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Watchmen e todas as histórias de amor de Damon Lindelof

Toda história de Damon Lindelof é uma história de amor. Então, Watchmen, da HBO, sua série mais recente, não poderia ser diferente. Ao abordar o universo criado por Alan Moore e Dave Gibbons, Lindelof criou algo atemporal e reinventou uma história que parecia não ter como se expandir ou criar novos elementos. É importante deixar claro que nunca fui fã desse universo, e principalmente do filme de Zack Snyder, lançado em 2009. Mesmo assim, consegui aproveitar o seriado por causa dos temas que foram abordados com tamanha maestria, e também pela narrativa criada entre Angela Abar (Regina King) e o Doutor Manhattan (Yahya Abdul-Mateen II).

Atenção: este texto contém spoilers!

Quando Watchmen começa, o mundo está diferente. Uma lula gigante ainda caiu no mundo, por causa de Adrien Veidt (Jeremy Irons), traumatizando mais da metade da população, mas tanto ele quanto Doutor Manhattan estão desaparecidos. Nessa versão alternativa do mundo, Ronald Reagan sofreu impeachment e os policiais usam máscaras por causa da violência brutal da sociedade. O protagonismo fica por conta de Angela Abar, que trabalha para a polícia como uma vigilante chamada Sister Night. Ela leva uma vida tranquila ao lado do seu marido Carl, e dos seus três filhos, além de ter uma relação de cumplicidade com seu chefe Judd Crawford (Don Johnson).

O primeiro episódio começa com o massacre da Ku Klux Kan em Tulsa, que aconteceu na década de 1920, e termina com Crawford morto pelas mãos de Will Reeves (Louis Gossett Jr.), que mais tarde viria a se revelar como avô de Abar. De qualquer forma, ali um dos temas principais da temporada estaria estabelecido, com uma trama que não tinha medo de explorar o racismo brutal, estrutural e violento, além do que acontece com uma sociedade onde os dois lados (o bem e o mal) usam máscaras para se esconder.

Existe muito a se falar sobre como Lindelof liderou um grupo seleto de escritores e diretores para contar essa história — e como ela deu certo. Para Angela, sua jornada de nove episódios começa verdadeiramente quando ela descobre que Judd, na verdade, era um supremacista branco, que guardava a roupa da KKK dos seus ancestrais no armário. Disposta a descobrir a verdade sobre a ligação entre ele e seu avô, ela entra em uma espiral que revela não só os pontos principais da história, mas também muito sobre a história da sua família. Will é, na verdade, o Justiça Encapuzada. No episódio seis, intitulado de “This Extraordinary Being”, a trajetória do vigilante é contada por meio de uma cinematografia incrível em preto e branco, abordando o racismo estrutural de uma forma brutal, mas também necessária.

Watchmen

Ele reformulou também Adrien Veidt, conhecido como Ozymandias. Isolou o personagem para pagar pelos seus erros, e o transformou em uma figura caricata de si mesmo. O ego masculino inflado a um extremo tão grande, que acabou ficando patético e digno de pena.

Mas o que mais me chamou a atenção é, claro, a história de amor entre Abar e o Doutor Manhattan e como mais uma vez Lindelof teve uma sensibilidade incrível ao contar e explorar a relação entre eles. Em “A God Walks Into Abar”, Angela conhece o deus, que é onipresente. Ou seja, ele consegue ver todos os momentos da sua vida ao mesmo tempo. Assim, ele traça para a protagonista toda a trajetória que eles terão como casal. Segundo ele, a relação durará mais ou menos dez anos e acabará em tragédia. Cética, ela escuta e aprende detalhes sobre eles como um componente, e acaba cedendo. É importante mencionar que a personalidade de Angela é algo fundamental e que determina o jeito como um se sente em relação ao outro.

Quando Jon Osterman está para morrer no último episódio da série, Angela pergunta para ele onde sua mente está. A resposta: “em todos os momentos que já passamos juntos”. Os momentos finais do onipotente Doutor Manhattan, um deus, é uma declaração de amor. Uma declaração que impulsiona Angela a dar seu próximo passo, e, principalmente, que dita a essência das histórias de Damon Lindelof.

