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Insecure: muito mais do que uma série de comédia

Ainda que Insecure tenha muito mais a nos oferecer para que simplesmente a coloquemos na caixinha da “série de comédia”, é quase impossível terminar um episódio sem soltar algumas (boas) risadas. A produção de Issa Rae e Larry Wilmore, em princípio, tem um objetivo bem simples: contar a história de Issa Dae (interpretada pela própria Issa Rae) e de sua melhor amiga Molly Carter (Yvonne Orji). No entanto, acabamos mergulhando nas questões das personagens, tanto no que tange seus relacionamentos, quanto na esfera profissional das vidas das duas.

Durante as — até então — quatro temporadas, enxergamos duas amigas muito diferentes entre si, lidando com diversas crises, situações e até mesmo traumas que muitas de nós já passamos ou iremos passar em algum momento. Apesar de ter bastante enfoque nas vivências das duas personagens, outro centro narrativo que acompanhamos é o de Lawrence (Jay Ellis), namorado de Issa na primeira temporada.

Os primeiros episódios da temporada de estreia nos apresentam personagens acomodadas. O divertido e emocionante de acompanhar essas histórias ao longo das temporadas é vê-las sair dessa zona de conforto e se arriscarem — mesmo que esse processo seja doloroso. Um exemplo disso é a dinâmica entre as personagens Issa e Lawrence que, embora ainda se amem, parecem estar estagnados na pior fase do relacionamento e, ainda assim, permanecem estáticos. Até resolverem se movimentar.

Issa, Lawrence e Molly: três faces de uma mesma história

Encontramos, em um primeiro momento, uma Issa insegura, mas ao mesmo tempo autêntica. Com o passar dos episódios, acompanhamos seu processo de se arriscar e colocar para o mundo algumas de suas vontades. Primeiramente, tomando frente na ONG em que trabalha. Mais tarde, entendendo que esse trabalho não faz mais sentido para si, iniciando um processo caótico — no entanto, percebemos mais tarde, efetivo — de encabeçar um projeto novo por conta própria. No meio do caminho, não deixamos de vê-la tropeçando na vida — como muitas de nós —, tentando entender qual caminho quer seguir e de que maneira.

Lawrence, após ser forçado a sair de uma posição cômoda com relação a sua vida profissional e amorosa, recupera aos poucos a sua autoestima. Entramos em contato com um Lawrence mais animado, se encontrando e entendendo como adequar seus sonhos profissionais com a realidade. A partir dele, conseguimos olhar com uma lente mais sensível para suas questões enquanto homem.

Molly, em muitos sentidos, é o avesso de Issa. Não tem dúvidas sobre sua profissão, é bem-sucedida, e tem basicamente toda a sua vida planejada. Esse planejamento excessivo acaba se tornando seu maior inimigo, já que não permite que viva o agora, antecipando algumas coisas ou encontrando problemas demais. Além disso, boa parte desse planejamento de vida tem como influência o casamento de seus pais. Mais tarde, Molly descobre ter idealizado esse relacionamento, que, assim como qualquer outro, tem seus pontos altos e baixos. Com essa descoberta e com ajuda de algumas provocações de Issa e outras personagens, vemos Molly tentar — e, em diversos momentos, conseguir — se desprender desse roteiro feito por ela mesma.

Alguns dos (vários) acertos de Insecure

Apesar de não vermos muitas personagens fora do padrão de heteronormatividade, não deixamos de encontrar raras provocações, ainda que assertivas, com relação a alguns preconceitos. Um exemplo disso é quando Molly conta já ter transado com uma mulher, mas quando o cara com quem ela está saindo compartilha também já ter se relacionado sexualmente com outro homem, a situação parece ter outro peso. Para ela, o seu caso não a fazia menos hétero, mas o de seu ficante o fazia, no mínimo, bissexual — algo que ela não estava preparada para lidar e, definitivamente, não procurava em um homem. Essa situação reflete muito bem o peso que damos para a masculinidade e como qualquer traço que fuja a esse ideal pode ser prejudicial para um homem.

Além disso, existem duas situações ao longo da série em que as personagens — que são, em sua maioria, pretas — acabam se deparando com policiais. Surge todo um clima de tensão provocado por esse encontro (afinal, sabemos que a conduta de policiais com pessoas pretas, passa longe dos princípios éticos e morais). No entanto, Insecure nos apresenta um caminho possível: a tensão se desfaz. Ninguém se machuca. As personagens saem ilesas. Como deve ser.

Com representações de vidas imperfeitas, Insecure nos entrega personagens divertidas tentando se encontrar na vida e lidando com frustrações — provando como aquelas idealizações malucas de que teremos uma vida perfeita aos 30 anos está bem longe de se tornar realidade. Relacionamentos — amorosos e de amizade —, traições, desentendimentos e saúde mental são algumas palavras-chave que ajudam a resumir o que o seriado busca tratar. Amadurecimento também é um elemento que entra em cena, mostrando ser um processo constante e repetitivo, e não um caminho de chegada.

Ao assistir, tomamos lado, nos sensibilizamos, torcemos para que os personagens façam as pazes, e rimos. Rimos muito. Com menção honrosa à Kelli (Natasha Rothwell), responsável por nos divertir em quase todas as cenas em que aparece (e, claro, à própria Issa). Contar mais parece injusto com quem ainda não viu o seriado. Por isso, a dica é assistir enquanto a quinta temporada não vai ao ar. E, ao assistir, já se preparar para dar adeus porque, infelizmente, Insecure está se encaminhando para o seu fim, com a quinta temporada sendo a última e com estreia prevista para o próximo dia 24 de outubro.

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