Categorias: CINEMA, MÚSICA

Um passeio musical pela carreira de Barbra Streisand

Ainda é inacreditável que Barbra Streisand seja a única mulher a ter ganho um Globo de Ouro na categoria de Melhor Diretor, pelo filme Yentl, de 1983, como ela mesma ressaltou em seu discurso na última edição do evento. Para mim, esse prêmio, em uma Hollywood comandada pelo Clube do Bolinha, é a coroação de mais um degrau no qual Streisand conseguiu subir. Cantora, atriz, produtora e agora diretora, também. Ela nunca se ateve a um único papel, e seu último show, lançado pela Netflix, celebra uma carreira fantástica em todas essas esferas.

Barbra, Suas Memórias, Sua Magia é uma trajetória por meio de músicas que contam sua própria história no show business. A principal característica desse espetáculo (além de ter sido produzido e dirigido por ela) é o jogo de cantar uma música e conversar com o público sobre elas, ou sobre outros aspectos de sua carreira. Isso adiciona um toque de intimidade, pois ela se senta em um banquinho, ao lado de uma mesinha com um bule de chá, e começa a relembrar suas histórias — que não são poucas. Ao fundo, temos um painel com todos os álbuns dela lançados até hoje. Como a própria Barbra Streisand diz em um momento, ela já perdeu as contas de quantas vezes eles ficaram em primeiro lugar. É uma mistura bem engraçada do ícone Streisand e da mulher que vibra com um food truck de sorvetes nos bastidores. Me parece um pouco como o documentário Gaga: Five Foot Two, em que nós percebemos que o nosso artista favorito é uma miríade de pessoas, nunca uma coisa só.

Como a história da vida de Barbra daria um livro e poderíamos falar sobre ela durante horas, decidi fazer uma lista de determinadas músicas de Barbra, Suas Memórias, Sua Magia que dão uma palhinha de sua carreira, que remonta ao ano de 1963 — uma oportunidade de conhecer a Gorgeous Streisand.

“The Way We Were”, trilha sonora de Nosso Amor de Ontem

Se Barbra é boa em nos emocionar cantando, vocês imaginem atuando em uma das histórias de amor mais famosas do cinema, que ocupa o quinto lugar na lista da AFI (American Film Institute) dos maiores filmes de romance. Nosso Amor de Ontem foi o sexto filme de Barbra Streisand para o cinema, mas o primeiro em que conseguimos vislumbrar sua maturidade enquanto atriz. Na trama dirigida por Sydney Pollack, Barbra é KK-Katie Morosky, uma judia comunista, que se apaixona por um protestante, Hubbell (Robert Redford). As diferenças políticas entre eles não são um empecilho para o sentimento que nasce entre eles, apesar de o espectador ver o desconforto que Katie causa em Hubbell. Uma mulher inteligente e difícil de amar, assim é Katie. A personagem de Streisand assinala, mais uma vez, a falta de disposição da atriz em interpretar papéis rasos. Katie é militante, ela ama, ela odeia e, em determinado momento, esses adjetivos vão acabar em algo ruim. A música-título, “The Way We Were”, é a cereja no bolo desse filme complexo.

“Você é um costureiro compondo para um artista. Se esse artista for Barbra Streisand, você precisa fazer ajustes até que a música esteja confortável para ela”, declarou Marvin Hamlish, o autor da música “The Way We Were”. Por isso, tanto ele quanto os autores da letra, Alan e Marilyn Bergman, aceitaram as duas sugestões da cantora. A primeira dizia respeito a um detalhe na melodia; a segunda, para trocar a primeira palavra da canção que era daylight [luz do dia] e acabou ficando memories [memórias]. Esse pequeno detalhe nos mostra o quanto Barbra sempre foi uma artista com total controle sobre sua carreira e escolhas. Ela sabia o que ia funcionar melhor para si. Nessa época, eram poucas artistas que podiam controlar suas carreiras e tomar as próprias decisões. Dolly Parton só conseguiria isso após um longo processo contra seu empresário, Porter Wagoner, por exemplo.

“The Way We Were” foi indicado ao Oscar de Melhor Canção Original e venceu. Essa é a canção que abre o show da Netflix.

