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Lovecraft Country e o terror que é real demais

“Histórias são como pessoas. Para amá-las, elas não precisam ser perfeitas”. Essa é uma das primeiras frases do protagonista Atticus (Jonathan Majors) em Lovecraft Country. Mas e quando essas mesmas histórias são escritas por pessoas racistas ou que carregam qualquer tipo de preconceito? No auge da discussão sobre “separar a obra do artista” e a “morte do autor”, a série da HBO chega como uma releitura do universo do escritor H.P. Lovecraft (1890-1937). Apesar de ser considerado um pioneiro no terror e uma figura proeminente no gênero, responsável pelo o que as pessoas hoje chamam de “horror cósmico”, Lovecraft era conservador e abertamente racista, algo que obviamente influenciou suas obras. Por isso, a série da HBO reimagina o universo criado por esse autor sob a perspectiva de pessoas que foram negligenciadas por sua narrativa. 

Em um artigo para o A.V Club, a jornalista Joelle Monique diz que Lovecraft Country faz ainda mais do que apenas usar elementos do horror para falar sobre racismo, indo além do caráter alegórico. Segundo ela, a série é uma espécie de fanfic. Para quem não sabe, as fanfics são obras escritas e compartilhadas de fãs para fãs. Se você procurar comunidades onde as pessoas trocam essas histórias, vai perceber não só que existe uma grande quantidade de pessoas (e estou incluída nessa mistura) que consomem esse tipo de material, mas que elas também procuram os textos por razões diferentes. Às vezes, uma fanfic pode explorar uma dinâmica que foi negligenciada pela produção original. Ou até mesmo pode reescrever um final que não pareceu orgânico ou satisfatório. De qualquer forma, uma fanfic pode oferecer encerramento de ciclo, o que Monique diz ser essencial no seriado. “Removendo as partes detestáveis do texto original, inserindo personagens novos na narrativa e prestando pouca atenção ao autor por sua ignorância, a produção é um deleite para os fãs dos monstros, mas não do autor”, ela explica no texto. 

“A série é livre e louca, uma história de terror que norte-americanos negros contam ao redor de fogueiras, porque sempre fomos fãs de ficção científica. Mas só pudemos contar essas histórias em grande plataformas nos últimos 50 anos. Lovecraft Country nos leva há 80 anos e abre uma nova era do horror para criadores negros.”

A série da HBO, criada e idealizada por Misha Green, que também fez Underground da emissora WGN, é baseada no livro Território Lovecraft, escrito por Matt Ruff e publicado pela primeira vez em 2016. Apesar de Atticus ser o protagonista e suas ações serem o pontapé para o resto da trama, cada capítulo da obra contém um conto diferente e expande um pouco da mitologia que conecta todas as histórias. Em uma escolha corajosa, o seriado adota mais ou menos o mesmo estilo.

lovecraft country

Lovecraft Country é uma série episódica. Apesar de ter essa trama que liga todos os contos, cada episódio assume um estilo diferente, incorporando elementos distintos do terror, da ficção científica e até mesmo da ação e da aventura. Em qualquer outra produção, talvez tudo isso criasse uma bagunça narrativa e visual, mas aqui as coisas funcionam muito bem, seja por causa da força dos personagens ou simplesmente porque cada episódio é dirigido e escrito de forma espetacular, algo que sustenta a trama sem maiores problemas.

Tudo isso faz com que o seriado seja um verdadeiro caso de estudo: poucas séries tentaram fazer o que Lovecraft Country fez ao longo de dez episódios — e menos ainda conseguiram. Mesmo que essa, por sua vez, tenha graves defeitos ao longo da sua jornada. 

