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De Easy A a Booksmart: a evolução das narrativas adolescentes nos anos 2010

Até meados do século XX, a adolescência, como conhecemos hoje, não existia. As mudanças nas interações sociais e o crescimento da importância da educação fez com que jovens permanecessem mais tempo morando na casa de seus pais e adiando acontecimentos simbólicos para o início da vida adulta — o casamento, por exemplo — e dando mais abertura para novas perspectivas de futuro. Esses fatores resultaram em um período em que o jovem não é mais criança, porém também não é considerado um adulto, sendo exposto a mais dúvidas e, por consequência, mais descobertas sobre si mesmo e sobre o seu futuro. No fim, essa fase ficou então conhecida como adolescência.

A adolescência é aquela fase complicada demais para explicar. O mundo está ganhando cores novas e tudo é mais intenso e vibrante. É a fase das tempestades em copo d’água, em que o tempo parece durar uma eternidade e tudo é o fim do mundo. Um coração partido parece ser a pior dor do mundo, mas no outro dia nem lembramos mais do que aconteceu. É nessa época também que temos a oportunidade de descobrir o mundo por nós mesmos, em que formamos a nossas próprias opiniões e somos expostos a realidades fora do nosso círculo social; a época em que quebramos a cara e levamos vários tapas e estamos dispostos a cometer esses erros, porque são nossos erros.

Na cinematografia, os filmes focados em narrativas adolescentes se popularizaram na década de 1950; mais tarde, conhecido como coming of age, eles são os responsáveis por representar essa trajetória entre a infância e a idade adulta, marcados por alguma realização ou epifania que mostra ao protagonista que ele está pronto para crescer. Os filmes coming of age são fáceis de se identificar, pois eles mostram a adolescência como uma fase mundana e entediante, mas também uma fase deprimente e esmagadora, cheia de conflitos e dúvidas pelas quais toda pessoa já passou; porém eles nos dão espaço para sonhar além, ao mostrar que existe um futuro cheio de aventuras que nossas mentes adolescentes ainda não decifraram, com mais descobertas e excitação.

A década de 2010 foi a década marcada por garotas adolescentes retomando suas narrativas e abraçando a si mesmas por inteiro; desde o sentimentalismo, a dramaticidade e a coragem de serem quem elas são. Essa década foi marcada pelo embate entre as gerações mais velhas e uma geração mais nova, que nasceu e cresceu em um mundo totalmente digital e a crença da primeira geração de que eles, por serem mais focados no digital, não sabem muito como viver no mundo “real”. No entanto, ao longo dessa década, percebemos como os jovens usam esse novo ambiente social e cultural para demandarem e lutarem pelo mundo que eles querem viver; garotas adolescentes como Lorde, Greta Tumberg, Amandla Stenberg e Yara Shahidi inspiraram e guiaram adolescentes da última década a abraçarem e lutarem por elas mesmas.

Easy-A-narrativas-adolescentes

Seria estranho se nos filmes coming of age dessa última década não víssemos essas mudanças na forma como as histórias das garotas adolescentes são contadas. Nós começamos com Easy A, lançado em 2010 e dirigido por um homem, Will Gluck, que é um clássico da década, mas que ainda foca muito na rivalidade feminina; até Booksmart, lançado em 2019 e dirigido por Olivia Wilde, que ditou o novo nível para as novas comédias românticas adolescentes dessa nova leva ao quebrar diversos estereótipos do gênero.

Do slut-shaming a sororidade: as amizades femininas nos filmes adolescentes

Em Easy A, Olive (Emma Stone) e Rhiannon (Aly Michalka) são ditas melhores amigas, onde esta é a pessoa mais importante para aquela. A amizade das duas, no entanto, não sobrevive ao caos da vida de Olive após ela ganhar o rótulo de “fácil” pela escola — boato incentivado também por Rhiannon.

Não é inusitada a maneira como as amizades femininas são retratadas em filmes, uma relação falsa que envolve rivalidade entre as amigas por motivos mesquinhos — em dois segundos já lembramos de Garotas Malvadas e a trajetória de Cady (Lindsay Lohan). Em Easy A, Olive cria uma mentirinha para fugir de uma situação com Rhiannon, que acredita, espalha e ainda julga a melhor amiga, chegando a se juntar ao grupo de jovens religiosos comandado por Marianne (Amanda Bynes) que quer a cabeça de Olive por se mostrar vulgar.

