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Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile e a perpetuação do mito de Ted Bundy

Sou fã de casos criminais. Ouço todos os podcasts, vejo todos os documentários. Passo horas e horas falando sobre John Wayne Gacy, David Berkowitz e Marcelo Costa de Andrade. Sou absolutamente obcecada por entender a mente de pessoas que conseguem cometer atos tão horríveis e quais são suas motivações. Seres humanos são fascinantes para mim, seus grandes feitos, bons e ruins, me intrigam. Como podemos ir da glória ao vil de maneira tão brusca e, ao mesmo, tempo tão sutil?

Em todas as horas e horas consumidas de true crime, existe uma única narrativa em comum, que se repete em todos esses casos: aquela em que homens parecem cometer esses crimes de maneira isolada. Seus rostos transformam-se em fenômeno cultural, mas as pessoas ao seu redor continuam desconhecidas para muitos, especialmente aquelas que os amavam e que não alimentaram — porque, muitas vezes, sequer tinha conhecimento sobre elas — suas tendências violentas. Muito se fala sobre a mãe cruel de Ed Kemper que o trancava no porão e não lhe dava afeto por medo de que isso o tornasse “gay”, mas muito pouco se diz sobre os pais de Jeffrey Dahmer, que sim, tinha problemas com muitas outras família, mas não eram abusivos e tentaram de várias maneiras ajudar o filho. Pouco se fala sobre o impacto sofrido por Sue Klebold, mãe de Dylan Klebold, um dos atiradores de Columbine. Menos ainda se diz sobre como é se descobrir filha de um serial killer, como aconteceu com Kerry Rawson, filha do BTK.

Nenhuma dessas pessoas escolheram se apagar da narrativa na qual se viram inseridas e tentar viver uma vida normal longe dos holofotes — uma escolha absolutamente compreensível dadas as circunstâncias. Os pais de Dahmer deram entrevistas para Oprah e Larry King. Sue Klebold tem uma excelente Ted Talk falando sobre o filho. Kerri Rawson, que por anos se afastou do nome do pai, recentemente escreveu um livro contando sua história.

Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile

Com Ted Bundy não foi diferente. Todos conhecemos seu nome e seus muitos crimes. Mas sabemos sobre a história de abuso que sua mãe sofria nas mãos do próprio pai? Sabemos sobre sua namorada de anos, Elizabeth Kloepfer, e o que fez com que ela se apaixonasse — e permanecesse — com Ted? Sabemos sobre as visitas conjugais clandestinas que Bundy tinha com sua esposa, Carole Ann Boone, mas sabemos como foi para ela estar grávida e dar luz a uma menina, filha de um dos mais famosos assassinos no corredor da morte?

Essas são algumas das perguntas que norteiam Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile, filme do diretor Joe Berlinger que tenta retificar os outros tantos lados da história a partir do ponto de vista das mulheres na vida de Ted; em particular, Kloepfer, em cujas memórias o filme é baseado.

Berlinger é um nome conhecido entre os fãs de true crime. Ele, afinal, dirigiu o famoso documentário Paradise Lost, que fez a percepção pública sobre o caso West Memphis Three mudar completamente até que a pressão social contra as convicções fez com que a polícia local revisse o caso, descobrisse novas evidências de DNA e soltasse três garotos erroneamente condenados. Belinger também é o nome por trás de The Ted Bundy Tapes, série documental de quatro episódios lançada no início deste ano pela Netflix, e também centrada nos casos de assassinato envolvendo o serial killer.

Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile

Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile, no entanto, é seu primeiro filme ficcional, e ele parece não ter se dado muito bem com o projeto. Apesar das atuações primorosas de Lilly Collins e Zac Efron, o filme é uma decepção tanto para aqueles que querem compreender a mente de um serial killer quanto para alguém que gostaria de — finalmente — conhecer a história a partir do olhar e experiências das mulheres que sempre estiveram ao redor de Bundy.

No início, conhecemos o Ted Bundy (Efron) sedutor, charmoso e inteligente com a qual já estamos acostumados e por quem Liz (Collins) logo se apaixona. Vemos Bundy através das lentes cor de rosa com a qual ela o percebe, e porque a construção do amor e da fragilidade de Liz não são justificadas de maneira apropriada, Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile acaba por perpetuar o choque de que um homem branco, educado e bonito pode ser, também, um assassino em série. Como aponta Ana Luiza em sua análise da série documental dirigida por Belinger, “se assassinos em série costumam apresentar-se com menos frequência (mas nem tão pouca assim), casos de violência contra a mulher não são uma exceção” — e em um filme que promete abordar o caso a partir da perspectiva delas, essa estrutura não cola muito bem.

