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Crítica: Mulher-Maravilha 1984

Desde o anúncio da aguardada sequência de Mulher-Maravilha, de 2017, fiquei ansiosa e expectativas foram criadas. Quando o título foi anunciado e Mulher-Maravilha 1984 finalmente recebeu uma data de estreia, fiquei contando os dias. Como fã de Diana Prince, queria muito que o segundo filme solo da super-heroína fosse tão bom quanto o primeiro, mas eu sabia que a tarefa não seria fácil. O primeiro filme tem aquela qualidade de história de origem que poucos longas conseguem ter, apresentando a personagem principal e a situando no mundo que estamos acompanhando de maneira ímpar. O trabalho de Patty Jenkins foi tão bem feito que nos restou sonhar com a aguardada estreia da segunda parte e que ela fosse a altura da personagem que vivia em nosso imaginário há tantos anos.

Com a primeira data marcada para o início de 2020, sua estreia foi adiada algumas vezes devido a pandemia do coronavírus e carimbada para o dia 25 de dezembro em cinemas selecionados e diretamente no serviço de streaming HBO Max para os países em que ele atua. O acordo milionário firmado entre Jenkins, Gal Gadot (que além de interpretar a protagonista também é produtora do longa) e Warner deixou algumas pessoas (a.k.a Christopher Nolan) cuspindo fogo pelas ventas enquanto decretavam ser o fim do cinema como conhecemos. Detalhes econômicos à parte, o fato é que mesmo com uma estreia pouco convencional, Mulher-Maravilha 1984 arrecadou mais de 100 milhões de dólares até o fechamento deste texto, uma bilheteria generosa levando em consideração a situação que vivemos mundialmente com idas ao cinema restritas e, corretamente, desencorajadas.

Atenção: o texto contém spoilers!

Topetes, cores fortes e calças de paraquedista: são os anos 1980!

Mulher-Maravilha 1984

Mulher-Maravilha 1984 se passa mais de setenta anos após os eventos de Mulher-Maravilha. Diana Prince (Gal Gadot) agora vive em Washington, D.C. e trabalha na Smithsonian Institution, uma instituição educacional e de pesquisa associada a um complexo de museus nos Estados Unidos. Diana divide seu tempo entre combater o crime — a primeira cena em que a Mulher-Maravilha aparece paramentada é justamente durante o impedimento de roubo em um shopping, bem ao estilo anos 1980 de ser — e seu trabalho no Smithsonian como antropologista cultural e arqueologista. Fora isso, Diana Prince é uma mulher solitária, e o roteiro escrito por Patty Jenkins, Geoff Johns e Dave Callaham faz questão de nos mostrar isso quando ela, sozinha em um restaurante e rodeada de casais apaixonados, fica observando o garçom retirar os pratos e talheres sobressalentes com um olhar resignado. O que entendemos dessas cenas é que desde o sacrifício de Steve Trevor (Chris Pine), que morreu ao final do primeiro longa, Diana Prince tem estado sozinha. E por escolha própria.

Como um ser imortal vivendo entre humanos, deve ser difícil para Diana ver seus amigos morrerem — e é isso o que a fotografia em preto e branco de uma envelhecida Etta Candy (Lucy Davis) nos mostra. Amar, para Diana, é doloroso, visto que, inevitavelmente, ela ficará sozinha. Outra pessoa solitária nessa trama, porém não por escolha própria, é Barbara Minerva (Kristen Wiig): a geologista (além de gemologista, litologista e criptozoologista) é ignorada por seus colegas de trabalho e mesmo a pessoa responsável por sua contratação não parece se lembrar de seu rosto. Quando sua pasta abre no meio do corredor do Smithsonian espalhando seu conteúdo no chão, apenas Diana fica para ajudá-la e, fascinada, Barbara desenvolve uma crush ali mesmo porque Diana é tudo o que ela deseja ser: uma mulher linda, independente, bem resolvida e que anda de salto alto sem o menor problema. Ainda que a trama do filme se desenrole em 1984, toda essa questão envolvendo sapatos de salto alto soa fora de lugar e é bem constrangedora e machista. Ok, Jenkins, Johns e Callaham provavelmente quiseram, com essa cena, deixar uma ponta solta para o que aconteceria com Barbara algumas cenas adiante (ser atacada por um cara bêbado e ter sua fuga dificultada pelo uso do sapato), além de marcar sua mudança de comportamento, mas é um artifício datado, para dizer o mínimo. Mesmo que o filme se passe na década de 1980, o roteiro não precisa se ater a esse tipo de especificidade.

