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Entre caos e emancipação: o romance de Harley Quinn e Poison Ivy

Desde a primeira aparição de Harley Quinn no universo do Batman, em uma série animada na década de 1990, sua existência foi conectada diretamente ao Coringa e nada mais. E durante os muitos anos em que a personagem cresceu dentro desse mundo, as coisas foram assim. Quando Quinn apareceu pela primeira vez, ela era Harleen Quinzel, uma doutora e psiquiatra que acabou sequestrada pelo vilão e sendo jogada em um poço de produtos químicos, tornando-se, então, a anti-heroína que é hoje tão famosa nos cinemas — interpretada por Margot Robbie. Mas foi só com o sucesso dela dentro do limitado e terrível Esquadrão Suicida, lançado mais de 20 anos após sua estreia como personagem, que as pessoas começaram a perceber que talvez a “namorada do Coringa” fosse interessante o suficiente para ganhar uma narrativa individual.

Foi com essa percepção que nasceu o filme Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa, dirigido por Cathy Yan, produzido pela própria Robbie e com um elenco cheio de mulheres de idades e nuances diferentes, sendo que cada uma das personagens apresentadas procuravam se libertar de alguma forma do patriarcado que as limitavam. E, no centro de tudo, estava Harley Quinn. A história do longa começa logo após ela e o Coringa colocarem um ponto final definitivo em seu relacionamento, quando Quinn tem que procurar, pela primeira vez em sua pequena sobrevida como vilã, independência dentro de Gotham. Diferente do que acontece em Esquadrão Suicida, ela agora era a protagonista e não estava ali apenas para preencher uma cota dentro de uma produção fadada ao fracasso. Seu corpo tampouco servia como bibelô para que os “fãs de quadrinhos” analisassem — mas sua revolução não está limitada apenas às salas de cinema.

Na sua nova animação, intitulada apenas de Harley Quinn, a personagem ganha ainda novas dimensões. Com duas temporadas já disponíveis, a série é divertida, engraçada e está pouco ligando para o conceito de “cânone”, o que rende uma quantidade boa de piadas sagazes e pertinentes. O fato de que existe uma carta verde para que os idealizadores possam usar todo e qualquer personagem do universo da DC faz com que figuras familiares apareçam constantemente com uma nova (e geralmente melhor) camada, ao mesmo tempo que figuras como Zatanna — que foram deixadas de lado durante muito tempo — façam aparições pontuais. Mas, assim como a maioria das personagens que dão nome a sua própria obra, Harley suga todas as atenções com uma facilidade incrível. Ela é, de fato, a protagonista, e entra em uma jornada para tentar se distanciar do estereótipo que tinha sido pré-estabelecido para si em Gotham: ela era apenas a namorada histérica do Coringa, sempre na sua sombra, e nada mais.

A primeira temporada é muito sobre isso. Harley (Kaley Cuoco) tenta se livrar da sombra do ex-namorado e da forma problemática como ele a tratava. De vez em quando ela cede e acaba voltando, mas logo passa a perceber que não existe mudança quando se trata do Coringa. Mais do que isso, ela cria uma equipe, que mais tarde se torna uma família, e consegue aos poucos construir sua marca dentro de Gotham. No final da primeira temporada, ela já não é a mulher do começo e isso é perceptível em todos os aspectos — da forma que se veste até o jeito como lida com as pessoas. E no centro de absolutamente todas essas mudanças, está Poison Ivy (Lake Bell).

Harley Quinn e Poison Ivy

Apesar de Poison ter sido criada décadas antes e para uma mídia diferente (quadrinhos, no caso), a primeira vez que as duas formaram uma dupla foi em meados de 1993, durante um episódio da série animada do Batman. Assim como a existência de Harley Quinn, a de Pamela Isley também foi muito limitada pela visão masculina e como ela era vista não só pelos seus criadores, mas também pelos consumidores desse universo no geral. E isso se perpetuou até os dias atuais (como esquecer do fiasco da série Gotham, que literalmente trocou a atriz que vivia a personagem para poder fazê-la ser vista de “forma mais sexy”). Mesmo assim, a essência da relação entre as duas sempre foi basicamente a mesma apresentada agora na série de TV. Pelo menos na sua essência. Antes parceiras de crime, depois algo mais. Quando as duas passaram para os quadrinhos e Harley ganhou um saga própria, era Ivy quem apontava o quanto era problemática a dinâmica da protagonista com o Coringa, incentivando sua amiga a terminar tudo e seguir com sua independência (ou emancipação), mesmo que Harley acabasse voltando para o mesmo padrão de novo e de novo.

