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Dark: uma história sobre amor, perda e a inevitabilidade do tempo

Quando Dark estreou na Netflix em 2017, o fez sem muito alarde. Uma produção alemã para o serviço de streaming, a série de ficção científica criada por Baran bo Odar e Jantje Friese não demorou para cair no gosto do público com uma trama envolvendo linhas temporais, viagens no tempo, muito drama e suspense. A série, concluída no último mês de junho em sua terceira temporada, se mostra praticamente perfeita do início ao fim: com uma história trabalhada em três arcos bem fundamentados, personagens interessantes e uma trama que consome o telespectador tanto quanto possível, Dark encerra sua jornada colocando-se como uma das melhores de seu gênero.

Atenção: este texto contém spoilers!

Um grande mistério é o que dá o pontapé inicial em Dark: quando uma criança desaparece sem deixar rastros em Winden, Alemanha, no ano de 2019, quatro famílias se veem envolvidas em laços, segredos e conexões que podem ser a chave não apenas para desvendar tal mistério, mas muitos outros, inclusive desaparecimentos ocorridos 33 e 66 anos antes. Além do desaparecimento de crianças de tempos em tempos, Winden guarda outros segredos, como uma usina nuclear com atividades misteriosas, uma caverna que não é simplesmente uma questão de geologia, pássaros mortos caindo do céu e um homem recém-chegado com um passado obscuro.

É nesse contexto que conhecemos Jonas Kahnwald (Louis Hofmann), um adolescente tentando lidar com o recente suicídio de seu pai, Michael (Sebastian Rudolph), retornando para o colégio após alguns meses afastado para um tratamento psiquiátrico. No seu retorno, Jonas descobre que Erik Obendorf (Paul Radom), um de seus colegas — também conhecido entre eles por vender drogas —, está desaparecido, e não demora para que seus amigos Martha Nielsen (Lisa Vicari), Magnus Nielsen (Moritz Jahn) e Bartosz Tiedemann (Paul Lux) decidam ir até a floresta, no esconderijo de Erik, pegar as drogas que ficaram por lá. Na ocasião, Franziska Doppler (Gina Stiebitz) também aparece na floresta com o mesmo objetivo, e Martha e Magnus levam com eles seu irmão mais novo, Mikkel (Daan Lennard Liebrenz) que não poderia ficar sozinho em casa.

No momento em que o grupo discute a respeito da posse das drogas e do dinheiro que encontraram, estranhos fenômenos e sons tomam conta da floresta. Assustados, todos saem correndo e, na confusão, Mikkel desaparece. Enquanto a polícia realiza buscas na área para encontrar Mikkel, Ulrich Nielsen (Oliver Masucci) — já responsável pela investigação a respeito de Erik Obendorf e agora buscando pelo próprio filho — encontra o cadáver de uma criança usando roupas dos anos 1980, mas ela não é Mikkel nem nenhuma das outras desaparecidas de Winden. O corpo, junto com o desaparecimento de seu filho, faz Ulrich se lembrar do desaparecimento do próprio irmão, Mads, 33 anos antes, um mistério sem solução até então. Com olhos queimados e os ouvidos estourados, a criança morta é um prelúdio para o que está por vir na sequência, quando descobrimos que o destino de Erik Obendorf não será muito diferente: preso a uma cadeira em um quarto com papel de parede azul brilhante, um dispositivo é colocado ao redor de seus olhos e, naquele momento, só podemos imaginar o que acontecerá a ele. No televisor, uma música pop dos anos 1980 dá a dica:

“Falling through space and time
Towards infinity
Flying moths in the light
Just like you and me
Somehow it starts sometime
Somewhere in the future”

A partir de então, uma sequência de acontecimentos bizarros tomará conta de Winden e todos os membros das famílias Kahnwald, Nielsen, Tiedemann e Doppler se verão presos em uma trama muito maior do que todos eles. O desaparecimento das crianças e o suicídio de Michael são faíscas capazes de gerar pequenos incêndios, e nada do que parecia certo o será por muito tempo. Percebemos isso quando Charlotte Doppler (Karoline Eichhorn), chefe da polícia de Winden, começa a traçar conexões entre os desaparecimentos, o corpo encontrado na floresta e o estranho fenômeno que fez com que pássaros caíssem do céu, todos com os ouvidos sangrando. Ela se lembra de que, quando adolescente, 33 anos antes, o mesmo aconteceu. Essas são apenas algumas das conexões que os envolvidos na trama começam a fazer, e tudo fica ainda mais sombrio quando Mikkel ressurge na história, nos chocando ao descobrir que não está na Winden de 2019, mas sim em 1986.

