanência. Essa é uma chave poderosa. O  mantra que encontrei e compartilho no livro. AHO!

“Eu estou no meio do rio. Só que não espero mais que ninguém me salve.”

O exemplar foi cedido como cortesia pela Editora Somos Livros.


Participamos do Programa de Associados da Amazon, um serviço de intermediação entre a Amazon e os clientes, que remunera a inclusão de links para o site da Amazon e os sites afiliados. Se interessou pelo livro? Clique aqui e compre direto pelo site da Amazon!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *