Categorias: LITERATURA

Notas sobre o feminicídio em Mulheres Empilhadas

“Paf. Até então, nunca tinha levado um tapa na minha vida. No rosto.
— Vadia — me disse ele antes de deixar o banheiro.”

O trecho acima é do livro Mulheres Empilhadas, da escritora paulista Patrícia Melo. Com mais de vinte anos de carreira e diversos prêmios nacionais e internacionais, a obra literária da autora se debruça sobre a violência. Nesse sentido, o gênero do romance policial, cuja trama parte de um ato criminoso, serve muito bem aos propósitos de Melo. A maioria das personagens principais dos romances da autora são masculinos, à exceção de Fogo-fátuo (2014) e Mulheres Empilhadas, publicado pela editora LeYa, que traz como tema um dos crimes mais cometidos no Brasil: a violência contra a mulher.

A narradora não nomeada de Mulheres Empilhadas, uma jovem advogada, parte de São Paulo em direção a Cruzeiro do Sul, no Acre, para acompanhar um mutirão de julgamentos de casos de feminicídios que ocorreram na região. A escolha pelo estado não foi aleatória, uma vez que o Acre conta com um dos maiores índices de feminicídio do país e, segundo o Mapa da Violência de 2019, ano da publicação da obra, houve um aumento das taxas de assassinato contra as mulheres no estado. É nesse cenário que a protagonista, numa tentativa de refugiar-se da violência, se envolve em crimes brutais marcados pelo ódio à mulher e pela impunidade.

A orelha do livro, bem como a ficha catalográfica, adverte para a caráter ficcional de Mulheres Empilhadas, mas a citação a casos reais de feminicídios — com o nome das vítimas e a forma com que foram mortas — ao início de cada capítulo lembram constantemente ao leitor que a obra está muito próxima da realidade.

Mulheres empilhadas - capa

A democratização desse tipo de violência, que não vê classe social, etnia ou faixa etária como barreira para acontecer, é ressaltado desde a capa do livro, que mescla as imagens da deusa Vênus retratada por Botticelli e Oshun, de Harmonia Rosales. Patrícia Melo mostra que a violência contra a mulher é universal, seja pelo passado da protagonista, uma paulistana, branca e de classe média, seja pelos casos que a narradora se depara no Acre, local ideal por sua heterogeneidade. Em Cruzeiro do Sul, encontram-se mulheres de diferentes cores, origens e histórias, mas que se unem pela violência. Seus algozes também não têm perfil único e definido, estando presentes, muitas vezes, no próprio seio familiar da vítima.

“— Você está surpresa — riu Carla. — Tecle “morta pelo”… no Google e veja o resultado. 
Mais tarde conferi: 
‘Morta pelo’ 
Morta pelo namorado 
Morta pelo marido 
Morta pelo ex 
Morta pelo companheiro 
Morta pelo pai 
Morta pelo sogro
O mal de aprender esse tipo de coisa é que a gente fica viciado. Todo dia eu digitava ‘morta pelo’ e recebia aquela enxurrada de sangue na cara. Não importa onde você esteja. Não importa sua classe social. Não importa sua profissão. É perigoso ser mulher.”
(MELO, 2019, p. 74-75).

Dentre os casos de violência que a protagonista encontra, um que se destaca é o assassinato brutal de Txupira, uma adolescente indígena que foi violentada e torturada. O crime coloca em questão a disputa por território, não apenas quanto ao corpo da mulher, compreendido na visão misógina como propriedade do homem, mas também quanto a demarcação de terras indígenas, tópico relevante e urgente no momento em que vivemos. A necessidade do reencontro com nossa ancestralidade também é foco na obra, sendo trazida por meio do contato da protagonista com as mulheres da aldeia Kuratawa, local onde a narradora encontra proteção e acolhimento. A morte de Txupira evidencia que, apesar do feminicídio estar presente em todas as camadas sociais, a violência encontra mais espaço para crescer quando as vítimas são mulheres indígenas e negras, tendo em vista a negligencia da sociedade brasileira quanto a esses crimes e as dimensões sociais e raciais que estão envolvidas nos casos de feminicídio.

“O que a imprensa gosta, de verdade, é de assassinos. Sobretudo quando eles são brancos e ricos, como Crisântemo. Ou, ao menos, da classe média. Branca, claro. Esses são tratados como estrelas. De certa forma, eu me sentia parcialmente responsável pelo sucesso de Crisântemo e seus comparsas como heróis trágicos de Cruzeiro do Sul.” (MELO, 2019, p. 76).

Patrícia Melo

A narrativa de Mulheres Empilhadas é crua e dolorida, mas a escrita de Patrícia Melo é fluída e leve, o que parece improvável ao se considerar a temática do livro. A autora domina a caracterização de suas personagens, sobretudo da narradora que, em poucas páginas, já é consegue fisgar o leitor. Melo também demonstra seu talento no encadeamento dos eventos, amarrados com precisão ao longo da narrativa.

Ao acompanharmos a trajetória da narradora, sua relação com um passado doloroso e o seu enfrentamento contra violência em suas mais variadas formas, Patrícia Melo nos faz refletir sobre as circunstâncias dos crimes contra as mulheres, bem como buscar compreender suas origens. A matança de mulheres demarca a soberania masculina em nossa sociedade patriarcal, cujo estatuto exige a violência para a sua manutenção. Para tanto, são demandados sistemas de controle para reafirmar o status quo, o que requer a participação de toda a sociedade, tornando-nos, invariavelmente, cúmplices dessa violência.

“É claro que eles não nascem assim, com desejo de matar mulheres. Alguns até nascem, os psicopatas. Mas os psicopatas são a elite dos assassinos. Já nascem prontos. A grande massa operária de assassinos, digo, a maioria, tem que aprender o ódio, antes de sair matando por aí. Meu pai aprendeu muito bem. Nada mais fácil do que aprender a odiar as mulheres. O que não falta é professor: O pai ensina. O Estado ensina. O sistema legal ensina. O mercado ensina. A cultura ensina. A propaganda ensina. Mas quem melhor ensina, segundo Bia, minha colega de escritório, é a pornografia.” (MELO, 2019, p. 88).

Ao ler Mulheres Empilhadas, a sensação que fica é de se tratar de uma obra documental, seja pelas “epígrafes” ao início da cada capítulo, a narradora não nomeada que representa diversas vozes femininas, vítimas de uma violência misógina e sistêmica, seja pela narrativa estar intrinsecamente conectada ao real, como aponta a própria autora. Baseando-se em pesquisas sobre a temática do feminicídio, Patrícia Melo contou com a ajuda da jornalista Emily Sasson Cohen, a quem dedica a realização da obra na sessão de agradecimentos, ao final do livro, pelas entrevistas a “especialistas na questão da violência contra as mulheres, feministas, advogados, lideranças indígenas, líderes comunitários e viajando para o Acre” (MELO, 2019, p. 237). A realidade da obra pode tornar Mulheres Empilhadas um livro difícil de digerir. No entanto, a sua leitura é essencial e recomendada a todos que não desejam que a já imensa pilha de mulheres assassinadas cresça ainda mais.


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