Dark

Todas as peças desse quebra-cabeças que é Dark se conectarão em determinado momento, em um ciclo perfeito, mas até lá muita coisa acontecerá nesta pequena e sombria cidade. Até o mais pacato morador do lugar tem um passado com coisas sombrias a esconder, e desenrolar esse novelo de fios vermelhos que é a série os deixará expostos, sem ter para onde correr — ou para quando correr. Idas e vindas entre linhas do tempo, realidades e mundos se mostram elos de uma corrente complexa que chega muito mais longe do que podemos imaginar quando a série tem início.

“A pergunta não é como, mas quando” 

“A diferença entre passado, presente e futuro não passa de uma ilusão.” Este é um dos conceitos chave para que o telespectador consiga entender o que se passa em Dark e acompanhar a história em toda sua complexidade, riqueza de detalhes e trama intrincada. Para os amantes de viagens no tempo, alguns conceitos, como o Paradoxo de Bootstrap e Loop Temporal, não serão novidade, sendo recursos comuns em histórias do gênero.

O diferencial de Dark, e que torna a produção uma pérola entre suas semelhantes, é o modo inteligente com que esses elementos são inseridos na história e como acrescentam camadas e mais camadas, instigando personagens e eventos para a frente. O tempo, em si, é um personagem na série (assim como a própria cidade de Winden) — um onipresente, que está sempre ali, envolvendo a vida das famílias centrais da trama e agindo de forma impiedosa e cruel.

“O tempo é importante para todos, especialmente para nós, alemães. Somos um povo melancólico por coisas que ocorreram no passado. Existem arrependimentos e o desejo impossível de ter feito as coisas de forma diferente.” — Baran bo Odar em entrevista para O Globo.

Dark

E é esta vontade dos criadores da série que se reflete de maneira tão cristalina e bem colocada nos três anos de Dark, quando somos confrontados não apenas com os complexos mistérios e confusões típicas causadas por viagem no tempo, mas com discussões profundas sobre o significado da vida, o conhecimento que temos de nós mesmos e do universo, tão vasto e inexplorado, além do que a dor, perda, luto e o amor, que transpassa e origina todos estes sentimentos, faz com o ser humano e o molda, seja para o bem ou para o mal.

Tudo isso começa com uma pergunta simples e inocente, e que acaba por se tornar o fio condutor da primeira temporada e que faz a trama avançar. “Não é como, mas quando”, é o que Mikkel responde para Ulrich ao executar um truque de mágica, e é desta forma que o roteiro nos leva a conhecer diferentes momentos da vida dos personagens principais durante os anos de 1953, 1986 e 2019. Jonas é o nosso guia nesta jornada. Vamos, junto com ele, ao menos neste primeiro ciclo da série, desvendando os mistérios que cercam Winden, independente de qual o tempo, e nos surpreendendo a cada nova descoberta. É com ele que viajamos pela primeira vez no tempo, entendemos parte da mecânica deste processo no contexto da série e percebemos que nem tudo será tão simples quanto mudar o passado para alterar o futuro.

A atitude nobre, porém tresloucada pela dor e totalmente cruel, de Ulrich ao voltar ao passado para matar um Helge (Tom Philipp) ainda criança, impedindo que ele, quando mais velho, seja o causador do desaparecimento e, posteriormente, morte de seu irmão, Mads, pode até fazer sentido, mas tem pouco efeito nas leis do tempo de Dark. Ao invés de impedir os eventos, Ulrich acaba por causá-los. Assim, a história nos mostra a que veio: o tempo é implacável e não será moldado pela vontade mundana. O tempo é Deus e nós somos peões em seu tabuleiro. Quanto mais Jonas, Ulrich ou, até, Noah (Mark Waschke), um pastor da Igreja de São Cristóvão, tentam impedir algo de acontecer e escapar do loop infinito e cheio de sofrimento que cerca suas vidas, mais eles se afundarão em sua cadeia de acontecimentos, tal qual areia movediça. Claudia Tiedemann (Julika Jenkins), diretora da usina nuclear de Winden em 1986, é outra que também acaba por aprender essa lição da pior forma possível.