Após conhecermos Barbara Minerva, que recebeu um carregamento de artefatos que precisam ser catalogados e pode conter peças verdadeiras entre falsificações, também somos apresentados à trama de Maxwell Lord (Pedro Pascal) que não pode ser descrito de outra maneira que não seja trambiqueiro. Quando Maxwell não consegue devolver o dinheiro de seus investidores e vê seu negócio implodindo, ele enxerga em um dos artefatos despachados para Barbara (e anunciados no jornal) sua chance de reverter o cenário caótico em que está. É dessa maneira que ele entra em contato com o Smithsonian como um empresário disposto a fazer uma grande doação para a instituição, mas que antes gostaria de conhecer o lugar com um tour — e é nesse momento em que ele pede especificamente por Barbara Minerva. Barbara, pouco acostumada a receber atenção de quem quer que seja, também fica encantada com os galanteios de Maxwell, e não demora a cair em sua lábia. O que Maxwell deseja é um artefato específico capaz de conceder os desejos mais profundos de quem o segurar, a Dreamstone; no entanto, tudo tem um preço e a pessoa cujo desejo é concedido pelo artefato precisa dar algo em troca. Antes de Maxwell conseguir se apossar da peça, tanto Diana quanto Barbara passam algum tempo com a Dreamstone em mãos. O desejo de Barbara é bastante claro — ela quer ser como Diana —, enquanto a Princesa Amazona relembra com saudosismo de Steve Trevor.

Cuidado com o que você deseja

Mulher-Maravilha 1984

A trama de Mulher-Maravilha 1984 gira basicamente ao redor dos desejos que os personagens fazem e o que eles perdem com isso, mas o que era um enredo simples conseguiu encontrar meios para se tornar confuso em um longa que não parece muito preocupado em fazer sentido. Barbara Minerva, por exemplo, personifica o tropo, já utilizado à exaustão, da mulher inteligente porém invisível por sua aparente falta de beleza, e basta ela retirar os óculos, usar roupas justas e começar a se equilibrar de maneira graciosa em cima de saltos altíssimos para que sua vida mude por completo. Mas Barbara desejou ser como Diana, o que significa também receber todos os poderes de deusa que ela tem, e não demora para que Barbara descubra a extensão de sua força ao espancar o homem que a assediou anteriormente no parque. Diana, enquanto isso, se vê às voltas com um homem tentando falar com ela, e só depois de muita insistência, e de uma segunda olhada, é que ela percebe que o homem desconhecido é, na verdade, Steve Trevor retornando dos mortos possuindo (não há melhor forma de explicar) o corpo de outra pessoa. Diana, deslumbrada e com saudades, não parece pensar duas vezes antes de se entregar a esse Steve e não questiona em nenhum momento como a magia do artefato funciona: o homem que “cedeu” espaço a Steve em seu corpo está consciente do que está sendo feito com ele? Esse homem teve alguma escolha? São muitas questões que o roteiro do trio Jenkins, Johns e Callaham parece simplesmente ignorar.

Enquanto Barbara e Diana se divertem com seus desejos realizados, Maxwell Lord não perde tempo e deseja que ele próprio seja o responsável por conceder os desejos às pessoas, transformando-se na Dreamstone, o que faz com que o artefato desapareça no processo. Dessa maneira, um desejo por vez, Maxwell vai ampliando sua rede e conexões, adquirindo petróleo, dinheiro e pessoas até chegar ao presidente dos Estados Unidos. Por um momento não fica muito claro até onde essa escalada de poder o levará, e Mulher-Maravilha 1984 não parece se preocupar muito com coerência. Em uma inversão de papéis, agora é Diana quem mostra o novo mundo para Steve com suas roupas características, metrôs e aviões potentes — mas quando Diana percebe que não foi somente ela a agraciada com um desejo e entende as dimensões do que Maxwell Lord está tramando, decide colocar um fim nisso contando com a ajuda de Barbara Minerva no processo. Barbara até a ajuda, mas somente até o ponto de descobrir que, para as coisas voltarem ao normal, ela deverá renunciar seu desejo e isso é algo que ela não está pronta para fazer. Diana também não quer abrir mão de Steve, não após décadas aguardando seu retorno, mas começa a perceber que o que deu em troca para a Dreamstone fará diferença no momento de conter a ameaça de Maxwell Lord: seus poderes.

