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“Em alguns anos eu vou ter tanta certeza!”: Ellie, Aster e a vulnerabilidade

Ellie Chu, a protagonista de Você Nem Imagina (The Half of It), e Aster Flores, seu interesse romântico no filme, interpretadas respectivamente por Leah Lewis e Alexxis Lemire, não poderiam ser mais diferentes — para não dizer opostas — em sua maneira de se colocar no mundo. O filme, estreia da Netflix de maio de 2020, trata de muito mais do que amor romântico e expõe a multiplicidade e a complexidade que permeiam as relações humanas e a própria ideia de amor. Mas isso não quer dizer, de forma nenhuma, que não exista muito a ser falado sobre a relação das duas personagens, a forma como essa relação se desenvolve ao longo da trama, e a forma como as próprias personagens são representadas.

Atenção: o texto a seguir pode conter spoilers!

Já no monólogo de abertura, que acaba sendo um dos trabalhos que Ellie redige para seus clientes, o filme retoma o mito grego das almas gêmeas. Essa abertura já deixa bem claro que o questionamento desse mito é uma das linhas condutoras da trama, e, de alguma forma, a chave de interpretação da história que está sendo contada ali. Então é, sim, muito pertinente compreender o filme como uma grande contestação do amor romântico como visto na nossa sociedade contemporânea, espelhado e retroalimentado pela cultura, e das expectativas que temos sobre esses relacionamentos a partir disso. A meu ver, porém, o filme vai além dessa proposta de desconstrução e traz uma proposta construtiva de uma perspectiva mais realista e mais saudável sobre as relações românticas. Ou seja: o filme não se opõe à ideia do amor romântico de forma geral, mas busca uma alternativa à forma idealizada que ele tem assumido.

Uma das formas pela qual Você Nem Imagina faz esse questionamento é a tentativa muito saudável de desconstruir a ideia de que o amor romântico é a coisa mais importante de todas e a chave da felicidade. Porque não é, obviamente. É perfeitamente possível estar em um relacionamento romântico e ser infeliz, é perfeitamente possível ser feliz e ter uma vida completa sem um relacionamento romântico. A vida é muito mais do que isso e o filme deixa essa mensagem clara sem precisar dizer isso em palavras. Mas, talvez mais importante do que isso, a obra advoga pela importância das relações humanas para além da ideia do romance, e pelo valor da vulnerabilidade como elemento essencial para a formação de conexões verdadeiras entre as pessoas.

É na linha dessa mensagem que devemos interpretar a relação entre as personagens muito além do romance adolescente normal que vemos nos filmes. Ellie e Aster são muito diferentes entre si, sim, mas elas conseguem construir um laço muito profundo apesar disso.

Ellie Chu e Aster Flores - Semana do amor

Desde o começo do filme, fica muito claro que Ellie Chu está perfeitamente confortável com quem ela é, mesmo que isso não corresponda ao que a sociedade diz que ela deveria ser. Ela é cheia de certezas e vive com base nessas certezas, em um mundo controlado e seguro, mesmo que não corresponda às expectativas sociais. Ela sabe que não acredita em Deus, ela sabe que gosta de meninas, e nada disso parece ser uma questão. São fatos. Ela apenas é, e não admite influências externas.

Do outro lado da balança, Aster Flores é alguém que parece não ter nenhuma certeza na vida, e que encontra sua segurança de forma muito diferente. Criada em uma família com valores morais e religiosos rígidos, dentro de expectativas sociais muito definidas que ninguém parece questionar muito, exceto ela. Ela questiona tudo, principalmente a forma como ela se encaixa no meio disso, mas sem nunca encontrar a ousadia de romper com as normas. Ela se convence de que está satisfeita com a forma como as coisas são e com o espaço que ela ocupa no mundo, e silencia ao máximo tudo o que indique o contrário. Enquanto Ellie está do lado de fora e sabe, Aster se adequa, aceita, se conforma. De formas muito diferentes — mas, no fim das contas, nem tão diferentes assim — as duas fazem o que podem para esconder do mundo as suas vulnerabilidades.

Aster: You know, you… You watch. Ok? In a couple of years, I’m gonna be so sure!

Aster: Sabe, você… Você vai ver só. Ok? Em alguns anos, eu vou ter tanta certeza!

A personagem Aster Flores é um rompimento com a imagem tradicional do interesse romântico, que normalmente não passa muito das aparências e não tem realmente um lugar na história. Ela tem uma voz, mesmo que seja só por meio das cartas. À primeira vista, pode ser que ela não se diferencie tanto assim das outras personagens da mesma categoria — bonita, popular, gentil e namorando o menino mais popular (e babaca) da escola —, mas desde o começo ela parece estranhamente deslocada nesse papel, porque ela se sente estranhamente deslocada nesse papel. Ela aceita o papel em que a colocam porque é seguro, mas é muito óbvio o desconforto que ela sente em estar ali, o quão pouco daquele contexto faz sentido para ela.

