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Nancy Drew, saúde mental e a questão das personagens femininas odiadas

Se falar sobre saúde mental na vida real ainda é um estigma, na ficção as coisas não são muito diferentes. Apesar de as pessoas estarem cada vez mais atentas e conscientes da discussão e do cuidado que o assunto precisa ter ao ser abordado, filmes, livros e séries de TV ainda têm uma representação instável. É claro que existem raras exceções dentro desse escopo e, entre exemplos recentes, consigo pensar em algumas obras que, longe de serem perfeitas, tratam o assunto de um ângulo mais real e honesto.

Entre as melhores: a sitcom You’re the Worst mostrou a depressão da sua protagonista, Gretchen Cutler (Aya Cash), e como ela afetava sua vida, com uma abordagem sempre enraizada na realidade brutal da sua condição. Era duro de assistir, mas ao mesmo tempo o roteiro nunca ignorou sua depressão ou criou uma cura mágica para todos os seus problemas. Undone, da Amazon, por sua vez, fez sua protagonista, Alma (Rosa Salazar), enfrentar seus problemas de saúde mental ao usar a viagem no tempo como pano de fundo. Alma não apenas entra em contato com o luto pela morte de seu pai, mas também tem que enfrentar sua própria condição, sem esconder seus sentimentos, talvez pela primeira vez na vida. Por fim, o k-drama It’s Okay Not To Be Okay mostra uma escritora de desenhos infantis (Koo Mon-Young, vivida por Seo Ye-Ji) enquanto tenta lidar com os traumas da sua infância. Sua jornada é contada em paralelo com a de Moon Gang-tae (Kim Soo-hyun) e seu irmão autista Moon Sang-tae (Oh Jung-se). Com uma estrutura lúdica e bem interessante, o dorama explora o fato de que os três têm condições bem diferentes entre si, mas que cada uma das suas limitações importam e devem ser tratadas com a mesma seriedade. O resultado final é uma obra estranha e um pouco peculiar, mas também extremamente comovente. Com certeza uma das melhores que vi no quesito.

Apesar de todas as séries citadas acima serem excelentes e com certeza valerem a sua maratona, elas são casos raros quando se trata de uma boa representação sobre saúde mental dentro do escopo televisivo. Como uma pessoa que assiste TV de forma quase obsessiva há anos, não consigo deixar de analisar o panorama geral e chegar à conclusão de que ainda existe muito caminho a se percorrer nesse aspecto — mesmo que hoje esse mesmo caminho já esteja mais iluminado e não seja apenas uma grande estrada vazia com nada para mostrar (como era algum tempo atrás). Mais do que isso, não consigo deixar de pensar na forma como as séries adolescentes abordam essa questão. Procurando exemplos para dar nomes aos meus argumentos, foi impossível não pensar em Peyton Sawyer (Hilarie Burton), de One Tree Hill. Ou na sexta temporada de Buffy. Com um bom desenvolvimento no entanto, a nova versão de Nancy Drew se destaca imediatamente de todas as suas companheiras de emissora — e até mesmo de outras produções que, tecnicamente, seriam consideradas mais “maduras”.

Nancy Drew estreou em 2019 na emissora CW e faz parte da nova leva de produções que colocam um twist “sombrio” e “maduro” em obras que antes eram feitas para um público mais jovem e, portanto, tinham características que reforçavam esses aspectos. Riverdale, The Chilling Adventures of Sabrina, As Meninas SuperPoderosas, Fate: The Winx Saga… todas essas produções têm esse mesmo fator determinante em comum: personagens amados, queridos e já bem estabelecidos, mas dessa vez em uma versão sobrenatural, escura e com muito sexo. Apesar de esses seriados serem vendidos desde o começo como algo diferente de suas versões originais (algo mais “sombrio”, como já apontado antes no texto), jovens ainda são majoritariamente o público alvo dessas produções. E quando você sexualiza adolescentes ou dá vários arcos traumáticos para personagens sem realmente dar o tempo para que eles possam trabalhá-los, tudo se torna… problemático.

nancy drew

Se você parar para analisar os primeiros episódios de Nancy Drew superficialmente, é fácil achar que essa vai ser mais uma produção como as outras — com pouca ou nenhuma diferença na forma de abordar assuntos complicados como identidade, sexo e a transição da adolescência para a vida adulta. O episódio piloto é cheio de exposição e logo nos primeiros minutos a protagonista já recebe uma carga enorme de traumas na sua bagagem. Aos 12 anos ela resolveu seu primeiro caso, um sequestro de uma menina jovem por um homem que acabou na cadeia, algo que claramente deixou marcas na forma que ela lida com as coisas. Depois, já no final da sua jornada no ensino médio, sua mãe acabou morrendo de câncer, resultando na reclusão de Nancy (nessa versão vivida por Kennedy McMann) e na perda de toda sua vida social, incluindo seu namorados, amigos mais próximos e até mesmo nos seus sonhos e ambições (como ir para faculdade, se formar em jornalismo, etc). Quando a série começa, Nancy trabalha como garçonete na lanchonete local de Horseshoe Bay e não consegue lidar com os próprios sentimentos, algo que, consequentemente, faz com que ela não consiga prosperar — emocionalmente e psicologicamente.

Mas existem alguns fatores que distanciam Nancy Drew das suas séries companheiras, começando pelo fato de que a própria Nancy e seus amigos não são menores de idade ou nem sequer estão no ensino médio. Eles são, afinal, mais velhos e têm responsabilidades diferentes daqueles que estamos acostumados a ver em produções voltadas para um público mais jovem. E também existe o fato de que os escritores e as criadoras Melinda Hsu Taylor e Noga Landau parecem realmente preocupadas em contar essa história direito, explorando em totalidade os traumas de Nancy e fazendo com que ela siga em frente de forma saudável. O mesmo cuidado também é oferecido aos personagens coadjuvantes. O desenrolar de todas essas traumas aconteceu durante duas temporadas inteiras e teve um pay off muito satisfatório na season finale do segundo ano da série, consagrando a obra como uma das melhores no seu gênero hoje.

Atenção: este texto contém gatilhos de suicídio, depressão e ansiedade!
Atenção: este texto contém spoilers!