Atenção: este texto contém spoilers

A história começa com Tic em campo de batalha lutando ao lado dos seus colegas na guerra coreana, que é mostrada como preta e branca nas trincheiras. Quando o soldado sai de uma delas, ele corre pela planície para encontrar uma invasão de monstros e alienígenas, em uma explosão colorida e cheia de referências ao mundo da ficção científica. Ao encarar aquele cenário caótico, sem entender muita coisa, uma nave para em cima dele, onde uma mulher alienígena (Jamie Chung) desce e o abraça, sussurrando algo que o público não consegue ouvir. Em seguida, uma lula gigante surge do chão e quem aparece para salvá-lo é Jackie Robinson, um dos maiores jogadores negros de baseball dos EUA. “I got you, kid” (“estou com você, garoto”, em tradução livre), ele diz. Mas tudo não se passa de um sonho e, quando o protagonista acorda, está em um ônibus nos Estados Unidos da década de 1950, no auge da segregação racial. A mente inquisitiva, curiosa e extremamente inteligente de Tic, no entanto, está dando uma espécie de aviso sobre tudo que iria enfrentar nos episódios seguintes. 

Mais do que um aviso individual para Tic, a abertura da série, que tem pouco menos de três minutos no total, é um bom lembrete do que será a temporada inteira. Com referências que vão do livro Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, até o incidente de Roswell em 1947, é difícil captar tudo que acontece na sequência, mas é possível perceber seu caráter extremamente ambicioso dentro da mesma. É um ótimo — e impactante começo — para um piloto que é brilhante.

“Sundown” é o nome do episódio que abre o seriado. Com pouco mais de uma hora, o roteiro mostra Tic, que se alistou ao exército norte-americano contra a vontade da família, voltando para o seu lar em Chicago com objetivo de descobrir onde seu pai foi parar, após receber uma carta onde ele convida o filho a descobrir sobre o legado da sua família em um lugar chamado Ardham. Para isso, ele conta com a ajuda de Leti (Jurnee Smollett) e seu tio George (Courtney B. Vance), sendo que esse último faz viagens ao redor dos EUA com o intuito de criar um guia de lugares seguros para negros no país. Um bom episódio piloto, geralmente, tem algumas missões: estabelecer seus personagens, quem eles são e suas dinâmicas, dar o pontapé na trama e ainda dizer, de forma concisa, a que veio. Como se Lovecraft Country não tivesse feito isso nos seus minutos iniciais, o resto do capítulo é um exemplo não só de como construir um piloto satisfatório, mas também de como usar elementos do terror de forma absurdamente realista e assustadora. 

Por causa de uma lei (que fazia parte de um conjunto de leis racistas chamadas de Jim Crow) em vigor em um alguns estados norte-americanos na época que dizia que pessoas negras não podiam sair na rua depois do anoitecer, Leti, George e Tic são perseguidos por policiais brancos enquanto tentam cruzar a linha de um estado para o outro antes do pôr do sol, criando uma das sequências mais tensas dos últimos tempos. Sem conseguir fugir dos policiais, no entanto, eles são levados para o meio de uma floresta onde são atacados por Shoggoths, monstros criados por Lovecraft, e acabam encontrando uma mansão (que fica em Ardham). 

Assim como a mistura de gênero aparece embutida na essência de Lovecraft Country, o jeito com que a série aborda assuntos complexos como racismo, amor e até mesmo legado, também parece ser um fator determinante para a história — algo ainda mais importante do que todos os elementos fantásticos em si. Em Ardham, Tic descobre que sua família está ligada a de um supremacista branco chamado Titus Braithwaite, que engravidou sua mãe (por um estupro que é deixado apenas implícito pela narrativa), e criou um grupo de mágicos chamados Sons of Adam. Samuel, que hoje comanda o culto, quer usar o sangue de Tic, por causa da sua conexão com Titus, para abrir um portal direto até o lugar em que ele passaria a eternidade. Em contraponto direto a essa narrativa, está Christina (Abbey Lee Kershaw). Filha de Samuel e deixada de lado pelo culto por ser mulher, ela ajuda os protagonistas apenas o suficiente para que pudesse colocar seu próprio plano em movimento.

