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Seguimos vivas: como a cultura pop muda nossas vidas

No início de maio, completamos dois anos de existência. Se nosso primeiro aniversário foi marcado pela sensação de estarmos atravessando a linha de chegada depois de uma maratona complicada, a conclusão desses dois anos deixa a impressão de que estamos caminhando — às vezes correndo — num mundo diferente. Não só porque o mundo está mesmo mudando aos poucos, e a prisão de Harvey Weinstein na semana passada é só uma prova disso, mas porque todos os dias nós mudamos e somos transformadas pelas experiências que vivemos e pela cultura pop que consumimos, as duas coisas se influenciando mutuamente, o que reflete também no site e no conteúdo que produzimos.

Para marcar esse segundo ano, com o mundo e nossas vidas em constante estado de mudança, reunimos algumas editoras e colaboradoras do Valkirias para falar sobre qual experiência com a cultura pop mudou a sua vida ao longo desse último ano e qual foi o impacto dessa transformação. Confira aqui a primeira parte!

Sobre o poder das mulheres reais de Elvira Vigna

Por Karina Azevedo, colaboradora

Volta e meia, leio alguma coisa de um autor novo que me faz ficar completamente doida de vontade de consumir tudo o que aquele ser humano já escreveu. Acontece com coisas diferentes, de Meg Cabot a Chimamanda Ngozi Adichie. E aconteceu com Elvira Vigna. Conheci a obra de Elvira em 2016, mas foi em 2017 que li mais da autora e acabei encantada pelo seu jeito de falar da vida. Sempre me lembro que uma professora da faculdade disse uma vez que nenhuma vida é simples — e os livros de Elvira são prova disso. Eles me fazem pensar em como cada pessoa tem dentro dela tantas coisas mais do que nós conseguimos ver de fora, que tem muita coisa que nós não sabemos (e nunca saberemos) sobre o outro, que as coisas são muito mais interessantes do que julgamos em uma primeira olhadela. As protagonistas são mulheres comuns e, ao mergulhar no turbilhão dos pensamentos mais loucos e das dores mais profundas dessas personagens, me sinto mais próxima, também, de mulheres reais.

Também é incrível ver como a autora consegue pegar essas personagens que podiam ser qualquer um, com todas as suas complexidades minuciosas, e fazer algo excelente. Em um universo em que estamos sempre sendo cobradas, sob a pressão de sermos perfeitas, impecáveis e diferentes, chega a ser maluco perceber que não é necessário descobrirmos a pólvora para fazer algo de valor; o valor pode estar também nas ideias mais simples. Foi isso que Elvira fez por mim. É como se cada livro dela colocasse a mão no meu ombro e me dissesse que não precisa. Não precisa ter uma ideia escalafobética ou mirabolante para fazer alguma coisa realmente boa. Não precisa correr atrás o tempo todo de ser extraordinária, brilhante. E aí os livros dela chegam em um ponto da história — sempre chegam — com um detalhe ou reviravolta de cair o queixo e é como se Elvira completasse: você não precisa, mas é sempre bom lembrar que você pode.

Sobre a cultura pop que vai além dos trending topics do Twitter

Por Jéssica Bandeira, colaboradora

Escrever foi uma experiência transformadora na minha vida. Fui uma criança solitária que tinha o costume de falar sozinha. Quando isso se tornou muito feio, e coisa de gente esquisita, tive de ensinar minha mão direita a escrever aquilo que minha boca expressava com tanta fluidez. Passar as palavras para o papel é a coisa mais difícil do mundo, e aquela pré-adolescente tinha pressa para se expressar. Nessa época, criei inúmeras novelas radiofônicas; eu interpretava todos os personagens, gravava-as no toca-fitas do meu avô. Além disso, criei uma revista de fofocas, na qual eu era uma espécie de Hedda Hopper brasileira, destrinchando tudo o que os famosos faziam.

Mas não fui apenas a criança solitária que escrevia em qualquer pedacinho de papel. Também fui a criança solitária que ouvia não só Eliana, mas também Edson Cordeiro cantando a ária da Flauta Mágica, de Mozart. A criança que tinha como sua música favorita uma canção de Boy George, que ouvia todas os CDs de sua mãe e assistia a tudo o que ela via. Essa mistura fez com que eu tivesse a sensação de viver em dois mundos ao mesmo tempo: o das coisas antigas e o do presente. Essa existência dupla era insuportável e só foi piorou ao longo dos anos, à medida em que eu descobria mais filmes, mais atores e atrizes para adicionar ao meu rol de paixões.

