Categorias: CINEMA, LITERATURA

Horror Noire: A Representação Negra no Cinema de Terror

Você já parou para pensar na diferença entre as frases “filmes de terror com negros” e “filmes negros de terror”? Já parou para pensar, também, na maneira como diretores brancos e negros tratam os mesmos assuntos em seus filmes de formas diferentes e como essas temáticas refletem de maneira diversa em suas audiências? Negros fazem parte dos filmes de terror desde o início do gênero, o que não significa dizer, no entanto, que fossem bem representados visto que personagens negros geralmente eram relegados aos papéis de seres exóticos, selvagens, monstros ou a personificação do sobrenatural a ser combatido. Partindo desta premissa a Dra. Robin R. Means Coleman, professora adjunta no Departamento de Estudos da Comunicação e no Centro de Estudos Afro-Americanos e Africanos da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, desenvolveu uma extensa pesquisa analisando imagens, influências e impactos sociais dos negros nos filmes de terror de 1890 até o presente. A pesquisa transformou-se em livro, e Horror Noire: A Representação Negra no Cinema de Terror, chegou ao Brasil por meio do selo Cine Book Club da DarkSide Books.

Ainda que possa ter sido relegado durante algum tempo como um gênero desimportante dentro do cinema, é fato que o terror não apenas desafia limites dentro de suas narrativas como é uma ferramenta poderosa para desencadear análises provocativas a respeito de diversos temas, entre eles o racialismo e o racismo dentro da cultura pop. No prólogo escrito por Steven Torriano Berry, cineasta e professor adjunto da Universidade Howard, em Washington D.C, para Horror Noire, ele aponta que é importante considerar as diferenças intrínsecas do impacto social dos horrores “na tela” em oposição aos horrores “da vida real” visto que filmes “são ferramentas poderosas para manipular fatos, informações e imagens que frequentemente afetam percepções, crenças e atitudes mentais direcionadas ao tema apresentado”. Nesse caso, o cineasta aponta diretamente o exemplo do filme A Nigger in the Woodpile, de 1904, que não apenas faz uso de um termo racista em seu título mas se utiliza de atores brancos usando pintura blackface. O filme, uma comédia com elementos de horror leve, segundo Berry, não tinha a intenção de assustar no sentido clássico, mas servia como um alerta para os brancos a respeito de “uma raça em particular que precisavam temer”.

Outro filme citado por Berry e destrinchado pela pesquisa da Dra. Robin no decorrer do livro é O Nascimento de Uma Nação, de 1915, de D.W. Griffith, cuja trama mostra brancos tentando escapar dos perigos irreais perpetrados por um grupo de negros que os persegue em um Estados Unidos pós-escravidão — o que batia diretamente de frente com o que acontecia no mundo fora das telas onde negros estavam sendo mortos e torturados de verdade por grupos de supremacistas brancos que compraram a mensagem do filme sem pensar duas vezes.

“São coisas diferentes ficar animado ou horrorizado por algum ato horrível que aconteceu com outra pessoa na tela do cinema, ciente de que o ator depois lava o sangue falso e vai para casa, e realmente sentir a dor e experimentar o evento horrível e perturbador na vida real, com sangue de verdade e sem nenhum diretor para gritar ‘corta!’”

A pesquisa da Dra. Robin demonstra que além do trauma palpável, outro aspecto perigoso relacionado à pouca representação negra nos cinemas tem relação direta com a construção da identidade dessas pessoas que não tiveram imagens positivas capazes de proporcionar um sentimento de pertencimento e equilíbrio. Os filmes hollywoodianos, por décadas, relegaram personagens pouco expressivos aos negros, colocados como a figura que se espanta por qualquer coisa e arregalam os olhos, assustados, ou como personagens subservientes tais como mordomos, empregadas e motoristas, além dos malandros estereotipados. Do outro lado da moeda, buscando mudar essa representação problemática no cinema, estavam os filmes de elenco totalmente negro sendo produzidos para um mercado ansioso para se ver na tela grande de “forma emocionante, poderosa e relativamente nova”. Embora os chamados “filmes raciais” fossem majoritariamente produzidos por companhias pertencentes à brancos que sabiam que havia dinheiro a ser feito, outras companhias dirigidas por negros também surgiram para preencher esse vazio. Assim, pela primeira vez, e diferente dos filmes protagonizados por brancos, onde negros apareciam como alívio cômico ou as figuras míticas e estereotipadas de sempre, em filmes negros como os do diretor Spencer Williams Jr., cada personagem era único.

