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Spencer: uma fábula de uma tragédia verdadeira

A história da desventurada Princesa Diana vive no imaginário popular mesmo daqueles que sequer eram nascidos enquanto ela estava entre nós. De seu casamento digno dos melhores contos de fadas ao seu falecimento precoce, todo mundo sabe um pouco sobre a vida da Princesa de Gales — o que é o mesmo que dizer que, de fato, nada sabiam sobre Diana Spencer per se. Nascida em julho de 1961, em Sandringham, Reino Unido, sua trajetória já foi alvo de uma leva de filmes, livros e séries de televisão, mas, talvez, poucas dessas produções tenham conseguido chegar a um retrato tão cru dos sentimentos claustrofóbicos que viviam em Diana quanto Spencer, longa dirigido por Pablo Larraín e protagonizado por Kristen Stewart.

Atenção: este texto contém spoilers!

O filme, com quase duas horas de duração, se passa durante os três dias de festividades de Natal da família real britânica em 1991. Quem assistiu The Crown, produção da Netflix, se lembrará do episódio da quarta temporada em que todo o círculo íntimo da Rainha Elizabeth II se reúne na Sandringham House para passar os dias que antecedem o Natal entre almoços, jantares, missas e confraternizações em família. No longa, tudo o que Diana (Stewart) sente é uma sufocante necessidade de fugir desde o primeiro instante em que coloca os pés na enorme propriedade dos Windsor. Spencer lida especialmente com o período em que o casamento de Diana e Charles (Jack Farthing) já está por um fio, com o Príncipe de Gales não fazendo a menor questão de esconder seu affair com Camilla Parker Bowles (Emma Darwall-Smith) dos olhos de todos, enquanto Diana sente-se cada vez mais sozinha e isolada do restante da família.

Os fotógrafos e jornalistas, ainda que não apareçam de fato durante o filme, são presença constante ao redor da família real, uma ameaça pairando sobre as cabeças de todos, apenas esperando uma cortina entreaberta para fotografar a intimidade daqueles que se reúnem em Sandringham House para o Natal, especialmente a Princesa de Gales. Diana, enquanto isso, tenta lidar sozinha com os fantasmas que a assombram, seja a triste versão de Ana Bolena (Amy Manson), a segunda esposa do Rei Henrique VIII e Rainha consorte da Inglaterra, que surge em seus momentos de maior temor e paranoia, ou a complicada realidade de sua bulimia nervosa. O peso que Diana carrega sobre os ombros não parece comover seus familiares, e para além de seus filhos, William (Jack Nielen) e Harry (Freddie Spry), apenas Maggie (Sally Hawkins) e Darren (Sean Harris), camareira e cozinheiro em Sandringham House, respectivamente, parecem se preocupar genuinamente com a princesa. A solidão de Diana é palpável em seus longos olhares para a imensidão do terreno ao redor de Sandringham House, sempre parecendo procurar uma maneira de escapar da situação em que se encontra, sentindo-se nada mais do que uma bela ave de penas brilhantes presa em uma gaiola dourada para o prazer de todos — uma analogia deixada sem meias palavras por Pablo Larraín quando Diana se compadece dos faisões da propriedade, alimentados e cuidados apenas para serem alvejados pelos tiros da família real em mais uma de suas muitas tradições sem sentido.

Spencer, inclusive, retoma a questão das tradições da família real em diferentes sequências do filme, apontado como certos costumes são arcaicos, mas seguem fazendo parte da rotina de seus membros mesmo assim. Ao chegar em Sandringham House, por exemplo, é tradição que todos sejam pesados em uma antiga balança para que, ao deixarem a casa ao final das festividades natalinas, tenham engordado, comprovando que se divertiram realmente e aproveitaram os banquetes de final de ano. Para Diana, já acuada frente a tantas tradições que a deixam em carne viva, essa é mais uma cutucada em uma ferida aberta devido à bulimia. O Major Alistair Gregory (Timothy Spall) faz questão de que Diana seja pesada como todos os demais ao chegar em Sandringham House, inclusive a Rainha Elizabeth II (Stella Gonet), o que a deixa mortificada. Esse é apenas um entre vários embates entre Diana e Alistar, que a segue como uma sombra — se a pedido de Charles, de Elizabeth II ou outro membro da família, Diana só pode imaginar.