Na cena final das duas, a própria Aster diz que a hipótese de algo entre ela e Ellie passou pela cabeça dela, “se as coisas fossem diferentes, se ela fosse diferente”. O “diferente” aí, ao que parece, não se trata de sexualidade, mas de coragem para descobrir que talvez ela não se encaixe no que se espera dela. Pode parecer especulação, mas faz muito sentido com a história das pinceladas que ela conta para Ellie nas cartas que elas trocam. Essa história acaba sendo a metáfora recorrente que percorre o filme. Dúvida/certeza, nesse contexto, é mais do que uma questão de saber ou não saber. É também — e principalmente — sobre negação de verdades desconfortáveis e coragem de se posicionar na frente do mundo como que aquilo que se é quando isso não corresponde ao que os outros esperam. É o medo de arriscar o bom tentando alcançar o ótimo. É rejeitar a vulnerabilidade que vem junto com tudo isso.

Para Ellie, toda a história da paixão que ela desenvolve pela Aster é baseada em racionalidade e nas interações entre elas por meio das cartas. No começo, antes da correspondência, tudo não passa de uma admiração sem grandes consequências, a única coisa que pode existir entre duas pessoas que literalmente não se conhecem. A pergunta que Ellie faz ao Paul logo no começo, sobre como ele sabe que está apaixonado, deixa bem claro a visão racional que ela tem do amor. Ela sabe que o amor só pode existir realmente quando as pessoas envolvidas se conhecem, de resto o que se vai estar amando não pode ser mais do que a projeção de uma imagem idealizada e fantasiosa. Até esse momento, o que ela sente pela Aster não tem como ser nada mais do que atração, alguma curiosidade. Paul, que claramente tem uma visão muito mais romântica do amor, parte diretamente para a conclusão de que Ellie Chu nunca se apaixonou, porque essa é a única imagem do amor que ele é capaz de conceber naquele momento, do alto dos seus 17 anos de idade.

Ellie: So what you’re trying to say is…
Paul: I’m in love with her.
Ellie: Have you ever spoken to her?
Paul: I’m not good with words.
Ellie: But you know you love her?
Paul: I know I think about her when I wake up, and when I’m doing my sprints, and when I’m eating my mom’s bratwrust, and when I’m saying my prayers…
Ellie: That just means you’re stubborn, not that you’re in love.

Ellie:  Então o que você tá tentando dizer é…
Paul: Eu amo ela.
Ellie: Você já falou com ela?
Paul: Eu não sou bom com as palavras.
Ellie: Mas você sabe que ama ela?
Paul: Eu sei que eu penso nela quando eu acordo, e quando eu estou correndo, e quando eu estou comendo a salsicha bratwrust da minha mãe, e quando eu estou rezando…
Ellie: Isso só significa que você é teimoso, não que você está apaixonado.

É possível, de fato, que tenha sido a primeira vez que Ellie se apaixona, mas isso não tem nada a ver com a forma como ela enxerga o amor. Não é nenhum absurdo pensar que Ellie Chu nunca se apaixonou por ninguém antes de Aster porque ela era uma fortaleza fechada onde ninguém tinha permissão de entrar. O mais próximo de uma relação concreta que ela tem é com a professora de inglês, sensível o suficiente para enxergar através das defesas da aluna. Até mesmo com o pai, a interação não passa de refeições silenciosas na frente da TV e questões práticas do cotidiano. A personagem só começa a se relacionar com outras pessoas quando conhece Paul, e mesmo assim não é uma tarefa fácil. Inicialmente, ela se esforça ao máximo para ajudar Paul sem expor nada sobre si mesma, mas é só quando ela baixa um pouco a guarda que as coisas começam a mudar para Ellie. Paul é a ponte. A ponte entre ela e os colegas de escola, entre ela e Aster, até entre ela e o pai.

Ellie Chu e Aster Flores - Semana do amor

Alimentada pela visão romântica do suposto autor da carta que ela precisa escrever, Ellie faz o primeiro contato com a Aster, em nome do Paul, pegando emprestado palavras de Wim Wenders que se encaixam muito melhor no que a sociedade e o próprio Paul costumam aceitar como romance. Mais uma vez, ela se esconde por trás de uma máscara para se manter em segurança. A parte inesperada é que Aster lança um desafio, e as coisas começam a ficar realmente interessantes porque, para cumprir a missão que assumiu, ela vai precisar abrir a porta. O que começa como uma brincadeira, acaba dando lugar a uma conexão real. Mesmo escondida sob o nome de Paul, ou talvez justamente por isso, Ellie se expõe e se deixa ver, e então a conexão acontece, a compreensão recíproca que as duas sempre buscaram, mas não sabiam.

