Categorias: LITERATURA

Minha Sombria Vanessa: “I rise with my red hair”

Passeando pelas listas do Buzzfeed Books, encontrei uma postagem elencando Minha Sombria Vanessa como uma das melhores leituras possíveis em 2020. De início, achei o título super estranho (que depois descobriria ser uma referência literária a Nabokov em Fogo Pálido), mas a sinopse despertou minha atenção. O livro é organizado em fluxos de tempo (entre 2017 e toda década de 2000), narrado em primeira pessoa por Vanessa Wye, que começa a história com 15 anos, na volta às aulas no colégio interno Browick, em que é bolsista. De início, temos contato com os problemas de organização de Vanessa e ficamos sabendo do desentendimento com sua outrora amiga Jenny, fato que a isolou socialmente na escola.

Atenção: este texto contém spoilers!

É neste contexto que Vanessa assiste à palestra de boas-vindas aos alunos e à apresentação de um novo professor, egresso de Harvard, Jacob Strane. A figura e tamanho do professor, que é um homem muito alto, intrigam Vanessa. Ao assistir as aulas de inglês avançado com o professor Strane, Vanessa se mostra muito empolgada com os estudos de literatura inglesa, chegando a fazer parte do clube extracurricular coordenado pelo professor, que avalia textos para serem publicados no jornal da escola. Apenas outro colega, Jesse, se interessa pela tarefa, e ao notar o envolvimento particular entre o professor e Vanessa, deixa de frequentar as reuniões.

A participação no grupo instiga Vanessa a mostrar seus poemas a Strane, que faz comentários sobre a produção, os quais a aluna julga sérios, mas que são uma estratégia de aproximação do predador, que o faz a partir das metáforas que a literatura proporciona; o primeiro texto apresentado a Vanessa é Lady Lazarus, de Sylvia Plath, que Strane considera “um pouco exagerada, embora jovens mulheres a adorem”.

“Out of the ash/I rise with my red hair/And I eat men like air” é o verso citado pelo professor à aluna. Mas o red hair (cabelo ruivo, em português), em Plath, tem o sentido de chamas, fogo e fúria; Strane associa ao cabelo ruivo de Vanessa já como uma estratégia de manipulação: estes versos impactam Vanessa, pois seu cabelo ruivo a faz ver o poema como espelho dela mesma, poderosa e consumidora de homens. Strane dá a ilusão de poder a Vanessa com esse poema, causando a impressão de que está sob a influência da aluna, quando é justamente o contrário. É usual que homens como Strane (branco, heterossexual, escolarizado, medíocre) pensem em Sylvia Plath como “exagerada”. Conheci vários deles.

Os comentários aos poemas de Vanessa começam a ser cada vez mais ambíguos e insinuantes em relação a sexo, como na passagem em que Strane julga “sensual” a imagem de uma mulher acordando entre lençóis, consideração imprópria e estranha por parte de um professor. A narradora começa a desenvolver uma paixão platônica adolescente pelo professor. Este, ao contrário de repeli-la, começa a cercá-la: de início, uma aproximação embaixo de uma árvore, em que compara o cabelo de Vanessa a uma folha de bordo de outono. Depois, na festa de Halloween da escola, em que diz a Vanessa que gostaria de colocá-la na cama e lhe dar um beijo de boa noite na testa.

Minha Sombria Vanessa

A aproximação segue cada vez mais incisiva. Com o pretexto de uma correção aluno a aluno de ensaios, o professor chama Vanessa para sua mesa. Uma vez acomodada lá, Strane pressiona seu calcanhar contra a coxa da estudante e toca seu joelho, fato que poderia ser encarado como um simples encorajamento não fosse todo o contexto anterior. Depois, nas reuniões a sós do clube de leitura, o professor alimenta a paixão de Vanessa e propõe beijá-la. A leitura de Lolita, livro que é um clássico de conteúdo distorcido por parte de pedófilos, é sugerida por Strane, embora se trate de um livro sobre “um homem monstruoso”, conforme conclui Vanessa alguns anos depois, já em terapia com Ruby, minha personagem preferida do livro.

Alguns dias depois deste primeiro contato, Vanessa vai à casa do professor e lá tem sua primeira relação sexual, que a própria narradora descreve como desconfortável e dolorosa, apesar de reafirmar sempre seu consentimento: Strane acorda Vanessa no meio da noite e então inicia o ato para a surpresa da jovem, e a seguir temos uma descrição angustiante de um estupro que, no entanto, a adolescente não consegue ainda enxergar como tal.

Todavia, sabemos que em casos de estupro de vulnerável não se pode contar com a anuência da vítima para descaracterizar o crime. É uma relação de poder muito mais complexa que isto. Então, há a consumação de Vanessa como objeto, através da leitura de Fogo Pálido, de onde saíram os versos do título peculiar do livro: “minha sombria Vanessa, venha e seja louvada”: uma mulher descrita e cantada por um homem de modo idealizado, um objeto de adoração que em nenhum momento é interlocutora. Na descrição dos intercursos sexuais dos personagens, a pedofilia (ou hebefilia, como distingue Vanessa em uma tentativa de suavizar a perversão de Strane) fica evidente e causa profunda repulsa na personagem, que, no entanto, sufoca seu desagrado.

