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The heart and the head: o relacionamento de Bellamy e Clarke em The 100

Antes de começar esse texto preciso deixar bem claro que ele não é estritamente sobre a relação dos dois protagonistas como um casal — ou sobre a infinita guerra de “ships” que foi travada durante os sete anos que a série ficou no ar. A necessidade de escrever sobre os dois nasceu porque Bellamy Blake (Bob Morley) e Clarke Griffin (Eliza Taylor), sem dúvida alguma, carregam o relacionamento mais bem trabalhado e complexo da série, e o payoff da dinâmica em si é um ótimo motivo pelo qual vale embarcar em uma maratona de The 100.

Atenção: este texto contém spoilers! 

Isso não quer dizer que não gostei, por exemplo, de acompanhar o relacionamento entre Clarke e Lexa (Alycia Debnam-Carey), que deu origem a Clexa. Ou que não fique furiosa quanto penso no final que eles deram para a relação e para a própria Lexa — e como ela machuca a representatividade para comunidade LGBTQ+ que foi construída em torno das as duas. Tão pouco quer dizer que eu odeie a Echo (Tasya Teles), ou sequer entenda seu relacionamento com o Bellamy. Afinal, quem vai se importar com um casal cujo desenvolvimento foi construído fora das telas, e continuou a ter o mesmo tratamento raso e superficial nos anos seguintes? Esse, na verdade, é um artigo que exalta todo os aspectos do relacionamento entre Bellamy e Clarke. Ou Bellarke, se vocês preferirem. Não é um exagero dizer que a dinâmica que nasce entre eles desde o primeiro momento da série é fundamental para a narrativa, e que dita muito sobre os temas que seriam explorados pela série nos anos seguintes. Eu poderia muito bem ter esperado até o final da sétima temporada para escrever sobre isso, mas achei que falar abertamente sobre, agora, é ainda mais importante porque, não importa onde o roteiro leve os personagens nas suas últimas jornadas, ou se eles vão ficar juntos ou não no final, sempre vou encontrar conforto nos momentos que eles compartilham.

O primeiro episódio de The 100 foi ao ar no longínquo 2014. Baseado nos livros homônimos de Kass Morgan, a história mostra um futuro apocalíptico onde a Terra é inabitável e o resto da raça humana vive em um anel no espaço, esperando a oportunidade certa para descer e habitar outra vez o lugar que antes eles chamavam de lar. O único problema é que as condições neste mesmo anel estão cada vez mais precárias, sendo que não há mais como alimentar todo mundo, e até mesmo a fonte de oxigênio está se esgotando. Para evitar que as coisas piorem, o conselho encarregado de tomar todas as decisões aplica um sistema muito simples: qualquer pessoa maior de idade que não cumpre as regras devem ser jogados no vácuo do espaço para sua morte, enquanto os menores ficam presos aguardando um julgamento, que podem ou não determinar se são culpados ou inocentes, quando chegarem a maioridade. É lógico que com o passar dos anos isso está longe de ser o suficiente e os problemas que eles enfrentam deixa muito claro o sistema injusto e corrupto em que todos eles vivem.

bellamy e clarke

A única solução que eles veem para garantir a sobrevivência da raça humana é mandar os 100 prisioneiros menores de idade de volta para a Terra. O objetivo deles ao chegar lá é ver se o terreno é habitável mais uma vez e reportar de volta para A Arca (como é chamado o anel), dando o aval — ou não — para eles descerem e montarem acampamento por lá, resgatar as origens dos humanos. Ao longo dos anos, The 100 foi uma série que abordou diversos assuntos complicados, entre eles luto, sobrevivência, vilões e mocinhos e até que ponto estamos dispostos a corromper nossa bússola moral para sobreviver. “Primeiro nós sobrevivemos, depois resgatamos nossa humanidade” e “talvez não existam mocinhos” são dois dos lemas mais frequentes vistos na produção. Ao mesmo tempo, também foi sobre amor, lealdade e resgatar a humanidade em si por meio das conexões genuínas que acontecem durante a vida. No centro de todas essas narrativas, estão Clarke e Bellamy.