Já em Booksmart, Molly (Beanie Feldstein) e Amy (Kaitlyn Dever) são melhores amigas e a cada momento possível do filme vemos uma tentando levantar a autoestima da outra; elas sabem os maiores segredos uma da outra e o que mais querem é ver a amiga feliz e realizando sonhos. É interessante notar também que a amizade de Molly e Amy não é perfeita e sem defeitos, dada a cena em que elas entram em uma discussão enorme no meio da festa de Nick (Mason Gooding) por suas diferenças e as concessões que uma faz para a outra em nome da amizade. Entretanto, isso não faz a amizade delas menos forte e menos verdadeira, pelo contrário, só a torna mais real.

Ainda é possível fazer uma comparação entre a interação entre Olive, Rhiannon e Marianne, de Easy A, e Amy, Molly e Annabelle (Molly Gordon), de Booksmart. Em Easy A, Olive e Rhiannon são vistas como vulgares, sendo que uma recebe o rótulo, a outra se orgulhar por ser menos “recatadas”, enquanto Marianne é líder do grupo religioso e símbolo da castidade. Marianne e Olive se odeiam pela imagem social que uma passa para a outra, uma o extremo da outra; enquanto o final do filme mostra uma possível reconciliação entre Olive e Rhiannon, nós não temos nenhuma cena em que Olive conversa sobre suas diferenças com Marianne ou encontra uma solução para o conflito entre as duas.

Booksmart-narrativas-adolescentes

Já em Booksmart, Amy e Molly são as cabeças da turma — Molly, presidente de turma; Amy, a justiceira social. Do outro lado, temos Annabelle, vítima de comentários sexistas pelos meninos da escola por causa de sua vida social. Enquanto Amy se nega a participar dos insultos, Molly acredita que Annabelle merece o apelido apenas porque “todo mundo a chama assim”. Nessa narrativa, Molly se sente superior a todos os seus colegas, por focar nos estudos enquanto todos estão festejando; e quando ela percebe que todos eles entraram em universidades tão boas quanto a dela, ela se esforça para se soltar mais, o que nos dá uma ótima cena em que ela e Annabelle conversam sobre a relação delas e uma entende o ponto de vista da outra, largando a rivalidade que existia entre elas.

Comparando o primeiro filme da década com o último, podemos observar como o cinema evoluiu nesses dez anos e o que nós não queremos mais ver, o que temos que deixar no passado e o que nós temos que continuar buscando nos próximos filmes: o fortalecimento da amizade feminina.

Todo o glamour e o trauma e o melodrama: a década das adolescentes dramáticas

É impossível falar sobre essa década sem falar sobre a forma como as garotas abraçaram suas existências e vestiram com orgulho todo o sentimentalismo que é ser uma garota adolescente. Em 2018, Olivia Gatwood apresentou um poema chamado When I say that we are all teen girls (“Quando eu digo que nós somos todos garotas adolescentes”, em tradução livre), ela retoma todas as características dadas às garotas adolescentes e as toma para um lugar de orgulho.

“When I say that we are all teen girls
What I mean is that when my grandmother called to ask why I didn’t respond to her letter
All I heard was
Why didn’t you text me back
Why don’t you love me”

“Quando eu falo que nós somos todos garotas adolescentes
O que quero dizer é que quando a minha avó liga para perguntar por que eu não respondi a sua carta
Tudo que eu escuto foi
Por que você não me respondeu
Por que você não me ama”

Garotas adolescentes são tomadas como sentimentais demais, melosas demais, dramáticas demais e superficiais demais. A adolescência é a fase em que tudo é intensificado, por isso é a fase em que garotas são moldadas a serem menos para cabermos no que é aceito pela sociedade. Graça à influência de adolescentes como Lorde, nessa década garotas adolescentes gritaram por emancipação desse pensamento de que tudo que é relacionado a elas é algo ruim e foi um período marcado pelo sentimentalismo e pela dramaticidade.

