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Manic, o disco transformador de Halsey

“Há um ditado antigo que afirma que temos três faces: a primeira é a que você mostra para o mundo, a segunda é a que mostra para aqueles de quem é próximo, e a última você não mostra para ninguém. A primeira é Halsey, a segunda é Ashley, mas há uma terceira que existe nas rachaduras entre as duas: o flash colorido mais carnal, desinibido e explícito que se esconde dentro do meu peito.” É assim que Ashley Frangipane, a Halsey, apresenta seu novo disco, Manic.

Lançado no dia 17 de janeiro deste ano, o álbum é o terceiro da cantora e, apesar de ser bem diferente de tudo que já lançou e, inclusive, do que se esperava de acordo com a divulgação, é o que mais se parece com ela.

Manic começa com “Ashley” e termina com “929”. A primeira faixa aborda dúvidas sobre si mesma e a dificuldade de tomar as rédeas da própria vida. Uma batalha constante entre a primeira face, Halsey, com a segunda, Ashley, e quem vai poder ficar para contar a história. “It’s getting harder every day/Somehow I’m burstin’ out of myself” [“Está ficando cada dia mais difícil. De alguma forma, estou queimando de dentro de mim mesma”], canta ela.

Já a última canção faz referência ao nascimento da artista (no dia 29 de setembro às 9:29) é o resultado de um momento espontâneo no estúdio. Sem planejar, ela simplesmente começa a cantar o que vinha à mente. Halsey canta:

“And I, I quit smoking, well recently, I tried/ And I bought another house, and I never go outside/ And I remember this girl with pink hair in Detroit/ Well, she told me/ She said ‘Ashley, you gotta promise us that you won’t die/ ’Cause we need you’, and honestly, I think she lied/ And I remember the names of every single kid I’ve met/ But I forgot half the people who I’ve gotten in bed”

“E eu parei de fumar, pelo menos, eu tentei. E eu comprei outra casa, mas eu nunca saio. E eu lembro dessa menina com cabelo rosa em Detroit, ela disse ‘Ashley, nos prometa que não vai morrer, porque precisamos de você’, e sinceramente, eu acho que ela mentiu. E eu lembro o nome de todas as crianças que conheci, mas esqueci metade das pessoas com quem já dormi”

Halsey

A tremenda mudança entre as duas fases são relatadas nas 14 faixas intermediárias do disco, que vão de canções de término ideais para tocar alto no rádio, como “you should be sad” e “Without Me”, com a qual alcançou o topo das paradas de sucesso, a faixas mais introspectivas que revelam uma jornada de autoconhecimento, como “More” e “Still Learning”.

Cada uma dessas músicas parece ser de um gênero diferente: a primeira tem o toque confessional do country, a segunda usa como sample “Cry Me a River”, do Justin Timberlake, fica entre o pop e o R&B; a terceira, uma balada eletrônica, já a quarta, tem mais elementos do pop. Ainda assim, as faixas fazem sentido no álbum, seguindo a proposta de ser “maníaco”, uma referência ao distúrbio bipolar de Halsey, condição que antigamente era conhecida como depressão maníaca.

A diversidade de ritmos e gêneros fica ainda mais nítida com os artistas convidados a participar de Manic, cada um com seu “interlude”, ou seja, intervalo. São eles: “Dominic Fike”, que dá início à sessão do álbum que lida com um doloroso término pelo qual a cantora passou, (a icônica) Alanis Morissette, que aborda os estereótipos de gênero que a sociedade impõe nas pessoas enquanto Halsey canta sobre se relacionar com mulheres, e SUGA, do BTS, que traz um olhar quase espiritual à parte final do álbum ao dissecar a realidade entre buscar e viver um sonho.

Halsey

Os temas não são necessariamente inéditos, mas Halsey se destaca ao trazer sua interpretação deles. Com 25 anos e uma poeta nata, ela consegue transformar qualquer dúvida em rima dançante. Em “3 AM”, traz um pop rock para espantar o baixo astral ao mesmo tempo em que canta sobre um: “I need it digital ‘cause, baby, when it’s physical I end up alone” [“Eu preciso do digital, querido, porque quando é físico eu termino sozinha”]. Por vezes, as deixas são tão delicadas que podem acabar passando batido se o ouvinte não prestar atenção — “It’s crazy when the warning signs can feel like they’re butterflies” [“É louco como os sinais de aviso podem se parecer com borboletas”], canta em “Graveyard”.

No ápice emocional de Manic chega a canção “More”, na qual Halsey revela sua vontade de um dia ser mãe. A cantora, que fala abertamente sobre sofrer com endometriose, já teve abortos espontâneos. Ao fazer um discurso sobre o assunto em um evento de caridade, ela revelou que antes que pudesse ir ao hospital, foi forçada a se apresentar em um show. “They told me it’s useless, there’s no hope in store/ But somehow I just want you more” [“Eles me disseram que é inútil, não há esperança. Mas de alguma forma eu quero você mais ainda”].

Manic é um disco sobre se perder para se encontrar. Às vezes em outras pessoas, como relata em “Graveyard”, em outras, em si mesma (vide “Still Learning”). É um retrato do quão difícil, porém recompensador, pode ser se permitir olhar para si mesmo e buscar as próprias verdades. Para quem já passou ou está passando por isso, escutar Manic é como se deparar com uma parte perdida de si. De início surgem dúvidas se as peças vão se encaixar, mas aos poucos, elas o fazem, e então, uma nova porta se abre.

Isabela Moreira é jornalista e gosta tanto de cultura pop que os amigos a chamam de IMDb. Às vezes compartilha memes e trívias no Twitter, semanalmente escreve a newsletter Reprisa, onde fala sobre filmes, séries e o que mais lhe der na telha.

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