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Tudo bem não ser normal?

O que é ser normal? Ao procurar no dicionário, o primeiro verbete diz que a palavra normal é um adjetivo que caracteriza tudo aquilo que está de acordo com a regra, com a norma, aquilo que é comum. Essa primeira definição da palavra estabelece que a normalidade é na verdade imposta, afinal, toda regra ou norma é algo que é estipulado para controlar pessoas ou coisas. Se adequar a um padrão parece ser essencial quando se define o que é normalidade, mas é importante lembrar das palavras “aquilo que é comum”, que também aparecem neste primeiro verbete. Quando dizemos que algo é comum, estamos pensando que, necessariamente, há um senso de coletivo, como se o que é comum fosse uma média entre extremos diversos. Se ser normal, então, inclui estar numa média entre comportamentos variados que as pessoas podem apresentar, então porque nos apegamos à rigidez das primeiras explicações do dicionário para este adjetivo?

Ainda pensando nas explicações que as linguagens podem nos oferecer para o questionamento do que é ser normal, podemos olhar também para o verbo ser. Em muitas línguas, ele é o mesmo utilizado para definir também estar. Nesse sentido, ser e estar se relacionam e podem ser vistos — num vislumbre poético do mundo — como algo que se mistura: somos uma combinação de vários momentos em que estamos em estados diferentes.

Ser normal pode ser enxergado, por definição, como uma mistura de ingredientes diferentes. Socialmente, para que se seja considerado normal, é necessário estar adequado a um padrão e se ver constantemente dentro de comportamentos comuns a outras pessoas. Ainda assim, a definição abre algumas brechas para que entendamos que ser normal não é possuir perfeição homogênea e constante. Pode até ser que uma pessoa normal esteja às vezes fora dos padrões, mas na maior parte do tempo ela deve apresentar o mínimo comum à norma que os outros indivíduos. Mas se há espaço para diversidade de comportamentos, porque ainda enxergamos a normalidade de uma forma tão binária? Por que acreditamos que ou somos ou não somos normais, sem aceitar nuances entre estes dois extremos?

Nossas mentes e corpos são constantemente forçados a se encaixar a uma norma porque as sociedades costumam ter — cada uma com suas próprias variações — seus ideais de corpo e mentes perfeitos. E tudo que não se encaixa a essas regras — sempre arbitrárias, por mais que possam ter algum sentido histórico ou filosófico — é sistematicamente forçado a entrar nesse padrão. Como nossa sociedade ainda tem traços da sociedade que pune e vigia, como observado por Foucault, os corpos fora desse padrão ideal são mais evidentemente vigiados e punidos por estarem ou não dentro destas normas, afinal o corpo é visível. Já as nossas mentes são punidas e vigiadas com recursos muitas vezes mais sutis e que, por isso mesmo, acabam se entrincheirando mais profundamente em nós. Os dispositivos para controle, padronização e vigília de nossas mentes (que são indissociáveis de nossos corpos, como é sempre bom lembrar) acabam se baseando em mecanismos de controle psicológico que se infiltram nas instituições sociais como a família, as escolas, o sistema jurídico, etc. As estruturas que potencializam e mantêm o exercício do poder se espalham pela sociedade e querem o tempo todo controlar as pessoas para que se encaixem nos padrões que perpetuam o poder daqueles que estão no topo de nossa sociedade.

Tudo Bem Não Ser Normal, drama coreano de 2020 disponível na Netflix, questiona esses padrões numa sociedade muito mais conservadora, tradicional e, em certos aspectos, mais controladora do que a nossa. Ao longo dos dezesseis episódios, somos levados — de forma leve e doce — a chegar à conclusão que o título já nos aponta: tudo bem não ser normal.

Atenção: o texto contém spoilers!

A série acompanha Ko Moon-Young (Seo Ye-Ji), uma escritora de histórias infantis macabras com um passado tão sombrio quanto seus livros. A mulher reclusa e nada sutil começa a quebrar nossas expectativas de primeira: ela foge dos padrões das mocinhas das novelas coreanas, que muitas vezes são castas e ingênuas ou ainda são mulheres focadas em seus trabalhos e famílias quando o amor casualmente esbarra com elas. Moon-Young é bem sucedida em seu trabalho, mas as polêmicas em que se envolve por ser muito direta e não medir suas reações àquilo que considera injusto acabam colocando a personagem em maus lençóis com o público. Na vida real, o drama sofreu críticas de uma parcela mais tradicional da sociedade coreana justamente por ser protagonizado por uma mulher que não se deixa controlar apenas para estar encaixada a um padrão de comportamento: ela faz apenas o que quer — e não o que pensam que deveria fazer — e vai atrás do que deseja, inclusive quando esse desejo é sexual.

