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De Frente com Valkirias: Giovana Madalosso

Giovana Madalosso nasceu em Curitiba, em 1975, e se formou em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná. Durante quinze anos, trabalhou como redatora publicitária. Hoje escreve também roteiros para a televisão. Seu livro de estreia, A Teta Racional, é uma antologia de dez contos que aborda a experiência da maternidade nos dias de hoje. Para a escritora Carola Saavedra, o livro “aponta sem reticências para seu eixo principal: o lugar do feminino no mundo contemporâneo.”

Recentemente, Madalosso lançou seu primeiro romance, Tudo Pode Ser Roubado, publicado pela editora Todavia. O livro foi recebido com entusiasmo, logo ocupou lugar de destaque entre os mais vendidos nas livrarias e deve ser adaptado para o cinema.

Em Tudo Pode Ser Roubado, a narradora é uma garçonete em um conhecido restaurante na região da Paulista que costuma aproveitar encontros fortuitos com homens e mulheres para roubar roupas e objetos de valor. Quando um desconhecido a aborda no restaurante e lhe propõe um roubo maior, ela precisa se confrontar com alguns dilemas. A proposta é de roubar um livro raro, a primeira edição de O Guarany, clássico de José de Alencar publicado em 1857. O exemplar foi arrematado em leilão por um professor universitário que se recusa a vendê-lo.

A Todavia conta que publicou o romance pois “com seu humor ágil e cortante, Madalosso construiu um retrato afiado das ambições, sonhos e relacionamentos nos dias de hoje”.

Leia abaixo nossa entrevista com a autora:

Em A Teta Racional, você examinou, através dos contos, os afetos familiares e foi elogiada pela abordagem da maternidade, que tratou de maneira honesta como uma relação conflituosa, sem idealizações. Como foi a experiência de escrever esse livro enquanto você mesma vivia a maternidade pela primeira vez?

GIOVANA MADALOSSO: A literatura funciona para mim como um segundo divã. Escrever sobre a maternidade quando tornei-me mãe foi terapêutico, permitiu que eu elaborasse o turbilhão de emoções positivas e negativas que surgem com a chegada de um filho. A experiência também deixou marcas concretas no meu texto, pois a escrita da A Teta Racional foi muitas vezes interrompida pelas demandas de uma teta real, de um bebê com fome.

Urgência entrou na temática, na execução dos contos, na velocidade com que escrevi. Mas, acima de tudo, escrever no puerpério me fez perceber o lugar da mulher numa sociedade ainda muito desigual, em que um código silencioso estabelece que a criação de um filho e as tarefas domésticas são mais dela do que dele, quando cada casal deveria firmar o seu próprio pacto, baseado nas suas contingências e expectativas. Foi um período em que pensei muito sobre o que é ser mulher hoje, e também sobre que mulher espero que minha filha seja.

“Por que será que até amar tem que ser tão difícil?”, pergunta a narradora de um dos contos de A Teta Racional, enquanto precisa se entender também com sua própria mãe. A maternidade, nos dois extremos, é um tema que você sente vontade de continuar a explorar em trabalhos futuros?

G.M.: A maternidade é a experiência mais complexa que eu já vivi. Uma experiência que não para e nunca vai parar de se recriar, com novas complexidades, por isso não acho que vou parar de escrever sobre esse tema. Fiz um pequeno intervalo com o Tudo Pode ser Roubado, mas meu próximo livro, também um romance, volta para a maternidade, com a ambição de abarcá-la de maneira ainda mais ampla, captando seus reflexos no âmbito amoroso, profissional e até social, pois num país como o Brasil, o papel das babás também precisa ser abordado.

Em Tudo Pode Ser Roubado, você constrói uma narrativa muito visual, quase cinematográfica. Acha que sua formação como roteirista contribuiu para compor esse aspecto da obra? Conte um pouco para a gente como foi a experiência de estudar roteiro na Universidade de Nova York.

G.M.:  Acho que o dom para uma escrita imagética sempre esteve comigo. É um traço que se manifestou desde os meus primeiros contos, escritos ainda na adolescência. E acho que isso veio de outros prosadores e principalmente poetas, tão pródigos em suscitar imagens, e não do cinema, pois sempre li muito mais do que assisti a filmes. Por outro lado, o curso de roteiro que fiz em Nova York me ensinou coisas importantes, como escrever bons diálogos sem cair na armadilha comum de achar que diálogos ficcionais devem refletir falas reais. O diálogo de ficção tem a sua própria tessitura, muito menos prolixa que a da vida real.

Quais autoras, entre clássicas e contemporâneas, você recomendaria para leitura? E quais estão em sua cabeceira atualmente?

G.M.: Atualmente a autora que está na minha mesa de cabeceira é a Simone de Beauvoir, com o seu clássico O Segundo Sexo, um livro que considero imprescindível para entender quem somos enquanto mulheres e também para pavimentar o caminho para um melhor entendimento das novas vertentes do feminismo atual.

Também recomendo as ganhadoras do Nobel e mesmo assim pouco conhecidas Herta Müller e Elfriede Jelinek. E as brasileiras contemporâneas Carola Saavedra, Carol Bensimon, Angélica Freitas, Natalia Timerman e Julia Whäman.


** A arte do topo do texto é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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