Durante suas pesquisas para desvendar a origem da Dreamstone, Barbara descobre que o artefato foi passado de civilização para civilização durante séculos, sempre culminando na destruição e colapso da sociedade em que se encontra. Diana chega a conclusão de que a Dreamstone foi criada pelo Deus das Mentiras, que pode ser tanto Dolos, o espírito da trapaça, ou Apáte, o espírito da enganação, sendo que ambos os espíritos saíram da Caixa de Pandora. O espírito oposto a Apáte é justamente Aleteia, o espírito da verdade — o que faz sentido dentro da trama de Mulher-Maravilha 1984, visto que a busca pela verdade está no centro de tudo o que a Mulher-Maravilha representa, sendo o Laço da Verdade um de seus aparatos de batalha. Outra possibilidade para a verdadeira identidade do criador da Dreamstone é o vilão dos quadrinhos da Mulher-Maravilha, The Duke of Deception, cuja primeira aparição foi na segunda edição dos quadrinhos da super-heroína, em 1942. O Duque surge como um deus menor a serviço de Ares, uma entidade responsável por manipular e corromper o espírito da humanidade. Ao conceder um desejo, ele pega algo em troca: no caso de Diana, além de seus poderes, ocorre a corrupção daquilo em que ela acredita e que é o seu lema, a verdade e a justiça.

Mulher-Maravilha 1984

Ao concordar com o fato de que Steve está ocupando um corpo que não é o dele, Diana é corrompida pelo poder do artefato, agindo até mesmo fora do tom da personagem. Ela parece egoísta ao querer apenas aquela única coisa (Steve de volta) em troca da proteção da humanidade, mas Diana não parece perceber que até mesmo seus valores foram corrompidos para que seu desejo se tornasse realidade. É um pouco triste perceber o quanto o enredo poderia ser melhor trabalhado levando em consideração toda a rica mitologia que envolve a Mulher-Maravilha, mas o trio de roteiristas preferiu embarcar em uma saga tresloucada e quase sem sentido, com Diana e Steve (em um corpo roubado!) partindo em busca de Maxwell Lord no Egito, e Barbara se distanciando cada vez mais de seu verdadeiro ser quanto mais poderosa fica.

É com tristeza que escrevo (embora eu não seja a guardiã de toda a verdade do mundo e esteja bem longe de ser Aleteia) que essa trama não funcionou para o filme, ou fez qualquer sentido narrativo. Para além do roteiro fraco, há toda a problemática envolvendo Gal Gadot enquanto Diana Prince fazendo uma incursão no Egito, o corte no abastecimento de água para pessoas já em dificuldades e toda a relação desses eventos com a crise hídrica na Faixa de Gaza. É difícil fechar os olhos para esses eventos quando Gadot, israelense, é vista como a salvadora dessas pessoas no filme enquanto, na vida real, é Israel o país responsável por impedir que as pessoas que vivem na Palestina tenham acesso à água. Não parece que esses eventos foram descritos no filme de maneira aleatória, mas tampouco eles fazem qualquer sentido dentro da narrativa de Mulher-Maravilha 1984. Mesmo que toda a sequência de Diana e Steve perseguindo Maxwell Lord pelo deserto seja algo dentro do que se espera de uma sequência de filmes de super-heróis, com blindados capotando, Diana mostrando suas habilidades mesmo enfraquecida pelo poder da Dreamstone, e tudo o que vem no pacote dos longas de ação, essa parte da trama é desnecessária dentro do todo. É quase o que se pode falar também da armadura alada que Diana ostenta em algumas cenas dos trailers e em pôsteres promocionais do filme.

Expectativas x Realidade

A armadura, inclusive, era o que eu mais queria ver em Mulher-Maravilha 1984. Estava curiosa para saber em quais circunstâncias ela seria necessária, qual a história por trás dela e como Diana a conquistaria. A armadura é mostrada de relance já no início do filme, quando vemos a pequena Diana (Lilly Aspell) competindo com outras amazonas em um torneio e Antiope (Robin Wright) a impede de sair vitoriosa por tomar um atalho na competição. Junto com uma lição sobre não trapacear e como uma heroína de verdade não nasce de mentiras, vemos a estátua de Asteria, a Guerreira Dourada, que se tornou uma lenda entre as amazonas, usando a armadura alada. Mais tarde descobrimos que Diana encontrou a armadura e que a mesma foi forjada pela própria Asteria para proteger as amazonas do mundo dos homens, que queria escravizá-las. De acordo com Diana, a armadura deveria ser forte o suficiente para enfrentar o mundo inteiro, e Asteria a usou enquanto se sacrificava para que as demais amazonas pudessem escapar para Themyscira. A armadura, então, deveria ser usada para conter uma grande ameaça, porém, novamente, o enredo parece se esquecer disso.

