Categorias: CINEMA

Alice Júnior: o coming of age brasileiro que todos nós merecemos

Volta e meia surge alguma discussão na internet sobre nossa identificação com os filmes adolescentes, conhecidos também como coming of age, já que a nossa realidade brasileira é bem diferente da realidade dos jovens em outros lugares (e, falando desse gênero, estamos falando na maior parte do tempo dos Estados Unidos e Reino Unido). Já falamos outras vezes aqui no Valkirias como esse gênero é importante para a identificação e representatividade dos jovens que serão retratados nessas produções, uma vez que enquanto jovens queremos sempre encaixar nossas vivências dentro de tudo o que consumimos, porém existe uma lacuna na falta de filmes adolescentes nacionais que cheguem para o público maior e, ainda mais urgente, na falta de representatividade dentro desses filmes que falam sobre jovens que fazem parte de alguma minoria social. Dentro desse contexto, o filme Alice Júnior, lançado em 2019 e que estreou nas plataformas digitais em 2020, tem o poder de ser um pontapé para o início dessa mudança dentro das produções nacionais ao focar no público jovem, LGBTQIA+ e em vivências não estereotipadas, mas ainda falando sobre questões sociais importantes.

Atenção: este texto contém spoilers!

Alice Júnior (Anne Celestino Mota) é uma adolescente trans do Recife e que mantém um público fiel de seguidores em seu canal no YouTube, onde faz vídeos sobre a sua vida e dá conselhos para quem envia questões, sempre usando a sua vida de exemplo. Quando ela está gravando um vídeo de perguntas e respostas para o seu canal, seu pai (Emmanuel Rosset) lhe dá a notícia que os dois estão de mudança para o interior do sul do país por causa de seu trabalho. Alice, como qualquer outra adolescente que está no momento de sua vida em que os “primeiros” são construídos, fica devastada com a notícia, porém está orgulhosa das conquistas de seu pai.

O filme chega para dar um basta na frase “o protagonista é LGBTQIA+, mas isso não é relevante para a história”, como se isso fosse um ponto positivo para a produção. Geralmente, essa frase é usada em produções em que o enredo não é focado nos estereótipos e retratam pessoas desse universo apenas “vivendo a sua vida”. Alice Júnior nos mostra que o fato da protagonista ser trans impacta em toda a sua vivência, que não é a mesma de suas colegas cis, mas isso não a impede de querer e viver momentos marcantes da adolescência.

Logo no início do filme, ao chegarem em Araucárias do Sul, pai e filha são recebidos por uma corretora de imóveis que faz um misgendering (microagressão quando alguém se refere a alguém trans pelo gênero errado) e faz o famoso discurso do “eu não sou homofóbica, mas…”, ignorando o fato de que ser trans não é a mesma coisa que ser homossexual. A garota passa por isso diversas vezes ao longo do filme, lidando com a transfobia dentro do colégio religioso, da comunidade, entre os colegas de turma. Alice passa por coisa que diversos adolescentes passam: a ansiedade pelo primeiro beijo, as paixonites, a confusão de se mudar para uma nova cidade, novo colégio e novas amizades; mas as vivências e realidade da personagem sempre serão relevantes para a história justamente pelo modo como ela navegará seus obstáculos e lidará com eles.

Quando Alice chega no colégio, vestida para matar qualquer preconceituoso, a diretora lhe impede de continuar e a obriga a vestir o uniforme masculino. Todo o cenário do colégio é feito para ser o principal vilão da história, junto com as pessoas que o fazem funcionar, desde a diretora que transforma um céu azul em trovoadas, o inspetor esquisito que buzina no ouvido de todo casal até a fachada do próprio colégio que mais parece a entrada de uma casa assombrada de filme de terror. Isso não é coincidência, já que o ambiente escolar, que deveria ser um lugar seguro para os jovens, é muitas vezes o primeiro espaço em que o jovem LGBTQIA+ se sente ameaçado, prejudicado e sofre preconceito.

É interessante também notar como o universo LGBTQIA+ funciona com um simples retrato de Alice e Lino (Igor Augustho). Quando Alice vai ao seu encontro, esperando ser bem recebida por outro jovem LGBTQIA+, é recebida com ignorância, quando o menino diz que eles não são iguais por ela ser trans e ele gay. O grupo de pessoas LGBTQIA+ geralmente é referido como uma comunidade, quando, na verdade, está mais para um universo com comunidades e subcomunidades dentro dela. O fato de alguém pertencer a alguma letra desse universo não a impede de cometer um ato maldoso ou preconceituoso com outra letra. Logo nós vemos que Lino, assim como Alice, está tentando apenas sobreviver ao trauma que é o ensino médio e, diferente da garota, escolhe se camuflar em meio aos colegas.

“Alice, você existe para brilhar.”