A discussão sobre o padrão desejado e como os sistemas são de dois pesos e duas medidas (ou muitos pesos e muitas medidas) começa aqui: a maneira como se aproxima de seu interesse amoroso foi rotulada como assédio pelos espectadores, embora muitos mocinhos dos dramas façam o mesmo ou pior e seus gestos são considerados românticos, já que o padrão masculino é teoricamente mais violento e o feminino, mais permissivo. Ainda que tenha errado nos primeiros episódios, Moon-Young percebe sua inconveniência com o tempo, mas não deixa de ir atrás do homem que deseja.

A protagonista deseja o cuidador Moon Gang-Tae (Kim Soo-hyun) desde o primeiro momento, e expressa sua vontade abertamente. Inicialmente, ela trata o rapaz como um objeto, mas entendemos posteriormente que ela tem pouca habilidade em lidar com as pessoas por causa de sua história: sua mãe é uma escritora que desapareceu misteriosamente, e seu pai, agora internado na casa de saúde onde Gang-Tae trabalha, a ataca misteriosamente. A filha sente uma espécie de mágoa e desprezo recíproco pelo homem, que está à beira da morte e inconsciente na maior parte do tempo. Tudo que resta à Moon-Young na pequena cidade onde viveu sua infância é uma casa que mais parece um mausoléu de filme de terror, onde ela se instala outra vez para conseguir o que quer: a atenção de Gang-Tae. De volta à casa, por muitos anos abandonada, e à cidade onde cresceu, ela agora tem que lidar com suas dificuldades de socializar e também encarar seu passado, diretamente conectado à vida de Gang-Tae e seu irmão, Moon Sang-Tae (Oh Jeong-Se).

Moon Sang-Tae é o irmão mais velho do cuidador e está no espectro do autismo. Desde os primeiros episódios, percebemos como o mundo não é adaptado a ele: o irmão mais novo é quem faz o intermédio entre Sang-Tae e as exigências sociais. Ele tem hábitos e formas de entender e abordar o mundo que foram se adaptando ao longo do tempo e com a ajuda do irmão, mas, ainda assim, episódios de frustração quando a inadequação se mostra são constantes na vida dos irmãos. O mais novo, inclusive, deixa de lado várias experiências e desejos da própria vida para cuidar do irmão desde que a mãe deles morreu, quando Sang-Tae era adolescente e o mais novo ainda saía da infância. O crime foi testemunhado pelo mais velho, que se exaspera tanto com a violenta morte  de sua mãe que não consegue falar sobre o acontecido. Os jovens irmãos fogem da cidade, Gang-Tae deixa a escola para trabalhar e sustentar o irmão que carrega ainda o trauma de se apavorar com as borboletas, símbolo presente no crime. Por causa do pânico fora de controle, os dois vivem migrando de cidade em cidade toda vez que a primavera chega e as borboletas começam a se multiplicar pelos lugares onde moram.

Gang-Tae nos é apresentado como o único personagem neurotípico desse trio principal. No entanto, ao longo dos episódios, vemos como sua história pessoal também é permeada por traumas em comum com o irmão, perdas e dificuldades de encarar o mundo com as quais ele teve que lidar ao longo de toda a vida. Sua relação com Sang-Tae e a mãe é carregada de mágoas. Apesar de amar o mais velho, ele carrega o peso de ser o irmão a quem a mãe dava menos atenção. Depois da morte dela, e até enquanto ela estava viva, sempre se deparava com aquela responsabilidade e entrava em conflitos com ela que geraram culpa, ressentimento e o forçam a se desapegar de desejos pessoais, lugares e pessoas. Ele não aprende a criar muitos laços além daquele que tem com seu único e melhor amigo Jae-Soo (Kang Ki-Doong). Até mesmo essa amizade é prejudicada pelo tempo que ele tem que dedicar ao trabalho ou ao irmão, mesmo que Jae-Soo seja fiel e o acompanhe em todas as suas mudanças de cidade. Ainda com esse apoio, a rotina de Gang-Tae gira em torno de Sang-Tae e, ao abandonar-se, suas frustrações crescem naquela sombra onde se escondem e isso acaba gerando nele uma solidão quase igual à de Moon-Young, que é de fato antissocial.