Quando o poder já subiu à cabeça de Barbara e ela decide enfrentar Diana para proteger Maxwell Lord, impedindo que os desejos sejam desfeitos, ela se transforma na Cheetah por meio de um segundo desejo, concedido agora por Maxwell — e é contra Cheetah que Diana luta usando a armadura. Nesse momento Diana já havia deixado Steve partir (em uma cena onde uma dramática Diana diz que nunca amará novamente) e estava com seus poderes restaurados, então parece pouco crível que mesmo na forma de Cheetah, Barbara consiga bater de frente com a Mulher-Maravilha em toda a sua glória. A batalha que se segue não é digna do uso da armadura de Asteria, mas talvez o problema seja meu e minhas altas expectativas para Mulher-Maravilha 1984: eu queria algo tão épico quanto a cena da trincheira em Mulher-Maravilha, queria ficar com os olhos cheios d’água e emocionada, mas o que recebi foi uma cena em que Diana apenas impede que Cheetah a machuque, desestabilizando a oponente ao eletrocutá-la em um lago.

Após deixar Cheetah/Barbara fora de combate, Diana parte em busca de Maxwell Lord de maneira a impedi-lo de deixar o mundo em caos enquanto concede desejos a torto e a direito. Para ampliar seu alcance e conceder desejos a todos ao redor do mundo de uma vez, Maxwell se apossa do sistema de rádio e TV do governo estadunidense e se transforma em algo parecido com um evangelizador de canal aberto: para as câmeras, ele pede que as pessoas façam desejos para que, em troca, possa ficar com a saúde e poder de cada uma delas. Quando Maxwell recebe os poderes da Dreamstone após seu desejo se concretizar, ele não se torna um deus ou recebe super-força, invencibilidade e longevidade, e por isso seu corpo paga o preço cada vez em que concede um desejo a alguém. Dessa forma, ao conceder os desejos das pessoas ao redor do mundo, ele se regenera pegando para si a saúde delas enquanto amplia seu domínio também recebendo em troca seu poder. Mas da mesma maneira que Diana e Barbara perdem algo quando seus desejos são realizados, Maxwell está perdendo o que tem de mais valioso: seu filho, Alistair (Lucian Perez).

Toda a motivação de Maxwell Lord para se tornar o homem mais poderoso do mundo, vem de seus traumas de infância: imigrante e de família pobre, produto de um lar abusivo e constantemente diminuído por seus colegas, Maxwell quer ser o melhor, o homem mais poderoso em qualquer ambiente que entre e alguém que as pessoas pensariam duas vezes antes de ir contra. Poder-se-ia dizer que o desejo dele também é o de proteger o filho, para que o menino não passe por todo o trauma que enfrentou enquanto crescia, mas seu maior anseio é, na verdade, não ser um “qualquer” — e essa é a motivação real por trás de sua busca pela Dreamstone. Conceder os desejos das pessoas, um por vez, não dá o efeito necessário e Maxwell parte para uma escala mundial, causando o caos quando os desejos de todos se tornam realidade ao mesmo tempo.

O embate final entre Diana e Maxwell acontece dentro das instalações do governo estadunidense, enquanto ele transmite sua imagem por todo o mundo e concede os desejos em uma espiral de loucura, causando o início do colapso da sociedade. Mísseis são entregues para governos ao redor do mundo, pessoas morrem em rompantes de raiva e nunca antes se viu tantos Porsches no trânsito. Diana enfrenta Maxwell usando o Laço da Verdade e, como mencionado por ela para Steve Trevor anteriormente, a ferramenta não apenas obriga a pessoa que o toca a dizer a verdade, mas também revela a verdade: ao prender o Laço em Maxwell, que está sendo transmitido mundialmente, Diana faz com que as pessoas vejam a verdade do que está acontecendo enquanto pede que elas renunciem aos seus desejos. O Laço da Verdade toca não apenas Maxwell Lord, que percebe, finalmente, que está perdendo seu filho em meio aos seus sonhos megalomaníacos se realizando, mas também às pessoas ao redor do mundo, que renunciam aos seus desejos e impedem que o mundo colapse.

