Categorias: LITERATURA

De Quem É Esta História?

O feminismo dos últimos anos, que ganhou força com as redes sociais, ampliou o debate sobre o que significa ser mulher — ou tornar-se mulher. Discussões sobre representatividade, igualdade, cultura do estupro, dentre outros, tornaram-se cada vez mais presentes, ganhando espaço no mainstream. Premiações musicais, cinematográficas e do entretenimento viraram palco para discursos que se intensificaram na última década, em especial da metade da década em diante.

Esses discursos, e muito desses movimentos, no entanto, focaram e vieram de vozes que, muito embora genuínas em suas questões, não contemplavam uma boa parte da história — e, principalmente, de quem fazia e faz, também, parte dessa história (ou de uma história, seja lá qual for). Em De Quem É Esta História? — Feminismos para os Tempos Atuais, Rebecca Solnit retorna com uma obra de ensaios, tocando em assuntos que, diferente de seus antecessores, fazem recortes pertinentes para os tempos atuais.

A primeira vez que li uma obra da Solnit, em abril de 2018, com seu Os Homens Explicam Tudo Para Mim, já estava levemente calejada de muitas das questões presentes no livro. Destaquei com post-its muitas passagens da obra, mas não amei o livro como imaginei que faria. Em A Mãe de Todas as Perguntas, que li em 2019, o mesmo aconteceu, muito embora nesse eu tenha encontrado mais do que procurava. A minha sorte, talvez, estivesse justamente aí: em não me surpreender mais com tais tópicos, pois eles já eram conhecidos, amplificados e debatidos — ao menos na bolha em que eu estava inserida. No entanto, naquela época, já sentia que faltava algo no que eu estava lendo. Esse algo, percebi, era um recorte — de classe, de cor, menos centrado na perspectiva estadunidense. A autora, muito embora seja um dos nomes relevantes no feminismo dos dias atuais, ainda é uma mulher branca e com privilégios consideráveis.

“Quando as catedrais que você constrói são invisíveis, feitas de perspectivas e ideias, você se esquece de que está dentro delas e de que as ideias que as formam, na verdade, foram feitas, construídas por pessoas que analisaram, argumentaram e modificaram nossos pressupostos”.

Em seu mais recente livro, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras, com tradução de Isa Mara Lando, Solnit aparece mais afiada — e, particularmente, com sua melhor obra até então. Concluí a leitura de De Quem É Esta História? poucos dias antes das eleições presidenciais nos Estados Unidos. O livro reúne ensaios da autora publicados entre 2017 e 2019, que remontam ao viver político em uma sociedade permeada pela violência sob uma onda de ultraconservadorismo. Uma sociedade que, desde muito pautada e centrada no homem branco heterossexual, passa a se sentir desconfortável quando o outro — negro, imigrante, mulher, LGBTQI+ — passa a ter e exigir os mesmos direitos que até então eram exclusivos de uma pequena e privilegiada parcela da sociedade. Quando o outro passa a ter voz, aqueles que sempre rogaram de privilégios são obrigados a dividir o espaço que antes era exclusivamente dos seus.

Nessa seara, Solnit transpassa muito dos discursos batidos utilizados por essa parcela privilegiada. Afinal, quando obrigada a olhar para os próprios atos, esta entende que alguma parte do seu ser foi ceifada pela “polícia do politicamente correto”. Em “A notícia da queda dos homens foi muito exagerada” e em “Que nunca mais cesse esse dilúvio de histórias de mulheres”, por exemplo, é certeira em apontar que a responsabilização de atos de assédio e abuso não se trata de uma caça aos bruxos, ou de uma busca desenfreada em acabar com a carreira de homens que “não podem mais falar nada”. Trata-se, meramente, de responsabilização por atos e falas que ceifam o direito dos outros.

“‘Sentir-se confortável’ muitas vezes é eufemismo para o direito de estar alienado, o direito de não ter nenhum peso na consciência, nada que lembre o sofrimento alheio, o direito de ser ‘nós’, um ‘nós’ cujos benefícios não são limitados pelas necessidades e os direitos ‘deles’, quaisquer que sejam ‘eles’.”

Nesse trabalho, há uma ampliação em suas considerações para abarcar ainda mais o debate político — De Quem É Esta História? é seu mais político livro até então. E não poderia ser diferente. Os ensaios acompanham os muitos baixos de se viver sob a figura presidencial de Donald Trump, que não diferente da figura presidencial do Brasil, é um irresponsável misógino que montou sua persona em cima do menosprezo daquele e daquilo que é diferente. Em “Eles acham que podem fazer bullying contra a verdade: Sobre as mentiras dos poderosos e o poder das mentiras”, é difícil desassociar a realidade dos Estados Unidos com a realidade social e política do Brasil. O descompromisso com a verdade de figuras poderosas que, com o uso de mídias sociais e plataformas que se eximem de responsabilidade, buscam ditar o que é real e o que não é, em uma tentativa de controlar o que é, de fato, verdade. Mal poderia imaginar Solnit que, pouco menos de um ano da publicação do seu livro, a figura de Trump estaria permanentemente banida de diversas redes sociais.

O fenômeno das fake news, reverberado aos montes por robôs e que utiliza como munição o ataque à mídia jornalística, nada mais é do que uma tentativa de controlar a narrativa. E o controle de narrativa por muito tempo foi, de fato, exclusivo de homens, de grandes nomes e poderosos. Negar uma pandemia, por exemplo, não apaga os mais de duzentos mil mortos confirmados em território nacional. Negar o resultado das eleições, em uma tentativa de fazer tornar real seus próprios delírios egocêntricos, não muda que você perdeu. Apesar da tentativa de golpe instituída por Trump na quarta-feira do dia 6 de janeiro, a responsabilidade de fortalecer a prestação de conta, de fortalecer o compromisso de instituições com a verdade, tem como resultado o fortalecimento da democracia. E essas são questões que Solnit trabalha muito bem na obra.

Em ensaios como “E se eu fosse homem”, “O problema do sexo e´ o capitalismo” e “Mudanças monumentais e o poder dos nomes”, retorna as análises do que significa crescer como mulher, como o ambiente em que crescemos inseridas é indubitavelmente feita por homens e em prol destes. Em alguns de seus ensaios aponta o fato de crescermos rodeadas de ruas, monumentos, cidades etc., nomeadas em memória de homens. Onde estão, na História, as protagonistas mulheres? Por que foram e ainda são invisibilizadas? Essas são algumas das indagações feita por Solnit.

Por vezes repetitivo em seu soar — afinal, trata-se de uma obra resultado de diversas publicações ao longo de pouco mais de dois anos —, De Quem É Esta História? se faz pertinente para o momento em que vivemos. Ainda que pautado nas vivências de solo americano, muitas das considerações trazidas por Solnit são amplas o suficientes para atingir realidades globais. Com pontuações sobre silenciamento, política, mudanças climáticas, o ponto principal do livro se concentra em se aprofundar na temática do controle de narrativas. E, nessa esfera, dar voz a quem, de fato, são os protagonistas dessa história.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.


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