Logo quando os 100 prisioneiros chegam na Terra, Clarke assume seu posto natural como líder do grupo e começa a se organizar para falar com sua mãe, que é uma médica importante da Arca. Para isso ela conta com a ajuda do seu amigo Wells (Eli Goree), mesmo que exista ressentimento entre eles por causa da morte do pai da protagonista, também o motivo pelo qual ela foi presa e acabou sendo enviada de volta para o planeta; em contraponto direto, está Bellamy. O personagem de Morley não faz parte dos 100 originais porque, antes da nave partir, ele se infiltrou para conseguir proteger sua irmã Octavia (Marie Avgeropoulos). Outra coisa que é importante mencionar para entender as motivações por trás de Bellamy, é o fato de que no anel não era permitido que uma pessoa (ou um casal) tivesse mais de um filho. Ou seja, a existência de Octavia em si era um problema. Quando ela nasceu, Bellamy ficou responsável por escondê-la e protegê-la. Quando finalmente descobrem que ela existe, O. acaba sendo presa e Bellamy faz qualquer coisa para tentar libertá-la.

Então é óbvio que, quando Bellamy descobre que sua irmã está no grupo que vai voltar para a Terra, ele dá um jeito de se infiltrar na missão, seja lá quais forem as consequências (inclusive tentar matar o chanceler Jaha, vivido Isaiah Washington). Afinal, ele não conhece uma realidade diferente e todos os seus instintos apontam para que ele continue a cumprir a promessa de proteção que tem em relação a Octavia. O resultado é óbvio. Enquanto Clarke tenta de qualquer jeito se comunicar com A Arca e avisá-los de que a Terra é, de fato, habitável, Bellamy tenta sabotar todas as suas oportunidades, já que existe uma chance muito grande de ele ser julgado e morto pelo o que fez com Jaha. Quase imediatamente, isso coloca os dois em lados opostos da luta, como inimigos.

Muito como Clarke, Bellamy é um líder natural. A animosidade entre eles vai crescendo de forma gradual na primeira temporada porque enquanto Clarke preza pela organização e pelas regras, Bellamy acha que está na hora de todos serem livres do esquema opressor que existia na Arca, optando por criar um sistema que é quase caótico. Mas, assim como em várias obras da cultura pop que abordam o poder, ambos começam a perceber que liderar sozinho é praticamente impossível e que, se eles vão sobreviver, um precisa do outro. Assim, eles começam a crescer juntos. Ao partir em busca de água, comida ou até mesmo armas, começam a entender o sacrifício que eles fazem e do lugar que eles vem. Aos poucos, Clarke não só começa a dar o benefício da dúvida para Bellamy, como também ajuda a consertar seu passado, limpando seu nome e o que aconteceu com o chanceler Jaha. Enquanto isso, Bellamy carrega o fardo da liderança com a protagonista, tentando ajudar e tirar um pouco do peso das decisões mais difíceis das suas costas.

Isso é algo que fica muito claro entre o final da primeira temporada e principalmente ao decorrer da segunda, quando Clarke fica presa em Mount Weather (que abriga os poucos humanos que sobreviveram na Terra antes do apocalipse) com alguns humanos que sobreviveram nas montanhas enquanto eles viviam na Arca. Sem Bellamy (e Finn também, na época), ela não aceita ficar em segurança e presa, e coloca imediatamente um plano de ação para conseguir escapar e tentar ajudá-los.

O segundo ano da série adolescente é uma obra-prima em vários sentidos, muitos relacionados ao fato de que os roteiros subverteram as próprias expectativas, expandindo a mitologia do universo da obra, crescendo com os personagens e quebrando barreiras de forma corajosa, algo que nem sempre uma produção teen da CW foi capaz de fazer. No meio dessa pequena revolução, Clarke e Bellamy continuaram sendo uma constante e, na medida em que eles tinham que salvar seus amigos da tirania de Mount Weather, ou simplesmente criar novos laços com os grounders (terráqueos, em tradução literal), eles sempre dividiam o peso das consequências de suas ações. Até mesmo a própria Lexa percebe que Clarke se importa com ele um pouco mais do que o resto, e aponta isso para a protagonista.

