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Tetralogia Napolitana: o épico de Elena Ferrante

Logo no início desse texto, preciso fazer uma confissão: demorei a deixar que a Ferrante Fever me pegasse. Enquanto todas as minhas amigas devoravam os livros da misteriosa autora italiana, eu olhava de longe, não querendo me envolver em mais uma série de livros por terminar — As Crônicas de Gelo e Fogo me fez aprender a não me deixar levar por uma série incompleta visto que a espera por um desfecho pode ser agonizante. Porém, quando o último volume da Tetralogia Napolitana finalmente chegou às prateleiras das livrarias, em 2017, sabia que podia respirar aliviada e me deixar envolver por toda a trama escrita com maestria por Elena Ferrante: os sotaques napolitanos, os personagens verossímeis, as idas e vindas de vidas que poderiam ser a minha ou a sua. Eu sabia de tudo isso, mas talvez não soubesse o básico: minha vida de leitora nunca mais seria a mesma depois de ler a obra de Elena Ferrante.

Elena Ferrante é o pseudônimo de uma autora que prefere se manter reclusa, longe dos holofotes e dos burburinhos causados por seus livros. Ferrante concede entrevistas apenas por e-mail ou por intermédio de seu editor italiano, Sandro Ferri, a única pessoa a conhecer sua verdadeira identidade. A autora desejava, simplesmente, que seus livros se impusessem sozinhos, “sem a sua proteção”, portanto o anonimato e a reclusão pareciam essenciais para que seu trabalho falasse por conta própria. Quando A Amiga Genial, primeiro volume da Tetralogia Napolitana, foi lançado na Itália, em 2011, o livro foi sucesso de público e crítica fazendo com que o mistério em torno da figura de Elena se tornasse irresistível: quem seria a autora capaz de reunir em seu texto as agruras da vida e entrelaçá-las com o contexto político e as mudanças pelas quais passava a Itália?

O jornalista italiano Claudio Gatti decidiu investigar a fundo quem é a pessoa por trás da emblemática figura de Elena Ferrante e, no dia 10 de outubro de 2016, publicou em alguns jornais de prestígio como o Il Sole 24 Ore, o Frankfurter Allgemeine Zeitung e o The New York Review of Books um artigo intitulado Elena Ferrante: An Answer? em que aponta a tradutora italiana Anita Raja como a pessoa por trás do pseudônimo. Utilizando-se de meios um tanto controversos, Gatti investigou a contabilidade de Anita e seu marido, o escritor italiano Domenico Startone, e constatou que à época do sucesso de vendas de A Amiga Genial, o casal adquiriu diversas propriedades na Itália, de apartamentos de luxo à casas próximas do mar. A revelação feita por Gatti caiu como uma bomba no meio literário italiano como se fosse um plot twist, algo digno dos melhores capítulos da própria Tetralogia Napolitana. Na ocasião, artistas e escritores acusaram o jornalista de ter sido invasivo em suas investigações, enquanto Gatti se defendeu dizendo que é direito seu, enquanto jornalista, buscar a verdade.

À época da revelação, Elena Ferrante desmentiu a história por e-mail e o mistério a respeito de sua verdadeira identidade persiste até hoje. Anita Raja continua encabeçando a lista de suspeitos prováveis, mas teorias das mais diversas circundam a identidade de Ferrante: há quem diga que os livros são escritos em parceria por Anita e seu marido, e há quem fale, também, que Elena Ferrante é o nome de um grupo de autores que escreve os livros em conjunto visto que, para os conspiradores, a riqueza de detalhes e histórias presentes nos livros da Tetralogia não poderiam ter vindo de apenas uma pessoa. Com teorias da conspiração ou não, o fato é apenas um: Elena Ferrante escreveu em seus quatro livros um épico que é a essência de Nápoles, suas pessoas e sua história.

A Amiga Genial tem um dos melhores inícios que já li em minha vida: sabemos, logo de entrada, que Lila Cerullo desapareceu sem deixar traços. Quem avisa Elena Greco do acontecido é o filho de Lila, e ele pede sua ajuda para encontrar a mãe. Elena, então, se lembra com clareza que desaparecer era um dos grandes desejos de Lila, quase como se fosse possível dissolver-se no ar completamente, como se nunca tivesse existido. Elena logo despacha o filho apavorado de Lila e decide que a melhor maneira de frustrar os planos da amiga é escrever, linha por linha, toda a vida que dividiram. Da infância pobre em um dos bairros mais precários de Nápoles, da adolescência com um casamento precoce, da faculdade em outra cidade. Elena faz uso da caneta e escreve Lila — e ela mesma — por inteiro.