Os dias se arrastam na enorme propriedade e Diana está sempre sozinha, procurando evitar a presença dos familiares de seu marido, se refugiando com os filhos ou lendo um velho exemplar sobre a vida de Ana Bolena que foi deixado em seu quarto. As tradições pouco importam para Diana, apenas seus filhos fazem do final de semana algo tolerável, mas apenas nos momentos que compartilham juntos. É doloroso ver o quanto Diana, uma mulher adulta, se apoia em William, um menino de nove anos que, mesmo sem entender completamente o que se passa com a mãe, faz o possível para apoiá-la e protegê-la, mesmo quando pede para que ela não se atrase para o jantar para não desagradar a avó. Ele sabe que a posição da mãe é segura por um fio, e não quer vê-la sofrendo, porém, sendo tão jovem, não consegue compreender por inteiro a imensidão do sofrimento que Diana carrega, e muito menos o que pode fazer para conter essa dor. As cenas em que Diana compartilha pequenos momentos com os filhos são interlúdios de doçura em um filme que tem um tom pungente de horror, evocando, inclusive, em seus enquadramentos e fotografia, O Iluminado, longa de 1980 dirigido por Stanley Kubrick baseado no livro de Stephen King.

A fotografia de Spencer tem partes iguais de melancolia, horror e sufocamento, passando para quem assiste as sensações que borbulham dentro de Diana. Para além da claustrofobia de estar presa em um lugar em que não se sente acolhida, há todas as questões mentais de Diana, sua bulimia nervosa, a mídia pairando, sempre à espreita, e todos os meios pelos quais as tradições da família real a consomem. O fato de Diana começar a ver Ana Bolena pelos corredores de Sandringham House é mais um elemento utilizado por Pablo Larraín para demonstrar o quanto Diana sente que sua cabeça está à prêmio, sentindo-se perseguida por espíritos e visões. Em determinado momento do filme, Diana menciona como os Spencer são descendentes distantes da família de Ana Bolena, o que serve como fio condutor para traçar o paralelo entre a vida dela e da rainha.

Como Diana, Ana Bolena foi uma das pessoas mais influentes de sua época. A rainha consorte foi uma peça fundamental para que a Reforma Anglicana ocorresse — decisão tomada por Henrique VIII de romper com a Igreja Católica, oficializando a Igreja Anglicana como a religião da Inglaterra e da qual o monarca seria o chefe supremo, no lugar do Papa, para poder se casar com Ana. Ana Bolena deu à luz a Elizabeth I, que viria a ser uma das grandes rainhas inglesas, e, após sua morte e coroação de sua filha, foi venerada como mártir e heroína da Reforma Anglicana, aclamada por “salvar a nação dos males do catolicismo romano”. Ainda assim, do outro lado da moeda, Ana Bolena também foi muito hostilizada pelos defensores de Catarina de Aragão, a primeira esposa de Henrique VIII, sendo acusada de feitiçaria, adultério e até mesmo incesto — acusações que viriam ser a causa de sua sentença de morte.

Historiadores concluíram que as alegações de adultério e alta traição que levaram Ana a ser decapitada em 1536 eram falsas, plantadas por Henrique VIII para se livrar da esposa e poder ter o caminho desimpedido para se casar com Jane Seymour, uma das damas de Ana Bolena, após a rainha não conseguir dar a luz a um herdeiro para o trono. Em Spencer, o livro sobre a vida e morte de Ana Bolena é deixado para Diana como um aviso do que poderia vir a acontecer a ela caso não mudasse seu comportamento e seguisse pela cartilha da monarquia. Ainda que o roteiro de Pablo Larraín e Steven Knight trabalhe com a ambiguidade em diversos momentos durante o filme, esta mensagem em específico não é deixada para a imaginação: a família real está, sim, preocupada com a crescente popularidade de Diana e o fato de que seu casamento com Charles parece não ter salvação. Em entrevista para a revista Esquire, Knight disse que criou a ligação entre a Princesa Diana e Ana Bolena para efeito dramático após ter lido que há, de fato, relação entre as famílias Spencer e Bolena. O roteirista imaginou que seria interessante apontar que tanto Diana quanto Ana acharam que poderiam controlar a situação em que se colocaram ao entrar na família real tão novas mas que, na realidade, foram engolidas por séculos de tradições e costumes nem sempre compreendidos por completo.