Lançado em 2016, The Edge of Seventeen é a primeira representação de adolescente dramática até então. Quando Nadine (Hailee Steinfeld) descobre que seu irmão e sua melhor amiga estão juntos, ela se convence de que o seu mundo acabou e que não há mais sentido para nada em sua vida. Em comparação, Lady Bird, de Greta Gerwig, lançado no ano seguinte, discute o paralelo entre o relacionamento de mãe e filha, que também podem ser vistas como duas garotas adolescentes se usarmos o poema de Gatwood nessa análise.

Personagens como Nadine e Lady Bird (Saoirse Ronan) não foram feitas para serem amadas; elas são arrogantes, egocêntricas e não medem suas palavras quando querem ferir alguém. No entanto elas são personagens reais, personagens identificáveis de qualquer pessoa que já foi ou se sente como uma garota adolescente. Cenas como a em que Lady Bird grita com a sua mãe ou quando Nadine briga com o irmão na casa de seu professor são tão reais quanto a que Lady Bird pergunta para a mãe por que ela não gosta dela e sobre a sua melhor versão não ser tão boa assim.

Lady-Bird-narrativas-adolescentes

“Imagine the teen girls gone from our world
And how quickly we would beg for their return
How grateful would we be then for their loud enthusiasm
And ability to make a crop top out of anything”

“Imagine as garotas adolescentes desaparecidas do nosso mundo
E quão rápido nós imploraríamos para o retorno delas
Quão gratos nós seríamos então pelo alto entusiasmos delas
E a habilidade de fazer um crop top a partir de qualquer coisa”

Lady Bird cria esse nome porque ela não quer se identificar com a pessoa que é em Sacramento: o seu sonho é ir embora e fazer faculdade em Nova York. Ela acredita que nasceu do lado errado dos trilhos e seus passos nos levam a uma jornada de autodescobrimento, de abandonar sua melhor amiga e fazer amizade com pessoas que ela julga mais descoladas até realizar o seu sonho e perceber que ela ama sua cidade natal e a sua família. Todos nós ansiamos por sair de nossas bolhas e conhecer o mundo quando adolescentes, o mundo é grande demais para vivermos em nossa vidinha para todo o sempre, respiramos aventuras e corações partidos. Com Lady Bird descobrimos que é essa determinação adolescente que nos leva para a frente e nos faz crescer, não importa o quão tortuoso será o caminho.

“What is more teen girl
Than not being loved
But wanting it so badly
That you accept the smallest crumb
And call yourself full”

“O que é mais garota adolescente
Do que não ser amada
Mas querer tanto isso
Que você aceita a menor migalha
E se diz satisfeita”

Já Nadine é uma carta de amor à adolescência dramática e dos sentimentos confusos que compartilhamos nessa fase da vida. Desde a raiva do seu irmão por ele ser o Sr. Perfeição, ao se sentir sozinha no mundo, ter a certeza de que tudo acontece apenas com ela e a rixa constante com a mãe. Nessa época em que tudo é tão amplificado, Nadine comete os piores erros como mandar uma mensagem imprópria para o menino que ela acha que gosta e se meter em uma enrascada. Como acontece com Nadine, esse é o tempo para nos perdermos, porque realmente não sabemos quem somos, mas, diferente do que pensamos, tudo passa e aprenderemos com as nossas decisões erradas e tudo ficará bem no final.

Only white girls can come of age

Mesmo que a década de 2010 tenha produzido filmes que retratam tão bem o sentimento de ser adolescente e as dificuldades de ser uma garota adolescente em um mundo digital, ainda precisamos pensar no caminho que temos que percorrer para termos todo tipo de representação nessas histórias. É impossível não falar sobre o clichê dos filmes adolescentes, do drama e do tédio e questões superficiais como “essa pessoa me ama ou não” quando essas narrativas são comumente protagonizadas por garotas brancas e um privilégio das mesmas.

