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Mindhunter: o ciclo sem fim da violência silenciosa e estrutural

Produções sobre serial killers são uma espécie de febre nos Estados Unidos e, por causa da globalização, no resto do mundo também. Só em 2019, por exemplo, foi lançado pelo menos um filme dedicado ao assassinos compulsivos e outros que pelo menos citavam os mesmos. O “charmoso” (sim, ele é descrito como atraente) Ted Bundy ganhou uma obra com um elenco estelar (Zac Efron viveu o predador, enquanto Lily Collins era sua esposa) chamada de Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile, e Charles Manson e sua “família” é um dos temas abordados de forma ampla e bem superficial por Era Uma Vez em Hollywood, novo filme de Quentin Tarantino. E esses são apenas dois exemplos recentes. De contraponto a essas produções, está a série Mindhunter da Netflix, cuja segunda temporada estreou recentemente na plataforma de streaming.

A primeira impressão de Mindhunter é a de que essa será apenas mais uma história, no meio de milhares, que aborda a vida e a psicologia por trás dos chamados serial killers — ou se você prefere o termo em português, assassinos em série. A trama se inicia no final da década de 1970 e, em seu segundo ano, acontece durante a década de 1980, antes mesmo de tal terminologia ser usada por especialistas. Inclusive, é a metodologia que entra como a principal questão da série durante seu primeiro ano. Na frente dessa nova divisão do FBI, que procura estudar a mentalidade e o que move tal assassinos, estão os agentes Bill Tench (Holt McCallany), Holden Ford (Jonathan Groff) e a professora de psicologia Wendy Carr (Anna Torv).

Juntos, eles criam um time que investiga e entrevista prisioneiros que cometeram esses crimes “compulsivos” e “organizados” — como eles mesmo chamam —, focando em casos já fechados pela polícia. O objetivo é escrever um livro e criar uma espécie de manual na hora de lidar com casos como esses, facilitando na hora de pegar novos criminosos no futuro ou até mesmo prevenir assassinatos. O estudo, no entanto, não é bem recebido por seus colegas no FBI e eles são mandados para trabalhar no porão, lutando contra dificuldades básicas — como falta de orçamento para realizar entrevistas em outros estados, ou até mesmo de apoio de seus chefes. Inclusive, é muito difícil não fazer um paralelo, nesse caso, com a situação de Fox Mulder (David Duchovny), que também trabalhava no porão do FBI, mas procurando por atividades paranormais, de extraterrestres/OVNIS.

Assim como Mulder, os agentes de Mindhunter também procuram por uma verdade. Uma bem específica, inclusive: de que existe lógica no comportamento irracional, violento e brutal dos assassinos que eles investigam. É por isso que eles separam os criminosos em categorias — aqueles cujo o crime tem conotação social, sexual, entre outros. Lembrando que tudo isso, até o primeiro ano, era extremamente teórico e algo que inevitavelmente mudaria na segunda temporada — e foi o que realmente aconteceu.

Com uma espera de mais ou menos dois anos para a segunda temporada finalmente chegar na plataforma, os nove novos episódios saíram da teoria e começaram a colocar aquilo que os agentes tinham aprendido antes em prática — ainda que as entrevistas continuem a costurar a narrativa. O principal foco agora são os eventos que ficaram conhecidos como os assassinatos de crianças de Atlanta, em que 29 crianças negras e pobres foram mortas de forma brutal, com seus corpos surgindo em diferentes pontos da cidade. Para entender o caso, é preciso entender a época e o que a população negra de Atlanta estava enfrentando, intimidada e perseguida pela Ku Klux Klan e atormentadas por toques de recolher e (muito) pânico.

Atenção: este texto contém spoilers

Quem está no centro desta narrativa que acontece em Atlanta é Holden, que procura incansavelmente por uma oportunidade de colocar em prática a sua teoria. Por conta da trama pessoal de Bill, ele passa a maior parte do tempo com outro agente, Jim Barney (Albert Jones). De origens diferentes, Holden é um homem branco, enquanto Jim é negro, suas conversas sobre esse caso tão complicado é uma das partes mais interessantes da segunda temporada.

Mindhunter

Preso na metodologia que criou, o protagonista esquece de analisar o pano de fundo ou o contexto social do caso no qual está trabalhando. Na hora de descrever o perfil do suposto assassino, ele diz que é um homem negro, solitário, com fácil acesso às crianças e que provavelmente tem um cachorro. Em nenhum momento, na sua cabeça privilegiada e um pouco lógica demais, ele pensou que falar sobre isso em Atlanta seria um grande problema e teria reação negativa (com razão) das pessoas ao seu redor — e até mesmo de seu parceiro.

Durante uma cena, Holden diz que “não importa se ele é negro ou branco”, e Jim responde que sim, faz toda a diferença. Para as mães que perderam o filho, também. Acostumadas a viver em uma sociedade onde marginalizam e punem crianças negras apenas por sua cor, elas sabem que a probabilidade de acharem o assassino é mínima, justamente porque ninguém no sistema se importa o suficiente para olhar além da família. Dessa forma, a série não só analisa o crime de um serial killer em si, como também o ciclo sem fim de abuso, violência que é estrutural e, principalmente, silenciosa.