Em histórias em quadrinhos é comum ver personagens femininas que foram criadas apenas para preencherem a lacuna do interesse amoroso. Lois Lane e a própria Selina Kyle (a Mulher-Gato) são exemplos bem pertinentes desse aspecto. Eventualmente, as duas se tornaram muito mais do que isso, mas não dá para negar que elas sempre orbitam ao redor de Clark Kent e Bruce Wayne, respectivamente. Quando as personagens não necessariamente se encaixam nessa caixinha, elas servem apenas para impulsionar algo nos heróis. A própria Barbara Gordon toma um tiro e sua tragédia é um catalisador para o Batman e seu pai, o Comissário Gordon. No final, Quinn também foi criada como um interesse amoroso, como a parceira do Coringa. E, eventualmente, Poison Ivy também foi uma espécie de possível “candidata” para o Batman. O que só faz o relacionamento entre as duas ser ainda melhor, como algo orgânico e verdadeiro que se desenvolveu ao longo das décadas. Após perceber que os fãs gostavam da dinâmica criada entre elas — e mais do que isso, percebendo que eles cultivavam e torciam para que elas desenvolvessem algo além do status platônico —, as vilãs foram desenvolvidas para além do eixo heteronormativo que estavam inseridas.

Quando Amanda Connor e Jimmy Palmiotti assumiram a condução da narrativa de Harley Quinn nos quadrinhos, as insinuações de um relacionamento amoroso entre as duas começou a ganhar ainda mais força e, em 2015, os dois confirmaram no Twitter que elas realmente são namoradas, mas que não seguem a norma da monogamia. Mas se, tecnicamente, os criadores têm que confirmar por uma rede social que de fato existe algo romântico entre elas, é porque a narrativa não necessariamente desenvolve todos os aspectos de forma clara. Afinal, as páginas têm que falar por si. Apesar de Quinn se referir a Ivy como “minha namorada”, existia ainda uma dúvida geral. A série animada chega como um alívio neste aspecto. Apesar do relacionamento delas ser muito mais do que apenas romântico, e ser bem trabalhado o suficiente para que tenha diversas camadas, quando as duas começam a dar o próximo passo isso fica completamente claro. O que os roteiristas oferecem aqui é a oportunidade de, finalmente, acompanhar uma história de amor completa para as duas. Não apenas insinuações ou meias verdades.

Harley Quinn e Poison Ivy

No tempo em que história começa na animação, as duas são apenas parceiras. Harley vê em Poison Ivy a oportunidade de conseguir alguém ao seu lado que, ao contrário dela, tem o respeito e o medo de absolutamente todo mundo em Gotham. Então, quando elas escapam de Arkham (a prisão que abriga todos os grandes criminosos da cidade), as duas começam a criar um laço que é, de início, muito voltado a possibilidade das atrocidades que elas poderiam cometer juntas. Ao mesmo tempo, Ivy é a primeira pessoa que aponta para Quinn o quanto seu relacionamento com o Coringa é esquisito, mostrando que ele a trata basicamente que nem lixo. Assim, além da iminente parceria, ela também oferece um lar temporário para Harley — que mais tarde se torna fixo —, um porto seguro.