O nome do capítulo dois é “Whitey’s on the Moon”, em referência à música de Gil Scott-Heron, que coloca a Corrida Espacial no contexto da segregação racial e se questiona para qual América a glória do pouso na Lua foi feita. A resposta está explícita. Enquanto Tic dá o passo final para queimar a mansão que encontra em Ardham, lidar com o seu sangue e acabar com os planos de Samuel, fica claro porque esse foi o nome escolhido. Na música, Scott-Heron narra diversos problemas causados pela desigualdade racial que ele enfrenta no seu dia a dia, enquanto o branco está na Lua. “Não consigo pagar contas de hospital, mas o branco está na Lua”, diz. De certa forma, Tic, Leti e George são apenas um meio para que Samuel pudesse chegar ao seu grandioso objetivo, não se importando em matá-los para isso. Seja lá o contexto em que estão inseridos, sempre existe uma ameaça pairando. Não sempre existiram instituições focadas em derrubar minorias? Pessoas não-brancas, principalmente, mas também mulheres e membros da comunidade LGBTQIA+. Para eles, na série, foram os Sons of Ardham. Para Scott-Heron, eram os brancos na Lua (e várias outras). Na obra, os homens brancos contêm até mesmo posse de magia e, consequentemente, o poder.

Eventualmente, Tic, George e Leti conseguem resgatar Montrose (Michael K. Williams). George, no entanto, é morto no fogo cruzado. Mesmo com pouco tempo de tela, o personagem era interessante o suficiente para que a série ganhasse um buraco após sua partida, algo que a narrativa tenta apaziguar dando espaço para sua mulher, Hippolyta (Aunjanue Ellis) e sua filha Dee (Jada Harris). O problema é que, mesmo acabando com Samuel e com o culto, Christina sobrevive e seu destino parece interligado com o resto dos personagens. 

A representação queer em Lovecraft Country

Como uma série que se propõe a colocar minorias em lugares no qual eles foram excluídos durante muito tempo, era praticamente impossível deixar membros da comunidade LGBTQIA+ de fora. De Montrose, passando por Christina e até mesmo Ruby (Wunmi Mosaku), a produção tenta navegar seus personagens queer com a mesma profundidade que dá aos outros, mesmo que às vezes falhe em conseguir chegar a um resultado satisfatório para os mesmos. 

Ruby, que é irmã de Leti, é a que parece sofrer mais com isso. Uma mulher negra, gorda, ambiciosa e que não tem medo de explorar sua sexualidade, Mosaku oferece uma atuação incisiva e abre uma conversa que nem mesmo a série está totalmente disposta a explorar. Na sua primeira cena, Ruby, que atua como cantora profissional, está se apresentando para o seu bairro. Quando sua irmã aparece, uma mulher magra e de um tom de pele mais claro, uma mulher virgem e com um ar quase “inocente”, as pessoas clamam por ela — mesmo que a outra se sinta desconfortável com isso. Leti não conseguiria se passar por branca, mas ainda assim se encaixa em um padrão diferente de Ruby, que entende muito bem disso. 

Ao longo da sua jornada, ela acaba se envolvendo com William (Jordan Patrick Smith). Um homem branco, rico e influente, ele usa o corpo de Ruby como uma espécie de experimento, fazendo com que ela tome uma poção e se metamorfoseie em uma mulher branca, assim conseguindo ser contratada na loja que gostaria de trabalhar (como gerente) e desfrutar de outros privilégios parecidos. Mais tarde, o público descobre que William também é Christina, que usa da mesma fórmula que deu para Ruby para transformar seu corpo. Mesmo que Christina tenha manipulado Ruby para usá-la e se aproximar de Tic, as duas começam se aproximar e engajam em um relacionamento que é, na sua essência, amoroso. Apenas minutos depois que elas dormem juntas pela primeira vez, Christina mata Ruby para usar o seu corpo outra vez, dessa vez de forma literal (com a poção). 

