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Como Ko Moon-Young redefiniu os padrões para uma protagonista de dorama

Em uma realidade cada vez mais globalizada, em que o Korean Pop (ou K-Pop, como é comumente conhecido) domina as paradas musicais em diversos aplicativos de streaming e as empresas de entretenimento, como a Netflix, tem investido massivamente no mercado internacional, os doramas surgem como alternativas para as aficionadas em romance com uma boa dose de drama.

Dorama é o outro nome para drama japonês, e se refere aos dramas japoneses desenvolvidos pelas emissoras do país. Apesar do gênero ter nascido no Japão por volta da década de 1980, atualmente o formato se expande por outros países da Ásia, sendo produzido em diferentes idiomas e apresentando outros aspectos da cultura asiática.

Conhecido pelo formato de poucos episódios em temporadas únicas, em sua maioria, os doramas são seriados marcados pela dramaticidade da narrativa, mas também pela caricatura de seus personagens. Entre o romance com pessoas de diferentes classes sociais e o tão conhecido amor platônico, as narrativas apresentam um formato quase homogêneo de seus personagens: o protagonista homem todo poderoso e a protagonista mulher como a mocinha humilde, trabalhadora, sensível e, geralmente, dependente.

Como exemplo desse formato podemos falar sobre Boys Before Flowers (2009), dorama clássico da KBS baseado no mangá shōjo japonês Hana Yori Dango, com Lee Min-ho como o herói da vez e Kim So Eun como a mocinha da história. O dorama traz Jan Di (Kim So Eun) como uma garota humilde que trabalha na lavanderia dos pais e por conta de um acontecimento no trabalho acaba recebendo uma bolsa de estudos na escola de elite da região.

Ko Moon-Young

Nessa escola, um grupo de jovens ricos chamado F4 domina o cenário social e usam o próprio poder para humilhar os estudantes — e aqui entra a possível discussão sobre o bullying violento nas escolas coreanas. A história se desenvolve propriamente quando Jan Di enfrenta o líder do grupo, Gu Jun Pyo (Lee Min-ho), e os protagonistas passam a se infernizar até que o rapaz percebe que está apaixonado pela mocinha e decide que eles irão ficar juntos.

Boys Before Flowers é um exemplo de tantas outras narrativas onde o protagonismo feminino é definido pelo romance com o protagonista e a relação com os personagens masculinos da série. Entretanto, com a inserção dos doramas no mercado internacional, mais especificamente no mercado estadunidense, os elementos das narrativas ocidentais se expandiram aos doramas, trazendo novidades ao formato narrativo e ao desenvolvimento das personagens femininas.

Tudo Bem Não Ser Normal, da emissora tvN e distribuído pela Netflix, é um exemplo claro da quebra da padronização de protagonistas femininas em doramas. O seriado narra a trajetória de Ko Moon-Young (Seo Ye-ji), uma escritora de contos infantis diagnosticada com transtorno de personalidade antissocial e marcada por uma série de traumas familiares, e Moon Kang Tae (Soo-hyun Kim), um cuidador que trabalha com psiquiatria em hospitais e tem dificuldades em relacionar-se devido à sua história de vida.

Apesar das dificuldades de socialização e relacionamentos emocionais, Ko Moon-Young é apresentada desde o primeiro episódio como uma protagonista sólida, com ações caóticas, um visual imponente e personalidade intensa. Decidida a ter o protagonista, Moon Kang Tae, como sua posse, a personagem parte em uma busca incessante para obter sua atenção, competindo com Moon Sang Tae (Oh Jung-se), irmão mais velho de Kang Tae diagnosticado com autismo, para também fazer parte da vida do rapaz.

Ao longo dos dezesseis episódios, vemos Ko Moon-Young agir na contramão do que se espera de uma protagonista feminina em um dorama. Desde utilizar roupas escandalosas, falar alto em público para chamar atenção do protagonista e até manter contato físico indiscriminado com o personagem — questão considerada tabu entre pessoas que não são casadas na Coreia — Ko Moon-Young age baseando-se no que deseja e não no que se espera dela.

Ko Moon-Young

A série enfrentou diversas polêmicas durante o seu período de transmissão, grande parte por conta das atitudes da protagonista. As cenas em que Ko Moon-Young mantém contato físico com o personagem, como, por exemplo, quando ele está trocando de roupa para começar a trabalhar e ela busca o irritar encostando nele, foram recebidas com grandes críticas na Coréia. Parte do público coreano criticou essas cenas apontando um teor de assédio nas redes sociais, afetando a recepção do seriado e os números de audiência. A crítica, além de mal colocada, acaba sendo contraditória, pois em diversos outros doramas existem cenas, por exemplo, em que o protagonista beija a protagonista forçosamente, em público e diante de protestos claros dela.