Esse desfecho também não parece muito plausível: dentre as milhares de pessoas ao redor do mundo, é pouco crível achar que todas elas serão altruístas o suficiente para desistir de seus desejos (principalmente quando vemos em primeira mão o egoísmo de muitos durante a pandemia do coronavírus). Porém, como o próprio Maxwell Lord renuncia ao seu desejo de ser a Dreamstone quando percebe que Alistair está em perigo, todos os demais desejos concedidos desaparecem em uma efeito cascata — e é assim que vemos Barbara retornar à sua forma original, deixando de ser a Cheetah. No entanto, Barbara havia dito a Diana que jamais voltaria atrás em seu pedido, o que deixa a dúvida se o primeiro desejo também foi revertido ou apenas o segundo, que a transformou em Cheetah.

Um final agridoce

Após a conclusão do embate entre Diana e Maxwell, o mundo foi salvo pelas palavras da Mulher-Maravilha e tudo volta ao normal. Sua identidade nunca foi revelada, embora todos ao redor do globo tenham escutado sua voz, e a Mulher-Maravilha segue trabalhando fora do radar. Alguns meses se passaram após o embate e o surgimento da Dreamstone, mas nem Maxwell nem Barbara reaparecem: vemos Maxwell retornar para salvar o filho após ter perdido os poderes, mas o último vislumbre de Barbara é ainda durante a batalha, quando ela retorna à forma humana após Maxwell renunciar aos poderes da Dreamstone. Diana, enquanto isso, parece finalmente ter aceitado que Steve foi embora e consegue encontrar um pouco de alegria ao ver os moradores de Washington se divertindo em um festival natalino — ela até mesmo encontra o Handsome Man (Kristoffer Polaha) (sim, ele é descrito dessa maneira nos créditos) cujo corpo Steve Trevor ocupou durante seu curto retorno à terra dos vivos e parece achar graça de vê-lo usar exatamente as roupas que disse para Steve vestir.

O final é bem agridoce se pararmos para pensar que todos os três personagens principais de Mulher-Maravilha 1984 estiveram tristes durante a maior parte das mais de duas horas de longa. Diana, sentindo a ausência de Steve; Barbara, por não ser prestigiada da maneira como sente que merece; e Maxwell, por não ser o homem poderoso que desejava ser quando criança. Mulher-Maravilha 1984 é um filme estranho. Me diverti enquanto assistia, mas pensar racionalmente a respeito da trama, das motivações e desenvolvimento de roteiro me fez perceber que a produção é somente mediana e não faz muita justiça à Mulher-Maravilha que conhecemos em seu primeiro filme. Senti falta da fé de Diana, de vê-la se encantar com as pequenas coisas — e isso só retorna no final. É perfeitamente compreensível Diana guardar luto por Steve Trevor, mas a maneira como sua vida parece devotada a ser sozinha é um destino triste para a mulher mais poderosa da Terra.

Após os créditos, Asteria aparece em meio à multidão no festival de Natal e é ótimo vê-la interpretada por Lynda Carter, a Mulher-Maravilha do seriado de 1975. A aparição dela, tão próxima de Diana, me faz pensar nos motivos do filme não ser exatamente sobre isso: a busca de Diana por Asteria. Essa trama teria feito muito mais sentido do que toda a alucinação coletiva promovida pela Dreamstone. A mitologia que envolve a Mulher-Maravilha é tão rica que vê-la envolvida em um tipo de trama política que não tem coragem para, de fato, ser uma trama política é inquietante. O filme se passar em 1984 também poderia ter puxado alguns tópicos mais interessantes para o roteiro, como a Guerra Fria, mas a escolha da data parece ter sido feita por mera conveniência para os visuais coloridos do material promocional e do figurino dos personagens.

Até mesmo o fato de Diana aprender a voar e deixar seu jato invisível se perde no meio do roteiro do filme. Dois momentos que deveriam ser empolgantes e exclusivos de Diana se transformam em mais duas maneiras da protagonista sempre recordar Steve Trevor. Não me entenda mal, eu realmente gosto de Steve Trevor como um par romântico/apoio para Diana, mas amarrar mais esses dois feitos de Diana a ele me parece exagero. De maneira geral, Steve sequer precisava retornar para a sequência e ainda que entenda que o carisma de Chris Pine e a química entre ele e Gal Gadot sejam responsáveis por esse retorno, nada me fará mudar de ideia: a função de Steve na trama é fazer Diana ir contra seu lema e depois ver o quão longe de sua essência ela estava ao aceitar o que a Dreamstone lhe concedeu.