“Seus piores momentos não definem quem você é”

A sexta temporada de Buffy, que faz 20 anos em 2021, é um ponto de transição fundamental para a série. Após voltar do mundo dos mortos por causa dos seus amigos, Buffy (Sarah Michelle Gellar) entra em uma espiral profunda de depressão, sem conseguir lidar com o fato de que ela tinha finalmente encontrado paz na vida após a morte e foi tirada abruptamente desse destino pelas mesmas pessoas em quem sempre confiou e amou. A série sempre falou sobre as dores da transição da adolescência para a vida adulta, certas vezes com uma precisão assustadora (como é o caso do episódio “The Body”), e outras nem tanto, mas esse ano em específico, que aborda saúde mental do começo ao fim, é uma mistura instável. Alguns capítulos são absolutamente perfeitos em captar a essência da dor da protagonista, como o musical “Once More, With Feeling”. Outros, como “Seeing Red”, foram um passo em falso grotesco e quase ofensivo.

No episódio clássico “Normal Again”, Buffy acaba sendo envenenada por um demônio e passa a ter alucinações onde sua vida em Sunnydale é, na verdade, uma grande ilusão criada por sua cabeça. Entre flashes da sua vida real, a protagonista vai parar em uma realidade onde vive internada em uma instituição, seus pais ainda estão vivos e seu trabalho como slayer simplesmente não existe. Afinal, vampiros e demônios não existem. O objetivo do capítulo é, obviamente, deixar o espectador com a pergunta de 1 milhão de dólares: os eventos da série até então são verdadeiros ou tudo é apenas uma ilusão criada por Buffy, como uma forma de escapismo? No final, pouco importa. Este capítulo serve como uma metáfora quase perfeita para a forma que outras séries de TV tratam pautas da saúde mental no geral, sempre de forma limitada e superficial.

No artigo, “The Hardest Thing in This World Is to Live in It: Identity and Mental Health in Buffy the Vampire Slayer”, o autor Alex Fixler diz:

“É importante reconhecer que em muitos momentos, o Buffyverse vê doenças mentais com as mesmas lentes imperfeitas que a cultura pop sempre usou. Angelica Jade Bastién aponta que, falando em linhas gerais, a televisão mostra doenças mentais em personagens empáticos de forma que se limita a depressão e ansiedade, e quando eles abordam diagnósticos para além disso, é sempre para defini-los por meio de perigo ou violência.”

Apesar de ter uma representação imperfeita, Buffy foi uma série que quando realmente falava sobre isso, conseguiu chegar em um lugar interessante e pertinente. Por mais que a jornada da protagonista ou a da própria Willow (Alyson Hannigan) sejam dolorosas de assistir na sexta temporada, ainda existe profundidade e empatia pelo o que elas estão passando. Buffy teve uma temporada inteira para entender seu trauma, seus sentimentos e como seu trabalho como caçadora estava impedindo-a (e sempre a impediu) de levar uma vida saudável. Não apenas no espectro físico, mas também no emocional — algo que afeta o relacionamento com seus amigos e todas as suas dinâmicas românticas até então. Essas, por sua vez, que geralmente se desenvolvem para algo problemático e com tons de abuso emocional.

De qualquer forma, Buffy começa a sexta temporada tendo que socar sua saída para fora de um caixão e passa todos os episódios querendo desistir de viver. E termina escalando um buraco lutando em direção à luz, mais consciente não apenas do seu papel no mundo, mas também do fato de que ela quer viver. Como ela diz para sua irmã no final da quinta temporada: “A coisa mais difícil do mundo é viver nele. Viva, Dawn”.

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Com o passar dos anos e da expansão da televisão como uma mídia “importante”, nem todas as protagonistas tiveram o mesmo “privilégio” que foi estendido a Buffy, de tentar entender seu trauma e seus problemas mentais. Marissa Cooper (Mischa Barton) de The OC é um ótimo exemplo disso, assim como a já citada Peyton Sawyer, que tinha questões de abandono, solidão e depressão que foram citadas de forma superficial (quando em seu melhor). A única menção que acontece sobre sua saúde mental é quando o pai da protagonista sugere que ela vá ao psicólogo. E depois disso, o assunto nunca mais é citado. Ao mesmo tempo, e com o surgimento das plataformas de streaming, foram surgindo seriados também como Atypical, Never Have I Ever e até mesmo Sex Education, todas que abordam questões de saúde mental com extensão — algumas melhores, outras de forma mais instável.

De muitas formas, a jornada de Nancy é a mais interessante de acompanhar pois a série está inserida em um meio completamente mainstream (ainda mais popular do que o mundo dos streamings). Com um horário no horário nobre da TV norte-americana, a primeira e a segunda temporada de Nancy Drew foram ao ar às quartas-feiras na emissora CW, que é conhecida por não tratar tais assuntos de uma forma saudável ou satisfatória. Aliás, mais de 50% das séries que remodelam marcas jovens para algo “sombrio” e “maduro” estão ali. E mais de 90% das vezes eles não conseguem dizer algo de importante ou novo, pois os criadores simplesmente não conseguem ter algo novo a dizer. Além disso, a luta de Nancy para entender seus traumas também lembra bastante a de Buffy, em vários sentidos. A diferença está mais no processo e na forma como os assuntos foram abordados, sendo que a trajetória de Nancy está longe de ser concluída (a produção já foi renovada para uma terceira temporada).

A nova versão de Nancy Drew foca na protagonista e no seu grupo de amigos desajustados. Enquanto a própria Nancy é uma menina de 18 anos que largou o seu sonho de fazer faculdade de jornalismo para trabalhar como garçonete, seus amigos também carregam outros tipos de problemas: Ace (Alex Saxon) sempre teve pouca ambição e baixo desempenho em tudo, sendo descrito pela protagonista como um “stoner” (alguém que fuma maconha demais); George (Leah Lewis) tem que cuidar das quatro irmãs e lidar com uma mãe problemática, além de ter questões sérias de abandono; Nick (Tunji Kasim) luta para se ajustar à vida normal após passar dois anos na cadeia por homicídio culposo; e Bess (Maddison Jaizani), que parece ser a mais comum, uma menina rica de uma família tradicional da cidade, mora em uma van e tem problemas como cleptomania.