“(…) cada personagem em tela, o bom e o mau, o alto e o baixo, representavam um vasto mundo de peles mais pigmentadas que realmente existia na vida real, mas que raramente era visto na tela grande.”

Antes de entrar na análise do cinema entre os anos de 1930 até o terror no século XXI, a Dra. Robin dedica algumas páginas de Horror Noire à sua experiência assistindo filmes de terror enquanto crescia em Pittsburgh, na Pensilvânia. Nascida no mesmo lugar em que George Romero, diretor responsável pelo icônico A Noite dos Mortos Vivos, Robin conta como esse livro era o seu destino. Quando adolescente, a Dra. Robin assistiu, com sua mãe e avó em um drive-in, não apenas A Noite dos Mortos Vivos assim como O Despertar, ambos de Romero. “Nós, duas mulheres e uma criança, nos dirigimos até aquele drive-in para ver se Romero nos daria mais uma vez outro herói negro empoderado que não vacilava e não era apelativo. Romero não nos decepcionou.” Para a pesquisadora, ainda que o filme de Romero se tratasse de uma fantasia com zumbis comedores de carne, ainda era uma obra com um realismo impressionante visto que Romero direcionou a atenção da audiência de maneira que ela entendesse que “no mundo real dos negros as multidões brancas são bem mais mortais”. O que Robin, sua mãe e avó assistiram no cinema aquela noite, era a representação da experiência dos negros de Pittsburgh em um mundo de faz-de-conta, mas que ecoava com perfeição a dor do mundo real.

O cinema tem muito a nos dizer, e o cinema de terror não está fora disso — de acordo com a Dra. Robin, suas narrativas normalmente têm algo a dizer a respeito de religião, ciência, estrangeiros, sexualidade, poder e controle, classe, papéis de gênero, origem do mal, sociedade ideal, democracia. Esses temas mudam de acordo com a pessoa que conta a história, mas estão sempre presentes, e possuem um viés totalmente diferente se observados pela perspectiva da cultura negra; nas palavras da autora, “a história da negritude contada pelo terror é interessante e complexa”. Mesmo marcado com a reputação de filme B, o terror possui uma capacidade única de expor questões e preocupações reais de nosso mundo, incluindo as questões raciais. Como falar de terror na atualidade e não lembrar dos excelente Corra! e Nós, de Jordan Peele? De maneira geral o terror, como gênero, sempre esteve provocando e desafiando sua audiência, e é isso o que Horror Noire nos mostra em suas mais de 400 páginas de material, entre a pesquisa de Robin Coleman, notas, cinemateca e bibliografia. O trabalho da pesquisadora é extenso e importante pois aponta, década à década, os ciclos pelos quais passou o cinema negro de terror.

A pesquisa de Coleman busca mapear a presença de negros no cinema de terror pré-1930 e avança a partir daí, destacando obras que contavam com a presença de negros, sua representação e como isso refletia em sua audiência. O livro é um prato cheio tanto para estudantes do tema, quanto fãs e curiosos, pois desmonta filme a filme como “filmes de terror com negros” e “filmes negros de terror” são coisas completamente distintas. Observe, por exemplo, a diferença entre os filmes O Zumbi Branco, de 1932, e o já citado A Noite dos Mortos Vivos, de 1968, e como George Romero consegue trazer um novo significado, e um significado positivo para sua audiência, de um tema nascido de preconceito e racismo — diferente de criaturas como Frankenstein ou Drácula, nascidos na literatura, tramas com zumbis e vodu vieram dos relatos racistas escritos por europeus e norte-americanos durante a ocupação do Haiti. Um dos livros mais famosos a contar com tais relatos é A Ilha da Magia, escrito por William Seabrook com tons dramáticos e de não ficção, que descreve os haitianos como um povo extremamente difícil de lidar, adeptos de rituais vodus e que sabiam fórmulas capazes de reanimar os mortos.