Apesar de ter oferecido “liberdade sem limites” para Ruby ao deixá-la utilizar mágica ao seu favor, o relacionamento entre elas era essencialmente de manipulação e, ao matar Ruby e roubar seu corpo para preencher sua agenda, a narrativa falha com a personagem, que se tornou uma das mais complexas e importantes da série. Ruby pode acessar sua raiva e trabalhar com as injustiças que sofreu durante sua vida, mas seu destino foi tão cruel quanto o resto da sua vida. Com Montrose as coisas não são muito diferentes. 

No episódio quatro, intitulado de “A History of Violence”, Montrose descobre que algumas páginas do The Book of Names, livro de feitiços do Sons of Adam, que foi roubado em 1800 por um homem chamado Horatio Winthrop, estão enterradas em um museu em Boston. Com a ajuda de Leti e Tic, eles vão até lá tentar resgatá-las para entender os verdadeiros motivos de Christina (e se proteger da mesma, cujas intenções ainda não ficaram totalmente claras). O capítulo em si é uma bela homenagem aos filmes de aventura famosos, como Indiana Jones. A busca dos três protagonistas pelas páginas do livro se tornam uma série de obstáculos que, apesar de ser complicado para eles, é bem dinâmica e divertida de se acompanhar. E tudo parece estar seguindo um bom caminho, até o momento em que eles encontram Yahima. Quando introduzida na história, Yahima (interpretada pela atriz indígena Monique Candalaria) se apresenta como um “two-spirit” (“dois espíritos”, em tradução literal) e seu corpo, seios e pênis são mostrados pelas câmeras de forma explícita. Mesmo que nenhum dos outros personagens tenham sido mostrados completamente nus até então. 

Na ocasião, Yahima confessa que ajudou Titus a traduzir alguns símbolos no livro; que depois ele matou sua família e a aprisionou para sempre no local. Mesmo após Tic e Leti libertarem a indígena do seu destino, Montrose corta sua garganta como uma forma de “prevenção”. Ou seja, Yahima, uma personagem indígena e um Dois-Espíritos, é introduzida e morta em questão de minutos na trama. Consigo entender perfeitamente o que Green queria falar no episódio. Montrose é um dos personagens queer da série. Um homem gay e negro na década de 1950, sua vida é regada por todas as formas de opressão. Violência atrás de violência, ele foi negado de assumir sua verdadeira natureza e, em resposta, criou seu filho no mesmo contexto, sem conseguir se libertar que lhe foi imposto. Assim, sua primeira reação para “proteger” a família, é violência. 

Lovecraft Country, como muitas obras atuais, se propõe a tratar de assuntos complicados cuja discussão jamais seria concisa o suficiente para se encaixar em um episódio de uma hora, ou até menos. Mesmo assim, é necessário puxar tais debates e fazê-los da forma mais inclusiva e responsável possível. De certa forma, todo o discurso ao redor desse episódio me lembrou muito o que aconteceu com Cuties, filme da Netflix sobre pedofilia, que tinha alguns recortes pesados sobre o assunto. Mas, ao contrário do que alguns conservadores começaram a espalhar pela internet, a produção não é a favor da pedofilia, apenas usou um método mais chocante para falar sobre isso. É sim importante questionar como as obras abordam esses assuntos, mas jamais dizer que elas não podem falar sobre x ou y. A arte pode ter muitos objetivos e, às vezes, causar desconforto ou uma ruptura na forma que nós pensamos é exatamente seu principal objetivo. Tanto o longa quanto o seriado fazem isso repetidamente, mas nem sempre utilizam o melhor método. 