Ao assumir o posto de diretora na usina nuclear de Winden, Claudia não imagina o que a aguarda e os contornos de seu novo trabalho começam a ficar ainda mais estranhos quando Helge (Hermann Beyer), o segurança do lugar, a presenteia com o livro A Journey Through Time, escrito por H.G. Tannhaus. Como se não bastasse a estranheza do presente, Claudia, quando começa a explorar os redutos escondidos da usina nuclear, reencontra Gretchen, a cachorrinha que perdeu quando era criança, em 1953. Mas como poderia ser a mesma cachorrinha se 33 anos haviam se passado desde a última vez que Claudia a viu? Dark joga no colo do telespectador cada vez mais peças de um quebra-cabeças que parece impossível de ser finalizado inserindo conceitos sobre a natureza cíclica do tempo, paradoxos, viagens no tempo e buracos de minhoca. Porém, a série consegue realizar essas idas e vindas de maneira concisa, jogando pistas e dicas para a audiência sempre que possível. Uma fotografia apoiada em um console de lareira, desenhos espalhados em um ateliê e um moletom esquecido em uma mesa de jantar podem significar muito mais do que imaginamos.

Jonas, enquanto isso, permanece como nosso guia pelos meandros de Dark. Sabemos tanto quanto ele — ou seja, praticamente nada — a respeito dos mistérios que cercam Winden, o desaparecimento das crianças e o suicídio de seu pai, e sentimos sua agonia quando tudo o que ele deseja é que as coisas voltem ao normal. Mas qual é o normal para ele, os Kahnwald, os Nielsen, os Tiedemann e os Doppler? Quando Jonas descobre que o pequeno Mikkel, desaparecido, está preso no ano de 1986 e que ele se transformará em Michael, seu pai, é como se o mundo parasse de fazer qualquer sentido. É nesse momento em que ele entende a dimensão do sacrifício feito por Michael ao decidir deixar de existir, e é também nesse momento que a primeira das três vidas de Jonas tem fim, com a perda da inocência.

“A pergunta não é quando, mas de que mundo”

Com o final eletrizante da primeira temporada, ao mostrar Jonas viajando para um futuro pós-apocalíptico, o segundo ano de Dark começa adicionando ainda mais camadas a sua trama. Agora também acompanhamos as jornadas dos cidadãos de Winden em 1921 e 2052. Com Jonas preso no futuro até encontrar um modo de reabrir a passagem do buraco de minhoca na caverna, temos um vislumbre de como o mundo se parece após sua destruição. Ao longo da temporada, descobrimos que o apocalipse foi causado por um acidente na usina nuclear, envolvendo a Partícula de Deus, e que apenas algumas pessoas sobreviveram, entre elas a pequena Elisabeth Doppler (Carlotta von Falkenhayn), filha de Peter (Stephan Kampwirth) e Charlotte.

Já a Partícula de Deus, mencionada de passagem na primeira temporada, ganha um bom destaque a partir deste momento ao se transformar no principal objeto de estudo de Claudia. Com isso, acompanhamos mais de perto a jornada dela em se tornar o Diabo Branco e vamos desvendando suas motivações e seu papel na guerra temporal entre luz e sombras. Claudia, inclusive, é uma das personagens mais interessantes de toda a série. Se nas primeiras temporadas de Dark somos levados a desconfiar das verdadeiras intenções dela e o que ela tem a ganhar com todo o drama de que é participante ativa, não demora para que a gente perceba que ela é, talvez, a única pessoa capaz de entender por completo o que está acontecendo com cada um deles. Em qualquer uma das linhas temporais, seja enquanto criança, adulta ou idosa, Claudia é aquela da fé inabalável nela mesma e, porque não, também em Jonas. Claudia precisou abrir mão de muitas coisas para seguir nesse caminho, tentando desatar os nós temporais em que todos em Winden parecem estar metidos, e é a inteligência dela que será responsável por mostrar que ainda é possível reverter toda essa situação.

