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Luxo, furtos e São Paulo: Tudo Pode Ser Roubado, de Giovana Madalosso

Itens de grife movimentam um mercado milionário anualmente e atraem a cobiça de diversas pessoas, independentemente de poder econômico. Mobilizam também o romance da escritora Giovana Madalosso, intitulado Tudo Pode Ser Roubado. A autora, nascida em Curitiba, mas moradora de São Paulo há mais de 15 anos, foi finalista do Prêmio Literário da Biblioteca Nacional com o livro de contos A Teta Racional, em 2016. Seu romance de estreia, Tudo Pode Ser Roubado, foi publicado pela Editora Todavia dois anos depois. No livro, temos a história de uma garçonete de um restaurante de luxo, na capital de São Paulo, que se enrola em seus pequenos delitos. O que começa por acaso, ao roubar uma pele de mink de um recém viúvo com quem passou a noite, logo torna-se corriqueiro. As noites casuais muito bem pensadas se convertem em artigos de luxo furtados, que são vendidos ao brechó de uma amiga. A protagonista segue o percurso de golpes sem maiores preocupações, até receber um convite inesperado: é convidada para roubar um exemplar raríssimo de uma das obras mais prestigiadas da literatura brasileira: O Guarani, de José de Alencar.

Enredo, errada e encascada

A protagonista não nega que costuma ter facilidade em suas práticas. O envolvimento romântico ou sexual com alguém não é mais que secundário, sua atenção é toda voltada para o furto — e o risco tem que valer muito a pena. A prioridade é conseguir algo valioso e sair o mais rápido possível da situação, e ela se vira bem, não demora para aparecer com uma peça no brechó de Tiana, localizado numa área nobre da capital paulista. A amiga, aliás, é uma das personagens mais encantadoras da obra, uma mulher transexual muito sonhadora e amável, mas com uma trama pequena. Para a protagonista, o dinheiro complementa seu salário de garçonete, outra escolha consciente que contribui para seus planos.

A abordagem para o novo trabalho acontece no estabelecimento, enquanto a jovem serve uma mesa e outra. Sua rotina é perturbada quando um homem, usando um chapéu fedora e bebendo whisky, identificado apenas como Biel, solicita a presença dela, que estranha a situação. Por colocar em risco seu ambiente de trabalho, os dois encontram-se fora do restaurante posteriormente e acertam os detalhes da proposta: uma bolada de dinheiro para tirar de um professor universitário a edição de 1857 do romance O Guarani, desejado por um colecionador. Como o plano e o professor são bem mais difíceis do que parecem, as situações (e confusões) criadas por Madalosso compõem a heroína pós-moderna e dicotômica que a protagonista é, sem ao menos revelar sua identidade.

Tudo Pode Ser Roubado

A ideia da jovem é simples, mesmo que bem detalhada. A faculdade onde Cícero leciona foi o meio escolhido para a aproximação e, além de frequentar as aulas, a garota também marca presença nos arredores do campus, onde os alunos socializam. Se, por um lado, a narradora assume que nunca teve muitas vontades na vida, sofrendo até para escolher um presente de aniversário durante a infância, seus objetivos durante os delitos são bem claros. Sedutora e determinada, ela passa uma pequena resistência por parte do professor arredio durante sua tentativa de romance, mas não demora para que ele caia no papo da trambiqueira. O famoso “na sua casa ou na minha?” tensiona a aproximação da golpista do almejado exemplar, que cresce nas expectativas conforme ela é pressionada por Biel para realizar o furto.

Simultaneamente, cresce o relacionamento entre a jovem e o vigarista. Os dois vivem em função do dinheiro e se reconhecem como pares devido à moral dúbia. Apesar de dividirem pouquíssimo sobre a vida pessoal um com o outro, desenvolvem uma ligação forte. Em um dos capítulos, Biel a convida para sair e a leva para um bar mitzvah, ao qual ele não foi convidado, rendendo um momento cômico e de parceria entre a dupla. Enquanto o jogo de sedução com Cícero é motivado por interesse material, o envolvimento entre os dois golpistas acontece de forma natural. Mesmo não sendo uma personagem que persegue uma trama amorosa, ambos os relacionamentos ficam em aberto como possibilidades de virada para uma nova vida para a garçonete cleptomaníaca.