Nesse contexto, a escrita começou a se delinear como uma forma de falar sobre o que chamo de O Mundo Invertido da Cultura Pop. Esse mundo em que Bibi Ferreira continua arrasando como Eliza Doolittle em Minha Querida Lady e que Fernanda Montenegro ainda é uma jovem atriz no Grande Teatro da TV Tupi. Se meus amigos não queriam me ouvir, já que eles não conheciam direito os assuntos sobre os quais eu falava, bem, talvez a internet quisesse. Quem não quisesse poderia querer através dos meus textos. A possibilidade de ressuscitar a cultura pop das antigas das profundezas, do mundo invertido em que ela aparentemente vive, é o que me mantém viva. É o que faz com que eu sinta o sangue pulsar em todo o meu corpo. No Mundo Invertido da Cultura Pop, há espaço para tantas descobertas, e me orgulho muito de tornar isso possível. A cultura pop vai muito além daquilo que está nos trending topics do Twitter. Não me cansarei de resgatar a trajetória de diversas atrizes, como Nathalia Timberg ou Jane Fonda, que merecem ter suas carreiras revisitadas, para que possamos entender como chegamos até aqui enquanto mulheres. É um trabalho árduo na maioria das vezes, você é praticamente a rata da internet em busca de informações, mas, caramba, como é bom ver o texto materializado.

Hoje, depois de um ano colaborando ativamente para o Valkirias, vejo meus textos como coquetéis molotov lançados contra uma bolha que quer nos dizer que coisas antigas são ruins, ou que sequer são cultura pop. Cada vez que um texto meu explode e fura a bolha, a criança solitária em mim sorri. Ela sorri porque pensa que alguém solitário como ela vai poder ter a chance de não se sentir tão solitário assim. O Mundo Invertido da Cultura Pop tem muita história para contar.

Sobre consumir tudo ao mesmo tempo agora

Por Júlia Medina, colaboradora

Em 2017 fiz muitas escolhas que foram inéditas para mim. Anos atrás eu me orgulhava de só ver filme velho e de quase não assistir televisão, mas de algum tempo para cá decidi mudar isso. Mais do nunca consumi conteúdo na mesma hora que era lançado. Ano passado, tivemos Big Little Lies e The Handmaid’s Tale, duas séries incrivelmente boas que acompanhei semanalmente com o resto do mundo. Teve o Melodrama, da Lorde, que foi impossível não entrar no hype; vivi meu primeiro lançamento de livro do John Green, com Tartarugas Até Lá Embaixo; e também meu primeiro lançamento de álbum da Taylor Swift, o reputation. Nunca tinha acompanhado esses Grandes Momentos e foi muito bom viver essas experiências.

Assisti Please Like Me, Master of None, Atlanta e The Good Place, que me fizeram reformular tudo o que eu achava que uma produção do gênero poderia ser. Experienciar essas quatro séries me lembrou do quão fascinante é criar e poder pensar sobre narrativas. E como é possível ser revolucionário com uma fórmula tão usada e repetida de comédia.

Eu saí desse ano intenso como espectadora com uma grande necessidade de dar um tempo. Estar em dia com o mundo pop é legal, assim como é legal ver só filme velho. Eu sei que não sou a mesma de anos atrás, mas também percebi que não consigo — e nem quero — consumir tudo o que é novo. Isso não quer dizer que não quero fazer parte desse zeitgeist, mas que preciso encontrar o meu próprio caminho. Faço parte da equipe do Valkirias desde 2016 e escrever aqui me tem dado o espaço que preciso para refletir sobre o que vejo e leio, sobre o que eu gosto, sobre o que faz sentido para mim. Talvez o que mais me afetou tenha sido justamente escrever para o site — e eu gosto o suficiente desse argumento para concluir com ele.

Sobre redescobrir a própria família com O Xará

Por Laura Lima, colaboradora


Em 2006, fui assistir Nome de Família com minha mãe. Eu tinha 13 anos e nenhum motivo para pensar sobre imigrantes indianos nos EUA, relações familiares conturbadas ou sobre como a identidade é construída. Corta para 11 anos depois e logo no começo d’O Xará, livro de Jhumpa Lahiri, percebi que já conhecia aquele enredo, afinal é meio difícil encontrar dois personagens que se chamem Gógol Ganguli.

No livro (que é melhor do que o filme), acompanhamos a vida de Gógol desde o nascimento, a escolha do seu nome peculiar, a juventude até sua vida adulta. A potência dessa história, para mim, entretanto, reside na força da mãe de Gógol, Ashima. Um casamento arranjado na Índia, a construção do amor com o marido, a mudança para outro país, a saudade da família e dos costumes indianos, a falta de referências, a chegada dos filhos e todas as dificuldades de se criar dois adolescentes confusos com a própria identidade e que podem ser bastante cruéis com os pais — assim como a sociedade com os imigrantes. Todas essas mudanças na vida de Ashima me fizeram refletir sobre a minha própria família, predominantemente formada por mulheres, sua história, tudo o que eu não sabia sobre minha avó e minha mãe e o tanto delas que estava em mim.