Enquanto isso, neste ciclo também temos um bom vislumbre do outro lado que comanda a guerra, e em uma das revelações mais chocantes de toda a série descobrimos que Adam (Dietrich Hollinderbäumer), a pessoa que Jonas vem tentando impedir desde o começo de sua trajetória é, na verdade, ele mesmo. Em uma cena primorosa, Adam e Jonas ficam frente a frente, presente e futuro se encarando e tentando entender um ao outro. A partir deste momento mergulhamos de cabeça no Sic Mundus — organização de viajantes do tempo fundada por Adam — e entendemos que Jonas e Adam querem a mesma coisa — a quebra do loop temporal e o fim de todo o sofrimento. Jonas não parece compreender como ele se transformaria em Adam, uma criatura que lutou por muito tempo, desistiu de ter esperança e agora só conhece o pesar e a amargura de ainda não ter conseguido mudar seu destino.

“O homem é uma criatura estranha. Todas as suas ações são motivadas pelo desejo, seu caráter é forjado pela dor. Por mais que ele tente suprimir a dor, suprimir o desejo, ele não pode se libertar da escravidão eterna de seus sentimentos. Enquanto durar a tempestade dentro dele, não conseguirá encontrar a paz. Nem na vida, nem na morte. E assim ele fará, todos os dias o que for necessário. A dor é seu navio, o desejo é a sua bússola. E só disso o homem é capaz.”

A ânsia de Adam em alcançar seu Paraíso, que nada mais é do que um lugar livre de toda a dor, é tanta que, no último episódio da temporada, ele não hesita em seguir os passos designados pelo loop e acaba matando Martha, o amor de sua vida, na frente de sua versão mais jovem. Tudo isso pensando que, se seguir o caminho predestinado, ele conseguirá seu objetivo, não importando o custo. Em mais uma reviravolta de deixar sua audiência desnorteada, nos últimos segundos surge uma Martha com cabelos pretos e franja, enquanto a Martha que sempre conhecemos jaz morta no chão. Jonas, confuso, pergunta de qual tempo ela é, e é neste momento que a simples frase que nos guiou até aqui ganha uma nova versão, com implicações deveras mais complicadas: “A pergunta não é quando, mas de que mundo.”

“O fim é o começo e o começo é o fim”

Como seria um mundo em que Mikkel não tivesse voltado no tempo e Jonas nunca tivesse nascido? Um mundo em que Torben Wöller (Leopold Hornung) perdeu seu braço em um acidente e não seu olho? Um mundo em que Ulrich trai sua esposa com Charlotte? São essas questões, e muitas outras, que o terceiro e último ano de Dark começa a responder após nos chocar com a existência de outro mundo. Com uma Winden geograficamente igual a que já conhecemos, mas com muito mais neblina e com todos os objetos e ambientes espelhados, o lugar de onde a Martha de cabelos pretos vem reflete de forma distorcida a realidade e situações que acompanhamos anteriormente; mas não se engane, a jornada destas versões pode ser diferente, mas seus finais são sempre iguais: presos em um ciclo eterno, reféns dos jogos temporais orquestrados pela versão de Adam deste mundo, Eva — que nada mais é do que uma Martha mais velha.

Com a inserção de Eva na trama, finalmente temos um vislumbre completo de todas as peças do tabuleiro e mergulhamos totalmente na mitologia que a série insere em suas narrativas desde a primeira temporada, nos trazendo um quinhão de referências bíblicas e filosóficas. O entremeado das viagens temporais também fica — ainda — mais complexo, já que agora a história transita não apenas entre tempos, mas entre mundos e também realidades alternativas. Mas, a série faz isso com tanto cuidado didático e zelo que mesmo as decisões mais forçadas, que parecem nada mais do que recursos narrativos para trazer um personagem principal de volta à vida, são compradas e aceitas pelo telespectador.

Também é neste momento que os conceitos de física quântica, como a sobreposição quântica, exemplificada pela teoria do Gato de Schrödinger, ganham força total. Com grande cuidado de explicar todos os conceitos de forma acessível, a série nos cativa e mantém a roda de perguntas girando a todo vapor ainda em seu terceiro ano, nos fazendo quebrar a cabeça a cada novo episódio quando apresenta mais e mais perguntas que desafiam a capacidade de pensar logicamente de quem assiste. Como assim Bartosz é, na verdade, pai de Noah? Como assim a esposa de Egon (Sebastian Hülk), Doris (Tamar Pelzig), teve um caso com a neta do marido? Acontecimentos mirabolantes que só são possíveis graças a fluidez e sobreposição do tempo, e essa é a beleza de Dark.

