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Anna: um filme sobre os abusos que não justificam a arte

Existe muita arte que fala sobre a arte, que questiona não só a mensagem final, mas os veículos usados para se chegar nela. Não é a toa que Uma e Três Cadeiras de Joseph Kosuth ou Merda de Artista de Piero Manzoni são obras de arte tão famosas. Elas colocam em xeque nossas percepções do que é o ofício de artista, o que consideramos algo valioso ou não e porquê. No mundo do cinema também é possível ver essa obsessão com os próprios processos criativos se repetirem de novo e de novo. Desde recentes como Era uma vez… em Hollywood e La La Land até clássicos como Cantando na Chuva e Crepúsculo dos Deuses, podemos ver um eterno retorno ao conceito de Dr. Frankenstein: o criador que questiona sua criação.

Anna, novo filme de Heitor Dhalia (diretor de À Deriva e O Cheiro do Ralo) continua essa tradição ao contar uma história sobre atores onde o foco é a atuação. Anna é uma jovem que veio do interior para a cidade trabalhar em uma concorrida e prestigiada companhia de teatro. Essa é sua primeira experiência profissional nos palcos. Esse também é o primeiro filme da jovem atriz que dá vida à protagonista, Bela Leindecker.

Em uma mistura que lembra a minissérie de Fernando Meirelles Som e Fúria e o remake de Suspiria de Luca Guadagnino com sua direção de arte e fotografia marcantes e por vezes surreais, Anna é uma história sobre os bastidores de um teatro onde atores doam seus corpos e almas a um “pode maior” chamado arte. Apenas para, mais tarde, perceberem que talvez não exista o tal “poder maior”, afinal de contas. Ou, se ele existir, é tão emaranhado em perda, dor e humilhação que não faz sentido entregar quem você é inteiramente para alcançá-lo.

O filme foca nas vivência de sua atriz principal, mas com certeza ele também faz parte da trajetória de muitas jovens atrizes na vida real. Mulheres que se entregaram nas mãos de diretores considerados “grandes mestres” apenas para serem humilhadas e abusadas no processo em nome de uma certa genialidade que, na verdade, nem existe. É justamente essa ilusão de genialidade que dá (entre mil aspas) “licença” para as violações sofridas. Afinal, tudo bem gritar, xingar e acabar com qualquer integridade de seus atores se o resultado final for a arte… especialmente se ela for boa o bastante para ser aceita pelos críticos.

Atenção: este texto contém spoilers!

Em Anna, o aclamado — e velho homem branco, hétero e cis, como não poderia deixar de ser  — diretor Arthur (interpretado por Boy Olmi) quer encenar o Hamlet perfeito, projeto que persegue há décadas. Ele escolhe Anna para ser sua Ofélia, no entanto, ela parece incapaz de atingir o ideal artístico ao qual ele aspira. O filme instala a duvida se Arthur de fato sabe qual é esse ideal, ou se ele sequer existe. Vivenciamos um eterno cabo de guerra entre o que é necessário para a arte e o que é apenas… idiota, para dizer o mínimo. Entre o que é inspiração verdadeira e até onde ela pode ser expandida e o que é uma egotrip pessoal levada as últimas consequências.

Anna

No processo pela busca do inefável, Anna acaba sendo forçada a um relacionamento abusivo onde ela e seu diretor passam por “treinamentos”, como se o sofrimento da personagem só pudesse ser manifestado através do sofrimento real e repetido de sua atriz. Para além do abuso sexual, esses exercícios também passam por uma série de elementos físicos onde os atores rolam no chão, se cheiram e mordem como animais.

Isso tudo pode ser visto por duas lentes: a primeira, como uma versão exagerada e extrema de um processo muito real de abstração, necessário para acessar a fisicalidade ou visceralidade de uma personagem. A segunda, como uma baboseira supostamente artística que não leva a lugar nenhum. Afinal, o quanto imitar um leão pode informar a construção de uma Ofélia? O filme não deixa claro qual das duas visões ele abraça. Em momentos distintos ele navega tanto por uma quanto por outra. É como se Dhalia compreendesse profundamente as necessidade dos atores que retrata enquanto, simultaneamente, também questiona sua validade artística.

O medo de questionar os processos e validade deles, aliás, é um dos alicerces do filme e maior motivação por trás de muitos de seus personagens. É Anna, que por muito tempo não questiona seu diretor por medo de perder o papel e o que parece ser a “oportunidade de uma vida”; mas é também todo o resto da classe artística que não o questiona ou confronta. É Hamlet (Tulio Starling) que vê sua Ofélia humilhada e chorando nas coxias e diz a ela o quanto o diretor é babaca, só para cinco minutos mais tarde não conseguir defendê-la publicamente. São todas as outras pessoas que sabiam por décadas e décadas do comportamento abusivo e problemático de Arthur, mas os aceitavam porque eles, de alguma forma, “geravam resultados geniais”.

É impossível não comparar Arthur com outros diretores e produtores. É impossível não ter Harvey Weinstein na cabeça e o quanto sua história permaneceu no escuro por tanto tempo justamente porque ele era rodeado de Oscares. Ou mesmo Maria Schneider em O Último Tango em Paris e o que ela sofreu nas mãos de Bertolucci em nome de uma dita “veracidade” em cena que, no fundo, não importa em nada.

Anna

Esse mesmo Hamlet diz a Anna que todo diretor na verdade se acha dono da cena. Ele quer contracenar com o ator, mas na hora final ele não estará lá. Ela estará sozinha. Esse era para ser um sentimento reconfortante, mostrando o seu real poder em cena, ao vivo. O filme, porém, só nos deixa entender isso como mais um abandono. São as jovens atrizes que dão tudo de si para um papel e quando só lhes sobra a carcaça de um humano, elas são abandonadas por seus “grandes mestres” enquanto eles correm para colher suas glórias.

No entanto, nós temos um final diferente aqui. Ou talvez não muito, mas com uma ponta de esperança em tempos de #MeToo. Arthur permanece sendo o gênio. Nada lhe acontece, infelizmente; mas Anna não mais aceita sua constante degradação. Ela não permanece naquela situação e ao fazê-lo força os outros a confrontarem suas escolhas também. No final do dia, sua humilhação não a torna melhor como atriz, o Hamlet perfeito não é encenado e a Ofélia, linda e danificada, não é ela. Em nenhum sentido. E o diretor gênio nada mais é do que um eco do passado… ou um oco. Anna se encontra no final. Ela sai do ambiente abusivo e se torna dona de si, do seu corpo, de sua atuação, de sua arte. Afinal, genialidade alheia nenhuma justifica perder quem você é.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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