Raffaella Cerullo e Elena Greco cresceram no mesmo bairro, na mesma vizinhança de prédios pobres e desconjuntados em Nápoles. Aos olhos de Elena, a narradora de toda a Tetralogia Napolitana, Lila era a estrela mais brilhante do céu, uma menina com inteligência sem igual que acabou por cativar, para o bem ou para o mal, todas as pessoas que passaram por sua vida. Após o telefonema do filho de Lila, Elena, ou Lenu, como era chamada na infância e por amigos, começa a relembrar passagens de sua vida com Lila, a chegada da família Cerullo no bairro e como a menina magricela e esquentada que era Lila a cativou sem fazer esforço. Lila era capaz de exercer um fascínio inexplicável sobre Lenu, e a partir daquele primeiro encontro, em 1950, as duas se tornam inseparáveis, ainda que levadas a se afastar e retomar o contato, pelo resto da vida. Lila nunca saiu do pensamento de Lenu, e a Tetralogia Napolitana demonstra isso muito bem: com o primeiro livro, A Amiga Genial, acompanhamos a infância e início da adolescência das duas, a vida difícil em Nápoles, o assédio dos garotos e dos homens, e o desejo que nutrem de sair daquela cidade em busca de um horizonte mais tranquilo.

Em pouco mais de 300 páginas, A Amiga Genial nos faz crescer junto com Lila e Lenu, acompanhando de perto um relacionamento capaz de unir as duas meninas na mesma medida em que as faz competir, brigar e traçar planos para o futuro. Na Nápoles pobre, os estudos surgem como a melhor forma de escapar do ciclo vicioso de casamento e filhos para as mulheres da época, e tanto Lila quanto Lenu enxergam na escola um meio de fugir do destino de suas mães cansadas e entristecidas pelo meio em que vivem. No entanto, diferente dos sonhos infantis nutridos pelas amigas, apenas a família de Lenu decide, a muito custo, continuar mantendo os estudos da filha, enquanto os Cerullo não investem na manutenção de Lila na escola. A menina de inteligência singular só estuda até a quinta série do fundamental e decide, então, procurar outros meios de mudar o seu destino, o que acaba por separar o caminho das duas amigas que tinham planos de escrever, juntas, um livro tão bom quanto Mulherzinhas, escrito por Louisa May Alcott.

A Amiga Genial pode soar, para os desavisados, como um romance simples a respeito de duas meninas e as descobertas que passam na saída da infância para a adolescência, algo como um coming of age, mas a narrativa criada por Elena Ferrante vai muito além do que pode mostrar a superfície de uma sinopse. A escrita consegue amarrar as vidas das duas meninas a da Itália da segunda metade do século XX, um lugar marcado pelo pós-guerra, devastado, e que tenta se reerguer. É nesse cenário que Elena Ferrante insere seus personagens, não apenas as famílias Cerullo e Greco, mas também os Solara, os Caracci, os Sarratore e muitos outros. A prosa de Ferrante é capaz de incluir meia centena de personagens com naturalidade, entrelaçando-os em dinâmicas complexas e intensas, sem nunca perder o foco em Lila e Lenu.

A amizade entre as duas, inclusive, é o que dá o norte para toda a trama desenvolvida. Em mais de 1600 páginas, somando os quatro livros da série, vivemos os altos e baixos de um relacionamento que tanto Lila quanto Lenu aceitam ser para a vida toda. Mesclando fatos marcantes das trajetórias das duas, Lenu — a narradora dos quatro livros — retrata momentos vividos por ela e Lila em mais de cinquenta anos, alternando entre ausências de Lila, quando Lenu pode apenas imaginar o que está acontecendo com a amiga, com relatos feitos por ela quando finalmente se encontram e passam a vida a limpo. Um dos trunfos da narrativa de Elena Ferrante é contar de maneira verossímil o que é a amizade entre pessoas que se complementam quase do mesmo jeito que se repelem: Lila e Lenu competem entre si quase da mesma maneira que se apoiam, e se amam e são gentis uma com a outra quase na mesma medida em que disputam e se ressentem. Não dá pra dizer que o relacionamento entre elas é completamente saudável — na Tetralogia, poucos o são — e Ferrante não tem medo de colocar no papel as verdades da vida, não colorindo nenhum de seus personagens em tons de rosa. Todos erram, por vezes acertam, e em comum está o fato de que estão apenas tentando fazer o melhor possível diante as circunstâncias em que se encontram.