Toda essa beleza, entretanto, em determinado momento da metade de seu último ano, começa a cair na própria armadilha e exaure o seu público por manter o fluxo contínuo de perguntas sem dar em troca, algumas que sejam, das preciosas respostas pelas quais todos estão tão ávidos. Mas o leve tropeço não dura muito tempo e o primor do sétimo episódio, “Entretempo”, apaga qualquer sensação de que Dark não teria fôlego para se explicar de forma completa.

Causa e efeito. Ação e reação. É desta forma que todos os passos entre os dois lados da guerra entre luz e sombra podem ser descritos. Adam, de um lado, lapidado pela dor da perda e o desejo sublime de uma escuridão de sentimentos; de outro, Eva, moldada pelo instinto de sobrevivência e pelo amor por seu filho, movendo todas as peças do tabuleiro para assegurar que seu bem mais precioso viva sempre, causando assim toda a cadeia de eventos que entrelaçam os dois mundos.

Dark

Para entender a jornada de Eva e seus objetivos, basta olhar para a jornada de Adam. Ambos tentaram durante grande parte da vida mudar seus destinos, se libertar das amarras cruéis do tempo, perdendo no caminho a ingenuidade e inocência, ao serem manipulados e enganados, e cada segundo que vivenciaram os tornou as pessoas que olham para nós na terceira temporada. Para Jonas, o ponto de virada foi a morte do amor de sua vida; para Martha, a descoberta de que carrega o filho de Jonas de outro mundo, e que esse filho seria a semente de tudo o que viveriam depois.

Em sua cena final, após a quebra do loop temporal e da erradicação dos dois mundos, somos finalmente apresentados à realidade como ela é — ou como deveria ter sido durante todo esse tempo. Peter, Benni (Anton Rubtsov), Regina (Deborah Kaufmann), Hannah (Maja Schöne), Katharina (Jördis Triebel) e Woller sentam à mesa de jantar, no que pode ser referência a Última Ceia, e felizes, riem, comem e bebem, como bons e velhos amigos. A combinação improvável dos personagens é o que restou daqueles que conhecemos após a quebra do ciclo temporal, tudo porque a salvação só era reservada para aqueles que não tivessem relação direta com o filho de Jonas e Martha.

A sequência nos deixa com um gosto de quero mais e com espaço para a criação de teorias, tudo balanceado de forma equilibrada, bem da maneira como só os roteiristas de Dark parecem saber fazer. Em um passo que nos mostra, pela última vez, que o nosso pensamento dual está errado; não é isto ou aquilo, mas há uma infinidade de possibilidades no meio, a série planta uma última pulga atrás de nossa orelha com o recurso do dejá-vu e a perspectiva de que talvez Jonas possa existir no mundo de origem, seguido de, quem sabe, Bartosz, e por que não?, Martha. O céu é o limite, e há muitas coisas entre aqui e lá que nem sonhamos em imaginar.

Além de toda a qualidade de escrita, com um roteiro impecável e praticamente isento de furos, mesmo que a história apresentada seja de extrema complexidade no modo como é contada, Dark também possui outras qualidades que a tornam uma obra completa. A trilha sonora, fotografia e direção de arte são a tríade que fazem a série saltar a olhos e ouvidos. Com um estilo de produção muito diferente do que estamos usualmente acostumados quando pensamos nas produções hollywoodianas, a série alemã não tem medo de usar o silêncio como instrumento, principalmente em seu primeiro ano, dando um caráter melancólico e contemplativo que casa muito bem com a aparência e clima de seu cenário.

E quando decide lançar mão das músicas, sejam instrumentais ou não, o faz com excelência, deixando o espectador tenso, assustado, maravilhado ou emotivo — e contando, por si só, uma história à parte com as letras das músicas, começando pelo tema de abertura da série, a música “Goodbye”, da banda Apparat, que pode ser interpretada como um foreshadowing do final da série. Praticamente todas as músicas presentes na trilha sonora de Dark dão dicas sobre o futuro da série e de seus personagens. A já citada “Irgendwie, Irgendwo, Irgendwann”, canção pop da década de 1980, já entrega a conexão entre os personagens que viajam no tempo. Em português, o título da música é traduzido como “de alguma forma, em algum lugar, em algum momento”, que se conecta, inclusive, com o trágico destino de Jonas e Martha.