No final da segunda temporada a aliança recém-formada entre Lexa e Clarke, que une skicru e os grounders, é quebrada e a protagonista tem que fazer outra escolha complicada para salvar seu povo. Na ocasião, ela tem que matar todas as pessoas em Mount Weather para salvar as suas, puxando uma alavanca que libera radiação dentro do ambiente, algo que não afeta seus amigos porque eles nasceram no espaço. Percebendo o peso que a ação vai ter em Clarke, Bellamy se adianta, pega sua mão e puxa a mesma alavanca junto com ela. “Juntos”, ele diz. Eles compartilham, mais uma vez, a responsabilidades pelos seus atos. Como a decisão pesa muito mais nela do que nele, na última cena do episódio ela o deixa para trás e vai se isolar na floresta. Tentando fazer com que ela fique, ele oferece perdão que ela mesma não poderia oferecer para si, a absolvendo dos seus atos, mas isso não é suficiente.

Porque ele foi deixado para lidar com as consequências do que eles fizeram sozinhos (já que Clarke era a única que podia entender pelo o que ele estava passando), Bellamy entra em uma espiral completamente errada ao longo do terceiro ano. Impulsionado por Pike (Michael Beach) e sua vontade louca por vingar as pessoas da Arca que foram mortas pelos grounders, o protagonista acaba matando gente inocente e se perdendo na sua própria luta. Ele cai no conto de medidas que são ditadoras e até cruéis, matando inocentes, crianças e qualquer pessoa que ouse entrar na sua frente. Quando ele percebe isso, é tarde demais. Assim como Clarke não conseguia se perdoar após o que aconteceu com Mount Weather, ele aqui não consegue o fazer também. E então, é ela que oferece o perdão. De certa forma, eles voltam para a mesma essência que sempre ditou a relação entre eles: quando um deles não consegue encontrar uma forma de ser melhor, de se perdoar ou até mesmo de descobrir os próximos passos, um o faz pelo outro.

A quarta temporada é um ano fundamental para se aprofundar na relação entre os dois. Mais uma vez a humanidade se encontra a beira do colapso e em algum tempo as consequências das tecnologias tóxicas criadas anteriormente pela cientista Becca Pramheda (Erica Cerra) vai atacar novamente e uma grande Pramfaya vai acabar com qualquer possibilidade da Terra continuar sendo habitada, por causa da radiação. Assim, mais uma vez Clarke e Bellamy são colocados na linha de frente e tem que encontrar uma solução para garantir a sobrevivência da raça humana. Eles encontram um bunker, onde Octavia e o resto da população se adaptam, mas os dois protagonistas, juntos de Raven (Lindsey Morgan), Monty (Christopher Larkin) e Harper (Chelsey Reist), Murphy (Richard Harmon), Emori (Luisa D’Oliveira) e Echo tem que achar uma alternativa para sobreviver — o que, no caso, é voltar para o espaço e viver na antiga Arca até que exista a possibilidade deles voltarem para o planeta novamente.

bellamy e clarke

Bellamy e Clarke estão em perfeita sintonia nos últimos episódios da temporada, sendo que a possibilidade de passar alguns anos em um lugar que não está exatamente habitável fica mais suportável quando um tem ao outro. Esse aspecto, inclusive, rendeu uma das cenas favoritas dos fãs no geral, onde Clarke, que começa a perceber que talvez não consiga realmente ir até o espaço com os outros, dá um discurso comovente sobre a relação que nasceu entre eles e como ele a influenciou e ajudou durante os anos que passaram juntos. Essa cena, que foi ao ar no episódio intitulado “Praimfaya”, da quarta temporada, estabelece de vez a dinâmica entre eles: the heart and the head (o coração e a mente, em tradução livre). Bellamy, no caso, é o coração. Clarke é a mente. Quando um não consegue performar suas funções com clareza, eles se ajudam. Assim, eles seguem, juntos.

“Eu e você passamos por muitas coisas juntos. Eu não gostava de você no começo, isso não é nenhum segredo. Mas até naquela época, cada coisa estúpida que você fez foi para proteger sua irmã. Ela nem sempre viu isso, mas eu sim. Você tem um coração tão grande, Bellamy. As pessoas te seguem, você as inspira por causa disso. Mas a única forma de garantir sua sobrevivência é se usar sua mente também.”