“Papa Can’t You Hear Me?”, trilha sonora de Yentl

Yentl é um filme tão representativo, não apenas pelo fato de ele ter dado o único Globo de Ouro de Melhor Diretor a uma mulher, mas por toda a história dentro e fora dele. Dentro, temos a história de Yentl, uma garota judia que precisa desafiar o pai para conseguir estudar. Em uma sociedade nada igualitária, ela precisou criar uma persona masculina para fazer tal coisa. A canção “Papa Can’t You Hear Me?” marca um momento de virada no filme, quando o pai da protagonista morre e ela precisa assumir seu destino, no caso uma vida masculina. A letra dessa canção versa sobre o medo de decepcionar nossos pais para sermos quem desejamos ser, algo que muitas vezes nossos progenitores não entendem:

“Papai, perdoe-me
Tente me compreender
Papai, você não percebe que eu não tinha escolha?”

Mais do que isso, nesse momento, a protagonista do filme está deixando de ser a daddy’s little girl, a garota obediente, que aceita tudo. Talvez seja por isso que essa música em especial me emociona tanto, porque ela fala sobre esse caminho sem volta que é romper com as convenções sociais. Como esse caminho é repleto de pedras, como nossos pés ficam calejados, mas no fim, como vale a pena. No caso da menina Yentl, estudar era um caminho sem volta, e ela o conseguiria a qualquer preço, não importasse a via. Yentl, o filme, no entanto, enfrentou diversos percalços para ser concluído. Para começar, foi filmado na Polônia, no momento em que o país enfrentava uma guerra. Depois, os figurões da United Artists (um ramo da MGM) duvidaram da capacidade do filme de levar as pessoas ao cinema. Além, é claro, do fato de Yentl ter sido o primeiro trabalho que Barbra pôde dirigir, algo que ela almejava desde a época de Funny Girl, quando o diretor do filme, William Wyler, lhe deu um megafone de presente. Não que ela já não tivesse colocado a mão na massa antes — Streisand fora produtora de A Star Is Born, remake da famosa história de autodestruição estrelada por Judy Garland e que terá outro remake com Lady Gaga. Mas sabe como é: se não fazem direito, faça você mesma. Foi o que Streisand fez ao dirigir.

Ela pagou o preço por dirigir um filme, o primeiro de tantos outros sucessos, como O Príncipe das Marés e O Espelho Tem Duas Faces. Yentl era um filme de celebração, sobre mulheres que podiam sonhar com um destino diferente, para além das esferas privadas, mas, segundo Barbra, muitos não conseguiam ver essas qualidades. Apesar de ter vencido o Globo de Ouro de Melhor Diretor, na disputa pelo Oscar ela ficou de fora da categoria equivalente, muito embora o filme tenha sido indicado em outras categorias, como Melhor Atriz Coadjuvante. Ter sido esnobada a deixou muito magoada, o que explica o hiato entre Yentl e o filme seguinte que ela dirigiria, O Príncipe das Marés. Segundo a própria Barbra: “Eu devo ter me magoado mais do que pensei, pois não quis dirigir durante anos.”

“Don’t Rain On My Parade”, trilha sonora do filme Funny Girl: Uma Garota Genial

Barbra Streisand

Você quer uma rainha que empatou no Oscar com uma das atrizes mais consolidadas de Hollywood, Katharine Hepburn, por sua performance em Funny Girl? Em uma época em que as pessoas já tinham trocado o cinema pela televisão há pelo menos 20 anos, o musical Funny Girl: Uma Garota Genial levou milhares de pessoas ao cinema. Para um musical, gênero que já não fazia mais tanto sucesso quanto antes, foi a glória. Funny Girl foi o filme de estreia de Barbra Streisand, que já havia interpretado esse papel na Broadway anteriormente. A história real de Fanny Brice, atriz e cantora que trabalhara no rádio e no cinema, se parecia muito com a da própria cantora: sua beleza nada convencional era um empecilho para o alcance do estrelato. Isso fica bastante evidente logo na primeira música do filme, “If a Girl Isn’t Pretty”, na qual Fanny discorre sobre os padrões de beleza que massacram as mulheres. Se uma mulher não é bonita, ela discorria, ela só receberá tapinhas no ombro — e isso nunca foi tão verdadeiro.

A direção de William Wyler trouxe o melhor de Barbra para o cinema: sua capacidade imensa de fazer piada consigo mesma. A todo momento temos um toque da personagem, que faz piada de si por causa de sua aparência. Barbra faria troça do seu nariz durante muitos anos.

O “bagel no meio dos pães”, como Fanny costumava descrever-se, alcança o sucesso após uma performance na qual ela anda de patins pelo palco, de uma maneira bastante desajeitada que acaba conquistando o público. O filme também contém um romance entre a personagem principal e Nick Arnstein (Omar Sharif), cheio de idas e vindas. Nessas idas e vindas, descobrimos o quanto a personagem de Streisand ama esse homem, ao ponto de se juntar a ele aonde ele estiver. É nesse contexto em que ela canta “Don’t Rain on My Parade”. Apesar de estar inserida em um momento pouco empoderador, acredito que essa música representa boa parte do que foi/é a carreira de Barbra: fazer o que você quiser, sem ninguém para cortar seu barato.

