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Descobrimento e maternidade em Suíte Tóquio, de Giovana Madalosso

É do escritor holandês Arnon Grunberg a frase que abre o livro, antes mesmo do primeiro capítulo: “Todo amor é um sacrifício”. Funciona como uma premissa maior para a história que se inicia na página seguinte. “Estou raptando uma criança”, diz Maju em seguida, uma das protagonistas de Suíte Tóquio, segundo romance de Giovana Madalosso. A autora curitibana, que já marcou seu nome na literatura brasileira com os contos de A Teta Racional e com a cleptomaníaca de Tudo Pode Ser Roubado, retorna a tematizar o amor na sua forma mais pura e mais visceral: o amor materno. Publicado pela Todavia em setembro deste ano, Suíte Tóquio é o sacrifício de duas mulheres tentando se encontrar.

Duas faces da mesma moeda

A trama do livro é dividida em dois arcos narrativos que caminham para lugares distantes. De um lado, acompanhamos Maju, a babá, uma entre muitas do “exército branco”, uma mulher humilde com o desejo de ser mãe. Do outro, Fernanda, essa sim a mãe em questão, uma mulher de negócios, atarefadíssima. Maju é a responsável por cuidar de Cora, filha de Fernanda, enquanto a segunda trabalha. Seus dias são dedicados à pequena e todas as atividades que compõem a rotina de uma criança de classe alta. A estabilidade é perturbada quando Maju rapta Cora, como anuncia na primeira frase do livro. Inicialmente, o sumiço da criança e da babá é visto como algo trivial pela mãe, uma simples viagem ao sítio ou imprevisto na rua. Mas conforme o tempo passa e as duas não retornam, despertam em Fernanda seus maiores medos e falhas.

Os aspectos pessoais da vida de Maju começam a desmoronar conforme seu tempo no trabalho aumenta, o que a leva a acreditar que só tem a Cora. Com a crise interna instaurada, a babá toma a decisão de raptar a criança para que possam construir uma vida juntas, longe da grande São Paulo que acolhe os personagens. Enquanto isso, Fernanda está ocupada demais despendendo-se pelo trabalho e por Yara, uma livre diretora de cinema que a encanta a cada encontro. Sua filha e seu casamento ocupam um lugar secundário. Entretanto, isso não a impede de tecer reflexões acerca da maternidade e todas as obrigações que a cercam como mãe. Muitas vezes ácida e impulsiva, Fernanda remonta seus dias de felicidade com a amante e as frustrações que sente em casa até perceber o desaparecimento da criança.

“Levo comigo a Cora, um maço de dinheiro e cinco próteses dentárias. Todo resto é memória, é tudo que temos, mas ao mesmo tempo não é nada. Memória é um filho que já nasce morto. E se decompõe.” (p. 29)

O que define o verbo não é o sujeito, mas o objeto

O peculiar nome do livro tem sua origem nas relações de classe estabelecidas entre Fernanda e Maju. É a dona da casa quem batiza o quarto onde fica Maju com o nome que leva a obra, após a transformação do ambiente em um lugar “descolado”, segundo ela. Se para uma a suíte Tóquio é um agrado, uma forma de diminuir o peso de suas costas, para a outra é uma espécie de prisão consentida. A distância socioeconômica entre as duas personagens é um fator de tensão da história e fica nítida a crítica que a autora faz a uma herança escravocrata, apesar da questão racial não ser amplamente explorada.

O maior trunfo de Suíte Tóquio é sem dúvidas o protagonismo feminino. É com primor que Madalosso se apossa e amplifica duas vozes tão distintas como as de Maju e Fernanda. São diferentes na fala, nos gestos, nos gostos, nos pensamentos. São mulheres diametralmente opostas. Se Maju foge para o sul, Fernanda se refugia no norte do país. Se tudo que Maju mais quer é construir a relação materna com Cora, Fernanda quer ir embora da vida que tem. É desse modo que a autora ganha o leitor, misturando a autenticidade de personagens em busca de um algo a mais na vida.

Enquanto a trama de Maju transforma-se em uma road trip com muitos obstáculos, a de Fernanda vira uma viagem de autoconhecimento. Intercalando as duas vozes, adentramos o íntimo das mulheres durante o período de fuga. Para Maju, seu relacionamento com Cora e a maternidade se mostram mais frustrantes do que ela esperava. O mesmo acontece com Fernanda e Yara, num flashback anterior ao desaparecimento da menina. Quando a situação do presente da trama piora, Nanda recorre à sua relação primária, sua mãe, rendendo uma das passagens mais profundas do livro.

“A típica relação mãe e filha, uma reclamando da outra, se frustrando com a outra, às vezes sentindo inveja da outra. E apesar de tudo, juntas. Os relacionamentos amorosos vão, a lua de mel com o filho homem esfria, mas mãe e filha seguem enganchadas, trocando farpas até o último suspiro, na relação mais difícil mas talvez mais bonita de todas” (p. 176)

Entre motéis imundos, estradas inóspitas, pequenos barcos e dois amores genuínos, Giovana Madalosso constrói as histórias de duas mulheres que merecem nosso olhar. Tematiza a maternidade, o lado belo e o lado compulsório, o idealizado e o real. Com humor e ternura, a autora descreve duas viagens de descoberta da verdade, seja ela interna ou externa. Suíte Tóquio é a jornada de duas heroínas nada típicas — como não poderia deixar de ser em sua literatura.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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