Categorias: LITERATURA

Simon Snow e o mundo mágico de Rainbow Rowell

Meu primeiro contato com Rainbow Rowell foi nos idos de 2012 quando a primeira edição de Eleanor & Park foi lançada no Brasil. Naquela época eu me encantei com a escrita da autora e logo parti em busca de todos seus outros livros, passando por Ligações, Anexos e, claro, Fangirl, que se tornou um dos meus favoritos. Em 2020, a Editora Seguinte relançou quatro dos livros de Rowell com nova tradução — que ficou sob responsabilidade de Lígia Azevedo — e pude reler cada uma dessas histórias, inclusive a inédita O Filho Rebelde, sequência de Sempre em Frente, primeiro livro da trilogia Simon Snow.

O interessante dessa trilogia, e que me deixa encantada toda vez que paro para pensar nisso, é que os personagens que fazem parte do universo de Simon Snow nasceram dentro de Fangirl como parte de uma série de livros de que Cath, a protagonista deste, é fã e vive escrevendo fanfics sobre. É como se Simon Snow fosse o Harry Potter do universo de Cath, um menino nascido entre os comuns (as pessoas não mágicas) que é descrito por uma profecia como o Escolhido que salvará o mundo dos feiticeiros de um terrível destino. A trama é parecida com qualquer Jornada do Herói que se preze, porém Rainbow Rowell adiciona pitadas dos temperos que são a cara dela: protagonistas adolescentes muito emocionados, humor perspicaz e uma trama que mistura romance a ação em proporções ideais.

Sempre em Frente: o pior escolhido ever

Simon Snow é o pior Escolhido a ser escolhido, mas isso é o que Baz, seu colega de quarto, diz sobre ele. Ainda que Simon não dê o braço a torcer nessa questão, lá no fundo ele acha que Baz pode estar certo — Baz, seu arqui-inimigo, provável vampiro (incrivelmente bonito e estiloso) e colega de quarto desde que eles tinham onze anos e iniciaram os estudos em Watford, a escola de magia. Quando não está colocando fogo (sem querer) em coisas (e criaturas) por aí, Simon se sente frustrado por não conseguir sequer fazer com que sua varinha funcione com os encantamentos mais básicos, então Baz provavelmente está certo nessa história dele ser o pior Escolhido a ser escolhido de todos os tempos.

Como se não bastasse todo esse problema relacionado aos seus poderes (que Simon tem de sobra, ainda que sem controle algum), o jovem também precisa lidar com seu mentor o evitando, sua namorada terminando com ele e uma criatura que devora magia andando por aí com um rosto como o dele. Baz teria espaço de sobra para incomodar Simon com todas essas questões acontecendo ao mesmo tempo em sua vida, porém Baz não retornou para seu último ano em Watford — o que deixa Simon Snow completamente paranoico: o que Baz está aprontando que é mais importante do que voltar para a escola de magia? Esse plano tem relação com ele, Simon Snow, e sua iminente queda, morte, assassinato por parte de Baz? Após anos convivendo debaixo do mesmo teto com Baz e acostumado a sempre manter um olho aberto perto de seu arqui-inimigo, a cabeça de Simon vai a mil por hora tentando desvendar o mistério do desaparecimento do colega.

“E sou capaz de fazer qualquer coisa para garantir que a magia esteja aqui, para que eu possa voltar para ela.”

Além de passar os dias imaginando que tipo de planos Baz está traçando contra ele, Simon também recebe uma inesperada visita: o fantasma da mãe de Baz, a antiga diretora de Watford, aparece para Simon afirmando que o responsável por sua morte continua à solta e impune. Quando Baz finalmente reaparece em Watford, mas sem contar a ninguém os motivos pelos quais esteve desaparecido por semanas, Simon não vê outra saída que não seja ajudar sua nêmesis a vingar o assassinato da mãe — o que significa, basicamente, dar uma trégua em seu relacionamento nada amistoso em prol de um bem maior. Dessa maneira, Simon e Baz começam a trabalhar juntos, enveredando por um caminho de investigação que trará à tona verdades que poderão mudar o Mundo dos Magos para sempre, assim como o relacionamento entre os dois garotos.