O resultado da narrativa é agridoce. A promotoria condena Wayne Williams, que se encaixa no perfil criado por Holden, por duas vítimas adultas, e durante um tempo, isso parece ser um pequeno ganho no meio de tanta tragédia. Infelizmente, ninguém consegue criar nada substancial contra ele nos outros casos e muitas famílias não tiveram a oportunidade de colocar um ponto final nessa história. A trama, que é a mais pesada que a série abordou até então, foi contada de uma forma interessante e ofereceu mais de uma perspectiva: não só a de Holden e os agentes do FBI, mas também das mães que perderam seus filhos e até mesmo de Jim, um homem negro que trabalha para o FBI na década de 1980.

O caso Manson 

Além de vários serial killers que se tornaram famosos, a série também aborda o mais conhecido de todos eles: Charles Manson. Como citado no começo do texto, Manson já foi apresentado em outra obra da cultura pop neste ano, em Era Uma Vez em Hollywood, e, não por acaso, foi interpretado pelo mesmo ator, Damon Herriman, não apenas no filme como também na série.

Mindhunter

Em Mindhunter, no entanto, sua personalidade é explorada por um texto muito sofisticado para deixar tamanha oportunidade ser desperdiçada. A expectativa em torno das cenas com Mason eram realmente altas, mas a narrativa cria um texto que é atraente e assustador nos mínimos detalhes, enquanto toca na mentalidade por trás do assassinato que ficou conhecido como Tate-LaBianca, quando seus aliados mataram a atriz Sharon Tate, grávida de oito meses. Do momento em que ele entra na sala para ser entrevistado por Holden e Bill, até a forma como fala da sua suposta família, da mensagem por trás da música “Helter Skelter”, dos Beatles, que toca ao fundo, e, principalmente, da forma como ele não assume responsabilidade pelo culto que criou, jogando a mesma para a sociedade “que não queria essas crianças”.

Segundo ele, sua verdade é muito mais simples do que parece. Agindo como um rei, ou como uma estrela famosa que se acha melhor do que tudo e todos, Manson prega caos disfarçado com discurso de amor. Vaidoso, não aceita que as pessoas falem da sua altura e no final da entrevista, pega o livro Helter Skelter e autografa para Holden, pedindo seu óculos de sol, só para depois dizer para os policiais que os roubou. De fato, são dez minutos esquisitos e que apesar de fascinantes, só reforçam a figura repugnante que Manson foi. É importante também mencionar que a trama de Atlanta se alinha à entrevista de Manson, já que a guerra racial que ele queria criar, usando o White Album dos Beatles como pretexto, foi um dos grandes focos da conversa.

Narrativa pessoal

O começo da segunda temporada tem como objetivo mostrar os dramas pessoais que vão ditar os rumos da série. Enquanto Holden e sua vida paralela ao FBI foi o principal foco do primeiro ano, bem como sua relação com a namorada, Debbie (Hannah Gross), e um pouco de masculinidade tóxica, agora é a vez de Bill e Wendy tomarem o papel central. As primeiras horas do seriado exploram um pouco do ataque de pânico que Holden criou por causa da sua relação próxima com Ed Kemper (Cameron Britton), mas o episódio logo abre espaço para outros acontecimentos.

A família de Bill e sua complicada relação com o filho, Brian (Zachary Scott Ross) é aprofundada a partir do terceiro episódio, quando o menino presencia alguns garotos mais velhos sufocando um bebê, que tem apenas um pouco mais de um ano de vida. Para tentar solucionar o problema, Brian sugere que eles coloquem a criança em uma cruz, para que ele retome a vida. É exatamente dessa forma que a polícia descobre o assassinato e isso, claro, desencadeia um efeito dominó no jeito como o filho de Tench lida com todos ao seu redor — inclusive a sua família e sua relação com ele mesmo.

É interessante perceber como a narrativa mistura os crimes que Bill investiga, e que faz de forma tão satisfatória e com atenção aos detalhes, com a sua falta de jeito na hora de lidar com os sentimentos de Brian, ou de sua esposa, Nancy (Stacey Roca), que estão envolvidos em um caso tão complexo e complicado como esse. Assim como a maioria dos homens na década de 1980 (e até mesmo nos dias atuais), Bill é um pai e um marido ausente, inadequado na hora de lidar com seus problemas pessoais. Toda essa situação culmina em uma clímax que é esperado e deixa o destino de sua esposa e filho incertos na série, ainda que a psicologia de Brian tenha sido um dos aspectos mais interessantes desta temporada.