A química instantânea entre o elenco e o fato de que cada uma dos personagens tem um passado rico e bem trabalhado pelas criadoras, faz com que Nancy Drew se destaque imediatamente e, na medida em que as tramas vão se desenrolando, e as dinâmicas se estabelecendo, a série não apenas ganha vida, como também uma profundidade um pouco surpreendente (ainda que ela esteja nos moldes clássicos de uma série da CW).

O mistério da primeira temporada gira ao redor de Lucy Sable, o infame fantasma da cidade. Quando a mulher do filantropo Ryan Hudson (Riley Smith) é morta e faz com que Nancy e seus amigos se tornem os principais suspeitos do caso, Lucy passa a assombrar não apenas Ryan, como também a própria Nancy. Impulsionada pelo fato de que é uma das principais suspeitas no caso, a protagonista começa a ligar os pontos da morte de Tiffany, esposa de Ryan, e de Lucy, chegando à conclusão de que os dois assassinatos estão, de alguma forma, conectados.

Os primeiros indícios de que o seriado iria abordar saúde mental são tímidos, mas no episódio nove, intitulado de “The Hidden Staircase” (também o nome de um dos livros mais famosos da detetive), o caminho fica claro. Ao ter que revisitar seu primeiro caso, Nancy percebe que os eventos que ela lembra não são exatamente verdade, descobrindo que o trauma fez com que bloqueasse muito do que aconteceu na época. Nessa altura, os episódios também fazem questão de ressaltar a dificuldade que Nancy sente em confiar nos outros ao seu redor. Ela desconfia do seu pai constantemente, dos seus amigos e até mesmo de Nick, que nesse ponto na história é seu principal interesse amoroso. Apesar deles realmente darem motivos para tal desconfiança de vez em quando, Nancy também hesita em buscar ajuda dos outros e se isola cada vez mais, sendo que a perda dos seus amigos do ensino médio após a morte de sua mãe é algo que pesa na protagonista.

Com dificuldade de se abrir, confiar e deixar que qualquer pessoa veja seu lado vulnerável, a jornada de Nancy na primeira temporada a leva sempre um passo para frente, dois para trás. Aos poucos ela vai se abrindo com os amigos, deixando que eles também assumam a liderança nas investigações e até mesmo façam parte ativa da sua vida. Nancy passa a confiar neles, encontrando conforto na dinâmica inesperada que surge entre os cinco rejeitados. Mas sempre que alguma coisa parece estar indo na direção certa, ela descobre uma pista nova na investigação que faz com que tenha uma crise enorme de identidade e tenha muita dificuldade de compreensão dos seus sentimentos.

Com o desenvolvimento da trama, fica claro que Lucy Sable teve um caso com Ryan Hudson, quando os dois eram adolescentes. Esse mesmo caso foi rejeitado pela família de Ryan, que é tradicional e uma das fundadoras de Horseshoe Bay, e levou a gravidez da menina, que se sentindo acuada e rejeitada por todos, escondeu a mesma até os seus últimos momentos, quando entregou a criança para Kate e Carson Drew, e se matou. Os dois, apaixonados pelo bebê, cuidaram dela como se fosse deles, criando assim a história de origem da protagonista. Uma história diferente do que conhecemos da Nancy Drew dos livros, mas que ainda é fundamental na hora de construir essa versão de Nancy.

Carson: “O bebê de Lucy triunfou. Ela cresceu e se tornou esperta, compassiva, gentil e muito curiosa. E ela ama resolver mistérios.

Nancy: “Sou eu. Esse bebê sou eu.”

Perdida e sem saber quem é de verdade, Nancy descobre sobre o destino de Lucy e como as dinâmicas de poder levaram à morte da menina, que, desesperada, resolveu se matar. É possível traçar um paralelo direto entre as duas, entre mãe e filha: enquanto Lucy não teve apoio ao seu redor para tentar superar os sentimentos que levaram ao seu suicídio, Nancy, rodeada de perda, trauma e dor, não tem o mesmo destino por causa do ciclo de amigos próximos que construiu ao redor de si. E mesmo brigada com seu pai, existem pessoas que estão ativas na sua vida e realmente preocupadas com o seu bem-estar. A importância de não estar sozinho e saber quando pedir ajuda é algo que fica explícito, ao mesmo tempo em que a culpa sobre o suicídio de Lucy parece cair em uma estrutura de poder, dinheiro e conexões que movem Horseshoe Bay. Não é uma resolução tradicional, mas funciona perfeitamente dentro do escopo da série. Tudo fica ainda mais impressionante ao rever os 18 episódios que compõem a primeira temporada e perceber que tudo foi cuidadosamente escrito e planejado, com pequenas pistas deixadas ao longo dos capítulos.

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Saber que Nancy é filha de Lucy é algo difícil para a protagonista, não só por causa da história trágica da sua mãe e as implicações naturais que vêm com uma revelação como essa, mas também porque ela é, efetivamente, parte Hudson, já que seu pai é Ryan. Grande parte do que faz a personalidade da protagonista ser tão bem explorada, é o fato de que sua natureza curiosa e inteligente faz com que ela seja impulsionada a lutar por aqueles que precisam da sua ajuda (mesmo que às vezes de forma pouco convencional). Os Hudson, no entanto, são o oposto disso. Com grande poder na cidade onde ela vive (e ama, algo que também vai em contraponto com todo o plot da “menina que quer desesperadamente sair da sua realidade de cidade pequena”), eles são corruptos e todos os problemas que a protagonista enfrenta parecem, de alguma forma, levar até eles. Ou, pelo menos, ter a família envolvida. Isso é algo que vai completamente contra os princípios de Nancy e, preocupada em mostrar que não é como a parte paterna de sua família, ela entra em uma espiral para tentar provar esse mesmo fato. O que nos leva diretamente para a trama da segunda temporada — que foi ainda mais fundo nessa questão.