Sempre em Frente tem elementos de histórias de fantasmas, de romance e mistério, tudo envolto na ótima narrativa de Rainbow Rowell. Nesse livro ela parte do princípio de que já estamos familiarizados com o universo de Simon Snow, então não há grandes e demoradas explicações sobre determinados pontos da trama — simplesmente aceitamos o que os personagens dizem como verdade e seguimos em frente. Em um primeiro momento isso pode soar um pouco confuso, principalmente pelo fato de estarmos lidando com um mundo mágico, mas logo já estamos absortos na narrativa e queremos desvendar os mistérios que cercam Watford tanto quanto Simon e Baz. Os capítulos — que alternam entre os personagens, sempre em primeira pessoa — são perfeitos para nos cativar, visto que mergulhamos nos pensamentos dos personagens, seus medos, desejos e exasperação.

“Naquela primavera, eu o odiava. Odiava ter que olhar para ele, e odiava o que olhar para ele fazia comigo.”

É divertido acompanhar como Simon e Baz vão de enemies to lovers daquele jeito que só Rainbow Rowell é capaz de escrever. Os anos de ódio irrestrito de um para com o outro mascaram os reais sentimentos dos rapazes — se não por parte de Simon, que normalmente está mais confuso do que qualquer outra coisa quando o assunto é sentimentos, pelo menos por parte de Baz. Baz vem de uma das famílias mais tradicionais do Mundo dos Magos, os Grimm-Pitch, e carrega as expectativas de séculos de magia nas costas. Além do fato de ser parte feiticeiro e parte vampiro, talvez o único de que se tem notícia, Baz também é completamente apaixonado por Simon Snow, o rapaz que deveria ser seu inimigo mortal. Mas quando eram crianças, recém-chegados à Watford, foram designados como colegas de quarto e o resto é história: enquanto Simon aceitou seu papel como discípulo do Mago, uma figura poderosa que vai contra tudo o que as antigas famílias mágicas pregam, encarando Baz como inimigo, o outro fez o mesmo porém, em seu íntimo, já havia faíscas de um romance que não deveria acontecer. A maneira como o relacionamento entre Simon e Baz se desenvolve é perfeita, e os capítulos escritos em primeira pessoa apenas tornam todo esse desenrolar ainda mais interessante de acompanhar.

Não precisa ser fã de Harry Potter para perceber que Simon Snow é uma espécie de paródia desse universo, porém muito mais inclusivo e representativo do que a versão original. Além do protagonista ser bissexual (ainda que ele não o diga com todas as letras, o que seria realmente válido) e ter em seu par romântico um menino gay, a melhor amiga de Simon, Penelope, tem origem indiana e permanece sendo a feiticeira mais inteligente da idade dela. Rainbow Rowell também não se esquiva de dizer que, sim, a infância de Simon é completamente problemática, sendo utilizado pelo Mago como um mero peão, e ainda que o protagonista nutra sentimentos conflituosos por essa figura paterna, ele reconhece que ser deixado no escuro na maior parte do tempo, sendo ignorado, não tem nada de legal. Simon é um menino quebrado, sabe disso e tenta fazer o melhor possível com essa informação em um universo que só vê o seu valor devido ao imenso poder que nele reside — inclusive indo para a terapia, coisas que os Escolhidos, de maneira geral, são pouco propensos a fazer. Falar a respeito de seus traumas com alguém especializado que pode te ajudar? Que nada, melhor escrever um epílogo dez anos à frente de onde a trama parou, deixando os traumas debaixo do tapete, do que falar sobre isso.

“Você tem tanta vida, Simon Snow. Deve ter ficado com a minha.”