“A History of Violence” se encaixa com perfeição nesse discurso. Apesar de ter entendido o objetivo da showrunner ao acrescentar a história de Yahima, ainda mais em contexto com a história de Montrose, era necessário um pouco mais de cuidado no desenrolar da trama. Em uma breve pesquisa, descobri que “Dois-Espíritos” é um termo que realmente existe e alguns indígenas ao redor da América do Norte o utilizam com frequência. Apesar de não ter estudado isso com profundidade, acho que existia a necessidade de abordar isso com mais cuidado e, por meio do seu Twitter, Misha Green disse sentir o mesmo. “Eu queria mostrar a verdade desconfortável que pessoas oprimidas também podem oprimir. Mas não examinei o momento tão bem quanto deveria. É um ponto que vale a pena de ser feito, mas falhei no modo”, disse. 

Mesmo quando se trata do próprio Montrose as coisas são complicadas na série. Seu relacionamento amoroso é um dos mais complexos da narrativa, sendo que ele não beija ou troca carícias com o seu parceiro, apenas faz sexo sem intimidade alguma, evitando troca de olhares ou qualquer tipo de afeto. Fica claro que o personagem quer ser afetivo (não só nas suas relações amorosas, mas também com Tic), mas o ciclo de violência é algo difícil de quebrar — algo reforçado não só pela forma como trata Yahima, mas também como cobra seu filho e a si mesmo. Felizmente, a trama quebra esses momentos duros e difíceis de assistir com, por exemplo, uma bela cena de drag queens dançando e apenas sendo elas mesmas em 1950. É sempre lindo, e muito mais satisfatório, ver as pessoas sendo amadas e cuidadas pelos seus, pelo o que elas são. O que nos leva ao próximo tópico. 

Uma história sobre o amor 

Kumiho é uma lenda coreana de uma criatura que pode se transformar/projetar em corpos de mulheres bonitas para seduzir e matar homens. Segundo a lenda, uma raposa que vive mais de 100 anos se torna um Kumiho — que tem a aparência de uma raposa de nove caudas. Em Lovecraft Country, essa figura aparece por meio de Ji-Ah (Jamie Chung), personagem que é o foco do sexto (e na minha opinião melhor) capítulo da primeira temporada, “Meet Me in Daegu”

Esse é o melhor episódio porque trata de vários assuntos sem parecer apressado ou raso e, apesar de ser o mais violento até então, é sua característica sensível que conquista. “Meet Me in Daegu” é sobre o imperialismo norte-americano, sobre Ji-Ah se descobrindo como mulher, sobre relação entre mãe e filha, e é, principalmente, uma história de amor que nasceu de um contexto cruel e violento, mas que ainda sim conseguiu prosperar. 

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Para contar a história de Ji-Ah, a série volta para 1949 durante a Guerra da Coreia. Até então, a personagem tinha sido apenas introduzida como uma figura proeminente na vida anterior de Tic como soldado, mas, em uma decisão surpreendente, a obra resolveu contar sua história não como o interesse amoroso do protagonista, mas sim sob sua perspectiva. Nesse caso, é Tic o interesse amoroso. O que com certeza foi a melhor escolha.

Ji-Ah é um Kumiho e se transformou em um porque quando era pequena, sua mãe pegou seu pai abusando da filha. Nesse ponto, a história fica um pouco complicada de entender. Minha percepção foi que o abuso que Ji-Ah sofreu acabou tirando sua vida e, por isso, a mãe convocou a criatura que tomou posse da menina, matou o pai e se instalou no corpo. Elas só estariam livres do Kumiho quando, por fim, Ji-Ah tirasse a alma de 100 homens diferentes. 

