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Crítica: Dumplin’

“Descubra quem você é e faça de propósito”. A frase de Dolly Parton recitada em Dumplin’ pode ser, também, uma boa definição para o filme. Dirigido por Anne Fletcher e disponível no catálogo da Netflix, o longa de fato sabe o que ele é e entrega o que promete: um filme adolescente com todos os clichês na medida. E faz isso trazendo o clichê para um universo para o qual esse tipo de recurso é constantemente negado.

Atenção: este texto contém spoilers!

Dumplin’ conta a história de Willowdean, muito bem interpretada pela atriz australiana Danielle Macdonald, uma adolescente do ensino médio que vive em uma pequena cidade no Texas e divide seu tempo entre o colégio, sua melhor amiga, um trabalho em uma lanchonete com aquela típica cara de estabelecimento norte-americano e um colega de trabalho charmoso. Até aí, nada de novo sob o sol: é exatamente assim que começam um punhado de comédias românticas adolescentes. O que a maioria esmagadora delas não tem é a protagonista gorda. Como bem pontua Danielle em uma entrevista para a Teen Vogue, “não é comum ver mulheres gordas, reais, em filmes. Nunca é a história delas”. Baseado no livro homônimo escrito por Julie Murphy publicado no Brasil pela editora Valentina em 2017, Dumplin’ se distancia dos filmes do gênero por trazer para o centro da história uma personagem fora do padrão cinematográfico de Hollywood e por desenvolver narrativas que não costumam ser associadas a ninguém que não seja magro, branco, cisgênero e heterossexual.

Logo de início somos apresentados à Will por uma série de flashbacks de sua infância que são a chave para sua personalidade no presente. É assim que conhecemos tia Lucy (Hilliary Begley), com quem Will passava a maior parte do tempo e se dava muito bem. Com ela, Will aprendeu a amar Dolly Parton, que tem uma presença forte e constante durante todo o filme, tanto na trilha sonora quanto na vida das personagens. E é com Lucy também que Will começa a construir sua própria relação com seu corpo e em um dos flashbacks, acompanhamos o apoio da tia na hora de lidar com comentários de outras crianças sobre sua aparência. Já no início, também, descobrimos que tia Lucy faleceu e sua morte deixou as coisas mais difíceis para Willowdean. Uma dessas coisas é o relacionamento com a mãe.

Rosie, a mãe de Will, é uma das peças mais importantes na construção da trama. Interpretada por Jennifer Aniston (uma escolha de elenco com a qual eu não consegui embarcar porque nada me tira da cabeça que esse seria um papel perfeito para Kristin Chenoweth), Rosie é ex-campeã de um popular concurso de beleza. Praticamente uma celebridade na pequena cidade em que as personagens vivem, ela carrega com orgulho a vitória dos tempos de garota e ainda está profundamente envolvida com a organização do concurso — o que, inevitavelmente, acaba envolvendo Will nesse universo. Isso é uma das coisas que faz com que o relacionamento entre mãe e filha seja complicado: Will nunca foi parte desse mundo em que sua mãe está tão inserida. Enquanto crescia fazendo festas temáticas de Dolly Parton com a tia, a mãe sempre esteve envolvida com outras coisas. Além de não terem muitos gostos em comum, existe a questão da aparência. Rosie se esforça para se manter no padrão de pessoa magra e impecavelmente composta de concursos de beleza e é esse padrão que ela coloca para a filha — não em um confronto direto, mas em comentários rotineiros, na comida deixada na geladeira e, é claro, no apelido: Dumplin’ é a forma como Rosie chama Will.

Mas nem só do relacionamento distante com a mãe e da saudade da tia vive Willowdean. Outro relacionamento chave do filme é o da protagonista com Ellen (Odeya Rush), sua melhor amiga. Inseparáveis desde a infância, as duas dividem o amor por Dolly Parton — incluindo aqui as cenas obrigatórias de filme adolescente em que amigas cantam no carro a plenos pulmões —, se lembram com carinho de todo o tempo que passavam com Lucy e conversam sobre tudo.

É com todo esse contexto que vem o ponto de virada da trama. Ao mexer nas coisas de sua tia, Will encontra uma ficha de inscrição nunca enviada de Lucy para o concurso de beleza da cidade. A descoberta faz com que a protagonista tenha a ideia que guia toda a história de Dumplin’: ela resolve se inscrever no concurso, como uma forma de protesto. Quando ela e Ellen estão se inscrevendo, porém, se deparam com a inesperada participação de outras duas colegas da escola que também não se encaixam no padrão tradicional das garotas do concurso. Uma delas é Millie (Maddie Baillio), uma garota extremamente doce que também sofre com comentários alheios sobre seu peso e que sonha em participar do concurso desde criança. A outra é Hannah (Bex Taylor-Klaus), que se veste com um estilo considerado mais masculino, inteiramente de preto e está nessa como “uma revolta contra a opressão hétero-patriarcal inconscientemente internalizada pela mente feminina”. Apesar de uma certa resistência inicial por parte de Will, as quatro acabam se tornando um grupo que avança nas fases de preparação para o concurso, ensaiando coreografias e escolhendo números a serem apresentados no show de talentos.

