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A mulher do vestido amarelo: o início do legado de Ariana DeBose

Dançarina da Broadway, integrante de diversos coros até conquistar o seu lugar no papel sutil e poderoso de The Bullet em um dos musicais mais aclamados da década. Aprimorando sua dança, seu canto e sua atuação, recebeu a indicação de Melhor Atriz Coadjuvante no Tony Awards de 2018. Nesse mesmo ano, participou de uma audição para o papel que garantiria seu primeiro Academy Award. Essa é Ariana DeBose, a Melhor Atriz Coadjuvante do Oscar 2022. A primeira mulher afro-latina, queer e não-branca a conquistar o prêmio. Uma artista que está construindo o seu legado diante dos nossos olhos.

Quando, em 2018, anunciaram que Steven Spielberg estava desenvolvendo uma nova adaptação do clássico Amor, Sublime Amor, todos ansiaram por saber quem seriam os atores e atrizes que trariam personagens tão aclamados de volta para as telas do cinema. A principal expectativa era de quem seria a atriz a carregar o peso de reprisar o papel que garantiu a Rita Moreno o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 1961 — momento histórico por ser a primeira mulher latina a realizar o feito.

DeBose conta, em diversas entrevistas, que gostou da ideia do remake, mas que não imaginou que seria algo que ela poderia fazer, porque mesmo que tivesse todas as habilidades certas para esse papel, as Anitas que existiram, até então, não se pareciam com ela — uma mulher afro-latina. Em 1961, a maioria dos personagens latinos foram retratados por atores americanos, que além de forçar o sotaque, usaram maquiagem para escurecer a pele. A prática foi criticada pela própria Rita Moreno, a única latina da produção, e com o anúncio do remake, a expectativa era de um elenco de origens latinas — sendo essa, uma das prioridades da produção.

ariana debose

Quando DeBose é convidada para fazer o teste, Cindy Tolan, diretora de elenco, conta que a atriz recusou quatro vezes. E quando, enfim, foi fazer o teste, após dançar e cantar, recusou-se a fazer a leitura do roteiro, porque sabia que não estava preparada o suficiente. Spielberg, impressionado com as habilidades e a coragem da atriz em dizer não, pediu que retornasse na semana seguinte. O resto é história.

Desde do início do processo, DeBose sabia como iria criar a personagem — colocando a identidade afro-latina como uma das peças centrais de Anita. DeBose conta como, na indústria, mulheres não-brancas alteram sua voz, sua expressão corporal, a forma como dançam, para conseguirem um papel — e desde o momento da audição, decidiu que não iria se submeter a isso. Essas foram as condições que ela colocou para o diretor, que aceitou-as e abriu espaço para que DeBose construísse a Anita que existia dentro de si.

“Ele me perguntou se teria algo que ele deveria saber sobre mim. Eu respondi que eu sou uma mulher negra, uma afro-latina, se ele não estivesse interessado em explorar isso na personagem, no contexto do filme, nem que fosse nas entrelinhas, não achava que ele deveria me contratar. E ele concordou com todas as minhas condições. Achei que ele foi corajoso em fazer isso, aceitar alguém como eu, que não medo de falar o que pensa (risos)” — Trecho da entrevista ao canal Gold Derby, no YouTube (tradução da autora).

Sua Anita é uma mulher que faz as coisas acontecerem, uma mulher à frente do seu tempo. A primeira-dama dos Sharks, a gangue latina, é dona do seu próprio negócio — que ela montou na sala da própria casa — e enxerga o boom industrial e o sonho americano como a oportunidade de mudar a vida de sua família. Além de ser uma figura materna para Maria (Rachel Zegler) e viver um amor real e passional com Bernardo (David Alvarez). No número musical de America, o casal tem uma discussão sobre voltar para Porto Rico ou ficar nos Estados Unidos. DeBose descreve essa cena como um dos momentos que Anita não tem medo de falar o que pensa, mesmo que seja para o homem que ela ama. Há um detalhe na cena, em que Anita empurra Bernardo para que ela pudesse lutar boxe — a profissão do líder dos Sharks. A atriz conta que aprendeu a lutar porque queria que sua personagem mostrasse, fisicamente, que era forte, e esse pequeno momento da cena coloca isso na cara do espectador.

Ao posicionar-se e permitir-se criar a sua própria Anita, DeBose ensina, a uma geração de jovens artistas, que o melhor que se pode fazer é aparecer e estar pronta, seja em um coro ou em um papel de destaque. Ela mostra que os espaços são nossos para serem ocupados e que devemos reivindicar por eles. Que o diálogo, o autoconhecimento de nossas habilidades e ambições são os melhores aliados para contar nossas histórias.

“Eu sou uma pessoa que dança, canta e atua. Eu falo dança melhor do que inglês. Estou honrada por esse reconhecimento, não é todo dia que podemos trazer uma personagem à vida através dessas três habilidades.” — Parte do discurso ao receber EE BAFTA Film Awards de Melhor Atriz Coadjuvante 2022 (tradução da autora).

Outro ponto forte da sua performance é não ser parecida com a de Moreno. A atriz icônica fez parte da produção, como produtora e como atriz em um novo papel, e a única dica que deu para DeBose foi de trazer o que tinha de melhor em si para o papel, isso seria suficiente. Com essa fala, o peso de carregar o legado de Moreno é tirado dos ombros da atriz, permitindo-a que trabalhasse na criação de sua própria personagem, nos entregando a representação da mulher latina na sua melhor forma, como nunca visto antes. Sua trajetória também nos ensina a reconhecer aqueles que vieram antes, mas sem deixar que o medo nos controle. Devemos olhar para trás para entender que é possível fazer aquilo que sonhamos, mesmo que ainda não tenha sido feito do jeito que queremos.

ariana debose

“Para todos que já questionaram sua identidade, que se encontra vivendo perdido no limbo, eu te prometo uma coisa: sim, há um lugar para nós.” Parte do discurso ao receber o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante 2022 (tradução da autora).

Ariana DeBose, assim como outras mulheres latinas, olhou para o filme de 1961, para a mulher do vestido roxo que cantava e dançava com tanta energia e como se tudo pertencesse a ela e pensou “eu quero ser a mulher do vestido roxo”. Sua Anita honra o legado da Anita de Moreno, ao mesmo tempo que constrói o seu próprio legado diante dos nossos olhos. Agora, após o lançamento de 2021, as próximas gerações olharão para a cena de America e dirão “eu quero ser a mulher do vestido amarelo”.

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8 comentários

  1. Fantástica a crítica. Deu vontade de assistir o filme. Creio que é isso que uma boa crítica deve gerar naqueles que além. Parabéns

  2. É sempre muito inspirador poder ver mulheres que encontram seu lugar sendo elas mesmas. Um grande caminho para DeBose. E ótimo texto, parabéns!