Categorias: LITERATURA

Canções de Atormentar: você não consegue tapar os ouvidos com os cotovelos

“é inventado ou verdadeiro
que a sereia cantou pro marinheiro
ele pôs cera no ouvido
ou se atou ao mastro feito um bom marido
domador dos mares e da libido
ninguém no mundo mais desenvolvido”¹

Terceiro livro da poeta gaúcha Angélica Freitas, Canções de Atormentar foi lançado pela editora Companhia das Letras em agosto de 2020. O lançamento veio oito anos depois da publicação de Um Útero é do Tamanho de um Punho, livro anterior da autora, republicado também pela Companhia das Letras, em 2017. É assim que começam todas as resenhas, com informações úteis. Mas Canções de Atormentar não é sobre informações úteis.

O volume foi construído a partir de mais de uma década de trabalho. Trabalhos esparsos, espalhados em cadernos, publicados em revistas, que se reúnem para trazer Angélica de volta para nós. O critério, segundo ela, foi a memória, como um grande novelo de lã que se desenrola. A partir do grande acervo dos cadernos, nunca passado a limpo, a autora resgatou as peças que lhe vinham à memória, que possuíam conexões entre si. O resultado é uma obra sobre a vida.

Segundo a própria autora, Um Útero… foi um trabalho construído intencionalmente a partir de uma questão, um eixo temático: o que é ser mulher. Canções de Atormentar, por sua vez, não tem um eixo temático tão bem definido, e nem nasceu já como um projeto único. A obra reúne poemas de diversos eixos temáticos, partes de vários projetos de coletâneas que nunca viram a luz do dia. Abordam desde memórias de infância até acontecimentos políticos recentes, passando por reflexões e homenagens ao trabalho de outros artistas. Não é sobre ser mulher de uma forma analítica, mas é sobre ser mulher como um fato que atravessa nossas vidas e molda a forma como vivemos e vemos o mundo. Somos mulheres. Mesmo quando não estamos falando sobre isso, somos mulheres. Somos mulheres quando queremos morar em Ouro Preto, ou quando bebemos mate, ou quando amamos tanto um par de calças que o usamos até rasgar.

“queridas calças, agora
rasgadas nas coxas
(dois rasgos horizontais
do uso intenso)
creio não mais precisar
de seus serviços, portanto
aposento-as, e agradeço.”²

Canções de Atormentar, de Angélica Freitas

O mesmo pode ser dito sobre ser uma mulher lésbica, ou sobre pertencer a qualquer grupo social específico. Nesse sentido, todos os poemas de Canções de Atormentar são, ao seu modo, sobre ser uma mulher lésbica. Felizmente, eles também são sobre muito mais do que isso, já que nenhuma vida se resume a ser uma mulher — ou uma mulher lésbica, para ser mais específica. Os poemas de Angélica Freitas, reunidos nesse volume, trazem uma sensação de vida. Não vida apenas como o oposto de morte, mas vida como a sequência de acontecimentos, dos mais extraordinários aos mais banais, que marcam a existência de um ser humano do momento do nascimento (ou até antes, como vemos no poema “traíra”), até a morte (e quem sabe até depois).

Canções de Atormentar trata de memórias, de amores, de desejos, de experiências e de imaginação. Uma coleção reunida ao longo de muitos anos, que se entrelaça e se complementa de forma fluída, solta e leve. Os poemas de Angélica Freitas têm um humor e uma acidez muito próprios, e as peças reunidas nesse volume não ficam para trás nesse quesito, misturando leveza e profundidade. São poemas gostosos de ler, e mais gostosos ainda de ler em voz alta, de compartilhar, de ler para. A sonoridade é outra característica marcante dos trabalhos da poeta, e a peça que dá título ao volume, “Canções de Atormentar”, é originalmente uma performance musical elaborada e apresentada em conjunto por Angélica e Juliana Perdigão, sua parceira de trabalho e companheira, com quem mora atualmente na Alemanha. A obra de Angélica também já inspirou o projeto musical “Avenida Angélica”, de Vitor Ramil.

A peça-poema-performance faz uma releitura da figura da sereia sedutora que atrai homens para o fundo do mar e afunda embarcações, e subverte essa imagem. É um sentimento que a maioria de nós consegue entender muito bem. É sobre revolta, sobre raiva justificada, sobre séculos de subjugação e deturpação. A sereia como “uma mulher que não se encaixa totalmente, tem rabo”. Nas palavras da própria autora: “Eu quis imaginar umas sereias que não estivessem a fim de seduzir os marinheiros. Como se fosse mesmo a vingança das sereias. Elas não estão lá para cantar para os marinheiros; elas querem, sim, afundar os navios.” A poesia de Angélica Freitas reverbera, diverte, e faz com que nós também queiramos ser sereias.

“mesmo que a deseje morta e descamada:
o marinheiro tem medo da sereia”¹

Banner Canções de Atormentar - 5 estrelas


¹ trechos de Canções de Atormentar, performance apresentada pela primeira vez no dia 7 de abril de 2017, durante o evento Zapoeta, organizado por Joca Reiners Terron no estúdio fita crepe, em São Paulo.
² trecho do poema “para as minhas calças”.


** A arte em destaque é de autoria da editora Paloma

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