Categorias: LITERATURA

Isso Que a Gente Chama de Amor: não vale tudo no amor e na guerra

Desi Lee tem domínio de praticamente todos os aspectos de sua vida: é uma aluna exemplar, coleciona troféus e êxitos acadêmicos desde que se entende por gente, é ótima jogadora do time de futebol da escola e tem um futuro brilhante cursando medicina em uma universidade prestigiada dos Estados Unidos. Mas tem um campo em sua vida em que ela coleciona desastres e decepções: o amoroso. Sempre que Desi se aproxima de um potencial crush, as palavras erradas saem de sua boca e situações embaraçosas acontecem. Mas ela está decidida a dominar também esse lado de sua vida e contará com a ajuda dos k-dramas para levá-la para o universo onde o romance existe e é real — nem que para isso precise transformar sua vida em uma novela coreana.

Essa é a premissa de Isso Que a Gente Chama de Amor, segundo livro de Maurene Goo publicado no Brasil. Com tradução de Lígia Azevedo, o livro chega pela Editora Seguinte e é uma comédia romântica feita sob medida para quem é apaixonado pelos dramas coreanos. Quando um aluno novo chega no colégio e Desi se vê imediatamente encantada por ele, ela decide que está na hora de mudar sua vida para deixar de ser um total fracasso no romance. Após passar por mais um constrangimento na frente do rapaz, Luca, e ter uma noite sentindo pena de si mesma enquanto assiste televisão com seu pai, é que Desi tem uma ideia: se ela é tão boa estudando, não há outra maneira de ficar boa em romance senão fazendo o mesmo de sempre: estudar.

“Mas nunca deixei de acreditar que era possível conseguir algo apenas se mantendo firme, inabalável. Tendo foco. E que, dessa maneira, não havia nada que não se pudesse controlar na própria vida.”

Dessa maneira, a jovem faz o que sabe de melhor para conquistar Luca e começa a pesquisar assistindo todas as novelas coreanas que seu appa adora. Após devorar uma produção após a outra, Desi cria uma lista com um passo a passo sobre como conquistar um garoto com base em toda a sabedoria adquirida com os k-dramas. A lista é formada por itens como “ser a personificação viva de tudo o que é bom e puro”, “ter uma história familiar deprimente e estar na pior”, “ter um sonho secreto que aproxime vocês dois”, “entrar em um triângulo amoroso claramente desequilibrado” e “se meter em um apuro que force vocês dois a ter um momento de conexão”. Os vinte e quatro passos escritos por Desi se transformam em um mantra que ela entoa durante todos os capítulos de Isso Que a Gente Chama de Amor, por mais que seus amigos a alertem de que usar planos para manipular alguém para gostar de você não seja realmente uma boa ideia.

A escrita de Maurene Goo permanece inspirada como sempre e não demora para que você seja fisgada pela trama que ela cria em seu livro. Em pouco mais de 300 páginas, a autora cria uma narrativa digna das novelas coreanas, e seu livro acaba se transformando em uma espécie de homenagem às produções do gênero. Para quem gosta de comédias românticas e k-drama, Isso Que a Gente Chama de Amor reúne o melhor dos dois mundos. Ainda que eu entenda a ansiedade de Desi em querer conquistar Luca, não consegui aceitar, no entanto, as maluquices feitas pela protagonista para atrair a atenção do rapaz. Desi Lee é descrita como uma jovem inteligente, a melhor da sua turma em absolutamente todos os quesitos, mas quando o assunto é romance suas atitudes beiram a maluquice — como apontado por Wes e Fiona, seus melhores amigos. Em alguns momentos, as atitudes dúbias de Desi nos fazem crer que talvez não seja realmente o melhor desfecho para ela conquistar o rapaz, principalmente quando boa parte das ações de Desi para conquistar Luca são, de fato, manipulações.

É um pouco difícil avaliar Isso Que a Gente Chama de Amor. Enquanto o livro tem situações realmente fofas e capazes de deixar o coração quentinho, especialmente nas interações entre Desi e seu pai, ele tem cenários extremamente problemáticos que eu não consegui ignorar por completo. Toda a questão de Desi manipular Luca, e situações envolvendo os dois, para forjar uma conexão entre eles que levasse ao romance me lembrou as ações das vilãs mais caricatas das novelas — o que até faz algum sentido se pararmos pra pensar que Desi agia com base em uma lista inspirada em novelas coreanas, mas aqui ela deveria ser a mocinha protagonista e não a vilã tresloucada que faz absolutamente tudo para conquistar o objeto de seus desejos. Mesmo no final do livro, quando ela deveria ter entendido que sentimentos não podem ser forjados, Desi novamente cria outra cena, o que nos leva a crer que ela não aprendeu nada com toda essa história.

