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A Criatura e os monstros entre nós

E se os monstros que habitam nosso imaginário fossem reais? E se Mary Shelley, Bram Stoker e Robert Louis Stevenson tivessem baseado suas criaturas em um ser que habita nosso mundo se passando por um de nossos iguais para dar vida a Frankenstein, O Médico e o Monstro e Drácula? Foi partindo dessas ideias assustadoras que Andrew Pyper desenvolve a narrativa de A Criatura, terceiro livro do autor a ser publicado no Brasil pela DarkSide Books.

A Dra. Lily Dominick leva uma vida perfeitamente normal e adequada para seus padrões. Tem um emprego bem remunerado trabalhando como psiquiatra forense no Centro Psiquiátrico Judicial Kirby, um apartamento em que vive sozinha com relativo conforto e uma vida sem grandes atribulações. Mesmo levando essa vida perfeitamente pacata, Lily sempre sentiu que havia algo que não se encaixava em todo esse roteiro, mas, para seu cérebro analítico, esse vazio nada mais é do que um reflexo da morte de sua mãe quando Lily era apenas uma menina de seis anos de idade.

Suas lembranças do ocorrido são borradas como somente as lembranças de uma criança de seis anos podem ser. Lily se recorda de ver uma criatura enorme inclinada sobre o corpo estraçalhado de sua mãe, estirado no chão do chalé em que viviam no Alasca. Em seguida, Lily se lembra de estar montada em um cavalo muito branco, cavalgando em alta velocidade em meio a uma floresta fria devido a neve recém caída. Adulta, Lily sabe, por sua própria experiência profissional, que todo esse cenário não deve ser nada além de seu cérebro tentando protegê-la de horrores muito maiores do que ela poderia aguentar, e assim tenta seguir adiante, mesmo que a dúvida a respeito do que aconteceu com sua mãe a persiga o tempo todo.

“Não é em mim que meu valor reside, mas nas ideias que se vinculam a mim. Não sou um profeta. Sou um monstro.”

Em mais um dia de trabalho como qualquer outro, Lily recebe um novo cliente — essa é a maneira como os médicos e funcionários do Centro Psiquiátrico Judicial Kirby se referem aos criminosos que lá chegam — para entrevistar. O homem havia cometido um crime, no mínimo, bizarro: sem maiores explicações, aproximou-se de um homem que não conhecia enquanto andava na rua e arrancou suas orelhas usando apenas a força das próprias mãos. O criminoso que Lily tem a sua frente, no entanto, não se parece em nada com as outras dezenas de psicopatas que ela entrevistou durante sua carreira. Esse homem emana, ao mesmo tempo, uma aura de terror e fascínio capazes de deixar Lily em dúvida sobre qual a melhor maneira de conduzir a entrevista, e tudo consegue ficar ainda mais bizarro quando a médica é confrontada por seu cliente que parece saber muito sobre ela, desde seu passado enquanto criança vivendo no Alasca ao assassinato brutal de sua mãe.

O homem, que se identifica como Michael, fascina Lily na mesma medida que a assusta, e não demora para que a médica se veja aprisionada em uma trama que vai muito além de sua compreensão. Sem saber o que a aguarda no final, Lily embarca em uma viagem que a levará de Nova York à Romênia, até a Villa Diodati, em Genebra, e de volta ao Alasca. Cada uma dessas paradas levará Lily para mais perto do mistério que envolve toda a sua vida desde o assassinato da mãe, fazendo com que ela descubra mais sobre si mesma no processo e entenda que os monstros da ficção são mais reais do que ela imagina.

De maneira geral, é fácil se interessar pelo cerne que move A Criatura. As características dos romances góticos estão todas lá, principalmente devido às homenagens e inspirações que Andrew Pyper retira dos clássicos Frankenstein, O Médico e o Monstro e Drácula. Mesmo assim, a sensação que fica ao concluir a leitura é que o autor nunca consegue realmente chegar com seu romance no mesmo patamar que Shelley, Stoker e Stevenson chegaram com seus trabalhos. A começar pela protagonista, a Dra. Lily Dominick, que, para uma psiquiatra forense, se deixa levar muito facilmente por seu pretenso paciente. Não que haja problema em ficar curiosa a respeito de um caso muito especial, mas Lily parece se esquecer totalmente de qualquer prudência e não pensa duas vezes antes de seguir um criminoso e suas ideias pouco confiáveis. As várias questões que Lily tem com relação ao assassinato de sua mãe podem ter suas respostas com Michael, e, por isso, ela joga a cautela às favas.