Par perfeito

Toda a trama de Dark se desenrola por causa do amor. Quando começamos a assistir a série essa é uma das últimas coisas que pensamos enquanto audiência: que o que estamos prestes a assistir é uma história sobre amor, perda e a inevitabilidade do tempo. Em entrevista de divulgação da terceira temporada para o portal IGN Brasil, os intérpretes de Jonas e Martha, Louis e Lisa, reforçam esta visão, que esteve ali o tempo todo, mas que só passamos a realmente enxergar neste último ano da série, quando todas as peças do quebra-cabeça começam a se encaixar e fazer mais sentido.

“Tudo o que os personagens fazem, eles fazem por aqueles que amam ou simplesmente pelo amor. (…) É um grande e recorrente tema em toda a série, mas acho que, especialmente, nesta terceira temporada. Você realmente vê que a motivação por trás de tudo, na maioria das vezes, é o amor.”

O amor que Claudia sente por Regina (Lydia Makrides) foi o que fez com que a Diabo Branco ludibriasse Adam e Eva tal qual a serpente no Jardim do Éden. Também foi amor de Michael por Jonas que o fez decidir pelo suicídio, sabendo que seria impossível o filho existir em um mundo em que ele não voltasse para 1986. O amor também é o que move Eva e seu plano de manter os dois mundos em um loop eterno, afinal ela não queria que seu filho deixasse de existir.

É também o amor de Jonas por Martha que o faz tentar, durante anos, quebrar o ciclo que a mata no final. É o amor de Ulrich por Mikkel que o faz atacar Hegel, ainda criança, para evitar que o filho desapareça no futuro. Katharina parte em busca de Ulrich e de Mikkel sem saber onde está se metendo, também por amor. E até mesmo Noah, aquele que detestávamos nas duas primeiras temporadas, rompe com Adam em nome do que sente por Elisabeth (Sandra Borgmann) e Charlotte. E, antes de tudo isso, é o amor — e a dor da perda — de H. G. Tannhaus (Christian Steyer) por seu filho e a família que o faz construir a máquina do tempo que romperia sua realidade em dois mundos ao tentar trazê-los de volta à vida.

“O amor é a única coisa que somos capazes de perceber que transcende as dimensões do tempo e do espaço, talvez devamos confiar nele mesmo que não o entendamos ainda.”

A frase emprestada do filme Interestelar (2014), onde o destino dos personagens também é moldado cruelmente pela viagem temporal, descreve perfeitamente como o sentimento entrelaça o destino de todos em Dark, tornando-os escravos daquilo que sentem, mesmo que seja algo nobre.

Não é à toa que amor e perda andam de mãos dadas na série, e tanto quanto o amor tem sua parcela de culpa nos eventos que movem a narrativa adiante, o mesmo tem a perda e o desejo. Tal qual o fio vermelho do mito grego de Ariadne, que é o guia de Teseu no labirinto para escapar do Minotauro, aqui o fio desses sentimentos liga o tempo, mundos e os destinos dos personagens, tudo em um só nó emaranhado que não pode ser totalmente rompido, ou apagado, mesmo que a origem do loop temporal seja desfeita, como deixa bem claro a cena que encerra a história.

“Não somos livres nas nossas atitudes porque não somos livres nos nossos desejos, não conseguimos ir contra aquilo que está dentro de nós.”

Dita pela primeira vez por Jonas na idade adulta para seu eu mais jovem, esta frase perpassa diversos momentos de Dark e descreve a trajetória da maioria dos personagens, especialmente a do próprio Jonas que, conduzido pelos seus desejos e vontades de acertar as contas com o tempo, acaba por se transformar naquilo que mais desprezava: Adam.