“Diana was young when she went in so she probably thought she could handle it. I like the idea that Diana feels like she’s haunting the house already, like she’s a ghost passing through.”

“Diana era jovem quando entrou, então provavelmente pensou que poderia lidar com isso. Gosto da ideia de que Diana sente que já está assombrando a casa, como se ela fosse um fantasma de passagem.”

Outro ponto abordado durante a entrevista para a Esquire, e que ajuda a entender as escolhas de Pablo Larraín e Steven Knight ao não fazer um filme biográfico de fato, está no modo como, para Larraín e Knight, é impossível fazer um filme desses da maneira correta. Para eles, que entrevistaram pessoas que fizeram parte do quadro de funcionários naquele fatídico feriado de Natal em 1991 com o intuito de conhecer quem era Diana, a melhor forma de se entender uma pessoa, e ainda, no caso, uma pessoa tão emblemática quanto a Princesa de Gales, é colocá-la em um microscópio, selecionando um interlúdio e focando somente ali. “Todos nós já tivemos Natais familiares tensos, em que você fica preso a pessoas com quem não quer necessariamente estar”, diz o roteirista durante a entrevista ao apontar que a ideia de não pertencer é uma sensação comum, conhecida por todos, sejam pessoas da realeza ou não. A decisão de locar o filme durante esse período em específico também surge do fato de que foi ali, durante aquelas comemorações, que Diana decidiu romper o casamento e deixar Charles.

Mas antes de qualquer decisão ser tomada, Diana agoniza enquanto busca por sua própria identidade em um mar de aparências que a cansa, a deixa confusa e sem saber como agir. A casa de sua infância, nos arredores de Sandringham House, exerce uma força magnética sobre Diana, instando a princesa a retornar ao lar em que era livre, o lugar onde era sua própria pessoa e não alguém que tinha todos os passos contatos e controlados durante todas as horas do dia. A casa abandonada e fechada chama Diana como nas melhores histórias de terror, e para lá ela vai, atravessando os terrenos com seu vestido de festa, flutuando etereamente enquanto assusta os guardas da propriedade, buscando retornar para quem ela era antes de Charles, do casamento, e da monarquia. As pérolas que envolvem seu pescoço — o mesmo modelo de colar com que o marido presenteou a amante — a sufocam, tiram-lhe a agência e a autonomia. Diana quer ser livre, mas está em sua gaiola dourada, sem saída. Uma montagem, mostrando Diana criança correndo até se transformar em adulta, mostrando diferentes momentos de sua vida, inclusive usando seu emblemático vestido de noiva, nos faz passear entre todos os momentos que levaram Diana até ali.

Spencer trabalha com longos silêncios, e mesmo que Diana esteja sempre em cômodos grandes, de pé direito alto, ou nos amplos jardins de Sandringham House, a sensação é de uma constante falta de ar e solidão ainda que cada passo seu seja monitorado pela imprensa, pelos funcionários da casa e pela família real. Os vestidos que Diana deve usar durante as comemorações de Natal estão separados por ocasião e em ordem, sem que tenha sido perguntado qualquer coisa a ela. O Major Alistair Gregory surge nos momentos mais estranhos, esteja Diana sozinha no jardim ou pegando doces de madrugada na cozinha. Ele a observa. Todos a observam. Tão vigiada e cercada de gente. Ao mesmo tempo tão só, dentro de sua própria cabeça e angústia. Kristen Stewart é perfeita ao captar os sentimentos claustrofóbicos que moram em Diana — seus olhares varrem os cômodos em busca de ajuda, ou de uma saída de emergência, suas mãos convergem frequentemente para o pescoço, sempre em agonia, e ela só relaxa na presença dos filhos, sentando-se com eles no chão, jogando à luz de velas ou brincando nos grandes salões de Sandringham House. Outra sequência do filme mostra Diana como um espírito livre, dançando e correndo pelos salões, sentindo-se livre da maneira como gostaria de ser.

