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De Frente com Valkirias: Laura Pohl

Laura Pohl nasceu na Alemanha, mas com pais brasileiros viveu grande parte da sua vida em Curitiba, Paraná. Apaixonada por Star Wars, Hamilton: An American Musical e dachshunds, ela é fluente em inglês desde os 12 anos quando passou um ano na Austrália. A facilidade com a língua inglesa fez com que Pohl decidisse escrever seu primeiro livro, The Last 8, no idioma e publicá-lo nos Estados Unidos. Em português, seu trabalho pode ser lido na coletânea Cantigas no Escuro, também organizada e editada por ela.

Quando se trata de livros de ficção científica é difícil encontrar exemplares que tenham diversidade e representatividade, e que tratem esse tema de forma orgânica e fluída. Apesar de perceber-se uma mudança dentro deste nicho nos últimos anos, ainda é difícil encontrar histórias que não se apoiem em “cotas” de representação ou coloquem personagens diversos apenas para cumprir tabela. Como foi o processo, desde a decisão, execução e recepção pós-lançamento, de escrever um livro onde praticamente todos os personagens são não-brancos e fazem parte da comunidade LGBTQ+?

Laura Pohl: Acho que na verdade isso é um padrão que tem mudado bastante nos livros. Eu quase não leio livros que não tenham personagens não-brancos ou LGBTQ, porque os autores de agora de fato se preocupam mais com isso, ou são pessoas que fazem parte dessas minorias e querem se ver nas histórias. Na minha escrita eu nunca sequer considerei essa ideia de “cotas”. Eu tenho um grupo variado de amigos que são de diversas sexualidades e diversas etnias, e que também são muito diversos entre si em como lidam com a vida e com essas identidades. Pra mim é natural escrever livros que incluam pessoas como as com quem eu convivo, e fico feliz de ver mais gente se encontrando ao ver que tem uma pessoa como ela nas páginas. Sempre vai ter gente pra encher o saco, sabe, mas aí é gente racista e homofóbica, então meu mais sincero foda-se.

O fato de Clover ser uma protagonista latina cria um ótimo precedente para leitoras que poderão se ver nela e perceber que suas histórias são válidas. Sendo uma autora latina, como é para você ter a oportunidade de contar essa história e dar voz para esse grupo? Principalmente em um livro publicado nos Estados Unidos? 

L.P.: Pra mim foi um pouco complicado, mas porque eu queria ser bem cuidadosa ao contar a história da Clover. Nós brasileiros somos latinos, mas eu sou branca. Eu não sofro racismo, nunca fui vítima de xenofobia, etc. Quando se trata dos EUA, a perspectiva muda um pouco. Eu queria contar a história da Clover porque me parecia uma história plausível de uma menina de 17 anos que mora com os avós que migraram do México, mas esse não é o foco da história. Não queria que a história ficasse resumida a isso, até porque não sou a pessoa certa pra escrever as nuances dessa história. Eu queria poder contar uma história como as que eu sempre me interessei — com aliens, aventuras, reviravoltas, mas com uma protagonista que se parecesse um pouco mais comigo, porque infelizmente isso ainda não é o padrão. Não acho especialmente que estou “dando voz” a alguém, só destacando que há pessoas muito diversas no mundo e que todo mundo pode ser protagonista de uma história de apocalipse.

Clover também é arromântica bissexual. Ter este tipo de representação, tão rara e sem qualquer estereótipo nocivo, é imprescindível. Quais cuidados você tomou para escrever essa parte de Clover? E qual mensagem queria passar ao colocar a heroína como arromântica, uma orientação por vezes mal compreendida e mal vista?

L.P.: A Clover tem muito a ver com a minha própria jornada pessoal ao me descobrir e me identificar como pessoa arromântica. Como ela, eu sempre me considerei muito “racional”, nunca me apaixonei por ninguém, nunca tive essa ideia de sentimento romântico. Eu nunca nem pensei em mensagem nenhuma enquanto estava escrevendo, só queria ver alguém como eu lidando com o fim do mundo sem se perder chorando por qualquer interesse romântico (risos). Recebi algumas críticas já justamente porque Clover se descreve como fria e racional, um estereótipo de pessoas arromânticas que muitos consideram nociva. Acontece que nesse aspecto eu e a Clover somos muito parecidas, então eu necessariamente sou um estereótipo nocivo pra minha própria comunidade?