Mesmo que a natureza da relação no começo não seja necessariamente baseada em romance, a amizade que nasce entre elas é genuína e muito gostosa de acompanhar. Poison Ivy é, de muitas formas, o completo oposto de Harley. Sua personalidade é calculista, introvertida e a maioria dos seus crimes acontecem porque ela sente a necessidade de proteger o meio ambiente, fazer do mundo um lugar melhor (ainda que seus métodos não sejam tão convencionais). Sua dificuldade de conviver com pessoas e se entregar para as mesmas bate diretamente com a explosiva Harley Quinn, que dá tanto de si mesma para os outros que não sobra muita coisa. Uma vai puxando e explorando um lado dormente da outra. Quando Harley precisa de uma consciência, Ivy é quem faz esse papel. Já a protagonista desempenha a função quando Ivy precisa de um incentivo para se expor mais, se arriscar e sair da zona de conforto. “Por causa de você eu consigo ficar perto das pessoas. Ainda odeio ficar, mas pelo menos consigo fazer isso sem vomitar agora”, ela diz para Quinn.

É por causa da sua coragem recém adquirida para se aventurar fora da sua bolha é que Ivy começa sua relação com o Kite Man (Matt Oberg). Apesar de tentar esconder o relacionamento no começo, em uma mistura de vergonha e medo de expor seus sentimentos para o mundo, aos poucos ela vai ganhando confiança em Harley, que com sua personalidade expansiva tira cada vez mais um pouco da solidão de Ivy. Incentivando-a em vários aspectos, inclusive com sua vida amorosa recém-estabelecida. No final da primeira temporada, então, as duas não estão apenas estabelecidas como parceiras de crime para Gotham, como também melhores amigas para si mesmas. E possivelmente, uma família que nunca conseguiram achar da forma convencional.

Existem muitos ângulos sobre o qual esse relacionamento pode ser abordado. No geral, acho interessante pensar como elas se uniram, inicialmente, porque estavam cansadas de serem obrigadas a seguir a regra dos criminosos homens da cidade e a forma misógina como eles conduziam as coisas. Mas, na medida em que os episódios vão desenvolvendo, o relacionamento das duas, a dinâmica, se torna muito mais do que a rotina básica do “girl power” que estamos acostumados a ver. A amizade se torna algo que realmente vale a pena acompanhar sendo que, quando elas finalmente se sentem preparadas para dar o próximo passo, tudo parece natural e sincero.

Se o primeiro ano da série foi focado na forma como elas fundamentam sua pequena família disfuncional, a segunda temporada é sobre o romance que cresce ali. Apesar de serem vilãs e presarem pelo caos de Gotham, ambas passam a ser pessoas melhores pela relação que nasce entre elas. Mas como todo bom romance da TV, existem complicações que impedem o relacionamento de dar certo desde o começo. Afinal, nada é fácil ali. Harley foi dependente do Coringa por anos, algo que a própria Ivy sabe muito bem. Elas também são melhores amigas e ao perceberem que existe um sentimento a mais do que a amizade comum, com isso também chega o medo de estragar algo que é quase perfeito. E por último, mas não menos importante, nesta altura do campeonato Ivy está noiva do Kite Man.

Harley Quinn e Poison Ivy

A crescente tensão sexual entre elas é algo pontuado pela narrativa durante o começo da segunda temporada e todos esses momentos culminam em um beijo que elas compartilham após escaparem de uma prisão subterrânea do vilão Bane (James Adomian). É algo que simplesmente acontece, sem premeditação nenhuma por ambas as partes, apenas uma reação espontânea de duas pessoas muito aliviadas e felizes que resolvem extravasar essa energia assim. Obviamente uma indicação de sentimentos mais profundos. Mas, ao invés delas lidarem com isso, escolhem seguir caminhos opostos. Harley entra em negação completa, enquanto Ivy se aprofunda mais no seu compromisso com Kite Man, chegando inclusive a conhecer seus pais.

Durante a despedida de solteiro de Ivy, Harley parece dedicada a se tornar a dama de honra perfeita, planejando um final de semana que serviria para supostamente reforçar o quanto ela estava comprometida com a felicidade da sua melhor amiga. Só que, chegando lá, as duas dão o próximo passo no relacionamento e acabam passando a noite juntas. Algo que a própria Harley descreve como uma noite de “sexo orgásmico”. Se depois disso a protagonista parece finalmente aceitar seus sentimentos, Ivy vai na direção oposta e mesmo com uma declaração genuína de Harley, escolhe seguir em frente com o seu casamento. Essa parte da história é triste e complicada, mas não vem sem nenhuma justificativa. Pamela sempre foi, na sua essência, uma pessoa solitária e com dificuldade para se abrir. Mas ela conseguiu fazê-lo com Kite Man e depois de anos acompanhando a saga entre a própria Harley e o Coringa, se sente insegura em abraçar o relacionamento que surge entre elas.