Ao mesmo tempo em que Alice cruza com pessoas transfóbicas, ela encontra pessoas que a apoiam, como o professor que pergunta o seu nome e é o único que lhe chama pelo nome social, e Viviane (Thaís Schier), a garota que todo mundo do colégio foge, mas é a primeira que conversa com Alice. Enquanto Viviane faz o seu discurso feminista na entrevista com Alice no pedalinho, tudo o que Alice quer saber é se a recém-amiga já havia beijado alguém e quais garotos ela acha bonito no colégio. Essa cena é tão sutil que parece não ter importância para a maior parte da audiência, mas acaba como um respiro de esperança para qualquer jovem trans que tenha assistido Alice Júnior e pode se identificar (e sonhar) em viver esse momento: simplesmente sentar e conversar com um amigo sobre algo tão banal quanto qual o menino mais bonito do colégio.

Ao se aproximar de Taísa (Surya Amitrano) e Bruno (Matheus Moura), Alice encontra um pouco da segurança que precisava após um momento trágico no colégio e, vendo que o casal está ao seu lado, encontra forças para iniciar uma revolução. Dali em diante, vemos nossa protagonista enfrentando seus obstáculos e ganhando aliadas, porque, claro, a união faz a força. Com sua determinação em ajudar os outros e sua personalidade única que é quase narrada por Gretchen, Alice é a garota e protagonista que não precisamos fazer esforço para gostar.

Quando tudo parece estar dando certo na vida da garota e o Sul do país está finalmente caindo nas graças dela, o pai de Alice dá as notícias de que eles podem voltar para o Recife, deixando-a triste novamente com a partida. A nossa adolescência é cheia de chegadas e partidas, momentos e movimentos, e o filme capta esse momento em que Alice fez a diferença na vida de pessoas e agora está pronta para o próximo desafio.

“O mundo é mesmo uma confusão sem tamanho. Só sei que cada um de nós deixa um pedacinho que seja por onde passa e um pouquinho de amor sempre pode regar uma semente prestes a semear. Dizem que não importa o quão longe estamos, somos sempre responsáveis por levar felicidade dentro da gente, para onde quer que a gente vá. Não importa o que você é, mas quem. E para chegar nessa conclusão, a gente precisa se deixar TRANSbordar.”

Alice Júnior é um filme colorido, a intenção do diretor Gil Baroni é colorir a narrativa trans, em que os desenhos e efeitos rompam com os estereótipos ruins e tragam uma nova perspectiva de narrativa. Apesar do filme não retratar a verdadeira realidade do Brasil, sendo um país em que 90% das pessoas trans e travestis estão na prostituição, é importante mostrar essas narrativas em que a pessoa trans está dentro de um lar que a apoia e ama, que está realizando coisas e “apenas vivendo”, pois é uma normalização e uma conversa que chega nas residências em que essas pautas não existem. “O Brasil é o país que mais mata pessoas trans. Mas Alice Júnior está mostrando que a vida de pessoas trans não é só violência. Também temos alegrias”, foi o que disse Anne Celestino em uma entrevista e é isso que faz o filme tão importante para adolescentes e pessoas trans brasileiras.

“A realidade trans brasileira está sendo transmitida diariamente e chega na casa de milhões de brasileiros: liguem nos programas policiais e vejam o noticiário dos crimes de ódio com requintes de brutalidade direcionados à comunidade trans feminina. Não é por falta de informação. Essa história já está sendo exibida. O que nos falta é a empatia do outro, a humanização, a promoção do respeito e políticas públicas de apoio.”, disse Jonas Maria para o site Uol sobre o filme.

Alice Júnior foi ovacionado em diversos festivais de cinema e exibições pelo mundo, principalmente no Festival de Berlim. Uma grande parte do seu sucesso é com certeza Anne Celestino Mota, que faz a protagonista Alice, também vencedora do prêmio de Melhor Atriz do Festival de Brasília em 2019. Um filme sobre uma adolescente trans sendo protagonizado por uma atriz trans é dizer que a vida de pessoas trans importam e que podem ser e pertencer a todos os ambientes, não ficando apenas na teoria.

A trilha sonora que embala os momentos mais importantes de Alice traz uma grande identificação jovem brasileira. Quando Alice, Taísa e Bruno caminham na direção do pôr do sol ao som de “nossa vida parece um filme adolescente dos anos oitenta”, verso da canção “Feito Hai Kai”, da banda Véronica Decide Morrer, temos um gostinho do nosso próprio “e nesse momento, eu juro, nós somos infinitos” do filme As Vantagens de Ser Invisível. Ou quando a festa de Alice é celebrada ao som de Gloria Groove, aquela identificação com a nossa realidade na tela é real e não apenas algo que fica no imaginário ou que temos que fazer recortes de nossas vidas para se encaixar na experiência cinematográfica. Alice Júnior é nosso filme, é a nossa adolescência, é o nosso pedacinho de amor que temos que passar para frente — e que todos nós merecemos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 comentário

  1. Com certeza um triunfo brasileiro que merecia maior reconhecimento. A pandemia inviabilizar sua estreia em cinemas é uma pena, mas a escassez de atenção do grande público e a ausência de movimento ao redor da obra são revoltantes. Um filme tão bom e importante como esse deveria ter ficado no top 10 BR da Netflix por pelo menos um mês.