Embora sua protagonista não seja a força motriz de sua trama, A Criatura consegue ser uma leitura interessante e dinâmica da mesma maneira. Andrew Pyper faz um bom trabalho conectando os clássicos da literatura gótica em seu personagem demoníaco, parte monstro, parte vampiro, e toda a jornada ao sudeste europeu, com as paisagens frias e dignas dos melhores contos de terror, vale a pena pelas ambientações detalhadas do autor. Em alguns momentos é preciso dar um voto de confiança a Pyper quando ele tenta nos fazer acreditar que Michael inspirou, com sua jornada de mais de duzentos anos caminhando — e matando — pela Terra, as tramas de Shelley, Stoker e Stevenson, mas isso pode ser até um pouco desabonador, se pararmos pra pensar, que autores tão renomados precisariam se inspirar em uma criatura “real” e suas histórias de matanças para conceber seus personagens.

Como fã dos três autores e de seus respectivos clássicos, entendo que Pyper se propôs a criar sua própria versão de terror gótico, mas o livro me desconectava da trama toda vez em que Michael contava a Lily como se aproximou de cada um dos três autores e como foi a inspiração para seus livros de sucesso. Ainda assim, mesmo que pareça um contraponto ao que acabei de frisar, não deixa de ser interessante quando Andrew Pyper insere os autores reais em sua obra — não me importaria de ter mais páginas de Michael conversando com Mary Shelley, Bram Stoker ou Robert Louis Stevenson em detrimento dos momentos em que Lily fica falando com a voz em sua cabeça (mesmo que haja um motivo para isso).

“Imaginar é tornar real. Ouvir é deixar entrar.”

Outro ponto que incomoda na trama de A Criatura, e temos que voltar à Lily a esse respeito, é como a personagem é diluída no decorrer da narrativa. Se em um primeiro momento a protagonista nos é apresentada como uma jovem mulher independente e dona de si, trabalhando no Centro Psiquiátrico Judicial Kirby como uma das responsáveis por entrevistar e diagnosticar criminosos perigosos, não demora para que, no desenrolar da narrativa, ela assuma o papel de vítima e sucumba aos desejos de Michael. Para uma mulher correndo risco de morte, é um tanto desconcertante o quanto Lily pensa a respeito de sexo com alguns dos personagens que cruzam o seu caminho. É estranho acompanhar, também, a relação ambígua e quase incestuosa que se desenvolve entre ela e Michael durante toda a perseguição de “gato e rato” que se desenrola a partir do momento em que eles se conhecem.

Mas há pontos positivos em A Criatura: mesmo que não tenha conseguido mergulhar tão profundamente na trama como eu gostaria — e o fiz em O Demonologista, primeiro livro de Pyper lançado no Brasil pela DarkSide Books —, a trama do livro tem seu lado interessante. Como leitora voraz de terror e dos autores que Pyper reverencia no livro, é divertido procurar em Michael as características do Monstro de Frankenstein, de Drácula, ou a dualidade de Dr. Jekyll e Mr. Hyde que habita o personagem. Os diários escritos por Michael e que narram sua criação e a descoberta do que ele é, também são dignos dos melhores horrores góticos e é uma pena que não haja mais deles entre as pouco mais de 300 páginas de A Criatura. Lily, de fato, não é a personagem mais interessante da trama, ainda que tenha todo o potencial para tal, mas isso é desperdiçado quando a moça deixa de ser alguém independente e passa a ser apenas a donzela (praticamente) indefesa. Andrew Pyper erra com sua protagonista e escreve uma mulher pouco crível — não por se tornar indefesa no decorrer da trama, mas por uma série de outros fatores, principalmente seus desejos pouco convencionais em momentos de tensão e terror.

A Criatura tem as pitadas característica do terror gótico no início da trama, mas aos poucos a narrativa se transforma em um thriller psicológico e perde sua força — talvez não ir completamente para um tema ou outro tenha prejudicado o livro como um todo, criando quebras na trama, no ritmo e na maneira como a história é contada. O plot twist ao final não pega o leitor realmente de surpresa se ele estiver atento aos ciclos que a trama apresenta, mas não deixa de ser satisfatório ver Lily, finalmente, tomando as rédeas da situação. O erro de A Criatura, talvez, tenha sido a ambição de seu autor em querer recontar clássicos tão enraizados na cultura pop, costurando partes de histórias que, no lugar de serem assustadoras, parecem apenas desconexas, como um teste de Victor Frankenstein que não deu tão certo assim.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora DarkSide Books.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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