Nesse aspecto, temos mais dois grandes clichês da história de comédias românticas. Primeiro, a briga com a melhor amiga no início da preparação para o concurso, que se desenvolve com a reconciliação no final e a clara conclusão de que a amizade é verdadeira e vence. E, é claro, o momento de makeover. As transformações são o clássico do clássico nesse gênero cinematográfico e em Dumplin’ ela não recorre à receita tradicional. Will, Millie e Hannah passam pela transformação, ajudadas por um grupo de drag queens que fazem performance como Dolly Parton em um clube. Mas essa transformação não faz com que elas virem outras pessoas: nada daquele esquema em que a mulher gorda emagrece, o cabelo cacheado é alisado, as roupas são substituídas por peças super femininas. As três meninas continuam com seus corpos e seus estilos, e aprendem apenas a polir as apresentações para o show de talentos, escolher figurinos mais glamourosos e acertar os passos de dança.

No meio de tudo isso, a produção vai desenvolvendo os conflitos de relacionamento de Will com a mãe e as questões referentes à gordofobia e aos padrões de beleza, mesmo que faça isso de uma forma pouco aprofundada. A relação que Willowdean tem com seu corpo é um dos acertos de Dumplin’ — ao mesmo tempo que tem uma visão positiva, de se gostar e não estar na busca incessante para se enquadrar no padrão de beleza vigente no universo que a ronda (um sentimento que, vale frisar, é cultivado na protagonista desde a infância por sua tia Lucy), Will tem também uma visão negativa de si mesma, algo que vem principalmente de questões sociais. A garota sente que não se encaixa em certos contextos, reservados às pessoas magras, e que pessoas gordas estão fadadas a ocupar sempre um mesmo lugar, restrito e imutável. Isso se reflete principalmente no relacionamento com Bo (Luke Benward), o colega de trabalho charmoso com quem está em contínuo clima de flerte.

Em dado momento, Bo convida Will para um encontro e os dois se beijam. A cena romântica da mocinha e seu par é interrompida, porém, com um sobressalto: quando Bo coloca a mão na cintura de Will, a garota hesita e se afasta, dando forma a um sentimento de insegurança que muito tem a ver com um julgamento externo. Para mim, esse é um dos momentos mais fortes do filme. Afinal, a cena nos lembra de que ver a si mesma com o olhar do outro é algo que oprime. Não há nada de errado com o nosso próprio corpo até o compararmos com o corpo que é padrão e olharmos para ele como acreditamos que somos olhadas por outras pessoas. É toda essa carga que vem à tona na cena e é um momento necessário para lembrar que estar bem consigo mesma não é um estado que alcançamos e pronto, acabou — é uma construção constante e frequentemente difícil. Apesar de ter desenvolvido uma boa relação com seu corpo, Willowdean também carrega todos esses sentimentos e a mão de Bo na sua cintura é um gatilho.

Esse afastamento se resolve depois, em outro importante clichê entregue pelo filme: o final feliz com o mocinho. Não é comum que personagens fora do padrão consigam chegar ao final feliz com seu par romântico, mas Dumplin’ não falha nesse ponto. Will e Bo se acertam, terminando o filme com o tradicional beijo adolescente apaixonado. “Ele é só um cara no trabalho dela [Will] que tem sua própria vida e seus próprios desafios. E aconteceu dele encontrar alguém com quem ele se conecta, então por que não gostaria dela? Ela o vê como um cara incrível, mas ele também a vê como uma garota bonita e poderosa. Esse é o ponto. […] Não tem que ter uma barreira e não importa o que as outras pessoas pensam, porque os dois estão a fim”, diz Danielle Macdonald em uma entrevista para a revista Elle.

Como um ponto fraco, talvez, fica o excesso de frases feitas. Mas, aqui, vale pensar no público que vai assistir ao filme: não é para todo mundo que algumas das falas vão soar “batidas”, e é válido pecar pelo excesso na hora de reforçar a mensagem do que abrir espaço para dúvidas. Se você já acompanha discussões do tema, ouvir que “todo corpo é um corpo de verão” pode parecer simples demais. Por outro lado, isso pode ser um primeiro impacto para muita gente, principalmente se considerarmos que essa é uma produção feita para adolescentes. Como uma obra cinematográfica, ok, não é o ápice da sofisticação, mas Dumplin’ entrega a mensagem a que se propõe sem derrapar na pista e isso já é motivo para comemorar. Afinal, mesmo que filmes e séries estejam se preocupando mais com o discurso que transmitem, ainda há aqueles que fazem isso de forma bastante problemática.

No fim, Dumplin’ é um bom filme, balanceando ao mesmo tempo a proposta de trazer coisas fora do comum e os clichês mais típicos do universo das comédias românticas adolescentes. É bom ver mais produções que levam para as telas pessoas que não estão acostumadas a se ver representadas e a ocupar esses lugares, e Willowdean faz isso com gosto. Que seja um exemplo para que, logo, se torne apenas uma opção entre tantas.

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