Por causa de complicações na hora de decolar para o espaço, como a própria protagonista previu, Clarke acaba ficando para trás, enquanto Bellamy e o resto do grupo seguem para os seus destinos acreditando que ela está morta. Algo que não acontece já que, graças ao seu sangue natblida (ou nightblood), ela consegue sobreviver à radiação. Nos últimos minutos da temporada, a série dá um salto temporal de seis anos onde podemos ver Clarke viva e tentando se comunicar com Bellamy por meio de um rádio que não funciona — tentativa que ela fez todos os dias durante seis anos. Fica completamente claro que se Clarke tivesse ido com os seus amigos para o espaço, a relação entre eles daria o próximo e natural passo. Algo que, claramente, não acontece.

Quando Bellamy e o resto do grupo volta para a Terra e encontram Clarke outra vez, eles são pessoas completamente diferentes. Ela tem uma filha adotiva, Maddie (Lola Flannery), que se tornou sua maior prioridade, já que as duas viviam sozinhas na Terra, como as duas únicas sobreviventes; e Bellamy, claro, está em um relacionamento com Echo. Ambos os relacionamentos são construídos fora das telas, mas Maddie e Clarke tem um desenvolvimento constante, enquanto Bellamy e Echo parecem simplesmente… errados. Todos os momentos de afeto entre eles é mostrado apenas para colocar o rosto e a reação de Clarke em foco, enquanto a dinâmica parece muito mais apoiada no fato de que Echo precisa de um líder para seguir (como fez antes com o Rei Ronan, na quarta temporada). Eles se consideram família, claro, mas até que ponto isso é assim porque querem que seja dessa forma, ou simplesmente porque não existia outra escolha?

De qualquer forma, eles seguem para abrir o bunker e libertar as pessoas que ficaram presas lá dentro. Muito como Bellamy e Clarke, ninguém lá é o mesmo: Abby (Paige Turco) é uma viciada em remédios, Kane (Henry Ian Cusick) é uma sombra do líder que era antes, enquanto Octavia sofre com o peso da recém adquirida liderança, conduzindo um ringue onde as pessoas que desobedecem as regras tem que lutar até a morte para depois serem comidas por aqueles que sobreviveram (afinal, canibalismo parece ser a única solução para a falta de comida iminente). Por causa do novo alter ego de O., intitulado de Blodreina, e sua sede por sangue e para matar os prisioneiros da Eligius Corp, que chegaram depois de 100 anos em uma missão para procurar novos planetas e se estabeleceram no único lugar habitável da Terra, a relação de Bellamy e Clarke começa a ficar complicada e atinge seu ápice quando ela deixa o seu parceiro para morrer no ringue de Blodreina e vai salvar Maddie, que tem sangue dos comandantes e pode ser a única a acabar com a tirania de Octavia, algo que Clarke quer evitar a qualquer custo porque ela é apenas uma criança.

Se antes Bellamy deixou Clarke e foi para o espaço (não por sua escolha), agora Clarke é que deixa Bellamy para morrer, perpetuando um ciclo que não parece ter fim na relação entre os dois. Parece terrível que isso tenha acontecido entre eles, mas é relativamente compreensível já que Maddie foi, durante anos, a única companhia de Clarke na Terra. Mesmo que ela tenha amado Bellamy e eles tivessem tido uma conexão profunda anteriormente, não tinha como garantir que essa característica ainda estava lá. Eles não se conheciam mais e, querendo ou não, seis anos são um tempo considerável, onde muita coisa pode mudar. O impressionante, no entanto, é a forma como a narrativa começa a colocar os dois em sincronia novamente.

bellamy e clarke

No final da quinta temporada, a Terra é destruída mais uma vez (para a surpresa de absolutamente ninguém). Só que agora, seis anos não serão o suficiente no espaço e, assim, eles usam da tecnologia da nave da Eligius Corp para entrar em um sono de criogênio e esperar pelo dia que o planeta estará disponível de novo. Isso não acontece, sendo que Monty e Harper, os dois únicos que ficaram acordados, e construíram uma família e o seu próprio “final feliz”, os colocam no curso para achar um novo planeta. Quando Bellamy e Clarke acordam, 125 anos depois, eles estão diante de algo completamente novo, um recomeço. Mas os problemas e as diferenças entre eles, continuam ali e é como se todos os anos dormindo simplesmente não tivessem existido.