Lovecraft Country tem uma pluralidade muito grande de mulheres que estão bravas, por um motivo ou outro. E a narrativa deixa elas entrar em contato com o female rage sem pensar duas vezes. Hippolyta tem uma jornada de autodescoberta e libertação que parte desse ponto, assim como o envolvimento de Ruby com magia chega principalmente porque ela está brava com a falta de oportunidade gerada por cor ou gênero. Já Ji-Ah vive naquela rotina que lhe foi imposta pela mãe, condenada a um ciclo de violência eterno. Tanto porque ela tem que matar homens para tirar suas almas e voltar ao “normal”, tanto porque vive no meio de uma guerra cruel e imperialista. Quando sua melhor (e única) amiga é levada por um soldado americano (Tic) após ser considerada uma espiã comunista, ela entra em uma espiral e começa a arranjar formas para vingá-la. Uma brecha surge quando Tic é ferido e mandado para o hospital, sendo que Ji-Ah se torna sua enfermeira. 

Nesse ponto, é importante reconhecer o quanto Tic é um personagem complexo. Quando ele já está em Chicago, é possível perceber traços violentos da sua personalidade. Esse é um traço herdado não apenas porque cresceu apanhando do seu pai, e sendo forçado a se encaixar em um padrão do que é ser homem, mas também porque durante a guerra foi obrigado a fazer coisas absurdas em nome de um falso patriotismo. Ao se alistar para se afastar da vida com o pai e da falta de oportunidade, cruzou a linha do certo, do errado e do justo mais de uma vez, criando um ponto sem retorno para a forma como iria lidar com as coisas, ver o mundo. Para Ji-Ah, as coisas também foram assim. Ao forçá-la para cima de homens diferentes e para aquele ciclo de violência, além de ignorá-la no resto do tempo porque não sabia lidar com o que tinha acontecido, sua mãe criou alguém solitário e perdido, que não entendia completamente o significado do amor. Até, pelo menos, eles se encontrarem. 

Tic e Ji-Ah não são monstros, mas fazem coisas monstruosas. Ela, por causa do Kumiho; ele, por causa da guerra e do imperialismo. Ambos são pessoas que aprendem a conviver com suas condições, mas se encontram frustrados, bravos e insatisfeitos com isso. E é por isso que o romance que nasce entre eles parece tão genuíno. Os dois se unem com todos aqueles problemas e, por causa do amor, parecem procurar uma forma de serem pessoas melhores, um jeito de seguir em frente. Tudo dá errado para eles, já que Tic se envolve com Leti e esse é o casal principal da série. Mas é impossível não torcer e pensar na complexidade com que o relacionamento de Tic e Ji-Ah foi construído — e como é arrebatador quando uma pessoa tem tamanha influência positiva sobre a outra que faz questionar todo o seu modo de vida e valores para se tornar alguém para além do contexto violento que é tão presente no mundo. 

“Meet Me in Daegu” é o episódio mais complicado de se absorver. O contexto da guerra é duro e frio, as perdas são palpáveis, existe toda uma relação complicada entre Ji-Ah e sexo, ou Ji-Ah e a forma que ela lida com a mãe, e quase todo o roteiro é em coreano, algo raro em produções norte-americanas. Ao mesmo tempo, Ji-Ah é uma protagonista incrível e todas as cenas que compartilha com Tic, até as de sexo, são pequenos momentos sensíveis e reais. Sem contar a atuação forte e marcante de Chung, que é tão boa e impactante quanto a da própria Jurnee Smollett. 

“I am Hippolyta” 

Intitulado de “I Am”, o sétimo episódio de Lovecraft Country coloca a incrível jornada de Hippolyta como o foco. A personagem, introduzida logo no começo da trama como a “esposa de George”, tinha um casamento e uma vida amorosa com o marido, mesmo que o mesmo se recusasse a levá-la em suas viagens para fazer o manual de viagens seguras para os negros. Hippolyta é mãe, mas também é uma mulher inteligente, sagaz e entende tanto de literatura, ciência e o universo quanto seus colegas homens, quanto seu marido e até mesmo Tic. Limitada apenas a ser uma coisa, no entanto, passou a se diminuir para se encaixar nos padrões exigidos pela sociedade e acabou acumulando anos de frustração. 

