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Calls: escutar é suficiente

Em 30 de outubro de 1938, uma encenação dramática do livro de ficção científica A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, foi ao ar na rede de rádio americana CBS. Na história do livro, uma pequena cidade americana de Nova Jersey é invadida por alienígenas. A transmissão foi idealizada e produzida pelo ainda jovem e promissor diretor Orson Welles, e seguia um formato de programa
comum na época: a radionovela.

Nesse formato, não eram feitas simples leituras das histórias. A transmissão contava com um tom dramático de narração, efeitos sonoros, sons ambientes, além de verdadeiros trabalhos de atuação sonora, que transmitiam aos ouvintes os sentimentos pelos quais os personagens passavam. Um trabalho tão verossímil, que nem mesmo os avisos ao início do programa, que alertavam para o fato de que tudo não passava de uma peça de ficção, não foram suficientes para evitar o pânico e o desespero  de grande parte do público que acompanhava a narração de A Guerra dos Mundos. São diversos os relatos que dão conta de pessoas que tentaram fugir de suas casas, o que resultou em confusões e pânico nas ruas de Nova Jersey. Mesmo após tanto tempo, o episódio permanece gravado na história da comunicação, além de funcionar como uma perfeita exemplificação do poder do áudio na produção de entretenimento.

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Passados mais de 80 anos, a série sci-fi Calls reproduz o formato, dessa vez para o espectador do século XXI. Em meio a um forte apelo magnético e a um confortável modelo audiovisual das produções de entretenimento, a série retorna com a um formato já utilizado, mas, ainda assim, inovador para os parâmetros atuais. Dirigida por Fede Alvarez (também diretor do longa de terror O Homem nas Trevas), e disponível na plataforma de streaming da Apple, a história de Calls é estruturada inteiramente a partir de áudios de chamadas de telefone. Apenas. Sem câmeras abertas. Na tela, o espectador visualiza as ondas sonoras das ligações e as transcrições simultâneas dos diálogos que estão acontecendo.

Composta por nove episódios, Calls possui um formato antológico, ou seja, cada episódio possui história e personagens diferentes, como também acontece em Black Mirror. Contudo, grande parte das temáticas retratadas nos capítulos são similares e se repetem. A série executa com maestria a tarefa de equilibrar um plot principal carregado de temáticas científicas complexas como viagem no tempo, multiverso, anomalias quânticas e fim do mundo, mas sem deixar de lado os dramas humanos envolvendo família, traição e até mesmo assassinatos.

Impossível para aqueles que também assistiram a série alemã Dark, da Netflix, não traçar paralelos entre as histórias, já que muitas temáticas científicas abordadas se cruzam. As propostas, porém, são muito diferentes. Enquanto Dark aposta na profundidade da trama em três temporadas, Calls impressiona com sua capacidade de entender o limite da complexidade possível de trabalhar em nove episódios de 20 minutos. A série se reconhece e, portanto, não inicia o desenvolvimento de questões que não conseguiria resolver até o final da temporada. O resultado é uma trama completa, redonda e sem furos narrativos, mas sagaz o suficiente para não subestimar o espectador.

O protagonista técnico da produção, a mixagem de som, é, como não poderia deixar de ser, um trabalho impecável. Assim como fez Orson Welles em sua adaptação de A Guerra dos Mundos, Calls investe em um trabalho pesado de sonoplastia, repleto de efeitos sonoros e ruídos que se encaixam perfeitamente na trama. Para aprimorar o resultado, potencializam a produção o trabalho ímpar de atuação o elenco da série: nomes de peso como Nick Jonas, Lily Collins, Pedro Pascal, Rosario Dawson, Aubrey Plaza e Nicholas Braun preenchem o grupo e entregam performances de alto nível, capazes de transmitir todo o desespero, tensão e medo dos personagens. Para uma melhor experiência, assistir a série utilizando fones de ouvido ou em ambientes com bom sistema de áudio faz toda a diferença, tornando-a mais imersiva.

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Apesar do foco sonoro, Calls também apresenta um trabalho de direção visual primoroso. Todos os mínimos detalhes apresentados na tela, as cores, formatos das linhas das ondas de som, transições e até mesmo a fonte utilizadas nos diálogos mantém o espectador-ouvinte complemente absorto, fomentando ainda mais o sentimento de tensão transmitido pela história. A construção narrativa da série é fundamentada em uma noção muito clara de gradação. As informações são inseridas na trama aos poucos e sempre nos momentos certos, sem segurar elementos por mais tempo do que é necessário, guiando o espectador entre as conexões da história até o momento do clímax, quando todas as antologias se interligam. Toda a física e termos científicos que envolvem a trama são explicados de uma maneira fácil, mas ainda assim, inteligente.

Calls, de maneira geral, possui um ótimo enredo e excelentes trabalhos técnicos. Alguns episódios são menos intrigantes do que outros, mas qualquer defeito que a série possa vir a ter é abreviado em meio a tantos pontos positivos.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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