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Ghost Story: o terror de Peter Straub

Considerado um dos principais escritores de fantasia da literatura contemporânea, Peter Straub escreveu Ghost Story no final da década de 1970. Aclamado por Stephen King como um dos melhores do gênero, Straub já recebeu diversos prêmios literários como o Bram Stoker Award, o World Fantasy Award e o International Horror Guild Award. Lançado no Brasil pela DarkSide Books no Halloween de 2019, Ghost Story se tornou um dos meus livros de terror favoritos, um trabalho que vou reler sempre que quiser sentir aquele medo que somente livros muito bons são capazes de te fazer experimentar.

Na pequena e pacata cidade de Milburn, nos Estados Unidos, a Sociedade Chowder, formada por um grupo de velhos amigos, se reúne mensalmente para contar histórias. A Sociedade Chowder reveza os encontros entre as casas de seus membros que, vestindo suas melhores roupas e prometendo não beber muito, conversam sobre a vida, o universo e tudo o mais. Frederick Hawthorne, Sears James, John Jaffrey e Lewis Benedikt decidem continuar as reuniões mesmo após a estranha morte de seu quinto membro, Edward Wanderley, mas não parece simples retomar as conversas com a ausência do amigo. Em um momento de súbita inspiração, Ricky Hawthorne se vira para John Jaffrey e pergunta “Qual foi a pior coisa que você já fez?”, no que o amigo responde “Não vou contar isso, mas vou contar a pior coisa que já aconteceu comigo… a coisa mais apavorante…”. E contou uma história de terror.

As histórias, algumas sobre suas vidas, algumas verdadeiras, outras, inventadas, são contadas por um membro diferente a cada encontro. As tramas de terror foram capazes de prender a atenção de cada um deles, tirando momentaneamente o amigo morto do pensamento. Porém, a brincadeira deixa de ser exclusivamente um antídoto para a ausência de Edward Wanderley quando o sinistro e o tétrico deixam de fazer parte da imaginação de cada um deles para acontecer em seu mundo real.

“’Você realmente esperava ver alguém lá fora?’, perguntou a si mesmo. ‘Está decepcionado por não ter visto?’”

Uma história, que poderia ser apenas mais uma das contadas por eles nas reuniões da Sociedade Chowder, retorna para assombrá-los, fazendo-os relembrar de um erro terrível que cometeram muito tempo atrás, quando ainda eram jovens e tinham a vida inteira pela frente. O sobrenatural não está mais restrito às reuniões da Sociedade Chowder e, aos poucos, estenderá seus dedos gelados para cada um dos quatro amigos, seus familiares e demais moradores de Milburn. Mesmo que relutem em aceitar que o extraordinário está, de fato, em suas vidas, os membros remanescentes do grupo precisam encarar o passado se desejam ter algum tipo de futuro.

Com tradução de Regiane Winarski — responsável por outros títulos da DarkSide Books como Seres Mágicos e Histórias Sombrias, Para Toda a Eternidade, Confissões do Crematório e Pequenas Realidades, apenas para citar alguns —, Ghost Story é aquele tipo de livro impossível de largar enquanto não se chega ao esperado desfecho. Dividido em três partes, além do prólogo e epílogo, a narrativa tem seu próprio tempo para criar a tensão e a atmosfera de terror e desespero que toma conta, aos poucos, de Milburn, e é dessa maneira que o leitor vai se inserindo na trama como se fosse mais um forasteiro chegando na pequena cidade e se inteirando do cenário local. Peter Straub não acelera a construção de sua trama e as mais de 440 páginas mostram exatamente isso: nada é desperdiçado em sua narrativa e o que vimos nas primeiras páginas retornarão para amarrar a conclusão de sua história de maneira impactante.