Tinha que ser paulista

A incorporação de um lugar como parte fundamental de uma obra é bastante presente na literatura nacional. Dos Sertões de Euclides da Cunha e de Guimarães Rosa até a Bahia de Jorge Amado, passando pelo Rio de Janeiro, por Machado de Assis, as cidades e regiões têm presença grande como personagens. A São Paulo de Giovana Madalosso é descrita como a metrópole imponente que realmente é, de forma quase cinematográfica. Além das avenidas e dos pontos mais conhecidos, Tudo Pode Ser Roubado embarca também nas pequenas ruas transversais, no interior dos apartamentos, nos becos e nos muros dos estabelecimentos.

“[…] De fato, é um belo apartamento. Mas do ponto de vista de quem veio encher a bolsa é uma bela de uma bosta, porque é tudo limpo demais, vazio demais. Tudo bem, a estante até tem alguns pequenos objetos, mas todos estão bem dispostos, em lugares e ângulos que parecem ser estudados. Eu conheço esse tipo de gente, já fui à casa de outros estetas. Se você pega um negocinho qualquer eles já percebem na hora, não que o negocinho faça tanta falta, mas porque sua ausência, de alguma forma, desequilibra o desenho do todo.”

A atração pela cidade é intrínseca à personagem, que descreve sua arquitetura e seus habitantes com maestria. Do restaurante nas proximidades da Avenida Paulista, descendo a rua na direção da Augusta, pela praça com chafariz perto dos prédios comerciais no centro, até a faculdade em Higienópolis. Em um dos trechos, ela explicita a faceta de São Paulo que mais a fascina: a vida após o expediente, quando as pessoas se libertam das amarras de viver num local pautado pela força de trabalho e revelam seu verdadeiro “eu”. Seus deslocamentos preenchem o livro com as mais diversas figuras e ocasiões, sempre com um tom ácido e crítico às classes mais altas e seus exageros.

Uma casa reflete a personalidade de seu morador e, adentrando a casa das elites, a narradora ambienta o habitat de suas presas antes de serem roubadas. Ao mesmo tempo, seu próprio apartamento, também chamado de “o fungo”, explicita o estado psicológico da jovem. Segundo ela mesma, tudo que lhe importa é um bom café e um dia de sol — e gostaria de encontrar um lugar melhor. Ainda falando da cidade, é desse modo que a protagonista explicita a sua motivação para continuar furtando.

De roubo em roubo…

A escalada da protagonista em busca de dinheiro resulta em situações bem humoradas e irônicas, muito bem organizadas pela escrita fluida de Giovana Madalosso. Uma personagem dupla guia o roteiro pela capital paulista: por um lado, vazia, solitária e sem maiores pretensões na vida e, por outro, certeira e determinada na hora de cometer os furtos que a sustentarão por mais alguns meses. Apesar de ser natural de uma cidadezinha no interior, a protagonista encontra-se em São Paulo como se vivesse lá por muitas vidas e apresenta ao leitor as diversas facetas da cidade brasileira, enquanto explora os delitos e ética por trás do roubo de um exemplar raro de uma obra célebre da literatura nacional. Com potencial cinematográfico, devido principalmente às descrições locais acertadas, Tudo Pode Ser Roubado é um momento de graça no meio do espírito caótico de uma grande metrópole.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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1 comentário

  1. Muito bom o trabalho, parece mesmo texto da própria escritora. Ressalta pontos importantes na construção do romance e seu olhar se estende das personagens ao ambiente da cidade, que descreve como cenário cinematográfico, pronto para a sétima arte. A saga dos pequenos roubos, as pequenas incivilidades permitem imaginar um clímax intenso, um ” gran finale” que um diretor de cinema transformaria num grande clássico. O roteiro já está pronto. Parabéns, Vivian.