O Filho Rebelde: roadtrip nos Estados Unidos

Com um final agridoce, Sempre em Frente nos deixa com uma dúvida: o que espera Simon, Baz e Penelope em um futuro sem uma ameaça contra a qual lutar? Quando Simon e Baz dançam juntos no baile de Watford, o último ano de seus estudos está concluído e o horizonte é livre para planos serem feitos. O grande vilão da história foi derrotado, mas o que vem a seguir? Simon não é mais o mesmo e os efeitos da última batalha ainda cobram seu preço do antigo Escolhido. Baz o ama mais do que tudo, mas nem mesmo ele é capaz de tirar Simon de sua letargia.

É nesse momento que Penelope surge com o que lhe parece ser uma ideia genial: uma viagem de carro pelos Estados Unidos! Claro que Penelope tem suas intenções bem delineadas e quer encontrar Micah, seu namorado de longa data que não vê há muito tempo, e visitar Agatha, a ex-namorada de Simon que deixou a Inglaterra e toda a magia para trás em busca de viver uma vida comum entre os normais. Mas os planos de todos eles começam a ir por água abaixo quando os Estados Unidos se mostram mais traiçoeiros do que eles imaginavam — a leis do Mundo dos Magos que regem a Inglaterra não funcionam, ou não existem, do outro lado do Atlântico, e Simon, Baz e Penelope precisarão se reinventar para sobreviver nesse país de ritmos, costumes e criaturas mágicas tão diferentes.

“Tudo era uma história. E Simon era o herói. Ele salvou o dia. É nesse momento que as histórias acabam: todo mundo olhando adiante, rumo ao ‘felizes para sempre’.”

A começar, é claro, pelos feitiços. Um traço muito divertido das tramas de Simon Snow são exatamente os feitiços. No universo mágico de Rainbow Rowell, os feitiços não são formados apenas por latim, mas por versos, poemas, letras de músicas e qualquer combinação de palavras que tenha um forte apelo entre os normais (os não mágicos): aqui, palavras e frases usadas à exaustão pelos normais possuem mais poder e expressões que caem em desuso tem a magia enfraquecida. Como nasceram e aprenderam magia na Inglaterra, nem todas as expressões usadas por Simon, Baz e Penelope em sua terra natal valem nos Estados Unidos, visto que os costumes e culturas não são os mesmos. Dessa forma, o trio precisa se ater ao que é mais usado no país, o que os levará a uma série de problemas com feitiços pouco poderosos em momentos de tensão.

O Filho Rebelde dá novos ares à série mágica de Rainbow Rowell retirando os personagens de seu cenário de costume, colocando-os em um lugar novo tanto para eles quanto para os leitores. As referências de cultura pop continuam todas lá, assim como a escrita inspirada de Rowell. Os desafios para Simon, Baz e Penelope são outros, e enquanto cruzam os Estados Unidos de carro, vão parar em um covil de vampiros em Las Vegas e se deparam com um normal que sabe muito sobre o Mundo dos Magos, e ainda precisarão entender quem eles querem ser dali em diante. O relacionamento entre Simon e Baz está estremecido desde que o Escolhido não tem mais um papel a cumprir, e a viagem os ajudará a colocar em perspectiva o que mais importa para eles como um todo. Penelope também precisará entender que a vida nem sempre acontece da maneira como esperamos, e que ter um relacionamento amoroso não é apenas riscar itens de uma lista. Agatha, a ex-namorada, continua como a personagem de menor importância na trama, ainda que seja dela a resolução de um dos momentos de tensão de O Filho Rebelde, mas em geral a personagem só cresce mesmo nos últimos instantes do livro.

“Não existe fim. Coisas ruins acontecem, depois não acontecem mais, só que continuam devastando as pessoas por dentro.”

De maneira geral, O Filho Rebelde tem um ritmo diferente de Sempre em Frente. Com os personagens retirados de seus postos de adolescentes salvadores do Mundo dos Magos, agora eles precisam lidar com seus próprios problemas e relacionamentos — e boa parte desses problemas, inclusive, poderiam ser resolvidos se eles apenas sentassem e conversassem entre si, mas sabemos que isso nem sempre é tão fácil quanto parece. Por ser um livro de meio de trilogia, a sensação que dá é que Rainbow Rowell guardou alguns trunfos para a conclusão da série, o que pode incomodar alguns leitores. Enquanto leitura, O Filho Rebelde é um bom entretenimento, mas Sempre em Frente continua superior em trama e desenvolvimento.