No capítulo, a personagem descobre que George não morreu pelas mãos de um policial, mas sim em Ardham. Quando ela chega no local para investigar, acaba entrando em um conflito direto com Tic e outros policiais que estavam seguindo-os e, sem intenção,  abre um portal que dá em outra dimensão. Hippolyta cai em um deles e descobre um planeta e uma entidade chamada de Beyond C’est. Além do nome claramente fazer uma referência à cantora Beyoncé, o cabelo e as roupas da Deusa são inspirados também em Elza Soares, e seu visual afrofuturista no disco A Mulher no Fim do Mundo. Na ocasião, Hippolyta ganha a oportunidade de se nomear qualquer coisa e ir para qualquer lugar no mundo. 

No começo, ela vai até Paris em 1920 e se torna amiga de Josephine Baker. Vê a pintora mexicana Frida Khalo fazer grandes discursos, descobre uma vida de liberdade e dança. Depois, se torna uma Ahosi, guerreiras mulheres do Reino do Daomé e até mesmo luta contra soldados da Confederação. Finalmente, ela encontra George e fala sobre sua frustração em ter uma mente tão aguçada e ficar presa às suas limitações. Se nomeia uma “descobridora”. Ao lado do marido, exploram sociedades mais avançadas, espécies diferentes. E, por fim, se nomeia “mãe” e volta para sua filha, Dee. Mas agora, carrega o conhecimento de milhares de mundos. 

“Eu estava tão brava. Tão brava porque, na maior parte da minha vida, estive diminuindo. Quando eu era criança, achava que era importante o suficiente para nomear cada coisa desse mundo. Mas então comecei a me diminuir.”  

Não é por acaso que várias mulheres negras importantes para a história foram marcadas nesse episódio. A jornada colorida, afrofuturista e cheia de elementos de ficção científica de Hippolyta representa sua descoberta como uma mulher completa, mas também serve para homenagear milhares de mulheres que foram catalisadoras de mudanças sociais grandiosas e importantes, de Baker e Khalo, até mesmo figuras contemporâneas como Beyoncé e Elza Soares. É possível dizer que nada igual foi feito na televisão até esse ponto porque a forma como a personagem acessa sua raiva, seja causada ora pelo machismo ou ora pelo racismo, é feito de uma maneira narrativamente impecável e se torna uma experiência quase espiritual. É lindo, porque não existe outra palavra melhor (ou grandiosa) para descrever, quando Hippolyta finalmente se liberta das suas limitações e se torna ela. Apenas ela. Com todos as suas nuances e experiências. 

Enquanto isso, Tic começa uma jornada que o público não pode acompanhar. Mas volta do futuro com um livro chamado Lovecraft Country, escrito por seu filho com Leti, e que conta a história de sua família. 

Ancestralidade e legado: passado, presente e futuro  

Watchmen, que levou uma grande quantidade de prêmios no Emmy 2020, começou a contar sua história com o massacre de Tulsa em 1921, quando supremacistas brancos atacaram negros em suas casas e trabalhos. A primeira sequência é sobre o evento e, mesmo que a trama principal da série seja nos dias atuais, o legado familiar da protagonista Angela Abar (Regina King), que ela descobre ao longo dos episódios da série, tem conexões com o que aconteceu naquele dia. Um dos episódios mais violentos e cruéis da história da humanidade, foi apagado durante muitos anos e simplesmente ignorado por grandes estudos e mídias, algo que ressoa até hoje. Ao tentar elevar a voz de pessoas marginalizadas durante anos, assim como a minissérie de Damon Lindelof também o fez, Lovecraft Country acaba abordando o massacre de uma forma parecida. 

É realmente interessante ver como Lovecraft Country amarra as pontas de todas as gerações da família Freeman, tornando essa uma história que pode ser sobre muitas coisas, mas que é principalmente sobre ancestralidade e legado. Para tocar nesse ponto, é importante entender a jornada de dois personagens. Tic, obviamente, e Leti. 