Destaque no início da terceira temporada, a frase semelhante de Arthur Schopenhauer, que afirma que “O homem é livre para fazer o que quer, mas não para querer o que quer”, reforça a ideia de que nosso livre-arbítrio não existe totalmente, não somos cem por cento livres; se somos escravos da dor e do desejo e, como dito por Adam na segunda temporada em citação destacada anteriormente, se é isto que nos guia em cada passo do caminho, como podemos realmente separar nossas ações e decisões daquilo que habita em nosso cerne? Como podemos tomar um caminho diferente quando somos confrontados com a nossa vontade mais profunda? É assim que Jonas, com seu desejo de, primeiro, salvar a vida de seu pai, mesmo que isso signifique o fim da sua existência e, após a morte de Martha, passar a buscar incansavelmente um modo de quebrar o loop de horror, faz o que faz, chegando a sua versão deteriorada e que, tomada por uma dor excruciante, deseja nada mais do que a escuridão e um grande nada, onde o tempo, nem a dor, tenham poder sobre ele e aqueles a quem ele prometeu o Paraíso.

Outra jornada marcada pelo desejo, pelo anseio, pelo querer, é a de Hannah, mãe de Jonas. Desde adolescente, ela nutre uma obsessão por Ulrich, que no fim acabou se casando com Katharina. Incansável em alcançar seu objetivo e saciar sua vontade, ao imaginar que apenas com Ulrich ao seu lado seria completa, ela não poupa artifícios, manipulações e ameaças para tê-lo. Quando a história a leva para longe de Ulrich, que ela percebe ser incapaz de preencher suas expectativas, é em outro homem, Egon Tiedemann de 1953, que Hannah passa a buscar tais sentimentos. Mais um vez, não dá certo. Desta forma, impossibilitada de preencher seu desejo para suprimir a dor do vazio e da solidão, ela passa grande parte da vida escrava de seus sentimentos, sem de fato ter poder sobre suas ações, criando um rota de destruição emocional por onde passa.

A perda e a culpa também deixam cicatrizes profundas na mãe de Katharina, Helene Albers (Katharina Spiering) que, após realizar um aborto muito jovem, passa o resto da vida assombrada pela sua decisão, se tornando uma pessoa amarga, abusiva e desprovida de carinho, o que no fim a leva, consumida pela loucura de que está sendo assombrada pelo bebê que abortou, a matar sua filha de verdade, Katharina, que viajou no tempo para o passado, em um plot twist possível apenas dentro de Dark e suas insanidades temporais.

Com isso, somos levados a refletir sobre verdades profundas, existência e o sentido de tudo que somos e fazemos. Quando a sua existência está em jogo, qual será sua atitude frente às decisões que precisam ser tomadas? É melhor viver em sofrimento eterno, com as tragédias se repetindo de novo e de novo e de novo, ou aceitar que a vida deveria ser mais do que apenas sobreviver e escolher que alguns possam ter a chance de viver de forma plena seus destinos, mesmo que você não faça parte desta equação?

A trajetória de Martha e Jonas levanta algumas dessas questões. O peso de serem os criadores de todo o caos que entrelaça dois mundos em uma guerra temporal, cheia de crueldade e angústia, e ao final descobrirem que tudo, de fato, não passa de um erro na matrix, que eles são o erro, que precisa de um reboot e impedido antes de existir, carrega uma carga dolorosamente perversa, ao mesmo tempo que é, também, poética. A impossibilidade das circunstâncias os tira a chance de tentar preencher seu desejo mais profundo — ficarem juntos —, primeiro por serem parentes, e depois, com a Martha de outro mundo, por serem os causadores de toda dor e sofrimento alheio. Do sacrifício dos dois, nascido da promessa — de um para o outro e também para aqueles que amam — de que iriam consertar tudo, é que a série, em seu ato final, nos entrega um desfecho agridoce, que ao mesmo tempo faz jus a todo o caminho que trilhou.

O Paraíso

“O começo é o fim e o fim é o começo”. É com essa frase que durante suas três temporadas Dark nos diz, incansavelmente que tudo está conectado, sejam tempos, mundos ou pessoas. Como se quebra um loop que tem se repetido infinitamente por milhares de anos? Ora, voltando ao seu começo, sua origem, é claro. A busca pelo Big Bang que entrelaçou os tempos e mundos de Dark é algo que consome a vida de Jonas/Adam e em sua terceira temporada, ganha destaque na trama da série.

Durante a espera pela última temporada, muito se especulou que o final da série seria o seu começo, honrando a icônica frase, mas tal conclusão seria fácil e simples demais para uma produção como Dark. Isto, no entanto, não significa que o fim não tenha sido, de fato, o começo — um novo (re)começo.