Desnecessário dizer que Spencer se vale de muita licença poética para contar a “fábula de uma tragédia verdadeira”, como o próprio filme diz em seu início. Das visões de Ana Bolena aos faisões, aos contos de fantasmas na casa da infância, o filme é uma sucessão de imagens que buscam contar o lado da história da mulher que não recebeu nada do que lhe foi prometido e, no lugar disso, precisou lidar com as desilusões e a perda de sua essência em um mundo que não foi feito para ela. Diana está sempre atrasada em Spencer — para as fotos de família, para as refeições, para as comemorações; mais uma metáfora para o quanto ela não quer estar ali, fazendo de tudo para retardar os momentos de confronto. Da maneira como pode, com o que tem em mãos, Diana está mudando a ordem das coisas, expondo a natureza aleatória, e até desnecessária, das tradições em que a família real se prende com unhas e dentes para continuar se sentindo especial com relação ao restante das pessoas.

Muitos dos embates de Diana com as tradições também se relacionam ao fato de que ela não quer jogar pelas regras que outras pessoas fizeram para ela. Em uma das poucas cenas em que está sozinha com Charles, ele diz à esposa: “You have to be able to make your body do things you hate, for the good of the country” [“Você tem que ser capaz de fazer seu corpo fazer coisas que você odeia, para o bem do país”], que é justamente o que Diana não consegue se obrigar a fazer. Diana não quer perder ainda mais de sua autonomia usando as roupas que escolhem para ela, participando de refeições na companhia de pessoas que não a estimam, comendo quando seu corpo rejeita qualquer coisa. Uma das cenas mais intensas — e estranhas — de Spencer ocorre justamente durante uma das refeições em família quando Diana se imagina arrancando o colar de pérolas que repousa em seu pescoço, derrubando as esferas e as tomando junto com sua sopa. Na sequência, Diana sai correndo da mesa para vomitar, mas logo algum funcionário está batendo à porta, avisando que a família a espera para a sobremesa. Algo que me impactou foi notar que essa cena, de Diana debruçada sobre o vaso sanitário com seu vestido branco imaculado, é justamente a imagem do pôster que vende o filme. A bulimia de Diana é mais um item na lista de falhas que ela carrega aos olhos da família real — uma “falha” que ninguém parece disposto a ajudá-la a corrigir, principalmente quando Charles comenta, durante uma das refeições, para Diana “ter a cortesia de não regurgitar tudo em um vaso sanitário antes mesmo dos sinos da Igreja tocarem”.

Spencer é um retrato de uma mulher em conflito, à beira da ruptura. O roteiro de Steven Knight e a câmera de Pablo Larraín fazem justiça a uma personagem icônica ao despi-la justamente do papel de ícone a que está destinada. Muito mais do que uma história sobre a Princesa de Gales, o filme é a narrativa de uma mulher, de uma esposa, de uma mãe e de uma pessoa reprimida e podada por todos aqueles — sua família — que deveriam protegê-la, não jogá-la aos lobos. Entre passagens que evocam histórias de fantasma e cenas que são pura sátira social, Spencer faz um bom trabalho ao nos fazer mergulhar de fato na tal “fábula de uma tragédia verdadeira”. Durante uma conversa com Maggie — personagem que Sally Hawkins faz brilhar, mesmo com tão pouco espaço — Diana admite imaginar sobre como as pessoas escreverão sobre ela daqui a mil anos. Ela não foi a rainha que estava destinada a ser pelo casamento, mas se tornou a princesa do coração de todos. Spencer vem, talvez, para relembrar que mesmo a princesa que vive em nossas memórias era, antes de tudo, uma mulher à procura de sua essência, que adorava fast food e amava os filhos mais do que tudo. Quando William pergunta se ela que ser rainha, sem pensar por um segundo, Diana responde: “eu serei sua mãe”.

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