No segundo livro da Tetralogia, A História do Novo Sobrenome, Elena Ferrante dá sequência à história de Lila e Lenu imediatamente após o final — e que final! — de A Amiga Genial. A narrativa permanece impecável e demonstra cada vez mais como as escolhas difíceis se empilham, uma após outra, na frente de Lila e Lenu, levando-as por caminhos de vida totalmente diferentes. Enquanto uma das amigas se prepara para continuar os estudos, indo mais longe do que qualquer garota de seu bairro jamais foi, a outra está prestes a dar início a uma vida de casada com um dos jovens mais ricos de sua vizinhança. Elena Ferrante levanta questões como a sexualidade das jovens mulheres da metade do século XX, fala sobre amor e assinala as restritas possibilidades de escolhas de vida para cada uma delas. As dinâmicas entre os personagens se tornam mais intensas e as ações de um refletem, invariavelmente, nas vidas de outros — seja ele o filho do dono da sapataria do bairro, da charcutaria ou da família camorrista que empresta dinheiro a juros altíssimos marcando os nomes dos devedores em um temido caderno de capa vermelha.

Lila e Lenu prosseguem da infância à velhice às vezes como dois lados diferentes de uma mesma moeda, às vezes idênticas em quase tudo. Por meio de casamentos, traições, separações, filhos e um sem número de percalços — como acontece em toda vida —, Elena Ferrante constrói sua trama apoiando-se nas mudanças que ocorrem na sociedade italiana na mesma medida que acontecem em Lila e Lenu. A Tetralogia Napolitana é uma história sobre duas mulheres e a vida que dividem, mas é também uma saga sobre a sobrevivência delas em um mundo que as oprime e vilaniza, que as julga e corrói enquanto a própria Itália passa por mudanças, seja no viés político ou na luta de classes. O peso de serem mulheres em uma sociedade católica e patriarcal cobraria seu preço mais cedo ou mais tarde, o que não demora a acontecer na sequência da trama. Enquanto uma das amigas consegue deixar Nápoles e viajar o mundo por conta de seu trabalho, a outra permanece no bairro de sua infância, sempre restrita ao microcosmo que conhece e domina tão bem, incapaz de se desprender.

Em História de Quem Foge e de Quem Fica, terceiro livro da saga, recebemos pouco mais de 400 páginas — cada vez mais brilhantes — das mãos de Elena Ferrante onde, agora adultas e com muitas cicatrizes emocionais, não há mais espaço para os sonhos infantis das vidas de Lila e Lenu. Amores de verão deixam muito mais do que saudades, uma antiga paixão ressurge, e tudo isso enquanto a amizade entre as duas mulheres enfrenta seus altos e baixos. As relações sociais estão cada vez mais em evidência na trama da Tetralogia da mesma forma que Ferrante escreve praticamente um manifesto sobre maternidade e “como é transgressor ser uma mulher em um mundo comandado por homens”. O comunismo está cada vez mais presente entre o proletariado italiano e os confrontos com os fascistas são recorrentes, sempre resvalando nas vidas de Lila e Lenu. Antigos amigos do bairro de Nápoles estão dos dois lados da disputa, enquanto Lenu vê, aos poucos, a imagem de Lila ruir diante de seus olhos. História de Quem Foge e de Quem Fica trata de política e feminismo, de maternidade e de casamentos, de sonhos frustrados e vidas entristecidas com o realismo sempre marcante da escrita de Ferrante.

