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Sling, Clairo e o resultado da reinvenção de sua identidade musical

O mundo da música pop explora bastante a dinâmica da reinvenção quando se fala da estrutura de carreiras. Uma maneira comum de categorizar essas carreiras é dividi-las em “eras”. Quando esse olhar assume uma conotação positiva, a que não está ligada ao tratamento machista de artistas femininas na indústria — em que elas só ganham respeito e renome a partir do momento que se colocam em um lugar de constante superação de barreiras —, o conceito de reinvenção ganha um peso muito mais inspirador e multifacetado. Claire Cottrill (22), conhecida pelo seu nome artístico Clairo conseguiu dar um novo significado para esse conceito. Ela usou do seu dom e a sua paixão pela música para explorar novos territórios e criar algo totalmente novo, nos entregando, pouco depois da metade de 2021, um dos melhores álbuns do ano.

Em um rumo bem diferente de seus projetos iniciais, contando com seu primeiro álbum de estúdio, Immunity (2019), Clairo resolveu tirar proveito do tempo extra da quarentena e se aventurar musicalmente com seu segundo disco. Sling, co-produzido por Jack Antonoff — um dos artistas mais queridos da atualidade — e construído a partir de influências diretas de vozes como Joni Mitchell, Carole King e Paul Simon, nos presenteia com composições impecáveis, uma visão inédita e sentimentos impactantes.

A voz por trás de canções virais como “Flaming Hot Cheetos”, “Sofia” e “Bags” tirou os últimos dois anos para refletir sobre as diversas versões de si mesma que a compõem, e o isolamento social só intensificou esses sentimentos de retomada da privacidade e distanciamento. A cantora norte-americana teve tempo de buscar o que mais faltava na sua vida — o aspecto da domesticidade. Em um estúdio na parte mais interior de Nova York, sentada na frente de um piano, Clairo iniciou a jornada do que hoje conhecemos como Sling.

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O amadurecimento vocal e sentimental

Quando ouvimos os primeiros acordes da faixa de abertura, “Bambi”, conseguimos detectar a diferença sonora em relação aos seus projetos anteriores, além de um claro amadurecimento nas letras — todas as 12 músicas contém créditos de Clairo na composição. Sling explora temas muito sensíveis, como a maternidade e o peso que ela carrega, as diferentes facetas da saúde mental, a importância da empatia e paciência que devemos ter com nós mesmos, os diversos cenários e empecilhos que jovens artistas encontram na indústria musical. Ele está mais preocupado com a autodescoberta e a evolução pessoal que a cantora vem trabalhando ao entrar na casa dos vinte anos.

A primeira e a última canção tratam do mesmo assunto, mas de ângulos diferentes — a presença de Clairo no cenário da música. Em “Bambi” (“I’m stepping inside a universe/ Designed against my own beliefs”, em português “Estou pisando dentro de um universo/ Projetado contra minhas próprias crenças”), a compositora discute sobre ser introduzida no mundo da música e não ter muita ideia de para onde ir ou o que fazer. Ela fala ainda sobre ter que manusear seu próprio caminho apesar da linha árdua de ser uma mulher numa indústria liderada por homens, tentando achar a sua própria voz e ponderando se simplesmente deveria ceder ou ir embora (“I’d like to say, to say a few things/ Clearing your throat while I count to three/ Keep hold of my hand/ We both know I can leave”, em português “Gostaria de dizer algumas coisas/ Limpando sua garganta enquanto conto até três/ Segure minha mão/ Nós dois sabemos que posso sair”).

Já em “Management”, a canção que conclui o álbum, a cantora continua a discussão sobre seu papel na indústria, como o ambiente a impactou mentalmente, mas o comentário vem de uma noção mais ampla de identidade (“Complain to the management/ About my lack of self-respect/ Fast forward to when I’ll have friends/ And men who don’t interject/ Harping over old regrets/ Hating how I let it get to me, me”, ou “Reclame com a gerência/ Sobre minha falta de respeito próprio/ Pule para quando terei amigos/ E homens que não intervêm/ Repelindo velhos arrependimentos/ Odiando como eu deixei isso me afetar”). Aqui podemos ver o impacto dos meses de reflexão e distanciamento da cantora na sua perspectiva sobre o que significa ser uma artista e sobre como navegar essas turbulências, se essa carga emocional vale a pena ser enfrentada.

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Uma canção que engloba bastante desse amadurecimento e que trata de um assunto bem delicado é a décima faixa do álbum, “Reaper”, que foi a primeira canção que a cantora compôs para esse projeto. Como fruto dessa contemplação sobre domesticidade e quietude, o tópico da maternidade vem à tona no álbum. Sling começou a surgir no imaginário de Clairo quando a cantora adotou sua cachorrinha Joanie — o mesmo nome de uma das músicas mais tocantes do álbum, apesar de ser puramente instrumental — e se permitiu explorar os diferentes sentimentos que surgem quando você cuida de alguém e esse alguém se estende como uma parte de você mesmo.