Levando em consideração o restante da linha do tempo do DCEU, Diana Prince continuará atuando como a Mulher-Maravilha, porém das sombras e sem chamar muita atenção para si mesma. Devido ao fato de que não envelhece, ela deixará seu trabalho no Smithsonian em algum momento, se mudando para Paris e conseguindo uma posição no Louvre, que é onde está trabalhando no flashback do início de Mulher-Maravilha. O terceiro filme já foi confirmado pela Warner e Patty Jenkins retornará na direção, oportunidade perfeita para amarrar melhor o roteiro e levar a história de Diana Prince adiante. A trama envolvendo Asteria parece ser um bom ponto de partida para o próximo filme, mas rumores dão conta de que a nova trama será contemporânea. Patty Jenkins também disse em entrevista para a IndieWire que deixou a trama de Barbara Minerva em aberto de propósito e que pode ser que ainda vejamos mais da personagem no futuro — e, quem sabe dessa vez, possamos tê-la ao lado de Diana, e não contra ela em mais um tropo que ninguém mais aguenta assistir. Para quem veio de uma ilha repleta de mulheres como Themyscira, Diana não ter nenhuma amiga é enervante.

Os eventos de Mulher-Maravilha 1984 também ajudam a amarrar melhor as demais aparições de Diana Prince no DCEU. A Mulher-Maravilha ainda continua agindo, lutando pela verdade e a justiça, mas Diana prefere se manter afastada da humanidade como um todo — perder seu grande amor duas vezes já é difícil o suficiente, então ela acredita que o melhor é permanecer sozinha. Em Liga da Justiça, Diana se reúne aos demais heróis para derrotar o Lobo da Estepe, então há uma boa chance de que no vindouro terceiro filme solo ela finalmente se revele para o mundo e deixe de atuar das sombras, construindo laços verdadeiros com a humanidade.

Mulher-Maravilha 1984 tem uma mensagem clara, mas passada de maneira confusa: a verdade importa. O simbolismo do desfecho do filme fala de perto com a essência da Mulher-Maravilha como um todo, ainda que o roteiro tenha chegado lá de maneira pouco orgânica. Temos a lição ensinada a Diana, ainda criança, por Antiope, depois todos os esquemas envolvendo Maxwell Lord e a Dreamstone, para terminar com Diana reencontrando sua essência como símbolo da verdade e justiça. Diana consegue reunir o mundo todo ao redor de suas palavras, da verdade que ela está dizendo naquele momento, e melhor do que simplesmente quebrar o pescoço de Maxwell Lord para impedi-lo (que é o que faz nos quadrinhos) é fazê-lo encarar seus próprios demônios e desfazer a magia imposta pela Dreamstone. Mulher-Maravilha 1984 é um filme mediano que veio envolto em muitas expectativas por parte dos fãs (eu inclusa), mas ainda assim é capaz de passar a mensagem da Princesa Amazona, afinal “uma heroína de verdade não nasce de mentiras”.

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1 comentário

  1. Nossa, esse filme foi tão decepcionante… Uma mistura, uma bagunça, um monte de coisa acontecendo tudo aqui agora, enfim.

    Achei o fim esse tropo da mulher padrão de beleza que os produtores ou sei lá quem acham que colocar um óculos, um cabelo frisado e uma roupa larga é o suficiente para deixá-la “feia” e o movimento contrário é o suficiente para deixá-la “bonita”. Sem contar essa insistência de que só uma super-heroína pode ser bonita, inteligente e saber andar de salto, né? Que preguiça dessa versão de Diário da Princesa em pleno 2020 e ainda fomentando rivalidade femininazzzzzzzzz. Esse tipo de historinha eu super esperaria se um homem estivesse por trás das câmeras, mas saber que mulheres escreveram, validaram e filmaram isso é, no mínimo, muito decepcionante.

    Só não concordo com a parte da Diana não ter se preocupado em ir atrás de como o namorado dela tinha voltado do mundo dos mortos, pois na manhã seguinte ao reencontro a primeira coisa que ela diz é que eles precisam descobrir como isso aconteceu (embora esse despertar dela só tenha ocorrido depois de ela ter curtido uma noite com ele, enfim)