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“Holy Ghost”, o terceiro episódio da série, é focado em Leti. A personagem de Smollett aqui ganha uma herança inesperada e acaba comprando uma mansão em um bairro que tem apenas pessoas brancas. Além de sofrer violência dos seus vizinhos, também tem que lidar com os fantasmas da casa, todas as pessoas negras que morreram após serem feitas de cobaias do cientista branco Hiram Epstein, seguidor de Horatio Winthrop, o ladrão do Book of Names, citado anteriormente no texto. Assim como as outras mulheres da série, o roteiro permite que Leti acesse sua raiva, mandando o legado de Epstein para fora da sua casa, libertando os espíritos presos ali e ao mesmo tempo quebrando as janelas dos carros de seus vizinhos (em uma das melhores cenas da série inteira); ao mesmo tempo em que descobre o interesse de Christina pelo livro de feitiço roubado, e sua disposição para consegui-lo de qualquer forma.

A luta de Leti e Tic é para tentar achar o Book of Names e proteger a família que eles têm (e que vão construir no futuro). Eventualmente, eles descobrem que o livro foi perdido durante o massacre de 1921 e voltam no tempo para tentar recuperá-lo. O episódio “Rewind 1921”, o penúltimo da temporada, mostra o casal mais uma vez entrando em contato com sua ancestralidade. Enquanto Tic e Montrose tem que falar sobre a relação deles, o ciclo de violência em que ambos cresceram e como isso moldou o conceito que eles têm sobre masculinidade e afeto, Leti convence a avó de Tic a deixar o livro em sua proteção, prometendo mover o legado de sua família para sempre, deixá-lo intacto. O contexto do episódio é necessário não só porque joga mais luz e chama mais atenção para o que aconteceu em 1921, forçando as pessoas brancas a não esquecerem, mas também porque fala claramente sobre a forma como o passado, presente e o futuro estão interligados na série. 

Em “Full Circle”, tanto Tic quanto Leti contam com a ajuda de pessoas do passado para seguirem com sua missão no presente. Hanna (a escrava ancestral de Tic, estuprada por Titus), sua mãe e sua avó aparecem com o objetivo de protegê-los e garantir o futuro. No caso, o filho de Tic e Leti, George, que viria a escrever o livro que dá nome a série e carregar o nome dos Freeman para frente — para um futuro onde as coisas seriam melhores. O grande triunfo da última parte da série é que, mesmo com Tic tendo que se sacrificar para parar o plano de Christina, Leti consegue usar o livro e seus feitiços para banir todas as pessoas brancas de usar magia outra vez. 

Em quase todos os episódios da série, os créditos subiam com a música “Sinnerman” tocando no fundo. Cantada por Nina Simone, ela grita: “Eu chorei, poder!” Por causa de Leti, pela primeira vez a balança do poder finalmente mudou. A magia agora não pertence mais às pessoas brancas. Com a ajuda dos ancestrais (pessoas que sofreram com a balança da desigualdade racial), ela não apenas garantiu o futuro, mas melhorou o presente. Liberdade, enfim. 

“Vou te contar o que é liberdade para mim. Nenhum medo” – Nina Simone. 

Assim como H.P. Lovecraft fez para o horror, Lovecraft Country (tanto o livro quanto a série) deixam um legado que, possivelmente, vai mudar o gênero para sempre. Mas, dessa vez, nenhuma parte será manchado por declarações racistas e obras que claramente refletem esse ponto de vista. Com episódios que foram criados para serem bem diferentes em estrutura, mas que mesmo assim refletem uma história com algo muito poderoso a dizer, o seriado se torna uma experiência completa, imersiva, arrebatadora. Mesmo com defeitos ao longo da jornada, o resultado final é catártico, agridoce e de certa forma, até um pouco comovente.

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