O planeta Alpha era o destino original da Eligius e existe uma ligação ainda pouco explorada pela série na cultura dos grounders, Becca Pramheda e os destino do planeta da Terra. O que eles descobrem quando descem para explorar o território é que as pessoas lá são comandadas por figuras que se autodenominam entidades divinas chamadas Primes. Eles usam da mesma tecnologia dos comandantes grounders, com o chip da Flame, e ao passar dos anos passam de corpo em corpo, mantendo suas mentes intactas. Só existe um problema: eles só podem usar o corpo de uma pessoa que tem sangue natblida, como a própria Clarke. Assim, o líder dos primes, Russell Lightbourne (vivido no presente da série por JR Bourne), tenta matar a protagonista para que a mente da sua filha, Josephine, pudesse viver em seu corpo.

Isso é algo que ele consegue temporariamente, mas logo o pequeno pedaço de Clarke que ainda vive na sua mente consegue enviar um sinal para Bellamy tentar salvá-la, sendo que ele não poupa um segundo antes de fazer absolutamente tudo para isso. É lógico que essa narrativa coloca em xeque os sentimentos que um sente pelo outro: Josephine cobra Bellamy da relação complicada que ele tem com Clarke, bem como a necessidade que ele tem de resgatá-la a qualquer custo (inclusive colocar sua namorada e seus amigos em perigo, já que os abandona para isso).

Tudo isso culmina no final do décimo episódio da sexta temporada, intitulado de “Russian Doll”, quando Bellamy simplesmente se recusa a deixar Clarke morrer. “Uma vez que a mente fala para o coração parar de bater acabou”, dizem para ele. Algo que ele leva de forma completamente literal. Ele é o coração, ela é a mente. Enquanto ele disser para ela continuar, ela vai “obedecer”. Nos próximo segundos, ele simplesmente não desiste de tentar trazê-la de volta, falando que ele precisa dela. “Eu não posso te perder outra vez”, explica. Lutando com Josephine na sua mente, Clarke escuta o pedido de Bellamy e dá o golpe final para retornar ao mundo de forma definitiva. De certa forma, sua voz foi o que lhe guiou para a libertação.

Acatando o conselho de Clarke no final da quarta temporada, Bellamy se tornou uma pessoa mais racional ao longo dos anos que passou na Arca e durante a quinta temporada isso fica claro. Mas, ao tentar salvar Clarke da morte definitiva, ele resgata seu lado que sempre foi mais o “coração”, aquela pessoa que não pensava duas vezes antes de superar qualquer obstáculo para salvar as pessoas que ama — antes Octavia, agora Clarke. Não coincidentemente, as duas relações mais importantes que ele cultivou ao longo da série.

É difícil não amar um relacionamento — e torcer por ele — quando todo aspecto da narrativa é criado para potencializar tal relação. E não estou só falando da história e do arco da sexta temporada em si (e até mesmo das outras), mas também na forma como a fotografia coloca os dois juntos (veja só a cena onde eles se encontram no último episódio por exemplo, no pôr do sol), ou até mesmo na forma como a própria trama cria um paralelo entre Clarke e Bellamy e Josephine e Gabriel, dois primes com uma história de amor que superou séculos, e ainda sobrevive. A verdade é que, durante seis anos, eles se tornaram co-líderes, amigos e, principalmente, uma família. Não existe nada que um não saiba sobre o outro e apesar deles estarem cientes das piores decisões que eles tomaram, dos momentos mais obscuros das suas existências, eles escolheram ainda estar lá um para o outro, e isso não é pouca coisa.

bellamy e clarke

Estudar a relação entre Bellamy e Clarke é perceber que a dinâmica é, principalmente, sobre perdão. Segundas chances, reencontros e apoio. É por isso que, no final do dia, o laço que eles criaram entre si transcende o comum, vai além do romance básico ou até mesmo de apenas uma amizade. E agora, na sétima temporada, essa ligação entre eles é a conexão mais genuína e importante que qualquer um dos dois tem de mais importante agora.