No começo do primeiro episódio, Nancy e seus amigos procuram uma forma de se livrar de mais um dos espíritos que eles convocaram e agora querem vingança. No caminho, eles encontram essa entidade chamada The Wraith, que consegue alcançar suas vítimas ao sentir o medo das mesmas. Querendo provar que ela não é uma Hudson, Nancy fica para trás e se sacrifica, dando a oportunidade de seus amigos fugirem enquanto ela enfrenta o monstro sozinha. Obviamente, ninguém deixa isso acontecer, mas os segundos que a protagonista fica sozinha são mais do que o suficiente para ditar a trama que transcorre durante o resto dos episódios, de forma sutil e quase silenciosa.

Quanto mais Nancy tenta fugir da sua parte que é uma Hudson, mais ela é obrigada a enfrentar essa parte de sua identidade. Ou, nesse caso, não lidar e empurrar esse fator cada vez mais fundo na sua mente, sem realmente colocar tudo em perspectiva. Sua identidade, os traumas que ela carrega desde a adolescência e as decisões que ela precisa tomar durante essa temporada (inclusive pedir um favor para sua avó paterna biológica e salvar Ace) fazem com que ela perca a integridade que é parte tão intrínseca da personalidade da protagonista, além de criar empecilhos mentais para que ela consiga criar conexões, amadurecer e viver uma vida que é, essencialmente, saudável.

A culminação dessa trama pode ser vista de forma brilhante no episódio “The Siege of the Unseen Specter”. Na trama, Nancy fica trancada na delegacia da sua cidade com os possíveis suspeitos de um crime que aconteceu anos atrás, quando uma mulher desapareceu e seu caso nunca foi resolvido. A pessoa que tranca todos eles no mesmo lugar diz que o crime tem que ser resolvido em uma hora, caso contrário todos eles vão sofrer as consequências. O roteiro aqui funciona em várias camadas diferentes. Em primeiro plano, ele fala sobre racismo. A mulher desapareceu na mesma época em que a menina do primeiro caso de Nancy, algo que causou muita comoção na cidade e foi até mesmo parar no jornal. O segundo, no entanto, que é o desaparecimento de uma mulher negra, não foi sequer mencionado pelas autoridades. Com o desenrolar dos eventos, fica claro que ela sofreu vários atos racistas que levaram até sua morte. Ou seja, ali todos eram, de forma direta ou indireta, culpados pelo seu destino. Essa é uma crítica pertinente, que fala sobre brutalidade policial de forma certeira. Falar sobre como mulheres negras são constantemente esquecidas pela sociedade não é, de certa forma, falar sobre saúde mental?

Em segundo plano, a história também cria um paralelo direto com o jeito que Nancy lida com sua parte Hudson. Após usar o favor de sua avó para salvar a vida de Ace, a protagonista é obrigada a retirar o testamento que daria contra Everett Hudson, pai de Ryan e seu avô biológico. Ao testemunhar, Nancy iria conseguir justiça para 12 homens que morreram a bordo de um dos navios de Everett por negligência e também prender o avô de uma vez por todas, um homem que mantém um poder absurdo na sua cidade, foi um responsável indireto pela morte de Lucy e comanda uma rede de corrupção que é claramente explorada durante a primeira e a segunda temporada da série. Ao retirar seu testamento, no entanto, ela vê sua integridade ir embora aos poucos, assim como o resto do pouco controle que ela tinha sobre sua identidade. Apesar da decisão dela ser compreensível (Ace é seu melhor amigo), ela faz com que Nancy seja parte do problema. Ao retirar seu testemunho, a protagonista silenciou a voz de 12 vítimas de um ciclo que é baseado em poder, corrupção e preconceito.

O que faz tudo ficar mais interessante é que a protagonista entende completamente seu papel. Ela vê o silenciamento dessas pessoas e também faz, imediatamente, um paralelo com o que aconteceu com o caso do episódio. Como resultado, ela resolve usar todos os meios que estão a sua disposição para tentar pegar Everett de vez, o que leva Nancy, mais uma vez, a se isolar e recorrer a medidas complicadas para conseguir se salvar e salvar todos ao seu redor. Esses capítulos representam o que pode ser chamado de seu “fundo do poço” e as decisões que ela toma incluem ocasionalmente trair e usar os seus amigos, ao mesmo tempo que conta com a ajuda do seu namorado, Gil (Praneet Akilla), que se prova ser alguém que não apenas questiona as motivações dela constantemente, como também manipulador e egocêntrico.

Eventualmente, ela consegue mandar Everett para a cadeia. Mesmo conseguindo o que tentou fazer por boa parte da segunda temporada, Nancy diz que não sente nada e que realmente não sabe mais quem é. E é nesse momento que eles descobrem que esse parasita, The Wraith, está com Nancy desde o seu primeiro encontro com a coisa, se alimentando dos seus medos, vulnerabilidades e afastando-a cada vez mais das pessoas ao seu redor.

O brilhantismo da segunda temporada de Nancy Drew vem justamente do fato de que a história com essa entidade que eles chamam de The Wraith foi planejada desde o começo e, portanto, é possível ver pequenas dicas do que estava acontecendo com Nancy. Seus traumas, sua solidão e a depressão sempre estiveram ali, mas foi porque ela não sabia como pedir ajuda ou trabalhá-los, que essa entidade conseguiu se alimentar dela, crescer e fazer com que Nancy se afastasse de tudo e todos. Dessa forma, toda a narrativa com The Wraith, que acontece praticamente por baixo dos panos de uma segunda temporada que, inicialmente, parecia ser algo muito “monster of the week” (ou monstro da semana, em tradução livre), se torna uma metáfora muito bem elaborada e cuidadosa sobre saúde mental e a importância de pedir ajuda, falar sobre seus traumas, se apoiar nas pessoas que você ama e amam você de volta. É sobre abraçar os seus eus do passado porque, apesar deles não te definirem, eles fazem parte de você.

No último episódio da temporada, “The Echo of Lost Tears”, Nancy entra em uma espécie de jornada dentro de si mesma, buscando entender exatamente onde o parasita estava se escondendo, tentando se livrar dele de uma vez por todas. Para isso, ela passa pelos piores momentos da sua vida. E em cada um desses momentos um dos amigos dela aparece para ajudá-la. Toda essa sequência é rica em texto e detalhes, sendo que até mesmo a roupa dos personagens são importantes para determinar as camadas escondidas na narrativa.