O laço criado com Joanie induziu a compositora a ponderar sobre a vida da sua mãe, quem ela era antes de assumir essa figura e como a sua vida foi alterada com a maternidade, chegando na indagação de o que esse momento na vida de Clairo vai significar (“I’m born to be somebody, then somebody comes from me/ I’ll tell you about the Rabbit Moon and when to keep walking/ I’ll spare you pain, I can feel my shame come through that door/ I can’t fuck it up if it’s not there at all”, em português “Eu nasci para ser alguém, então alguém vem de mim/ Vou te contar sobre o Coelho da Lua e quando continuar caminhando/ Eu vou te poupar da dor, eu posso sentir minha vergonha entrar por aquela porta/ não posso foder tudo se não estiver lá”). A insegurança de não se sentir pronto para ser mãe, além do medo de não conseguir lidar primeiro com os seus próprios traumas e não passar resquícios desse sofrimento para o seu bebê são sentimentos que toda jovem mulher que sonha com a maternidade já vivenciou.

Clairo conseguiu ganhar um espaço no cenário da música por conta da sua autenticidade e de como suas composições conseguem dizer exatamente o que as pessoas sentem. Um tópico que a cantora vem abordando há um tempo através da sua arte, assim como na sua presença nas redes sociais, é a dificuldade emocional que acompanha a saúde mental. Em Sling, esse debate ainda é bem presente, agora através de letras tão honestas que tornam a experiência de ouvir essas músicas parecer uma conversa entre Clairo e o ouvinte. Em “Just For Today”, a cantora fala sobre ter entrado em contato com a Linha Nacional de Prevenção ao Suicídio (“Mommy, I’m afraid I’ve been talking to the hotline again/ It’s stirring, but the ripples always seek out the ones who carry me, me”, ou “Mamãe, receio estar falando com a linha direta de novo/ É emocionante, mas as ondas sempre procuram aqueles que me carregam”) e em “Little Changes”, uma música que fala sobre um relacionamento abusivo, ela descreve algumas vezes sua relação com sua depressão e como ela a atinge (“I see the end before it begins/ No use to work, no use in anything”, em português “Eu vejo o fim antes de ele começar/ Não adianta trabalhar, não adianta nada”).

O trabalho com Jack Antonoff e suas ramificações

Sling deixa clara a magia ou o encontro de outras vidas que existe na parceria entre Clairo e Jack Antonoff, o co-produtor do disco. Em diversas ocasiões, os dois artistas declaram que antes de uma parceria musical, existiu a real construção de uma amizade entre os dois, fruto de muito entendimento e admiração. Essa conexão inicial, então, abriu portas para um encontro magnífico no universo artístico. Os compositores começaram o projeto com uma única ideia em mente: fazer algo que os dois nunca haviam feito.

Nessa entrevista para a Rolling Stone, Clairo e Jack conversam sobre a produção e a construção da canção “Amoeba”, uma das favoritas do público. Eles conseguem emanar uma visão sobre arte e uma paixão pelo fazer musical através de uma simples conversa, o que só contribui para a noção de que esse par se entende em um nível mais profundo e intrínseco. Com um dos instrumentais mais “animados” do álbum, a canção assume um tom de humor e fala sobre como a cantora se descobre a pessoa egocêntrica e fútil que ela justamente não queria ser. A música retrata a cantora encarando os próprios pensamentos, questionando porque ela estava agindo de um jeito que ela basicamente desprezava e como ela poderia mudar e se tornar uma versão de si da qual ela se orgulhasse.

O mais interessante dessa canção é como os diferentes aspectos da produção da faixa se comunicam com a mensagem da composição. Antonoff mostra para o público a sobreposição de vocais de fundo e o uso da quebra de um vidro que caminham junto com esse tom humorístico e enriquecem mais ainda o projeto. A parceria com Antonoff também abriu portas para outras conexões especiais para a vida pessoal e profissional de Clairo. “Blouse”, o primeiro single e a nossa introdução ao universo de Sling, conta com vocais de fundo de Lorde e Phoebe Bridgers, vozes potentes da interseção entre o pop e o indie e que se conectam com um público extenso, sendo Clairo grande fã das duas artistas. Clairo e Bridgers retribuíram o presente e oferecem seus vocais no fundo de músicas como “Solar Power”, “Mood Ring”, e grande parte do terceiro álbum de Lorde, Solar Power.

A consagração de Clairo como uma das vozes mais importantes dessa geração

Com uma extensa aclamação da mídia e uma recepção mais do que calorosa do público, Sling coloca Clairo em um novo patamar. Sem medo de mergulhar em assuntos mais delicados, a artista consegue passar uma clareza e honestidade impressionantes com essas composições, tornando a conexão com o público ainda mais imediata. A brincadeira com palavras, o vocabulário mais maduro e a fluidez entre os tópicos tornam seu talento inegável.

A exploração de diferentes gêneros, o percurso entre os diferentes instrumentais, assim como o uso da própria voz como instrumento são aspectos inspiradores no projeto. A mistura entre folk, jazz e pop e a clara influência dos anos 70 funcionam muito bem em Sling, apesar das colaborações que compõem o álbum, principalmente por conta do dom de Clairo. Sua evolução de sonoridade e crescimento vocal são mágicos. Sua paixão pela música é tocante. Sua coragem de embarcar no processo da reinvenção é uma força a ser considerada. Esperamos que a cantora mantenha sua essência em futuros projetos, mas que ela nunca deixe de ousar ir além dos limites — até porque sabemos que ela possui o talento para alterar esses limites.

Eduarda Goulart é jornalista em formação, apaixonada pelo mundo do entretenimento e por como ele dialoga com o nosso cotidiano. Poderia passar horas falando sobre minhas séries, álbuns e filmes favoritos. Sinto que consigo expressar melhor os meus sentimentos através da palavra escrita.

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