A questão central, no entanto, é que, a partir de determinado momento, o ponto de vista de Liz em relação a Ted muda, sua paixão se desfaz, mas a visão romântica do filme não. Em diversos momentos, é possível argumentar que o filme defende abertamente o criminoso, fazendo-o parecer uma vítima das circunstâncias. Em vários momentos, ele conta a história de Papillon, em que o personagem principal é acusado erroneamente. Em outras tantas vezes, o assistimos ligar para Liz, ser ignorado e sentir-se genuinamente afetado pela rejeição — não como um sentimento de ego ferido, comum aos psicopatas, mas por uma sensação de amor genuíno.

Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile

A ideia de que Ted genuinamente amava Liz e que ela o abandonou perante a pressão pública sobre seus crimes chega a ser odiosa. Kloepfer não denunciou o namorado apenas uma vez puramente porque ele se parecia com o retrato falado e dirigia um fusca. A essa altura do campeonato, Liz suspeitava de Ted pelos crimes e o denunciou múltiplas vezes, sendo ignorada pela polícia de Seattle. Ela e Bundy haviam rompido e reatado o relacionamento muitas vezes, parcialmente pela recusa de Ted em se casar, mas também porque ela suspeitava que ele mantinha affairs com outras mulheres, reforçadas por pequenas evidências que ela encontrava aqui e ali: uma muleta usada pelo assassino para fingir um ferimento e atrair suas vítimas; um machadinho embaixo do banco do carro; sinais recorrentes de que ele roubava livros e outros objetos. É verdade que Ted ligava e escrevia cartas, mas não como uma forma de amor, e sim como uma estratégia de manipulação e controle sobre uma pessoa frágil, uma mãe solo.

A redução do abuso de poder e gaslighting de Bundy beira o absurdo. Por cerca de 1h30, não temos uma revisão do passado ou do ponto de vista apresentado anteriormente. Não temos evidências de que o comportamento de Ted, na verdade, era questionável ou problemático. Não temos nem mesmo presentes as vítimas, suas famílias ou seus nomes. Esse tipo de apagamento é comum — sabemos o nome dos criminosos, mas não conhecemos suas vítimas. Berlinger presume, erroneamente, que sua obra será consumida por quem já tem um conhecimento prévio sobre os casos. Porém, mesmo quem está familiarizado com os crimes de Ted Bundy tem dificuldade em citar ao menos três de suas mais de 30 vítimas — as mesmas que o filme mantêm absolutamente esquecidas. Com o título Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile, o filme não apresenta nem o wicked [perverso], nem o evil [mau], nem o vile [vil] de Ted Bundy. Pelo contrário, só vemos uma abundância de carisma que nunca é problematizado. Somente nos 20 minutos finais, em uma cena composta por flashbacks de cortes rápidos, é lançado um outro olhar sobre as ações de Ted em relação à Liz e como elas poderiam ser lidas através de uma outra luz. A sequência mostra Bundy assassinando uma de suas vítimas, Kloepfer confrontando-o e, então, uma admissão de culpa; o que é seguido por cenas da vida real, que passam enquanto os créditos sobem, e que parcialmente desmistificam o carisma do assassino (exalado no filme pela própria presença de Zac Efron), evidenciando o quanto o que poderia ser charmoso era também alarmante e ligeiramente perturbador. Suas entrevistas são assustadoras; seu sorriso causa calafrios.

Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile

Assim, ainda que The Ted Bundy Tapes seja problemático e contribua “para a manutenção do status mítico em torno de uma figura inegavelmente cruel, sem fornecer quaisquer novos questionamentos ou panoramas”, ele ainda é mais sucedido que do que Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile em mostrar o lado absurdo e violento de Ted Bundy.

Quanto às mulheres, o filme não faz praticamente nada por elas, exceto em seus cinco minutos finais, quando Liz finalmente encontra a si mesma e sua voz, e são apresentados os nomes de todas as vítimas confirmadas. A voz que desejávamos ouvir não estava lá; a compreensão profunda do que é se apaixonar por uma pessoa violenta e descobri-lo de maneira chocante também não, como não está a desmistificação do assassino, prometida por tantos críticos — ao menos, não para mim, uma mulher, fã de true crime, que conhece essa história, mas que nunca a viu ser contada por uma perspectiva feminina.

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