O Xará fala sobre identidade, sobre não caber, não se enquadrar, ser diferente, mas principalmente se sentir diferente e o que se escolhe fazer com isso, todos os dias. Me fez rir, chorar e recomendar insistentemente pra todo mundo em 2017 — que pediu indicações ou não.

Sobre se enxergar como mulher lésbica na cultura pop

Por Tany Monteiro, colaboradora

No último ano, passei muito tempo tentando me conhecer e me entender um pouco mais como mulher, e principalmente como mulher lésbica. Nos últimos meses, sem perceber, consumi muito mais conteúdo LGBT+ do que tinha consumido nos últimos anos. É gratificante se ver retratada em um filme, seriado ou na literatura, mas apesar do aumento da representação, ela ainda é muito escassa. São poucos os bons exemplos que nós temos atualmente que tenha um final feliz ou que não envolva alguma polêmica, romance proibido, sem alguma tragédia no final.

Alguns meses atrás acabei fazendo um curso em São Paulo sobre Cinema e Literatura LGBT. O foco era falar sobre obras literárias que tinham sido adaptadas para o cinema, o que parecia super interessante. E foi, na realidade, mas só até a segunda das quatro aulas, quando notei que quase todos os filmes que iríamos falar tinham algo em comum: homens. Em um mês de curso, dividido em quatro aulas com oito filmes para serem analisados e debatidos, somente um era sobre um romance entre duas mulheres, e sem surpresa nenhuma o escolhido foi Azul É a Cor Mais Quente — um filme polêmico e um exemplo perfeito do male gaze. Assisti a filmes da década de 60, de diversos gêneros, alguns explícitos e outros mais subentendidos, mas nenhum deles citou a atração entre duas mulheres ou tinha uma personagem importante bissexual. O foco eram personagens masculinos no cinema da mesma forma como o mundo (ainda) gira em torno do homem. Fiquei decepcionada por vários motivos, mas o principal é que atualmente, principalmente no mainstream, ainda temos poucos, porém ótimos, títulos com os quais contar, como Carol, Lovesong, But I Am a Cheerleader, Pariah, para citar alguns filmes que trazem diversas camadas e histórias com e de personagens lésbicas.

Hoje, percebo que uma das minhas missões é conhecer e espalhar para o máximo de pessoas a maior quantidade possível de obras sobre mulheres que se amam. Parece bobagem, mas saí daquele curso frustrada e determinada a mostrar que assim como os homens gays e relacionamentos heterossexuais, nós também temos diversidade, profundidade e muita história para contar.

Sobre o poder do amor e de tratar as pessoas com gentileza

Por Thay Gualberto, editora

Quando, há dois anos, um grupo de amigas decidiu criar o Valkirias, eu não fazia ideia da revolução que o site promoveria em nossas vidas. Se em um primeiro momento havíamos planejado publicar apenas dois ou três textos por semana, na data da estreia fomos engolidas pela proporção que as coisas tomaram e passamos a trabalhar, logo de cara, com o calendário cheio e textos inéditos saindo durante cinco dias da semana — às vezes mais. De lá pra cá, muita água rolou por debaixo da ponte, muitas crises, choros e risos tomaram forma, e a cultura pop nunca mais foi a mesma — não por conta do site em si, ainda que a revolução que ele promoveu em minha vida tenha sido imensa, como disse — mas por conta daquele 2 de maio de 2016 quando pude ver a maior super-heroína de todos os tempos aparecer em seu primeiro filme solo na tela grande.

Como fã de quadrinhos desde que me entendo por gente, poder assistir Mulher-Maravilha no cinema, compartilhando aquele turbilhão de sentimentos com as minhas amigas, foi algo único, um marco. Não foi preciso mais do que dois minutos de filme para que meus olhos transbordassem de lágrimas — e assim foi durante toda a exibição. Pode soar bobo para alguns, afinal é “só” mais um filme de herói, mas aí que está o equívoco: não é “só” mais um filme de herói. É o filme que nós, mulheres, estivemos esperando durante todos esses anos e mesmo passado um ano desde a estreia, continua a significar o mundo para a gente e um ponto de virada na cultura pop. Mulher-Maravilha pode não ser o filme perfeito, mas abraçou a cada uma de nós enquanto dava vida a uma heroína que salva o mundo com a força do amor.

Símbolo daquilo que há de mais puro e nobre, Diana Prince vem como o estandarte da força do amor, e é realmente incrível que o ícone que materializa essa força seja uma mulher, aquela que, tanto ouvimos falar por aí, é considerada fraca justamente por amar. Ainda que tenha se passado um ano desde Mulher-Maravilha, ainda quero acreditar que o amor é o poder que muda o mundo — nem que seja o nosso pequeno mundo particular. Treat people with kindness, acredite que o amor é a força que tudo modifica e que a tudo cria, e encontre um lugar seguro para ser livre para ser o que quiser. Não é à toa que esse, afinal, continua sendo o ano de simplesmente sentir.

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