Ao apresentar essas questões que acompanham o protagonista, o drama levanta o debate dos cuidados que são demandados de indivíduos próximos a pessoas consideradas neuroatípicas. A tarefa, normalmente, é relegada a mulheres, como a mãe dos irmãos que foi deixada pelo pai quando se soube o diagnóstico do filho mais velho. Somos acostumados a pensar que estas mulheres aguentam com tranquilidade tanta responsabilidade, mas elas acabam não sendo cuidadas pelo entorno. Se pensarmos na trama, a responsabilidade que a mãe joga nos ombros do filho mais novo não passa de uma tentativa de retirar parte daquele peso dos próprios ombros, sempre sobrecarregados. Para uma empregada doméstica sem o apoio de um companheiro, a única possibilidade era aquela, já que não havia o apoio da comunidade ao redor da família. No caso do drama, a tarefa de estar sempre de olho em Sang-Tae é herdada por Gang-Tae após a morte da mãe e parte da trama, a partir de um ponto, passa a girar em torno da independência dos irmãos. Sang-Tae quer trabalhar como ilustrador, e Gang-Tae tem de abrir mão de certas obrigações autoimpostas não só para ser mais livre para ser quem é, mas também para que o próprio irmão seja independente e aprenda a circular melhor por um mundo que não é feito para ele. Diante de todos esses pontos da trama, uma outra discussão proposta é sobre a normalidade. Por que é que Moon-Young é vista como uma mulher louca e descontrolada apenas por expressar seus próprios desejos? Por que Sang-Tae é visto como incapaz e uma pessoa que necessita de tantos cuidados e Gang-Tae não?

Ao nos apresentar outros internos do hospital psiquiátrico onde Gang-Tae trabalha, o drama aprofunda ainda mais essa discussão sobre o que consideramos mentalmente normal. Entre sobreviventes de abusos, traumas familiares e de guerra, alcoolismo e depressão, vamos conhecendo as histórias dos pacientes da clínica dirigida por Oh Ji-Wang (Kim Chang-Wan). Com paciência e empatia pelo caso de cada pessoa que passa pelo Hospital OK — não só pacientes mas também funcionários e parentes dos internos —, o diretor acolhe e respeita cada caso, trabalhando para que a cura aconteça no tempo que for necessário para cada um. Em um país onde existe um grande tabu em relação à saúde mental, o drama tem o cuidado de enxergar cada um daqueles problemas fugindo de estereótipos preconceituosos, de forma muito gentil e delicada.

A empatia guia a condução da trama, que vai nos mostrando, caso a caso, como cada uma daquelas pessoas têm algo em comum com todos nós, espectadores que nos consideramos dentro da normalidade. Nos vemos nos pacientes que também têm o desejo de amar e serem amados, que também lutam com a rejeição quando buscam a aprovação da família, que também se sentem solitários, que também se arrependem de suas escolhas, que também têm medos e, assim como nós, foram criando seus próprios artifícios para lutar contra as dores que encontram na vida.

Saindo um pouco da ficção, o documentário indicado ao Oscar 2021, Crip Cramp — disponível também na Netflix — reconta uma história real iniciada em um acampamento para crianças e adolescentes PCD onde a inclusão revolucionou não apenas a mente daqueles jovens, mas também criou uma união coletiva para que se lutasse por acessibilidade e mudanças nas leis nos EUA. No longa, uma das participantes do acampamento relata que acabou sendo operada de apendicite após dar entrada no hospital com fortes dores abdominais. Durante a cirurgia, encontraram um apêndice em perfeitas condições, pois na realidade, a paciente operada tinha de fato gonorréia. A ideia de que pessoas que fujam da suposta normalidade física e mental são diferentes acaba aumentando ainda mais a exclusão destas de discussões como sexualidade, afetividade e outras questões que perpassam a vida de todas as pessoas, incluindo a participante do documentário. A possibilidade de que uma pessoa com paralisia cerebral poderia ter uma vida sexual ativa foi imediatamente excluída pelos médicos que a atenderam, e isso a afastou de um cuidado essencialmente simples e fez com que passasse por uma cirurgia desnecessária.