A primeira pessoa que aparece para Nancy é George, com as roupas que usava no começo da série e o seu típico batom escuro. Nesse ponto do capítulo, a George da mente da protagonista oferece proteção contra sua versão “Nancy Hudson”, aquela que precisou abraçar para conseguir mandar seu avô para a cadeia.

George: “Seus piores momentos não definem quem você é.”

Depois, é a vez de Bess, que aparece quando Nancy tem 12 anos, logo após seu primeiro caso. Nesse cenário, Bess parece ser uma espécie de âncora, questionando Nancy e incentivando para que ela dê o próximo passo. De certa forma, Bess mantém Nancy “honesta” e apegada com a sua verdade.

Bess: “Você não vai conseguir em frente enquanto continuar ignorando seu passado.”

Com Nick, que está usando roupas e o mesmo corte de cabelo da primeira temporada, Nancy está no funeral da sua mãe, no momento em que, como ela mesmo aponta, achou que nada ficaria bem outra vez. Representando conforto e segurança, Nick diz que apesar de ter achado isso na época, ela ficou bem, conseguiu seguir em frente e que poderia fazer isso de novo agora. A cena representa perfeitamente o quanto o relacionamento deles evoluiu e passou de algo romântico e conturbado, para uma amizade genuína e especial.

Nick: “Você pode se sentir bem outra vez.”

Por fim, Nancy chega até o momento que ditou o resto da sua vida e sua identidade: quando Lucy se suicida e deixa Kate e Carson Drew como seus pais adotivos. No seu momento de maior vulnerabilidade, ela manifesta Ace como forma de amor incondicional, pedindo para que ele segure sua versão bebê, ao que ele responde, “achei que você nunca fosse pedir”. Um ato que representa algo fundamental para a protagonista: o fato de que ele está disposto a fazer tudo por ela, ajudá-la, basta ela pedir; durante a segunda temporada, a dinâmica que nasce entre os dois é de longe uma das melhores coisas dos episódios e o fato de que eles não conseguem se esconder um do outro (esconder o que eles pensam ou precisam) foi um dos grandes pontos fortes desse ano na série, além de fazer com que uma cena como essa, ainda que aconteça na mente de Nancy, pareça completamente natural e sincera.

Ace: “Você não nasceu quebrada, só está machucada. Mas o único de se curar é deixar essa dor se transformar em amor.” 

A jornada que acontece no episódio é especial não apenas porque dá sentido a toda uma narrativa que foi construída durante dois anos, encerrando alguns ciclos, mas também porque ressalta aquilo que Nancy Drew faz de melhor: as relações entre os personagens e o que a própria Nancy descreve como “trabalho em equipe”. Sozinha, talvez ela não conseguisse lidar com todos os seus sentimentos e problemas, mas existe toda essa rede de pessoas dispostas a fazer isso com ela. E isso é muito, muito mais do que outras personagens femininas que também sofreram grandes traumas e acabaram cada vez mais isoladas em suas respectivas narrativas puderam ter.

Nancy: “As partes mais dolorosas da minha vida são o que me fazem ser quem eu sou, não posso mais escondê-las.”

Nancy ainda tem um longo caminho para percorrer e alguns anos de terapia são com certeza fundamentais para sua jornada, mas é possível ver que a série está no caminho certo e que essa é uma pauta que vai persistir ao longo da sua trajetória.

Nancy: “O parasita foi embora. O trauma ainda tá aqui, mas acho que sou forte o suficiente para aguentar agora.” 

Ace: “Acho que você sempre foi, Nancy.”

“Primeiro de tudo, você não me conhece” 

Ouvindo o podcast Drama Queens, onde as atrizes Hilarie Burton, Sophia Bush e Bethany Joy Lenz discutem o tempo que elas passaram interpretando Peyton, Brooke e Haley em One Tree Hill, respectivamente, percebi um padrão que já vinha chamando minha atenção e que se tornou claro e ainda mais complicado com o que foi discutido no episódio. Falando sobre Peyton e a forma como a personagem se comportava no começo do seriado, sempre mais retraída e na defensiva, Burton disse que a recepção para sua personagem foi, de longe, a pior. Três semanas depois que a série estreou, em setembro de 2003, ela recebeu um “feedback” dos criadores dizendo que as pessoas “odiavam” Peyton, que claramente estava passando por problemas. Abandono, solidão, o destino da sua mãe. Tudo isso foram fatores explorados no começo da produção e não necessariamente justificavam o comportamento que ela exibia, mas poderiam fazer com que as pessoas entendessem um pouco mais sobre de onde ela estava vindo. Sentir empatia, no caso. Algo que, devo acrescentar, era uma cortesia estendida pelo público ao personagem de James Lafferty, Nathan, que sofria com a pressão de um pai megalomaníaco e também tinha vários comportamentos lamentáveis (muito, muito piores do que os de Peyton, inclusive).

No primeiro episódio, Peyton vira para Lucas (Chad Michael Murray) e diz a famosa e icônica frase que as pessoas reproduzem até hoje: “first of all, you don’t know me. Second of all, you don’t know me” [“primeiro de tudo, você não me conhece. Segundo, você não me conhece”]. Mas a questão aqui é que, até aquele ponto, ninguém realmente conhecia a protagonista e ela vivia à deriva das pessoas que estavam ao seu redor, sempre isolada, triste, sofrendo. Peyton era a personagem que passava nos faróis vermelhos sem hesitar, chorava no seu carro sozinha e usava a arte como uma forma de tentar expressar o pouco dos seus sentimentos que entendia.

Com o passar dos anos e o desenvolvimento da história, Peyton foi a personagem que mais sofreu. Além de ser abandonada por basicamente todas as pessoas que amou, sofrer abuso, ser perseguida por um stalker, entre outros absurdos narrativos, One Tree Hill nunca foi gentil com ela. E nem sequer o público. Brooke e Haley, que tinham suas questões, mas agiam de forma mais branda e menos como uma “angsty bitch” (como a própria Hilarie Burton descreve Peyton no podcast), eram bem aceitas e queridas pelo público, enquanto a terceira não. O ódio em relação a Peyton Sawyer é algo real e basta abrir os comentários do TVShow Time (aplicativo dedicado à séries de TV) ou o Reddit, e vai perceber exatamente sobre o que estou falando, mesmo anos depois de que a série foi ao ar.