Criar um romance convincente é algo complicado. A maioria dos casais das séries de TV nascem por meio do tropo do slow burn, com um desenvolvimento gradual e lento, que geralmente surge por meio da amizade para só então evoluir. Quando eles finalmente ficam juntos, a maioria dos escritores não conseguem manter, recriar e desenvolver a relação. Por causa disso, é impossível não dar certo mérito para Lindelof com o romance que ele criou entre Abar e Manhattan. Em apenas um episódio, Lindelof escreve algo que não só era essencial para a trama e fundamental para entender o final de Angela, como também algo que foi arrebatador e lindo. Apesar de ambos saberem o que o futuro dessa dinâmica lhes guardava, embarcaram e superaram vários obstáculos juntos.

Esse não foi o primeiro romance que Damon Lindelof criou em um espaço tão curto de tempo. Em Lost, por exemplo, a relação entre Sawyer (Josh Holloway) e Juliet (Elizabeth Mitchell) é construída basicamente com a mesma facilidade. Quando Kate (Evangeline Lilly) deixa a ilha com Jack e os outros personagens, Sawyer acaba ficando para trás. Nesse meio tempo em que eles passam separados, o personagem não só cresce para se tornar alguém que é mais confiável e genuinamente bom, mas também tem um relacionamento sério com Juliet. Ele não era apenas Sawyer, complicado e até um pouco racista, mas sim LaFleur — que é, inclusive, o nome de um dos meus episódios favoritos da série. A missão era muito complicada: como criar um relacionamento que é profundo e nuançado em apenas um episódio?

A resposta é, claro, com pequenos momentos entre os dois. Infelizmente, Juliet acaba morrendo mais para a frente na história, apenas para impulsionar algo em Sawyer. Mesmo com esse grande erro, e com a sensação que o relacionamento merecia mais tempo de tela, o romance ainda é parte importante da história e quando os personagens se encontram no plano espiritual criado por Lindelof na última temporada, a cena é tão linda e satisfatória (e com direito até a flashbacks) que é impossível não pensar no quanto ela foi bem feita. O relacionamento de Jack e Kate, que foi desenvolvido por vários anos dentro da série, não chegou nem perto de canalizar os sentimentos envolvendo essa sequência que eles encontram.

Coincidentemente, o outro grande casal de Lost também não tem um desenvolvimento tão grande assim, mas é arrebatador da mesma forma. A história de Desmond (Henry Ian Cusick) e Penny (Sonya Walger) começou antes do avião cair na ilha, antes de Desmond ser responsável pela escotilha, antes de tudo. Penny, filha do magnata Charles Widmore, com interesses diretos na ilha, nunca nem sequer chegou a pisar na ilha em si. Mesmo assim, a trajetória dos dois é cheia de desencontro e dor, além de um amor reprimido que nunca teve oportunidade de se desenvolver. E então veio “The Constant”. 

O quinto episódio da quarta temporada de Lost é focado completamente em Desmond. A trama em si era uma mistura do que a série sabia fazer de melhor: algo inesperado, mas que ainda assim tinha como foco explorar um pouco mais sobre a jornada do personagem que era o foco daquela vez. Desmond, que estava longe de ser um dos principais, sempre teve uma das jornadas mais complicadas. Alheio ao sentimento dos outros personagens apresentados na ilha, ele buscava incansavelmente voltar para o que tinha com Penny, arrependido de a ter deixado. Enquanto os outros fugiam do que eles eram fora da ilha, do que eles eram antes, Desmond queria voltar para isso desesperadamente.

No episódio em questão, ele finalmente viaja no tempo descontroladamente, sem conseguir se manter no presente. Assim, ele descobre que o grande problema está no fato de que não existe nada ligando ele a narrativa do presente e precisa achar alguma coisa que o conecte a ilha. Ainda no passado, ele vai até Penny em Londres e pede que ela dê seu novo número de telefone, e ela o atenda na véspera de natal de 2004. Desse modo, ela seria sua âncora. E durante um pequeno minuto milagroso, ela atende. Os dois têm um momento intenso, de declaração e a definitiva prova de que eles se amam. E antes do tempo-espaço voltar ao normal para Desmond, eles estão juntos em Londres e no oceano, em todos os lugares. Afinal, ela é a constante na vida de Desmond.