Muito como a essência das próprias personagens, o romance entre elas é caótico. Mas não poderia ser diferente. Elas estão inseridas em um contexto onde mayhem é a regra, e não a exceção, e isso reflete em cada passo e decisão que elas tem que tomar — inclusive em relação ao romance. Mas a evolução delas é nítida. Mesmo quando Ivy diz para Harley que vai seguir com o casamento, e a protagonista fica com o coração partido de dor e rejeição, ela faz o melhor para deixar sua melhor amiga seguir em frente, quebrando o padrão de abuso e obsessão que ela tinha com o próprio Coringa. O amor, aqui, é puro. É impulsionado não pelo egoísmo ou luxúria, mas pelo simples fato de querer que Ivy seja feliz, fazendo até esforços para ajudar a Liga da Justiça a impedir o apocalipse final (que também iria atrapalhar a cerimônia da sua melhor amiga). Ao longo dos episódios, Ivy fez com que Harley se tornasse uma pessoa melhor. E seus atos altruístas em relação ao seu próprio bem-estar provam isso (mesmo que, mais uma vez, seus métodos de resolução não sejam completamente organizados ou funcionais. Mas ainda estamos falando da Harley Quinn, que esbanja uma energia caótica).

É só quando Kite Man termina com Poison Ivy (porque até mesmo ele percebeu que existe algo entre as duas) que a própria percebe que não dá mais para negar seus sentimentos. No minuto final da temporada, as duas seguem para o pôr do sol em um conversível rosa, uma clara homenagem ao final do primeiro episódio em que elas formam uma dupla, ainda em 1993. Ninguém sabe o futuro da série, ou sequer se existe uma possibilidade dela ser renovada para uma eventual terceira temporada, mas seria interessante ver o desenvolvimento delas como um casal e parceiras. E se isso acontecer, que elas tenham a oportunidade de crescer juntas e ter todos os clichês. Afinal, elas são duas das maiores anti-heroínas do mundo e um dos casais mais poderosos da DC Comics no geral.

Harley Quinn e Poison Ivy

Essa é a primeira vez que o romance entre Harley e Poison Ivy é tratado como um arco grande e significativo para a protagonista. Seu relacionamento com a melhor amiga é uma das coisas mais importantes para ela na animação e, consequentemente, o romance também. Aqui, o relacionamento não é construído apenas com indicações ou confirmações no Twitter. Tudo está ali e não existe “interpretações” diferentes: elas estão apaixonadas. E é simples assim. Eu ainda iria além e diria que, porque as duas são retratadas na série como duas pessoas independentes, duas mulheres com nuances e personalidades completas (ainda que com suas falhas), o relacionamento fica ainda mais satisfatório e complexo. O que nem sempre é a regra para personagens femininas nas histórias em quadrinhos (ou em qualquer mídia que explore esse universo, para falar a verdade).

Após a série provar que elas merecem ter sua história de amor contada da forma tradicional (com direito a complicações e finais felizes), a vontade que fica é de ver tudo isso estampado nos cinemas. Não é nenhuma novidade que Robbie é uma grande entusiasta da personagem que interpreta e a evolução de Harley Quinn nos cinemas é muito por causa do seu empenho em trazer mulheres para a frente e atrás das câmeras. Talvez seja finalmente a hora de ver um grande romance queer na jornada das heroínas dentro das telas do cinemas de forma satisfatória. E, se isso realmente acontecer, que tudo seja retratado de forma honesta e sensível, honrando a essência dos personagens, mas ao mesmo tempo o amor caótico e poderoso que surge entre elas.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana C. Vieira.

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