Any Way the Wind Blows: a conclusão de uma saga?

Sim, Simon Snow é uma paródia de Harry Potter, mas diferente do que se possa imaginar, tem um charme e uma magia só sua. Ainda que os conceitos gerais gritem na nossa cara que, ei, é uma fanfic, sendo Simon uma espécie de Harry, Baz um Draco Malfoy gay e vampiro, e Penelope uma Hermione de herança indiana (se precisarmos encaixar os personagens), logo a trama toma uma forma própria, nos levando por temas e desenvolvimentos que Harry Potter jamais abordaria, a começar, como já citado, pelo casal de rapazes que é a força motriz de toda essa narrativa.

Em entrevista para a Vanity Fair em outubro de 2019, quando Rainbow Rowell havia anunciado o terceiro livro da série, a autora comentou a respeito da natureza de seus livros, uma quasi-Harry Potter fan fiction, e como o conceito se quebra em O Filho Rebelde. Rowell diz que não havia percebido quanto material sobre “O Escolhido” ela tinha dentro de si, mas que sua trama tem como base qualquer outra história a respeito de meninos órfãos predestinados, e ela cita desde Superman a Luke Skywalker e Frodo Bolseiro: “how much of that trope could I dissect and turn a different way?” [“quanto desse tropo eu poderia dissecar e transformar em algo diferente?”].  Em O Filho Rebelde, ela continua nessa empreitada de transformar os já conhecidos tropos em algo novo.

“That book is about happy endings for me. I think when you reach adulthood, you realize how much more complicated everything is, and what little clarity you have cobbled together in your teen years. So Simon becomes a very good vehicle because he’s been through an enormous trauma, as every Chosen One has. All of his coping skills are about winning the war, and none of them are about living at peace. Carry On is about what if everything we knew about the world was wrong, and then what if everything we knew about ourselves was wrong.”

“Aquele livro, para mim, é sobre finais felizes. Acho que quando você chega à idade adulta você percebe o quanto as coisas são mais complicadas, e o quão pouca clareza das coisas você tinha durante a adolescência. Então Simon se transforma em um veículo muito bom porque ele passou por um trauma enorme, todo Escolhido passou. Todas as suas habilidades de enfrentamento são para vencer a guerra, e nenhuma é sobre viver em paz. Sempre em Frente é sobre o que aconteceria se tudo o que soubéssemos sobre o mundo estivesse errado, e sobre tudo o que sabíamos sobre nós mesmos estivesse errado.”

Sendo assim, o terceiro livro da série é pensado, de acordo com Rowell, para ser uma história onde Simon Snow está se curando, como o badass que ele é. A autora diz que está sempre escrevendo sobre pessoas tentando descobrir quem eles são e o terceiro livro, Any Way the Wind Blows, é exatamente sobre isso: seus personagens não são mais crianças, mas os adultos em suas vidas disseram quem eles eram, e quem deveriam ser, todo o tempo, e agora é a vez deles mesmos decidirem seus destinos.

Para o primeiro livro, o título veio de um dos versos de “Bohemian Rhapsody”, do Queen: de “carry on, carry on, as if nothing really matters”, Rainbow Rowell retirou o Sempre em Frente. Para o segundo livro, o verso que inspirou a autora, e fãs de Supernatural durante quinze anos, veio de “Carry On Wayward Son”, da banda norte-americana Kansas, de onde recebemos, em português, O Filho Rebelde. Para o terceiro livro, Rowell retorna para as canções britânicas e o verso que encerra “Bohemian Rhapsody”, “any way the wind blows”, para dizer que sim, vai ficar tudo bem com Simon, Baz e companhia. Só nos resta esperar.

Os exemplares foram cedidos para resenha por meio de parceria com a Companhia das Letras.


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