Naquele momento, Penny e Desmond foram o casal mais importante de Lost. Na verdade, eles foram o casal mais importante de qualquer série de TV no ar na época.

É algo realmente extraordinário que dois dos momentos mais importantes de Lost, uma série que tinha grandes e ambiciosos elementos da ficção científica, sejam dentro de relacionamentos românticos, e a dinâmica estabelecida entre eles.

Em contraponto, está Nora (Carrie Coon) e Kevin (Justin Theroux) de The Leftovers. Aqui, Lindelof conta a história de um arrebatamento que levou 2% da população embora. Enquanto Kevin não perdeu ninguém da sua família, Nora não só perdeu o marido, como também os seus dois filhos. Os protagonistas se aproximam logo na primeira temporada e começam um relacionamento que era complicado e cheio de dor e remorso. Mesmo assim, a conexão era tão forte e poderosa, que seguiu ambos por meio de anos.

Impulsionada pela perda, Nora arranja uma forma de ir para o “outro lado” procurar seu marido e seus filhos. Quando ela some durante anos da vida de Kevin, ele a procura incansavelmente. É só anos depois que ele encontra Nora, que agora vive isolada na Austrália e já tem cabelos brancos. “As pessoas seguram velas, Nora”, ele conta para ela. Eles dançam e redescobrem o amor que sentem um pelo outro, ainda que ele tivesse nascido pela dor.

Não é atoa que a última cena da série mostra os dois sentados e conversando. Ela conta para ele o que aconteceu quando ela sumiu. Ela foi até o “outro lado” por meio de uma máquina criada justamente para isso, viu seu marido que estava com outra mulher, seus filhos tinham outra mãe. Se na Terra eles tinham perdido 2% da população, lá eles tinham perdido todo mundo. Assim, ela decidiu voltar e não procurar Kevin, achando que ele não iria acreditar na sua história. Lindelof deixa ao seu critério se vale acreditar ou não na história que Nora contou. O que realmente importa ali é que Kevin acredita, e que a vida deles ainda está ligada pelos sentimentos mais profundos que dois seres humanos podem ter. Ele chora, diz que acredita nela. E ela chora de volta, aliviada e disposta a retomar da onde a história deles parou. A câmera se afasta e a história acaba.

Watchmen

A frase “as pessoas seguram velas” não poderia se encaixar melhor neste texto. Sawyer segurou vela para Juliet, até quando eles se encontraram no plano espiritual, para seguirem em frente juntos; Desmond procurou incansavelmente por Penny, ao ponto de desafiar as regras do espaço-tempo; Nora e Kevin esperaram anos um pelo o outro e, mais do que isso, entendiam a dor que sentiam; e finalmente, Angela e Manhattan entraram em um relacionamento que superou as barreiras entre humanos e deuses, quebrou as linhas tradicionais do tempo e que literalmente salvou o mundo.

É importante perceber também que todas as relações, eventualmente, tiveram um grande evento traumático que acabou separando os casais. Mas a mensagem nunca é pessimista para Lindelof, pelo contrário. Segundo a lógica do idealizador, o amor é algo que transcende o tempo e o espaço e é o principal catalisador para a mudança. O amor salva e transforma, dá apoio e chega de formas diferentes e inimagináveis.

As séries de Lindelof costumam levantar mais questões do que responder. Imerso em simbologias e em uma narrativa que prioriza os personagens e suas relações, Watchmen não poderia ser diferente. Se você quer respostas literais e concretas para tudo o que acontece no seriado, muito provavelmente você não vai encontrar. Mas se olhar de perto, apreciar os detalhes e pequenos momentos entre os protagonistas, vai perceber que tudo que precisa realmente saber está ali.

Resta saber qual é a próxima grande história de amor que Damon Lindelof vai contar na TV.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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