E é por meio desse realismo que chegamos ao desfecho da Tetralogia Napolitana com o coração aos pulos: em História da Menina Perdida, Lila, Lenu e todos os personagens que acompanhamos por mais de 1500 páginas estão avançando na idade, chegando à velhice. Nem todos chegam ao final dessa história vivos, mas aqueles que chegam certamente o fizeram mudados. A Tetralogia Napolitana é, também, um romance de formação: ao longo de suas páginas vemos seus personagens crescendo, mudando e aprendendo na mesma medida em que os vemos meter os pés pelas mãos, fazendo escolhas erradas e quebrando a cara. Na crítica literária, bildungsroman é o termo em alemão que se refere ao romance de formação, ou seja, aquelas obras que contam as histórias de seus personagens em uma espécie de jornada, da infância à maturidade, e seu caminho de crescimento. A Tetralogia Napolitana entra nessa categoria ao lado de títulos importantes da literatura mundial como Grandes Esperanças, do inglês Charles Dickens, e o livro que deu início ao estilo, Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe.

E na mesma medida em que é um romance de formação, a Tetralogia Napolitana também é um romance sobre literatura e sobre pessoas que escrevem. Lenu passa toda a sua vida às voltas com livros e leituras, enquanto escreve seus próprios livros, em uma jornada que, a personagem relembra, existe em sua vida desde os seis anos de idade, quando deu início aos estudos. Mesmo uma autora publicada, no entanto, Lenu não parece confiar completamente em suas habilidades e sempre procura a validação de outras pessoas para aceitar que seu trabalho é realmente bom — um traço claro, e comum, na vida de várias mulheres que convivem com a Síndrome do Impostor. Outro ponto que Lenu sempre relembra com relação aos seus escritos é que, enquanto ela é a autora de sucesso, é Lila quem tem o dom de transformar qualquer meia dúzia de palavras em algo reluzente — ideia que sempre volta a atormentar Lenu e a faz, mais uma vez, duvidar de si mesma.

Toda a trama da Tetralogia é construída ao redor de personagens complexos e com muitas camadas, nem completamente bons ou maus. O brilho de Ferrante está em unir as diferentes cores da alma humana em uma história que mescla pobreza, amizade e violência aos sonhos e desejos de duas mulheres tão parecidas e diferentes ao mesmo tempo. Todas as nuances que vemos em Lenu e Lila são, ainda, aprimoradas na linguagem das duas amigas que, nascidas em Nápoles, cresceram dominando o dialeto local, mas logo aprendem o italiano clássico e acadêmico com o objetivo de se incluir no mundo ideal que imaginavam alcançar um dia. A linguagem, as idas e vindas entre o napolitano e o italiano, é quase um personagem à parte nos quatro livros, sempre presentes para enfatizar os ambientes em que as duas amigas circulam. Lila, ainda que domine completamente o italiano, por vezes se fecha e conversa apenas no dialeto, ignorando o mundo fora de Nápoles enquanto Lenu, em seu meio acadêmico, tenta o máximo possível disfarçar seu sotaque napolitano para se integrar.

Tetralogia Napolitana contempla quatro romances memoráveis com personagens verossímeis e uma trama completamente honesta. Elena Ferrante não enfeita os fatos e trata a vida, se muito, da maneira como ela é. Reunindo elementos intrínsecos à vivência napolitana e a história da Itália como um todo, Ferrante foi capaz de criar um épico que encantará leitores por muitos anos. A construção de seus personagens — principalmente as femininas — marca um ponto alto para sua obra como um todo e não apenas no que se refere à Tetralogia. Aqui Ferrante constróis mulheres complicadas e imperfeitas capazes de desafiar qualquer estereótipo presente em uma literatura dita “feminina”. Não há nada banal ou acidental em seus escritos o que mostra que, muito mais do que Lila e Lenu, se tem uma pessoa genial nessa história, ela atende pelo nome — até onde a gente saiba — de Elena Ferrante.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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5 comentários

  1. Também tinha uma certa resistência antes de iniciar o primeiro livro… E depois que comecei, não consegui mais parar! Fazia tempo, desde a adolescência, que não devorava livros assim! Adorei o teu texto – conta o essencial de cada um dos livros, que espero que encante ainda muito mais leitoras e leitores!

  2. É exatamente como vc descreve. O pior é que quando acabei de ler o quarto livro me senti sozinha sem a história a me acompanhar. Até hoje procuro nos livros este vazio e não encontrei outros que merecessem tanto o meu apego como está tetralogia. Agradeço se alguém me indicar.

  3. Eu também apresentei resistencia ao começar a ler os livros dela – o que foi a três dias atrás, acabei A amiga genial essa madrugada e vim pesquisar -, não sei dizer bem o porquê. Agora estou arrebatada pela escrita dela e em total agonia nas espera dos outros livros que comprei pela internet cheguem.