Esse é, inclusive, um dos meus aspectos favoritos da composição da trama em Ghost Story. Todos os acontecimentos macabros que tomam forma em Milburn são construídos aos poucos, um caso bizarro de cada vez, camadas sobre camadas de episódios lúgubres. A atmosfera que Peter Straub cria no decorrer de sua narrativa é detalhada em todos os aspectos, seja com relação à entidade sobrenatural que paira ao redor da Sociedade Chowder, com os múltiplos personagens que aparecem no decorrer do livro ou mesmo a cidade de Milburn, que pode ser considerada um personagem a parte. É possível imaginar com riqueza de detalhes cada descrição feita pelo autor, o que transforma Ghost Story em um dos melhores livros de terror que já li. O assustador e o macabro chegam sorrateiramente em Milburn, fixando residência no medo que acompanha não apenas Frederick Hawthorne, Sears James, John Jaffrey e Lewis Benedikt, mas todos que orbitam, de alguma maneira, ao redor do grupo.

“Eles afundavam a cabeça no travesseiro e diziam para si mesmos que era um rádio ou um truque do vento; qualquer coisa para não acreditar que havia alguma coisa lá fora que pudesse fazer um barulho tão apavorante.”

Peter Straub cria uma atmosfera tão real e crível que é de se pensar que ele também participou de cada uma das reuniões da Sociedade Chowder. Os personagens, com suas múltiplas camadas, medos, desejos e personalidades, são tão reais quanto possível. O mesmo pode ser dito de Milburn e mesmo eu, que nem pensava em nascer em 1979, consigo imaginar facilmente a idílica cidadezinha rural no estado de Nova Iorque, a praça que é o ponto de convergência das ruas principais, a igreja, o único hotel, as ruas repletas de neve quando o clima passa a trabalhar à favor do horror que se abate sobre o lugar. Straub é um contador de histórias impecável, e o frio vai se entranhar nos seus ossos enquanto você lê Ghost Story mesmo que esteja um sol de meio-dia lá fora.

Outro aspecto de que gosto muito em Ghost Story é a diversidade de idades entre seus protagonistas (embora, com relação a personagens não-brancos e personagens femininas relevantes, o livro deixe muito a desejar). Os membros da Sociedade Chowder, por exemplo, são homens idosos enquanto um dos personagens cruciais na luta contra a entidade sobrenatural é um menino adolescente. Stella Hawthorne, esposa de Ricky, também tem um importante papel no desenrolar da trama e é uma mulher independente e dona de si, mas ela é praticamente a única em um mar de homens. Peter Straub desenvolve personagens de diferentes backgrounds com uma facilidade impressionante, passeando por todos os gêneros e classes sociais para preencher o elenco de moradores de Milburn. As cores que Straub usa em sua narrativa são tão vívidas quanto possível, tanto com relação aos seus personagens quanto em relação a sensação de sufocamento, medo e impotência que toma conta de todos na mesma velocidade que as nevascas de inverno tomam conta da cidade.

“Estendeu os braços para ele, e sua boca se mexeu. Ele sabia que nenhuma palavra humana poderia ter saído daquela boca, daquele corpo manipulado; devia ter sido apenas um gemido ou um grito.”

Ghost Story não se tornou um clássico do terror por acidente: o livro tem as melhores características do gênero do terror sobrenatural e consegue surpreender o leitor a cada página. Peter Straub constrói sua narrativa da maneira como alguém monta um quebra-cabeças, espalhando todas as peças na frente do leitor, encaixando-as com calma, pouco a pouco. O resultado é uma trama que cresce em sensação de urgência e terror, extravasando as páginas do livro e tornando praticamente impossível deixar de ser perguntar o que acontece em seguida. Os seres sobrenaturais são a pura encarnação da maldade, mas mesmo eles possuem uma história de origem que se conecta com todo o restante da trama.

O fato é que há muito tempo eu não me envolvia tanto com uma história de fantasmas. Ghost Story não é apenas uma grande história de fantasma, mas contém diversos momentos assustadores em sua narrativa, seja por meio dos contos que tomam lugar entre a Sociedade Chowder, ou pelo grande terror que se aproxima de Milburn. Há pequenas referências a outras produções de terror — nos nomes dos personagens ou na cena em que há uma grande luta no cinema que exibe A Noite dos Mortos Vivos — e essa é apenas uma entre tantos momentos em que Ghost Story é impecável e indispensável para os fãs do gênero. Mal posso esperar para iniciar uma releitura.

“(…) mas sei que ninguém pode proteger ninguém da maldade. Nem da dor. Só dá para evitar que a dor parte você no meio e tentar seguir em frente até chegar do outro lado.”

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora DarkSide Books.


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