Amor exige vulnerabilidade, é isso que Ellie descobre na prática, quando as duas começam a se corresponder. E se deixar ser vulnerável é uma das coisas mais difíceis que existe. Não é fácil para nenhuma das partes, mas as duas se deparam com a descoberta de que só se abrindo elas podem encontrar alguém que realmente as compreenda. Mesmo que seja assustador, mesmo que exista a possibilidade de que tudo dê errado.

Ellie: Paul’s cool.
Aster: [sigh] He’s confusing. When I’m with him, I feel… I feel safe.  He’s a sweet guy. But then it’s like he writes these things that feel… Not safe.
Ellie: Not safe?

Ellie: O Paul é legal.
Aster: [suspiro] Ele me deixa confusa. Quando eu estou com ele, eu me sinto… Eu me sinto segura. Ele é um cara bacana. Mas então ele escreve essas coisas que parecem… Não seguras.
Ellie: Não seguras?

As duas personagens mostram ser, a princípio, extremamente solitárias. Ellie sem se misturar com as pessoas da sua idade; Aster sempre cercada, mas sem se abrir realmente para ninguém. E então elas se encontram. Esses momentos de conexão divididos por elas acontecem pelas cartas, pelas mensagens, e então se confirmam ao vivo, na cena do lago, e eles não são seguros. Não são seguros porque ameaçam as fortalezas cuidadosamente construídas durante toda uma vida. Fortalezas que nos mantêm seguras, mas também sozinhas. É arriscar o bom (o confortável) para tentar alcançar o ótimo.

É curiosa essa representação de um relacionamento como “não seguro”, porque é diferente da narrativa comumente aceita. As histórias de romance geralmente vão no sentido contrário, de exaltar a aptidão especial que a pessoa amada tem para nos fazer sentir seguras, e as duas coisas são verdade em algum nível, mas essas histórias normalmente passam muito rápido pela fase muito real da angústia de se abrir para alguém novo. A angústia de se mostrar e se expor ao julgamento alheio, a angústia da possibilidade da rejeição. Essa é a posição de vulnerabilidade máxima, como Julia Roberts já ensinou pra gente muito tempo atrás, e não é uma posição confortável de se estar.

Ellie Chu e Aster Flores - Semana do amor

O fato de que a relação entre Ellie e Aster não se constrói cara a cara não torna essa relação menos real. Quando Paul pergunta quando vão começar os encontros e Ellie responde que já começaram, é porque é verdade. Encontros não precisam ser físicos. Elas se encontraram por meio das cartas de formas que talvez elas não conseguissem se encontrar sentadas uma de frente para a outra, porque se abrir é difícil. Não importa qual nome estivesse na assinatura, quem estava ali o tempo todo era a Ellie, as palavras eram dela, os sentimentos e pensamentos eram dela, e o anonimato não foi mais do que o instrumento que permitiu que ela se sentisse segura o suficiente para expressar coisas que ela não teria coragem de expressar de outra forma. Ousadia de arriscar a segurança e o conforto emocional em busca de algo mais.

O amor romântico se tornou uma fantasia, um fetiche, um sonho de consumo tão grande na nossa sociedade que às vezes a gente esquece do que estamos falando, lá no fundo: conexão. Não uma força mágica que cai do céu como um raio no meio da testa de alguém, mas algo que pode surgir quando pessoas se conhecem, se compreendem, se conectam. Não apenas na forma de relacionamentos românticos, mas de qualquer relacionamento profundo. Sem moldes, sem regras, sem obrigações. Todo o resto é a tralha que a gente constrói em cima disso. É por isso que a relação entre Ellie Chu e Aster Flores, ainda que tenha sim um conteúdo romântico muito claro, é muito mais do que um romance. É um pequeno milagre.

“Love isn’t patient and kind and humble. Love is… Love is… Love is messy, and horrible, and selfish, and… Bold. It’s not finding your perfect half. It’s the trying, and reaching, and… Failing. Love is… Being willing to ruin your good painting for the chance at a great one.” (Ellie Chu)

“O amor não é paciente e gentil e humilde. O amor é… O amor é… O amor é bagunçado, e horrível, e egoísta, e… Ousado. Não é encontrar sua metade perfeita. É a tentativa, a busca, e… O fracasso. O amor é… Estar disposta a arruinar sua pintura boa pela chance de uma ótima.” (Ellie Chu)


** A arte em destaque é de autoria de Mia Sodré. 

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2 comentários

  1. Eu amei a sua análise do relacionamento entre a Ellie e a Aster! São sentimentos que captamos durante a história mas que precisavam daquele incentivo para serem verbalizados e compreendidos. De fato, tornar-se vulnerável e receber a vulnerabilidade de alguém são acontecimentos assustadores, e ao mesmo tempo tão recompensadores que uma vez vivendo isso, nos perguntamos por que não fizemos antes. Tipo voar de avião.

  2. A melhor crítica que já li sobre esse filme até hoje, parabéns você conseguiu captar todos os sentidos que estavam nas entrelinhas dessa história.