“Don’t tell me not to fly
I’ve simply got to
If someone takes a spill
It’s me and not you
Who told you you’re allowed to rain on my parade”

“Não me diga para não voar
Eu simplesmente tenho que fazer isso
Se alguém leva um tombo
Sou eu e não você
Quem disse que você está autorizado a fazer chover no meu desfile”

Foi com esse espírito de “não corte meu barato” que ela passeou por diversos gêneros musicais, como o disco e o pop. Particularmente, adoro a fase mais pop de Streisand, uma clara demonstração de que ela realmente podia fazer de tudo, com a mesma qualidade de quando cantava musicais. Acho que isso representa o espírito livre que cada uma de nós almeja para si, poder fazer coisas sem se prender a um determinado estereótipo. Ao fazer um dueto com Donna Summer, por exemplo, ela mandou para o espaço a ideia de que não poderia fazer música disco. Fazer música disco, ou mesmo pop, entretanto, não significou o abandono do gênero com o qual ficou mundialmente conhecida: os musicais. Como ela mesma conta no show da Netflix, quando quis gravar um álbum com canções de musicais, as pessoas tiveram dúvidas. Quem vai ouvir um álbum com esse tipo de música? No entanto, o tempo provou que se queria, sim, ouvir a Barbra Streisand dos musicais, pois esse álbum ficou em primeiro lugar nas paradas, um feito que ela já cansou de repetir.

“No More Tears (Enough is Enough)” — dueto com Donna Summer

Barbra Streisand

Uma das músicas mais dançantes de todos os tempos, “No More Tears” começa como uma balada lenta, algo bastante Barbra Streisand, mas aí vem aquele batidão da disco music para dizer que você, mulher, não é obrigada a aguentar um cara que não ama mais:

“Olhe bem nos olhos dele e simplesmente grite
Basta!
Não posso continuar, não posso continuar
Basta!
Quero que ele saia por aquela porta agora”

Lançada nos álbuns de Barbra e Donna, “No More Tears” foi uma união interessante entre duas cantoras que não compartilhavam muito em comum no que dizia respeito ao estilo musical. Porém, o fato de ser tão inusitado, além da qualidade fabulosa dos arranjos, levou a música à posição número 1 da Billboard, dois meses após seu lançamento, tendo estreado em 59º lugar. Infelizmente, as duas cantoras nunca cantaram a música ao vivo, embora tanto Barbra como Donna incluíram-na nos repertórios de seus shows. No concerto da Netflix, Barbra é acompanhada por suas maravilhosas backing vocals durante “No More Tears”.

Aliás, uma história interessante é que “No More Tears” entrou para o álbum de Barbra intitulado Wet, no qual todas as músicas contêm alguma relação com água, seja nos títulos ou nas letras. A princípio, Streisand não queria que essa música fosse incluída no álbum, pois ela não fazia referência à água, algo crucial para o conceito do projeto. Se você observar, até as fotos de Wet remetem à água. Diva criando álbuns conceituais antes mesmo de Lana del Rey. Assim, o autor da letra de “No More Tears” teve de adicionar a estrofe “It’s raining, it’s pouring” [“Está chovendo, está trovejando”] para que ela aceitasse a inserção.

A parceria entre as duas cantoras fez o filho de Barbra, Jason, vibrar. Ele era um grande fã de Donna Summer. Inclusive, em uma das fotos da famosa sessão P&B, Jason está com a mãe.

As músicas selecionadas compreendem o básico, aquele Barbra Streisand for dummies [“Barbra Streisand para leigos”]. No entanto, acredito que esse intensivo já fale por si sobre artista, seu talento e sua influência na música. Seu último álbum de estúdio, Encore: Movie Partners Sing Broadway, é mais uma vez uma volta ao gênero que a tornou tão famosa. Com parcerias de peso, como Hugh Jackman e Daisy Ridley, ela dá um refresh em canções de musicais, inserindo trechos inteiros em que ela atua com seus parceiros. Há espaço até para uma discussão conjugal com Jackman, quem diria! A volta de Barbra aos musicais só prova que, aconteça o que acontecer, nós jamais nos cansaremos dela. Ou de sua carreira brilhante. Vida longa, Gorgeous!

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