Na mesma mistura, é possível citar outras personagens que tiveram um desenvolvimento e tratamento parecido dentro de suas respectivas séries. Um exemplo clássico é Marissa Cooper (Mischa Barton), de The OC. É fácil classificar Marissa como um clássico caso do tropo poor little rich girl [pobre garota rica], mas a verdade é que a personagem em si tinha questões muito mais complexas do que problemas de uma garota rica — o que a narrativa não explora uma vez sequer, e ainda mata a personagem no final da terceira temporada. Os problemas que ela enfrenta são, de algumas formas, parecidos com os de Peyton. Em um texto para o próprio Valkirias sobre Marissa, a autora, Tany Monteiro, diz que:

“É muito simples julgar Marissa pela superfície, mas nós esquecemos que apesar de todos os seus privilégios e defeitos ela ainda é uma menina de dezesseis anos tão insegura quanto cada uma de nós e que sofreu mais traumas do que muitas pessoas sofrem durante toda a vida. Nos três anos que acompanhamos sua história a vimos lidar com vários problemas: Oliver (Taylor Handley), o menino que ficou obcecado por ela e ameaçou sua vida; a mãe engatou um relacionamento sexual com seu ex-namorado; sofreu uma tentativa de estupro do irmão do seu namorado; a falência de sua família e descobriu que seu pai era um ladrão;, uma overdose em Tijuana, a morte de um amigo — e possível interesse amoroso — bem na sua frente, além de seus próprios problemas com depressão, álcool e drogas que a seguiam desde mais nova.

Independente de toda loucura que cometeu nesse meio tempo, e de todo mundo que a prejudicou por conta disso, Marissa conseguiu evoluir. Entrou em uma faculdade boa, percebeu que nada disso era para ela e que o melhor que poderia fazer era se afastar de tudo e todos, crescer, amadurecer, e deixar que todos tivessem uma vida mais calma até se encontrarem de novo. Estava tudo encaminhado e Marissa, apesar de um escorregão aqui e ali estava tomando decisões maduras por conta própria pensando em si e no bem dos outros, um grande avanço da menina que conhecemos no episódio piloto. Uma pena que não podemos ver sua versão mais madura e, provavelmente, mais interessante, já que foi morta rapidamente e de forma brutal no último episódio da terceira temporada.”

Ao contrário dos outros personagens, Marissa nunca tem a chance de crescer e evoluir. E a recepção do público em relação a sua personagem não é muito diferente do que foi com Peyton. Talvez seja até mesmo a pior de todas as personagens citadas até então, já que até hoje vejo um movimento muito negativo em relação a ela.

Já Jen Lindley, personagem icônica vivida por Michelle Williams em Dawson’s Creek, foi introduzida na série como uma terceira parte de um triângulo amoroso que praticamente nasceu morto, entre Joey Potter (Katie Holmes) e Dawson Leery (James Van Der Beek) e ela. Os problemas que surgiram entre Joey e Jen eram todos baseados na figura de Dawson, um menino de 15 anos que não fazia questão nenhuma em esconder o fato de que estava “descontente” com a vida sexual ativa de Jen, por quem ele dizia estar interessado. Assim como Peyton, Jen foi abandonada pelas pessoas que mais confiava na vida, incluindo seus pais. Sua avó demora para entender sua personalidade e seus desejos, e todas as pessoas ao seu redor praticam slut-shaming intenso contra ela, inclusive a própria Joey (que eu amo, para deixar claro, mas claramente era uma personagem feminina escrita por uma perspectiva masculina).

A verdade é que Jen era, junto com Pacey (Joshua Jackson), a personagem mais complexa de Dawson ‘s Creek (e a competição não era nem tão acirrada assim). Existe um motivo muito claro pelo qual personagens como Dawson (o famoso “nice guy”) não envelheceram muito bem, e isso fica claro ao comparar a jornada dos dois personagens em um paralelo grotesco. Enquanto Dawson continuava a praticar gaslighting contra Jen e Joey e exigir que o mundo reconhecesse seu “brilhantismo”, Jen era uma menina essencialmente gentil, divertida e empática, mas ao mesmo tempo fiel aos seus pensamentos e sempre aberta com o que sentia e queria. Ao lado de Jack (Kerr Smith), seu melhor amigo platônico, ela se tornou a pessoa mais abertamente vulnerável e sincera na série inteira, mesmo que as narrativas destinadas a personagem fossem sempre cruéis. Nenhuma vez sequer Jen pode trabalhar na sua própria solidão ou entender o abandono dos seus pais ou mesmo falar sobre sua sexualidade e as decisões que fez na adolescência. No final, a personagem ainda morre e esse fato serve como incentivo para impulsionar a narrativa e decisão dos outros protagonistas. E entre todas as coisas que Jen e Dawson fizeram, adivinha quem sofreu com ódio desnecessário? Isso mesmo, Jen.

Se você procurar saber um pouco mais sobre o que as pessoas acham de Nancy nos meios mais “mainstream”, como o próprio Tv Time, vai perceber que a recepção em relação a personagem não é exatamente a melhor de todas. Como uma protagonista com falhas e sentimentos complexos, suas ações, escolhas e decisões nem sempre são recebidas com amor pelo público, que não entendem muito da onde ela vem, algo que percebi principalmente na primeira temporada.

A mesma coisa acontece com Olivia Baker (Samantha Logan), de All American.

Ativa por três temporadas de muito sucesso, All American é uma série que não hesita por um momento sequer de falar de coisas importantes. O seriado acompanha um Spencer James (Daniel Ezra), um jogador de futebol americano do ensino médio da periferia, que ganha a oportunidade de estudar em uma escola de elite e lutar por uma bolsa de estudos integral por causa do esporte. O próprio Spencer é palco para várias discussões, incluindo a forma como homens negros são sempre obrigados a esconder seus sentimentos, a não demonstrar nenhum tipo de vulnerabilidade. Com o passar da sua jornada, Spencer cresce para se tornar um homem confiante, voz importante na sua comunidade, ativista e que frequenta um terapeuta para lidar com o que ele sente, seguir em frente das pressões que a sociedade colocou nas suas costas. No seu contraponto direto, e seu interesse amoroso principal, está Liv.