Se Brian será ou um não um psicopata, é impossível dizer. É lógico que a trama brinca com esse aspecto o tempo inteiro, mas Mindhunter sabe fazer melhor do que isso. Na série, as coisas não são tão simplistas e, por isso, uma resposta para essa questão não deve vir tão cedo — ou de forma tão banal e previsível. Enquanto isso, Wendy ainda luta para achar seu espaço dentro do FBI e da sua própria divisão. Por causa da necessidade de Holden e Bill de assumirem a investigação em Atlanta, ela acaba pegando a liderança em alguma das entrevistas com os serial killers, rendendo algum aprofundamento na sua personalidade. O caso mais interessante, inclusive, é com Elmer Wayne Henley Jr. (Robert Aramayo), que durante muitos anos foi cúmplice de Dean Corll, que matou pelo menos vinte e oito garotos — todos os crimes com uma forte conotação sexual. Ela também ficou na frente de Paul Bateson (Morgan Kelly), suspeito de matar seis homossexuais e condenado pelo assassinato do jornalista Addison Verrill.

Não é por acaso que esses foram os casos que Wendy acabou enfrentando. A mulher, uma acadêmica que acabou no meio de um projeto prático do FBI, é lésbica. Sua sexualidade foi algo pouco explorado pela primeira temporada, sendo que a série fez apenas uma alusão ou outra ao seu relacionamento com uma ex-professora, que também era bem mais velha. A natureza dessa dinâmica fica clara apenas na segunda temporada, quando ela mesma diz que o relacionamento foi abusivo e tóxico, sendo que ela não se sentia segura e era constantemente pressionada por sua parceira. Quando ela está na frente de Wayne, por exemplo, ela questiona sua preferência sexual e o que motivou sua cumplicidade em relação ao Corll. Ele nega com veemência que não é, como ele mesmo descreve, uma pessoa “deturpada”. Eventualmente, Wendy só consegue alcançá-lo durante a entrevista e tirar algo relevante para o estudo quando revela que também já esteve em uma relação abusiva com uma pessoa do mesmo sexo, uma parte de sua vida que ela mantém em segredo dos seus colegas.

Dessa vez, Wendy também ganha um novo interesse amoroso e a série expande sua relação com Kay (Lauren Glazier). As duas são o oposto: Kay é leve, vive uma vida onde trabalha como bartender, mas não precisa esconder quem ela é. Algo que Wendy inveja e almeja, mas não o suficiente para largar seu posto no FBI. Suas inseguranças na vida pessoal, inclusive, começam a afetar seu trabalho e eventualmente sua relação amorosa, deixando claro que ainda existe muita coisa para estudar em Wendy e ainda bem, já que ela é uma figura essencial e muito importante na série.

Reunião de Fringe 

Um aspecto pequeno, mas que vale mencionar no texto, é que toda essa mudança prática que acontece na divisão dos protagonistas chega graças ao personagem de Michael Cerveris, o Diretor Gunn, que é um grande entusiasta do trabalho que Wendy, Holden e Bill fazem no FBI. Um fato ainda mais interessante: Cerveris e Torv já tinham trabalhado juntos antes, na série de ficção científica Fringe, produzida por J.J. Abrams. Para os fãs da série e saudosistas (como eu), é uma boa oportunidade para relembrar e sentir (ainda mais) saudades.

O caso BTK 

Desde o seu primeiro episódio, a série mostra no início de seus capítulos um homem magro, alto e que claramente tem sérios problemas sociais, que vive no Kansas, nos EUA. Não é até a segunda temporada que fica claro que ele é, na verdade, o serial killer que é chamado até hoje como BTK, também conhecido como Dennis Rader. Sua sigla significa bind, torture and kill (amarrar, torturar e matar, em tradução literal), e o homem matou dez mulheres, entre 1974 e 1991. Fica claro que eventualmente a série vai focar nesse caso, sendo que os agentes começam a citar Rader (que ainda tem sua identidade em segredo), mas isso ainda vai demorar.

Caso a Netflix não cancele a série, o plano é que Mindhunter tenha cinco temporadas. BTK só foi preso em 2005, mais de dez anos após seu último assassinato. De qualquer forma, é interessante ver sua evolução psicótica por detalhes: sua primeira morte, suas obsessões sexuais e até mesmo a relação que ele mantinha com sua esposa ou com a imprensa norte-americana. Tudo isso sem deixar com o que o público fique confortável afinal, desconforto e náusea são os nome e o sobrenome de Mindhunter.

Mindhunter é uma série dramática, mas que poderia muito bem ser considerada de terror. Sem nunca deixar de ultrapassar a linha do bizarro, a narrativa mistura a trama dos serial killers com a vida pessoal dos protagonistas — que na maioria das vezes são ineptos ao lidar com situações comuns da vida, mas são excelentes na hora de estudar os seus casos. A direção, as atuações e até a trilha sonora parecem estar em harmonia, criando uma série que é visceral e ao mesmo tempo necessária. A série também é silenciosa, brutal e apesar da violência não ser explícita (você nunca vê um dos assassinos na hora da ação, por exemplo — uma boa escolha), você sente a dor e os problemas infinitos que elas causam, fazendo com que ela seja, acima de tudo, uma série sobre uma sociedade que sempre esteve em declínio.

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