O que resvala, inevitavelmente, na falta de crescimento da personagem. Nenhum dos personagens que aparecem no livro, de Desi a Luca, de Fiona a Wes, mudam com o decorrer da trama. Desi Lee inicia sua jornada obcecada em executar planos mirabolantes, e assim ela termina. Não parece ter havido nenhuma grande lição inspiradora em sua vida. Os demais personagens, embora sejam representativos de diferentes comunidades, só aparecem como apoio para Desi e não possuem uma história própria para desenvolver. Gostaria de ter lido mais sobre os pais de Desi que saíram da Coreia do Sul para os Estados Unidos ainda jovens e criaram uma vida por lá — sua herança coreana é algo fortemente presente nas páginas de Isso Que a Gente Chama de Amor, e é realmente ótimo que Maurene Goo tenha inserido tantos aspectos relacionados a essa cultura em seu livro. Das próprias novelas coreanas (ao final do livro recebemos uma lista com indicações para todos os gostos, de romance histórico até sobrenatural), à língua e comida, é interessante estar tão próximo de algo com que não temos contato rotineiramente.

“Você não controla quem ama, Desi, mas pode controlar o quanto luta pela pessoa.”

Os momentos entre Desi e seu appa, como citados anteriormente, são muito preciosos. É ótimo ver uma relação saudável entre uma menina e seu pai, principalmente em livros adolescentes, e Maurene Goo consegue trabalhar muito bem esse aspecto em sua narrativa. O amor que um sente pelo outro é expresso em cuidados e momentos compartilhados assistindo k-dramas. Desi sempre quis ser a melhor e estar no controle de tudo para que seu appa não precisasse se preocupar com ela após a morte da mãe, mas isso acabou criando amarras na garota que sentia a necessidade de ser a melhor o tempo inteiro. Desi só percebe o quanto isso é pouco saudável após Luca entrar na história e ela começar a colocar os passos da lista do k-drama em andamento — mas mesmo assim não parece capaz de entender a dimensão de seus problemas.

Para além do fato de ser oradora da sua turma na formatura do ensino médio e ter todos os êxitos acadêmicos possíveis, Desi não parece ter muita inteligência emocional para lidar com as coisas que acontecem em sua vida. Para conquistar Luca, ela se envolve em uma trama repleta de mentiras que machuca outras pessoas tanto física quanto emocionalmente, sem conseguir enxergar o quão problemático tudo isso é. Algumas ações da protagonista são realmente absurdas, o que me faz pensar até que ponto a autora refletiu a respeito do desfecho de Desi. A leitura é boa devido ao poder de narrativa de Maurene Goo, mas é impossível desconsiderar o comportamento questionável de Desi durante todo o livro. Não há uma prestação de contas ou um momento maior de reflexão por parte da protagonista, e acredito que uma análise de consciência (e uma terapia) teria feito maravilhas por Desi Lee.

“Coisas inesperadas acontecem — eu havia dito ao microfone. — Mas é como reagimos a elas, como aprendemos com elas e como nos fazem evoluir, que faz de nós quem realmente somos.”

De maneira geral, Isso Que a Gente Chama de Amor tem seus bons momentos e os diálogos entre os personagens são fofos, que é o que esperamos de comédias românticas. Há os clichês do gênero e alguns momentos típicos de vergonha alheia adolescente, mas são coisas previsíveis do gênero como um todo. Maurene Goo poderia ter trabalhado melhor no desenvolvimento dos personagens e criado algum tipo de consciência para Desi durante todo o seu plano baseado em k-dramas, mas para quem gosta do gênero, o livro é um prato cheio. Os fãs das novelas coreanas também poderão se divertir pescando as referências às produções reais que estão por todo o livro e aparecem compiladas no epílogo. O que fica de conclusão? É que, absolutamente, não vale tudo no amor e na guerra.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Companhia das Letras no NetGalley.


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