Ao contrário de Spencer, Olivia é uma mulher negra, mas que vem de uma família com dinheiro e tem vários outros privilégios que seu parceiro não usufruiu ao longo da sua vida. Ela é também uma pessoa que usa sua voz ativa e seus privilégios para fazer a diferença. Ao mesmo tempo, Olivia luta contra vícios em bebida e drogas, algo que faz parte da sua narrativa constantemente ao longo das três temporadas, culminando em um momento onde ela, bêbada, bate o carro e pede para Spencer trocar de lugar e assumir a culpa perante a polícia. Como alguém com uma doença séria, ela não pensa nas consequências do pedido para Spencer, um homem negro. O roteiro levanta essas questões imediatamente sem necessariamente colocar toda a culpa na protagonista, explorando a complexidade da sua doença e mesmo assim sem deixar claro que o que ela fez, no momento, foi errado.

A recepção do público, no entanto, foi outra. Abrir os comentários desse episódio em específico foi ver gente falando que Olivia era “mimada” e “insuportável”, sem entender realmente o que tinha acontecido com ela no momento. Naturalmente, isso me lembrou os casos já citados anteriormente neste mesmo texto. A diferença está, basicamente, na forma como as séries tratavam as personagens. Peyton não teve uma oportunidade para falar sobre seus problemas, enquanto Jen e Marissa sofreram um destino muito pior. Já Olivia ganha um tratamento diferente: a protagonista pode falar dos seus problemas, trabalhar neles, além de ter uma rede de suporte ao seu redor, incluindo seus pais, seu irmão, amigos e o próprio Spencer. O público ainda não aceita muito bem personagens femininas que cometem erros e são seres humanos falhos (como todos nós), mas pelo menos é possível perceber uma mudança ativa na forma como os próprios seriados estão tratando esses tipos de storylines.

É importante apontar também que os problemas de Olivia são, na sua essência, um pouco diferentes dos de Peyton, Jen e Marissa, três mulheres brancas. Olivia é obviamente uma mulher negra e, portanto, a série explora sua doença nesse contexto. O impacto disso é algo bem complexo por si só e é ocasionalmente mostrado de forma brilhante por All American, algo que vale um texto individual.

Nancy Drew

É um problema cultural

No vídeo The Problem With Teen Dramas, a youtuber Mina Le defende que a maioria das séries voltadas para o público adolescente carregam problemáticas que são impossíveis de ignorar, começando pelo uso do famoso tropo onde um professor (ou uma pessoa muito mais velha) passa a se envolver romanticamente com um estudante (ou uma pessoa muito mais jovem). Isso aconteceu em produções como Dawson’s Creek, One Tree Hill, Pretty Little Liars, Gossip Girl, Riverdale… a lista segue, é praticamente infinita, e todas essas situações têm uma coisa em comum: a romantização desses relacionamentos. Nenhum desses seriados aborda esse tipo de dinâmica como um abuso de poder, mas sim como algo encorajado. Em Pretty Little Liars, inclusive, o casal acaba se casando no final, como uma versão deturpada de um felizes para sempre.

Assim como o problema recorrente que existe com as protagonistas odiadas pelo público por terem “falhas demais”, tudo isso é um problema cultural, que está enraizado nessas séries ao ponto de ser difícil não recorrer aos mesmos tropos de novo e de novo. O exemplo mais absurdamente óbvio nesse sentido é a já citada Riverdale, que se vende como uma obra subversiva, mas que acaba optando por utilizar das mesmas problemáticas, fazendo com que o uso da palavra “subversão” em si se torne vazia e inútil.

No começo de Nancy Drew, demorei para entender que eles iriam por um caminho diferente. Logo nos primeiros episódios, por exemplo, o público descobre que George tem um caso com Ryan, algo que começou quando ela ainda estava no ensino médio. Ou seja, ele, um homem casado com mais de 40 anos, estava romanticamente envolvido com uma menina menor de idade, uma adolescente. Com uma escolha dessas exposta logo nos primeiros capítulos, é totalmente plausível achar que exatamente a mesma coisa perpetuada por outras séries iria acontecer aqui, mas a obra toma um rumo completamente inesperado.

Fria, distante e com uma bagagem familiar mais pesada do que consegue carregar, George tem plena consciência de que ela merece algo muito melhor, mas que às vezes isso não é o suficiente para tomar uma escolha que leve ela para algo melhor, principalmente considerando todas as questões emocionais que não consegue resolver. É interessante perceber como, inicialmente, nenhum dos personagens principais de Nancy Drew tinham exatamente uma “base” de pessoas em quem eles podiam confiar e se apoiar para conseguir alcançar coisas mais saudáveis e melhores. Um dos grandes triunfos da série, inclusive, é ver exatamente isso se desenvolver ao longo da primeira temporada, e isso não é diferente para George.

Com o passar dos episódios, George faz amigos reais (com destaque principalmente para o relacionamento que ela tem com Nancy e Bess), descobre um propósito na vida ao comprar o restaurante que eles trabalham ao lado de Nick e percebe que o relacionamento dela com Ryan foi prejudicial em vários aspectos diferentes e teve um impacto complicado na forma como ela vê relacionamentos e aceita afeto das pessoas ao seu redor — principalmente em relacionamentos. Algo que ela se aprofunda na medida em que sua dinâmica com Nick se torna mais do que apenas parceiros de trabalho.

O relacionamento com Nick é tão importante e lindo porque enquanto ambos são pessoas muito diferentes entre si, eles também têm uma comunicação sensível que nem sempre funciona perfeitamente, mas transmite pontos essenciais. George dá espaço para ele prosperar e encontrar seu propósito, enquanto ele faz questão de mostrar que ela é amada.

É preciso entender, primeiramente, que falar sobre saúde mental não necessariamente se resume a diagnósticos, depressão ou, como já citado antes no texto, algo relacionado a violência. Assuntos do dia a dia e como lidamos com eles podem muito bem entrar nessa categoria. Ao mesmo tempo em que Nancy Drew fala sobre as partes mais complicadas de lidar com uma doença como depressão, a série também explora essas pequenas questões, sempre de forma orgânica e intrínseca com os mistérios apresentados nos episódios. A jornada de Nick na segunda temporada prova muito bem esse ponto.