Bellamy e Clarke são dois personagens que podem ser incluídos em diversos tropos românticos da cultura pop. Enemies to lovers e slow burn são apenas alguns deles. A essência romântica e platônica deles lembram alguns dos casais mais importantes das séries de TV no geral como, por exemplo, Mulder (David Duchovny) e Scully (Gillian Anderson) de Arquivo X. Assim como Jason Rothenberg, o criador de The 100, Chris Carter disse que os agentes jamais se tornariam um casal e que a relação entre eles era completamente platônica — algo que nem sequer funcionou, porque no final da nona temporada eles finalmente acabam juntos. Mas em ambos os casos, é impossível ignorar o que era exposto pela própria narrativa. Se Mulder e Scully foram unidos inicialmente pela busca pela verdade, Clarke e Bellamy foram pela busca eterna de um lar, um lugar para pertencer. Mesmo que as duas relações tenham nascido desse ponto inicial, elas evoluíram e se tornaram a dinâmica mais relevante, especial e intensa que eles têm. E é por isso que realmente não dá para culpar qualquer pessoa que torça de forma entusiasta por ambos os casais.

A relação entre eles, inclusive, não é a única coisa que Rothenberg se inspirou em Carter na hora de criar. É possível ver muito de Dana Scully na trajetória de Clarke em si, sendo que ambas perderam muita coisa travando suas respectivas lutas. Aos poucos, a narrativa tirou delas figuras familiares importantes, amor e até mesmo a possibilidade de socializar e manter uma vida amorosa saudável. Dana e Clarke são isoladas e atormentadas pelas escolhas difíceis que tiveram que fazer ao longo da vida, e ao privar as duas de buscar conforto e afeto nas duas relações mais importantes e genuínas que elas têm, os dois criadores apenas as isolam cada vez mais e mais.

O rumo que a sétima temporada vai explorar quando se trata de Bellamy e Clarke ainda é incerto. Com poucos episódios liberados, os dois se encontram, mais uma vez, separados pelo destino. Bellamy foi sequestrado e levado para dentro da anomalia, enquanto Clarke lida com o caos e a guerra civil que está acontecendo no planeta Alpha. Quando terminei de escrever esse texto, ela nem sequer sabia que seu parceiro tinha desaparecido. Mas uma coisa é certa: os dois sempre arranjam uma forma de volta um para o outro. No entanto, eles nunca tem tempo o suficiente para sentar e conversar sobre os seus sentimentos, sendo que uma desgraça leva a outra em The 100.

Nessa altura do campeonato pouco importa se Bellamy e Clarke vão ficar juntos como um casal ou não. A relação entre eles já é a mais importante de The 100 e isso é um fato. Não existe má interpretação ou ilusão quando se trata disso, apenas é. O que eu espero na sétima temporada é que a série reconheça isso e dê pelo menos momentos onde eles possam sentar e conversar sobre seus sentimentos. Sobre a relação deles, sobre o passado, as difíceis decisões que eles tiveram que tomar e sobre o que o futuro lhes reserva. Mais do que isso, espero que seja lá qual o lar que eles vão escolher como definitivo, eles sempre estejam perto um do outro. Está mais do que na hora do seriado parar de tentar subverter todas as expectativas da trama o tempo inteiro, e finalmente começar a explorar a relação entre os personagens que foi construída por um total de sete anos.

Na quarta e última temporada de The Good Place, quando Chidi Anagonye (William Jackson Harper) reencontra Eleanor (Kristen Bell) outra vez, depois de serem separados pelas circunstâncias durante mais de metade da série, mas mesmo assim sempre buscando o conforto um do outro, ele diz que “se alma gêmeas existem, elas não são encontradas, mas sim feitas”, e ninguém prova exatamente esse ponto tanto quanto Bellamy e Clarke.


** A arte em destaque é de autoria de Mia Sodré. 

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