A discussão sobre assédio a partir dessas cenas traz a tona a percepção da feminilidade por parte do público diante do desenvolvimento de protagonistas fortes nos doramas. Ko Moon-Young desconstrói a imagem da mulher dependente e fraca por meio de suas atitudes, dos flertes indiscriminados e do esforço para conseguir seduzir Kang Tae. Ainda que a série não seja necessariamente sobre o romance entre eles, o desenvolvimento da personagem dá espaço para uma transformação na representação feminina dentro da cultura coreana e do entretenimento como um todo.

Tudo Bem Não Ser Normal é uma série sobre cura, perdão e crescimento pessoal. Ao longo dos episódios, os personagens são confrontados com seus medos, traumas e inseguranças de um jeito orgânico, intenso e necessário. A série tem um enfoque voltado às questões de saúde mental, apresentando pessoas com distúrbios emocionais e mentais pela perspectiva individual, quebrando paradigmas e estereótipos capacitistas.

A narrativa e desenvolvimento da protagonista acontece não por meio ou por causa dos personagens masculinos, como é comum em outros doramas, mas sim com a ajuda deles. Ainda que as ações de Ko Moon-Young sejam pautadas pelo desejo de obter a atenção e o afeto do protagonista, a personagem se mantém fiel às próprias vontades e características, evoluindo na convivência com os protagonistas sem perder a própria essência.

Ko Moon-Young

O caráter caótico da personagem, com atitudes repentinas e inesperadas, faz dela um indivíduo único na narrativa. Mesmo que sua beleza física seja marcante, o contraste entre a aparência e as ações constrói a imagem de uma mulher forte e independente, mas sensível e carente de afeto ao mesmo tempo. A forma com que seus defeitos e necessidades são apresentadas não anulam as características positivas, pois são expostas como fatores complementares na construção de sua história, fazendo-a uma personagem ainda mais humana ao longo do enredo.

Ko Moon-Young é uma personagem marcante, cujo potencial pode marcar o início de uma nova era para as protagonistas femininas no universo dos doramas. Em Tudo Bem Não Ser Normal, série que mistura a fantasia com a realidade para discutir sobre o processo de cura e humanidade, a presença de uma personagem em evolução é o que aproxima as discussões tão necessárias de uma realidade em que mulheres reais ditam o ritmo do jogo.

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7 comentários

  1. Sou dorameira há 4 anos, e esse dorama pra mim foi um dos melhores realmente, até para mostrar que todo mundo de perto, não é ok, e que todos carregamos dores e precisamos de um pouco de cura e loucura. A personagem ko Moon -Young é riquíssima, cheia de contradições, complexidades e com uma presença muito marcante nas cenas, a atriz deu um show assim como o ator que interpretou o Sang Tae.

  2. Assisti este drama, realmente fantástico. Foge do tradicional sem deixar de ser instigante e romântico. Ela é diferente sim, mas como pessoa é mto mais verdadeira que a grande maioria das pessoas, que escondem suas verdadeiras intenções. Achei incrível tbm a interpretação do irmão do ator principal. Toda a história, os atores, perfeito.

    1. Amada!!,quando vi esse dorama pensei :”q prota diferente d tudo q ja vi,amei “queria q agora todas as protagonistas fossem assim,empoderadas , independentes , sem frescuras quando sentem atração pelo boy ,tudo q essa prota foi e muito mais.Amei sua matéria😍
      Ps:não SUPORTO boys over flowers e nenhuma outra adaptação do mesmo.

  3. Moon Young é absolutamente maravilhosa, mas essa desconstrução de personagens e tramas já vem de uns 4, 5 anos. Usar Boys over Flowers como referência é meio antiquado, nem mesmo na Coreia do Sul de hoje o dorama teria uma aceitação majoritariamente positiva…

  4. Sou uma apaixonada pelos dramas e filmes coreanos ha aproximadamente três anos. Tudo bem não ser normal é sem dúvida meu drama de coração. Amo todos aspectos de sua produção, em especial ko Moon Young. Uma personagem marcante, inesquecível e uma verdadeira preciosidade no mundo da dramaland. Sua abordagem é perfeita e descreve com precisão todos meus sentimentos em relação a ela e a série em questão. Adorei, bela matéria!

  5. Amei sua análise sobre o dorama “Tudo bem não ser normal.”

    Amei a atuação dos atores, e como foi feito o desenvolvimento de cada personagem. A da Ko Moon Young foi de longe a mais incrível.

    Parabéns pelo texto, achei sensacional! 💙