Depois de passar dois anos preso por homicídio culposo, Nick tem que retornar a vida e, assim como qualquer pessoa que saiu do sistema carcerário, luta para achar um propósito e seu lugar no mundo outra vez. Tentando encontrar paz e um pouco de sossego, um recomeço, ele vai parar em Horseshoe Bay, onde conhece Nancy, Ace, Bess e começa um relacionamento com George. Ele também herda uma quantidade absurda de dinheiro na primeira temporada e usa do seu privilégio para ajudar crianças que estão passando por uma situação parecida com a sua. “Fazer com que crianças prosperem em suas comunidades é algo importante”, como ele mesmo aponta. Dentro de toda narrativa importante, Nick é uma figura central e seu desenvolvimento dentro da série é incrível.

Sua jornada fala sobre racismo, claro, mas também sobre identidade e propósito. Ele aborda essas questões não necessariamente sofrendo atos de violência em si, mas se comunicando com seus colegas. Uma das discussões mais importantes da segunda temporada acontece quando George, que é asiática, e Nick entram em conflito sobre os preconceitos que ambos sofrem como pessoas não-brancas e as coisas que são speradas deles. O diálogo é saudável e leva o relacionamento entre eles para um lugar poucas vezes vista na televisão, quando um casal discute algo tão complicado de que se falar, mas ainda assim de forma leve, simples e que levam os dois param um lugar melhor não apenas como pessoas, mas também como um casal, uma unidade.

Apesar de ter acertado no desenvolvimento de George e Nick como indivíduos e a forma como a primeira  vê seus relacionamentos amorosos, ainda é necessário ver um pouco mais sobre a forma que ela lida com os eventos que levaram a sua morte (é Nancy quem a traz de volta), assim como Ace e Bess (que é cleptomaníaca, devo acrescentar) precisam de um pouco mais de atenção, apesar de serem personagens já bem tratados e queridos pelo público e pela própria série.

Outro ponto que Mina Le explora adicionalmente no vídeo é a hipersexualização de adolescentes nas séries de TV. Isso é algo que Bush, Lenz e Burton também discutem no podcast sobre One Tree Hill, já que ao longo das suas primeiras temporadas, situadas durante o ensino médio dos protagonistas, as personagens femininas sofrerem muito com o que pode ser chamado de male gaze e estiveram inseridas em situações absurdas. Como, por exemplo, uma delas estar completamente nua na parte de trás no carro de um dos protagonistas. Ou a outra sair da toalha do chuveiro com namorado na frente do sogro. Além disso, os adolescentes dos seriados citados são todos sexualmente ativos e geralmente as cenas de sexo em si são mostradas de forma pouco realista, com uma luz diferente, música, etc. Tudo isso para criar uma visão super romântica do ato. O problema com isso, como apontado pela youtuber, pelas próprias atrizes e por vários outros especialistas no assunto, é criar a sensação de que essa é a regra para todos os adolescentes, fazendo os mesmos acreditarem que, por não estarem sexualmente ativos, estão de alguma forma atrasados. Ou criar uma visão deturpada de como realmente é uma transa.

Um seriado que subverte muito bem toda essa questão é Sex Education. A  série britânica acompanha dois alunos que dão conselhos para seus colegas sobre relações sexuais, abrindo tópicos de conversas importantes e geralmente ignorados por outras produções (como fazer a chuca, por exemplo). Ao mesmo tempo, as cenas de sexo em si não são romantizadas ou gratuitas: todas elas servem muito bem a narrativa e os personagens, mostrando um pouco de cada um deles usando o ato de transar em si. E a cereja no topo do bolo é que tudo isso é abordado sem luzes especiais ou sexualização. Às vezes, as cenas de sexo são meio esquisitas e estranhas de assistir, porque são dois adolescentes inexperientes experimentando algo juntos pela primeira vez. Nem sempre vai ser bonito, e às vezes as coisas vão dar errado, mas com certeza é uma perspectiva única e algo mais realista de se mostrar.

Algumas cenas de sexo em Nancy Drew lembram um pouco as de Sex Education. Os personagens aqui são mais velhos, um fator que com certeza tem certa influência nas decisões finais, mas na primeira cena de Nancy e Nick, por exemplo, os dois aparecem transando, mas toda a cena tem um toque realista e rápido, uma introdução inesperada, mas que mesmo assim não parece gratuita. Depois, já na segunda temporada, Ace protagoniza uma cena de sexo com sua namorada, sendo que depois do ato ela levanta e vai fazer xixi, algo que é rotineiro na vida real, mas que você nunca vê retratado na TV (com certeza um pequeno detalhe que acabou ali por causa do que conhecemos hoje como female gaze, o oposto direto do que acontece em One Tree Hill).

Em uma época onde milhares de remakes de obras com materiais pré-existentes continuam saindo e ocupando os horários nobres da TV norte-americana e causando o fenômeno da “subversão” de produções infantis com um viés mais adulto e sobrenatural, tudo se resume a separar as séries que realmente têm algo novo a dizer, daquelas que apenas querem uma lasquinha da grande tendência da vez. Com um elenco cheio de química, uma narrativa que mistura muito bem comédia, drama e elementos sobrenaturais, além de abordar assuntos importantes de forma orgânica, Nancy Drew realmente parece se destacar nesse aspecto. Sim, o seriado nasceu no meio de um cenário não muito favorável, mas tanto as criadoras quanto os atores parecem muito conscientes da história que eles querem contar, criando algo especial e divertido no caminho.

Ao mesmo tempo, Nancy Drew é uma das séries que pavimenta o caminho e mostra que o futuro pode ser melhor ao colocar narrativas de pessoas jovens e falar sobre saúde mental. Ao lado das já citadas Never Have I Ever, Atypical, Sex Education e até mesmo All American, é possível imaginar um futuro onde personagens como Peyton Sawyer, Jen Lindley e Marissa Cooper não sejam odiadas e negadas de ter um desenvolvimento saudável, mas sim que elas possam prosperar, como é o caso da própria Nancy, de Dev (Maitreyi Ramakrishnan) ou de Olivia Baker.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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