Voltando ao universo ficcional, além do filme, séries como Atypical e Special, ambas protagonizadas por personagens que não se encaixam aos padrões físicos e mentais de normalidade nos relembram que os conflitos humanos são universais, e cada pessoa precisa encontrar sua própria maneira de lidar com elas. Não há um modo certo ou errado para lidar com a vida, por isso qualquer tentativa de padronizar também a maneira como os conflitos cotidianos se resolvem para cada um é principalmente uma forma de impor controle. O controle recai não só sobre estes corpos e sistemas neurológicos teoricamente diferentes, mas também sobre todas as pessoas, pois passamos a temer a forma como tratamos aos que não se adequam. Como sugerido por Foucault, também aqui somos vigiados, às vezes por nós mesmos, para que não tenhamos que passar pelas temidas punições.

Na vida real, as instituições que se dispuseram ao longo da história a cuidar de questões psiquiátricas têm um histórico de se prestarem ao papel de buscar controlar aquelas pessoas que não se encaixam nos padrões neurológicos e comportamentais esperados pela sociedade. No Hospital Ok, retratado no drama, nada disso acontece, e os pacientes estão ali curando suas feridas para poderem, algum dia, voltar a encarar o mundo. Eles não precisam se adequar, mesmo que às vezes, suas famílias o queiram assim. Os pacientes têm papel ativo nas decisões de seus tratamentos e o consentimento dos internos é algo que o diretor Ji-Wang considera primordial na instituição que coordena. Seus métodos, muitas vezes aparentam ser amigáveis demais, mas talvez o nosso olhar é que esteja acostumado a olhar as neurodivergências mais extremamente distantes do que consideramos normal como algo a ser combatido e consertado, e não como algo a ser compreendido. O diretor busca entender pacientes e funcionários e nos convida a olhar para eles — e para nós mesmos — com calma, aceitando a presença de todas as pessoas como são e sem fazer algum tipo de pressão para transformá-las ou adaptá-las ao mundo.

Não é que as pessoas fiquem sempre sem se adaptar. Moon-Young, por exemplo, tem traços, como sua impulsividade agressiva, que precisam mudar para que conviva com as pessoas que ama e quer incluir em sua vida, mas esse desejo parte dela. Nossa protagonista não sucumbe à pressão social para se adequar. Ela apenas o faz porque entende e tem condições de se transformar. Então, talvez, assim como no drama, as pessoas que são consideradas neurotípicas é que precisam se acostumar às diferenças dos outros.

Muitas vezes, também, quem mais precisa de cuidados são cuidadores que estão ao redor dessas pessoas que não se encaixam, porque os nossos conceitos de normalidade deixam desamparados e sem a devida —atenção até quem se encaixa na ideia de perfeição que existe ali, como Gang-Tae. O drama nos relembra como é difícil para todos se adequar, estejamos diagnosticados ou não com alguma questão mental ou psicológica.

Se nem Gang-Tae é o que podemos chamar de normal, então quem é? A pergunta pode ser respondida por um conceito novo. Ao invés de classificar pessoas como neurotípicas ou neuroatípicas, a neurodiversidade vem para trazer uma nova proposta para inclusão das diferenças comportamentais, mentais e neurológicas (que muitas vezes se manifestam também fisicamente nos corpos das pessoas). A ideia do termo, cunhado pela socióloga australiana Judy Singer no fim dos anos 90, é defender como normais variações no funcionamento neurológico de diferentes pessoas. A socióloga, que também está no espectro do autismo, desejava tirar o foco da ideia de que outras formas de entender o mundo são doenças, distúrbios, déficits ou transtornos. Desassociar essas questões das patologias é de fato mais inclusivo com aquela parcela da população, que passa a se classificar como uma categoria social cuja identidade perpassa tais diferenças e faz com que a comunidade como um todo possa se identificar com aquelas questões um pouco mais. Afinal, o conceito da neurodiversidade também é muito acolhedor para todas as pessoas por reconhecer que todos temos nossas limitações e dificuldades em lidar com o mundo.

Quando nós entendemos que é normal ter dificuldades particulares para enfrentar o mundo (usando como recurso para enxergar o mundo o conceito da neurodiversidade, por exemplo), passamos a nos identificar mais com todos os indivíduos, sem excluir quem não esteja nos padrões esperados. Essa compreensão pode até mesmo nos levar a ver que o mundo já está preparado para receber algumas dessas divergências, mas não todas. Então poderemos buscar, como em Crip Camp, uma união para a busca de transformações concretas, até que o mundo esteja mais preparado para lidar com as dificuldades de todas as pessoas. E aí como os pacientes da clínica Ok, todo mundo possa de fato sentir que tudo bem não ser normal?

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