Em Bande de Filles, filme de Céline Sciamma lançado em 2014, Marieme (Karidja Touré) encontra a liberdade em outras garotas e longe do seu lar abusivo. Ao criar amizade com Lady (Assa Sylla), Fily (Mariétou Touré) e Adiatou (Lindsay Karamoh), Marieme experimenta o que é ser adolescente e apenas isso, sem obrigações e responsabilidades, dentro da cultura e comunidade em que vive. No entanto, em sua realidade, Marieme tem que arcar com responsabilidades e crescer antes do necessário ao morar com um irmão abusivo e uma mãe ausente. Quando a escola se nega a continuar a sua educação, mostrando a negligência da educação francesa com jovens negros, e seu irmão a agride, ela se volta para a rua e o tráfico como uma chance de viver pelas suas próprias escolhas.

Já em Pariah, lançado em 2011, acompanhamos a história de Lee (Adepero Oduye) navegando pela sua adolescência enquanto gay e sem se assumir para os pais, tendo que esconder sua identidade da família e chegar a trocar de roupas entre ônibus e banheiros públicos para não ser “descoberta”. Diferente de Marieme, quando a família de Lee descobre a sua sexualidade, ela escolhe sair de casa e tem a oportunidade de ir para um programa universitário; porém, desde cedo, Lee precisa crescer e tomar cuidado com as suas atitudes, atos e as consequências de cada um dos seus passos, o que faz com que ela não consiga se envolver com ninguém e a prive de outras experiências. Sua melhor amiga, Laura (Pernell Walker), no entanto, não traça o mesmo caminho de Lee; quando seus pais descobrem que ela é gay, eles a expulsam de casa e Laura tem que abandonar os estudos para ajudar sua irmã a pagar as contas de casa, já que a mesma a acolheu.

Em 2015, Mustang foi lançado, um filme turco-francês que conta a história de cinco irmãs que moram em uma pequena vila perto de Istambul. Após um boato, as irmãs Sonay (İlayda Akdoğan), Selma (Tuğba Sunguroğlu), Ece (Elit İşcan), Nur (Doğa Doğuşlu) e Lale (Güneş Şensoy) são enclausuradas em casa e forçadas a desistirem dos estudos e de suas liberdades, e seus parentes começam uma cruzada para casarem as adolescentes e pré-adolescentes antes que elas fiquem mal faladas em sua comunidade.

Mustang-narrativas-adolescentes

Viver em uma comunidade como em Mustang impede que as irmãs experimentem sensações e sentimentos como protagonistas de outros filmes experimentam. Quando Sonay e Selma, as irmãs mais velhas, casam, elas abrem mão de suas adolescências e são forçadas a crescer e se tornarem adultas; quando Ece é estuprada pelo seu tio, ela se rebela para se sentir dona de sua própria vida de novo e não aguenta o peso do seu trauma; quando o mesmo acontece com Nur, o homem da casa não é o reprimido e sim tenta casá-la como se isso fosse resolver tudo. Quando Lale, a mais nova das irmãs, traça um plano para ela e Nur fugirem para Istambul com o dinheiro roubado de sua avó, para que nem ela nem Nur tenham que se casar ou virar refém de abusos dos homens da família, elas tomam de volta a narrativa de suas vidas e lhe dão um novo começo.

Quando se vive em uma sociedade e cultura que reforça padrões patriarcais e machistas, a rebeldia adolescente não é apenas sobre viver no limite ou autodescobrimento, é sobre liberdade, direito de viver e sobrevivência.

A década do coming of age

Os filmes adolescentes são importantes para nos sentirmos representados e retratar essa época da vida que é tão conturbada. Começamos a ver como, para conversar com essa geração, é necessário estar disposto a tratar com seriedade o que se passa nesses anos. Ao longo da década vemos os filmes tratarem de assuntos importantes, mas sem deixar os clichês tão adorados de lado. Agora precisamos de filmes que expandem os horizontes do que é ser uma garota adolescente, interpretando diferentes formas de ser e viver essa fase da vida que amamos odiar, e falar com uma audiência além do branco, hétero, cisgênero e ocidental.

Nós agradecemos aos filmes que moldaram os anos 2010 e nos fizeram sentir ouvidas e representadas nos piores e melhores anos de nossas vidas. Que em 2020 tenhamos filmes que falem com os novos adolescentes, que são mais engajados social e politicamente, que não têm medo de expressarem suas opiniões e estão focados em mudar o mundo para melhor, abraçando pessoas e diferentes vivências.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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