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Pequenas colaborações femininas: a troca de e-mails entre Elena Ferrante e Marina Abramović

Na Tetralogia Napolitana de Elena Ferrante, série de quatro romances que contam a trajetória de Lila e Lenu através da escrita da narradora Lenu, escritora profissional, acompanhamos a trajetória das duas amigas passando por situações comuns a todas as mulheres: as dificuldades da maternidade, da conciliação da vida profissional e pessoal e as violências patriarcais a que somos submetidas diariamente. Para além dessas temáticas, a que chama mais atenção é a da amizade de Lenu e Lila como um espaço que sempre aparece na narrativa gerando impulsos criativos, a colaboração necessária para a resolução de um problema, para uma criação em dupla, para um desatar de nós complicados. Apesar de todas as tensões e disputas entre as duas, é através da amizade que as protagonistas criam formas possíveis de sobreviver em meio às violências.

Seja na escrita do livro infantil que escrevem juntas na escola; na colagem na foto de Lila vestida de noiva que criam para a loja de sapatos dos Solara ou no artigo de denúncia sobre as violências dos irmãos camorristas que escrevem juntas, na cozinha da casa de Lila, tomando conta de suas filhas. E, por fim, a colaboração maior e essencial que sustenta toda a narrativa: o sumiço inexplicável de Lila que enfurece e encoraja Lenu a sentar em seu computador e narrar sessenta anos de histórias compartilhadas. Todos esses momentos nascem da colaboração criativa e artística entre as duas amigas, cortando, colando, recortando, editando, mexendo em palavras, irritando uma à outra e gerando uma fúria criadora. Influências femininas impulsionando a escrita, o costurar de palavras e a criação.

Marina Abramović no filme Espaço Além.

O tema da colaboração entre mulheres, da construção de uma genealogia feminina que possa criar uma herança verdadeiramente nossa e que inspire outras mulheres é um assunto caro a Ferrante. É uma temática que encontramos em várias entrevistas suas, especialmente as organizadas em seu livro Frantumaglia. Em um dos textos que encontramos no livro, Ferrante pontua que por muito tempo consumiu majoritariamente obras literárias masculinas, especialmente no momento da sua formação enquanto leitora e escritora. Depois passou a ler e consumir tudo o que fosse escrito por mulheres, assimilando muitas vezes posições contraditórias, recortes incoerentes, mas de uma referência essencialmente feminina.

É com essa chave de leitura que leio a troca de e-mails entre Ferrante e Marina Abramović publicadas em 24 de setembro de 2021 no Financial Times. A troca de e-mails entre “a romancista mais reservada do mundo” e a “artista mais pública do mundo” trata sobre arte, escrita e as performances das duas artistas contemporâneas. Foi organizada pela revista FT Weekend, do Financial Times, que convidou Ferrante, fã de Abramović, para discutir sobre esses temas para a divulgação da nova exibição de Abramović em Londres intitulada “Seven Deaths”. Marina Abramović, pioneira nas performances de longa duração, é conhecida mundialmente por suas performances artísticas nas quais se coloca como sujeito e objeto em tensão com seu público.

Nas trocas dos nove e-mails que compõem a matéria, as duas afirmam que suas performances artísticas não são tão diferentes quanto parecem em um primeiro momento, pois tanto a performance de longa duração quanto a escrita estão sujeitas a alterações e edições. Discutem sobre um certo tipo essencial de solidão que todo trabalho artístico requer, especialmente o da escrita, descrito por Ferrante como uma “solidão absoluta” em seu caso, devido a sua escolha de não entrar em contato com seus leitores.

Quando as duas discutem sobre a dominação masculina no mundo artístico, Ferrante pontua a necessidade das mulheres ocuparem os espaços e não deixarem suas criatividades serem desperdiçadas, e menciona a ideia de um romance que tenta escrever há anos, com uma performance de Abramović em Nápoles, de 1974, no centro da narrativa. Em “Rhythm 0”, as instruções eram simples: Abramović ficou inerte como um objeto por 6 horas e o público podia utilizar os 72 objetos disponibilizados, que podiam gerar prazer ou dor, em seu corpo, como quisessem. No início, o público estava tímido e foi gentil, mas pouco a pouco começaram a escolher objetos para ferir a artista, cortando suas roupas, cortando sua pele, até colocarem uma arma carregada, um dos objetos disponibilizados, na mão da artista, com seu dedo no gatilho.

Lila (Gaia Girace) e Lenu (Margherita Mazzucco) na série A Amiga Genial.

Essa performance de Abramović, uma das mais famosas devido a sua radicalização na relação do seu corpo com o público, foi o impulso criativo para Ferrante começar a escrever um romance. Um acúmulo de rascunhos, inacabado, segundo a escritora, com a narrativa sobre uma jovem napolitana que é levada por um homem mais velho para assistir “Rhythm 0” em Nápoles. Ferrante não desenvolve muito mais sobre esse rascunho engavetado, mas nos chama a atenção o ímpeto de escrita de Ferrante que coloca a performance de Abramović no seu centro, como referência.

É sobre esse tipo de influência, de construção de narrativas e referências, que Ferrante sempre pontua em suas entrevistas e que acompanhamos nas trajetórias da maioria das suas personagens, especialmente Lenu e Lila. Mulheres que escrevem ou que realizam performances colocando seu corpo como sujeito e objeto, trazendo reflexões sobre os limites da arte, do corpo e da mente, essencialmente, criam referências para outras mulheres. E essa criação é parte central de toda a obra de Ferrante: em sua ficção, a elaboração de léxicos femininos especialmente para definir sensações que suas personagens sentem (como frantumaglia e desmarginação) e a investigação de temáticas referentes ao gênero feminino desencadeou mundialmente o que pesquisadoras chamam de “Febre Ferrante” e “Estudos Ferrante”. Tanto no mundo pop quanto no mundo acadêmico, Ferrante e sua obra reverberaram em outras mulheres que começaram a escrever, estudar e pesquisar seus livros. Inclusive, a autora desse texto que vocês leem agora.

Essa troca de e-mails entre dois grandes nomes femininos do mundo contemporâneo contribui para esse caminho que Ferrante sempre enfatiza que é necessário seguirmos: construir pouco a pouco nossos referenciais artísticos, teóricos, acadêmicos, em todos os campos possíveis. Até a construção de um mundo onde possamos escrever e performar a partir de nós mesmas.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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