Não é uma identidade que muitos veem por aí nos livros, apesar de cada vez mais vir sendo incorporado, mas o processo que a Clover passa ao aceitar os próprios sentimentos com relação ao ex-namorado, o que eles eram, e o que significava, é muito parecido com meu. Não foi uma decisão tão consciente quanto “quero explorar no livro esse sentimento de não amar ninguém romanticamente”, e a partir daí fui escrevendo a personagem, pra entender o que EU sentia.

O modo como você fala de saúde mental é um dos pontos altos do livro. Clover sofre de depressão devido ao estresse pós-traumático de perder todos que ama e precisa lidar com pensamentos e ideações suicidas. Presenciar tudo isso descrito em primeira pessoa de forma quase que nua e crua é muito impactante e real. Como você vê o debate de saúde mental na ficção e que papel ele tem em desmistificar os estereótipos criados em torno de pessoas que sofrem de transtornos na vida real e mostrar que seus sentimentos são válidos?

L.P.: Eu realmente acho muito importante lidarmos com a saúde mental dentro do escopo da ficção justamente por essa ideia de desmistificar esse tipo de pensamento e transtorno. Pessoas que sofrem de depressão, transtorno de estresse pós-traumático, etc., muitas vezes são vistas como “fracas”, sendo que o cérebro delas só lida com a realidade de uma forma diferente. Acho que é importante incluirmos isso na ficção para podermos reconhecer os sintomas que se apresentam ali dentro de nós mesmos, e também para entender como prosseguir depois, em validar que você não está sozinho ao passar por essas coisas. A Clover não vai magicamente achar uma cura pra isso, mas ela vai lidando do jeito que pode, e no segundo livro eu dou uma aprofundada maior nesse assunto. The Last 8 pra mim é sobre a sobrevivência (no aspecto real e no aspecto mental), e The First 7 é sobre como aprender a viver e se curar depois que você já passou pelo pior.

Você teve seu terceiro livro anunciado recentemente, que também será publicado nos EUA. Sempre tive curiosidade de saber como se desenrolou este processo de publicação internacional e por que você decidiu contar suas histórias em inglês — se houve uma decisão consciente, no caso —, seguindo o caminho inverso de autores nacionais, como Vitor Martins e Lucas Rocha, por exemplo, que terão seus livros traduzidos e lançados no mercado norte-americano futuramente?

L.P.: Foi consciente sim. Na época que comecei a escrever e pensar em começar uma carreira de escritora (nos idos de 2011, 2012), ainda haviam pouquíssimos autores brasileiros publicados no gênero, principalmente quanto tratamos de young adult de fantasia e ficção-científica. Conseguimos citar muitos nomes na ficção contemporânea, mas na de gênero temos menos gente ainda. Depois de algumas rejeições com meu primeiro manuscrito, pensei que o melhor pra mim seria tentar publicar nos EUA, me adequar ao mercado de lá.

Não vou falar que não penso às vezes como seria se decidisse publicar por aqui, porque tenho certeza que a jornada seria completamente diferente. Os EUA são muito mais burocráticos com tudo — eu cheguei a levar mais de 200 rejeições de agentes com meus livros — e depois do agente, ainda tem o processo de encontrar uma editora que aceite seu manuscrito e que a visão para a história seja a mesma que a sua. É um processo complicado e difícil e que demorou anos, mas pra mim, acho que valeu muito a pena. Queria também mostrar que as histórias de brasileiros não interessam só ao nosso país, mas podem interessar o mundo todo. Posso falar bastante aqui do processo e de como foi conseguir um agente e publicação, mas pra mim, o resultado compensou bastante. E não é como se fosse uma escolha pra sempre, que só vou publicar nos EUA e nunca escrever nada em português. Inclusive tem um conto meu que sai agora em março na Revista Mafagafo, chamado “A Morte do Diabo”.

É tudo uma questão de perspectiva e de medir o que compensa pra cada um. Minhas histórias seguem um gênero mais “universal” (coloco aqui entre aspas porque sabemos que quem dita os gêneros universais são sempre os EUA e o imperialismo deles que impõe os valores sobre a produção cultural de outros países), e por isso consegui me encaixar bem no mercado, e nem sempre é uma opção pra todo mundo. Eu falo inglês desde os 12 anos, estudo e sou fluente, então também é um privilégio que facilitou muito meu caminho. Sem contar que também ajuda que o pagamento é melhor!


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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