Horror Noire: A Representação Negra no Cinema de Terror é um livro escrito com paixão ímpar. Coleman nos apresenta argumentos a respeito de cada tipo de representação negra no cinema, os estereótipos culturais e de gêneros utilizados nos filmes e como tudo isso reflete diretamente na audiência e na maneira que negros se posicionam no mundo. Desde King Kong até O Mistério de Candyman, de 1992, a pesquisadora disseca o tratamento das criaturas e monstros no cinema e como tais histórias encontram paralelos racistas no mundo real. Outra temática estudada por Coleman se refere aos ataques a sexualidade do negro, como mostrado, por exemplo, no longa Ingagi, de 1930. É até difícil condensar todo o conhecimento exposto por Robin Coleman em seu livro por meio de uma resenha — o que a autora propõem com sua pesquisa é uma viagem por décadas de cinema, de estereótipos de gênero, de raça, de marginalização de uma cultura inteira em prol da diversão de poucos.

O extenso trabalho da Dra. Robin Coleman foi transformado, além de livro, em um documentário produzido e exibido pela Shudder em uma plataforma de streaming audiovisual de terror ainda não disponível no Brasil. Com direção de Xavier Burgin, o documentário contou com produção executiva da própria Coleman, além de outros especialistas no assunto como a educada e escritora Tananarive Due, de Phil Nobile Jr., editor-chefe da revista Fangoria e Kelly Ryan, da Stage 3 Productions. Horror Noire, o documentário, foi produzido e co-escrito por Danielle Burrows e Ashlee Blackwell — Ashelee, inclusive, escreveu um texto especial para a versão brasileira do livro da Dra. Robin Coleman, em que ela fala:

“(…) Horror Noire corajosamente prediz para onde nos encaminhamos quando se coloca o terror nas mãos de artistas negros. Como isso impactará o futuro do gênero no futuro? Essa história ainda está sendo contada. Para aqueles entre nós investidos nesse progressos, estes são tempos verdadeiramente animadores (…) Horror Noire, tanto o documentário quanto o livro, estão recebendo o reconhecimento que merecem por serem tão essenciais em nossa exploração e favorecimento do gênero de terror. E já estava na hora.”

Horror Noire: A Representação Negra no Cinema de Terror é um livro fascinante e que conduz o leitor por capítulos nunca antes destrinchados da história do cinema de terror. Espere encontrar em suas mais de 400 páginas os horrores do blaxploitation mas também a luta contra o poder. Você lerá sobre mulheres duronas, mas também sobre invisibilidade, segregação racial e econômica, o que deixará, por muitas vezes, um sabor amargo na boca. Mas Horror Noire também mostra as mudanças ocorridas na experiência de se assistir filmes de terror com o passar das décadas, sempre apontando para aquelas duas diferenças sublinhadas no início desse texto, os “filmes de terror com negros” e “filmes negros de terror”. A diferença, nua e crua é que, no primeiro, negros são invisibilizados enquanto no segundo, podem sem tão reais quanto possível. A edição da DarkSide Books está perfeitamente a altura da empreitada e entrega um livro belíssimo em conteúdo e diagramação, um exemplar imprescindível não apenas para fãs do gênero, mas para aqueles que querem aprender e explorar as nuances do cinema afinal, um filme nunca é apenas um filme. Principalmente se você está falando sobre terror.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a DarkSide Books.


** A arte em destaque e o banner são de autoria da colaboradora Duds Saldanha.

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