Quando Claudia apresenta a solução para Adam e os eventos que se seguem levam, finalmente, à quebra do laço temporal, podemos dizer que a profecia do Paraíso dele se cumpriu — não da forma como imaginada por ele, mas à sua própria maneira. Enquanto os personagens que fazem parte da árvore genealógica iniciada pelo ciclo desaparecem, podemos ver nos semblantes de Claudia e do Jonas adulto o alívio, a leveza e a libertação ao perceberem o que está acontecendo. Claudia, por saber que ao cumprir sua missão, Regina viverá, e tudo pelo que ela lutou não foi em vão, e Jonas, com um sorriso surpreso e melancólico no rosto, por saber que seu tormento chegou ao fim — e que, finalmente, toda a dor que ele já sentiu será apagada.

Christine Leunens escreve no livro O Céu que nos Oprime, que, se pudesse parar o tempo, o faria. Mas a escritora sabe algo que os moradores de Winden sofrem para entender: o tempo, afinal, é o maior ladrão de todos e no final ele rouba tudo, a verdade e a mentira, e o que mais encontrar pela frente. Em determinado momento da série, quando Jonas encontra Martha na beira do lago, ele questiona o fato de que usarmos a expressão “ter tempo”, e é ele mesmo quem encerra o questionamento pontuando que não podemos ter tempo quando é ele que nos tem.

Jonas e Martha, em um cena dolorosamente linda, se despedem nos deixando com mais um questionamento que transcende a ficção: realmente existimos ou tudo o que somos e fazemos não passa de um sonho? Afinal, “o que sabemos é uma gota, o que ignoramos um oceano”, e isso Dark nos mostra com maestria do início ao fim, como poucas séries conseguem fazer atualmente. Saber a hora de parar, de dar adeus, não é apenas uma lição dada a nós por Jonas e Martha, mas também por Baran bo Odar e Jantje Friese. Dark se encerra com uma narrativa de alto nível, ciente de que com o tempo não se brinca, apenas se aceita.

Texto escrito em parceria por Debora e Thay.

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5 comentários

  1. Série incrível. Texto incrível. Eu só fiquei perdida nessa parte “Como assim a esposa de Egon (Sebastian Hülk), Doris (Tamar Pelzig), teve um caso com a neta do marido?” Não entendi ?

    1. Oi Ilana! Que bom que gostou do texto!
      Quanto a sua dúvida, Egon e Hannah tiveram Silja, que é a mãe da Agnes. Agnes teve um caso com a Doris, portanto Doris teve um caso com a neta do marido, Egon! Só no Casos de Família, rs

  2. Acho que só poderíamos dizer que o tempo nos rouba as coisas se nós realmente possuíssemos algo. Talvez faça parte da natureza apenas ser, nunca possuir de verdade.
    Não acredito que os personagens que agiram baseados em seus desejos profundos estavam cegos e fora de controle, pelo contrário: suas ações seguiram seus desejos e isso é uma racionalidade legítima e autêntica, natural. Talvez seja cruel acreditar que nossas emoções são prisões quando na verdade são feitas de quem somos, nossas experiências e decisões e contextos. Escolhas, raciocínio e sentimentos são indissociáveis.
    Ótimo texto e reflexões! Obrigada 🙂

  3. A terceira temporada foi brilhante, do inicio ao fim. Como a série toda, né? Coesão e coerência total. Tudo fez sentido, e ainda tem coisas para explorar e teorias para se pensar (agora que terminou). E a última temporada nos deixou essa mensagem de que os personagens fizeram muita coisa por amor, algo que lá na s1, a gente nem pensava (até mesmo por essa pegada mais dark da série). Me emocionei horrores com o final. Belo texto!

  4. Que análise fenomenal…uma das mais coesas e profundas que encontrei.
    Quanto à série, eu creio que o discurso de que foi “por amor”, etc., é meio político, acho o ser humano putrefo e foi o que mais se viu por lá e por aqui, não desconsiderando alguns pontos sinceros onde existiram esse sentimento. O que baseou a série foram mais os relacionamentos humanos , e seu egoísmo desenfreado, ego, com o alicerce no Si-fi espetacular.