Os rumores do relacionamento professor-aluna passam a correr o campus, e denúncias começam a ser feitas. Jenny, outrora amiga de Vanessa, faz um levantamento sobre como Strane se comporta, e alguns alunos afirmam que Vanessa passa muito tempo no gabinete com Strane e costuma ser vista perto da casa do professor, algo que ela fazia antes por passear com o cachorro de uma professora, mas, ao notar um misto de medo e repulsa por parte do homem, abandona o hábito para agradá-lo (além de esconder sua preferência por esses animais), agora sendo vista por Norumbega (cidade onde fica o internato) passeando sozinha.

Jesse, colega do clube de seleção de textos, então, flagra professor e aluna se beijando, e posteriormente tem seu testemunho convocado no previsível processo de apuração do fato. A escola decide interrogar Vanessa, Strane e colegas sobre o ocorrido. Ao fim do processo, Vanessa assume uma culpa que não tem e afirma ter “inventado tudo e que não passou de uma paixão platônica adolescente”, o que a faz ser expulsa da escola que tanto gostava.

O processo frustrante de adaptação de Vanessa ao novo colégio e as perspectivas de futuro agora que carregava no currículo algo tão desabonador como uma expulsão escolar é relatado com o sentimento de autoengano da adolescente de que se tratou de um “sacrifício nobre” para proteger Strane. No entanto, algum tempo depois, Vanessa descobre que o professor sempre planejou a saída impune do abuso quando tem acesso a relatórios deste à diretoria, afirmando que sua aluna alimenta uma paixão por ele e que isto pode causar problemas pela “natureza imaginativa” de Vanessa, e por isso redigindo o documento aparentemente como precaução, quando se tratava de uma parte do plano para se livrar de futuras acusações.

Aceita em uma faculdade pública, Atlantica, a narradora descreve sua decepção inicial, mas depois adapta-se à vida no campus. Contudo, continua a se relacionar com Strane, recebendo visitas do ex-professor, que demonstra cada vez menos interesse sexual por ela e vai deixando pistas, também, de que nunca gostou dela como pessoa e a trata frequentemente como um problema, fazendo raras concessões afetivas. Na faculdade, Vanessa ingressa na turma de Henry Plough, professor com que ela desenvolve uma relação ambígua de amizade e atração, projetando nele o relacionamento que desejou ter com Strane. Mais uma vez manipulada pelo ex-professor, Vanessa acaba rompendo laços com Plough e se isolando novamente, tornando novamente Strane o centro de sua vida.

Os capítulos que falam sobre a Vanessa atual, de 32 anos em 2017, trabalhando como recepcionista de hotel (algo que deveria ser apenas temporário, servindo para que a protagonista levantasse fundos para poder fazer mestrado, algo que seu professor de faculdade, Henry Plough, recomendou fortemente que fizesse, mas que já se arrasta por quase sete anos) são bem mais curtos e dão um panorama geral de Vanessa como uma adulta caótica, que consome álcool e maconha de forma excessiva e tem um comportamento sexual promíscuo, marcadores típicos de vítimas de abuso para lidar com o trauma.

Durante o fluxo do tempo atual, em 2017, Vanessa é procurada por Taylor, outra das vítimas de Strane, que contou sua história de abuso nas redes sociais e recebeu tanto apoio como ódio gratuito. Vanessa, ainda em processo de se enxergar como sobrevivente de abuso, recusa as investidas de Taylor para que ela quebre o silêncio. É aí que Kate Elizabeth Russell, autora do livro, elabora sobre o problema da revitimização: mulheres pressionadas a falarem sobre suas histórias de abuso, lugares dolorosos, mas que se impõem que sejam revisitados em nome das “outras mulheres”, mesmo quando não se tem saúde psicológica para lidar com isso. E como essa sanha para que mulheres se exponham também é uma forma de assédio que abre graves feridas psicológicas. Os sobreviventes de abuso merecem respeito para falar sobre suas experiências apenas quando têm condições para tanto: uma das mensagens mais valiosas do livro.

A autora, então, traz o elemento da relação de Vanessa com Ruby, sua terapeuta, que vai aumentando de importância ao longo do livro. Ruby tem uma sensibilidade ímpar e compreende que a psique de sua paciente não está pronta para desnudar as consequências de sua vitimização de modo abrupto. Uma das coisas que percebi também é que em nenhum momento se fala sobre “superação de trauma”, algo muito positivo, pois esse tipo de dor nos marca e nos atravessa, não é algo com uma resolução definitiva a ser “deixado para trás”, como costuma apregoar o jargão do senso comum.

O final do livro tem uma mensagem alentadora: a protagonista chega ao fim da história em seu apartamento, com Jolene, seu novo animal de estimação, um cão de grande porte, que representa a emancipação da personagem e a disposição para ser o melhor de si mesma. Uma Vanessa saída das cinzas se erguendo com seu cabelo vermelho.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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