Categorias: LITERATURA

Um Lugar Só Nosso: conto de fadas em Hong Kong

O que acontece quando uma superestrela do k-pop decide sair escondida de sua suíte na cobertura de um hotel boutique em busca de um hambúrguer? Quem te conta é a autora norte-americana de ascendência coreana Maurene Goo em seu livro Um Lugar Só Nosso, publicado no Brasil pelo selo Seguinte da Companhia das Letras. Em uma trama que reúne k-pop, passeios por Hong Kong e muito romance adolescente, a autora nos leva para um universo envolvente em que tudo pode acontecer.

Lucky está no ramo da música desde que se entende por gente e seu maior sonho é se tornar uma estrela do k-pop — música pop coreana —, o que ela consegue realizar após anos de treinamento árduo e muita dedicação. Aos dezessete anos, a jovem atingiu o topo de sua carreira e agora é uma estrela que lota estádios com 60 mil fãs, tem seu rosto estampado em todo tipo de merchandising e está prestes a dar o próximo passo para ser reconhecida mundialmente: estrear no mercado norte-americano aparecendo no Later Tonight Show, um prestigiado programa dos Estados Unidos. Lucky tem tudo — afinal, como diria Britney Spears, com o perdão do trocadilho, “she’s so lucky, she’s a star” [“ela tem tanta sorte, ela é uma estrela”] — mas sente que, lá no fundo, algo não tem estado certo há muito tempo — “but she cry, cry, cries in her lonely heart, thinking if there’s nothing missing in my life” [“mas ela chora, chora, chora em seu coração solitário, pensando se não tem nada faltando na minha vida”].

Além de ter uma agenda lotada com shows, entrevistas e ensaios, Lucky vive longe de sua família e precisa lidar com a saudade que sente de seus pais e irmã que moram na Califórnia, nos Estados Unidos, enquanto ela trabalha na Coreia do Sul, mas sofre tudo isso sem demonstrar para não correr o risco de parecer ingrata com seu selo e gravadora que tanto fizeram por ela. Lucky foi escolhida em uma seleção com milhares de garotas e, após entrar em uma girl group, foi a única a estrelar em carreira solo, então ela sente que não deveria desprezar tudo o que conquistou por meio de seu esforço e o de tantas outras pessoas, principalmente sua família. Mas a jovem não consegue evitar e, embora tenha chegado ao topo do k-pop, é ansiosa e precisa da ajuda de medicamentos para dormir, algo de que faz uso, mas não pode deixar que a imprensa descubra para que sua fama de garota perfeita não seja manchada.

“Às vezes um lugar novo parece estranhamente familiar, como se você já o tivesse visto ou passado por ele em um sonho.”

Porém, após um show particularmente cansativo e uma reunião com seus produtores, Lucky não consegue dormir mesmo com a ajuda dos medicamentos que toma todas as noites. Ela sente fome e a dieta regrada que faz para se manter dentro do padrão das idols nem de longe consegue mantê-la saciada. Sendo assim, Lucky não vê outra alternativa que não sair de fininho de sua suíte, despistando sua produtora e seguranças, em busca de um suculento hambúrguer. É durante essa empreitada que ela esbarra com Jack dentro do elevador, mas um não presta muita atenção no outro — Lucky, por medo de ser reconhecida e ver sua jornada em busca do lanche perfeito interrompida, e Jack por estar muito satisfeito consigo mesmo após conseguir a fotografia perfeita de um casal de celebridades traindo seus respectivos parceiros em uma das suítes do hotel.

Diferente de Lucky, Jack está completamente à vontade em sua própria pele, ainda que não consiga admitir para os pais que não pretende fazer faculdade e muito menos trabalhar no banco em que estagia. A paixão de Jack é a fotografia e, como meio de se sustentar e fazer um pouquinho do que gosta, ele decide trabalhar para um tabloide sul-coreano fotografando celebridades em momentos pouco lisonjeiros — um paparazzo. E ele é bom nisso. Usando seu charme e inteligência, Jack consegue capturar as fotografias perfeitas de momentos cruciais, abastecendo o tabloide com o melhor da fofoca. Os caminhos de Lucky e Jack se cruzam de maneira inesperada nessa noite em Hong Kong e, enquanto ela está um pouco fora de si devido aos medicamentos que tomou, ele acaba se preocupando com a garota bonita e desorientada que aparece em seu caminho sem perceber que ela é, na verdade, uma grande estrela da música pop de seu país.

Lucky, aérea por conta de seus medicamentos, é resgatada por Jack de uma situação que poderia ser realmente perigosa para uma garota sozinha em uma grande cidade. Ele a leva para seu apartamento, visto que Lucky não carrega consigo nenhum documento ou celular, e aguarda que ela desperte para que possa chamar alguém para buscá-la. É nesse meio tempo em que Jack navega na internet, aguardando Lucky acordar, que ele finalmente percebe quem é a menina dormindo em sua cama enquanto ele ocupa o sofá. Jack se dá conta de como a situação toda parece providencial e pode garantir a ele um furo de reportagem para o tabloide em que trabalha como freelancer, talvez garantindo a ele um trabalho fixo, e logo bola um plano: ele precisa fazer com que Lucky passe o dia com ele de maneira a colher informações e fotos para uma grande reportagem. Após um momento de suspeita, Lucky finalmente aceita, na manhã seguinte, passar um dia com Jack por uma série de motivos: ela está curiosa a respeito do rapaz que a salvou — que é extremamente bonito e tem um cabelo excelente, vale apontar — e sente que aquele dia, dentre os quatro anos em que ela só viveu para sua carreira, pode ser o único que terá para si mesma em muito tempo, principalmente se os planos da gravadora para sua carreira internacional se concretizarem.

Um Lugar Só Nosso pode parecer carregar uma trama clichê e previsível, mas a diferença da narrativa criada por Maurene Goo está exatamente em seus protagonistas e nos cenários em que essa história se desenrola. Como todo bom young adult, há o carisma de Lucky e Jack, os diálogos inspirados e o desenvolvimento do romance entre eles — algo que um bom girl meets boy sempre tem —, mas a diferença reside na bagagem cultural e étnica que tanto Lucky quanto Jack carregam. Ambos são norte-americanos de ascendência coreana, como Maurene Goo, e ambos vivem em um lugar em que não nasceram, embora seus pais sejam naturais da Coreia do Sul. O background do crescimento de Lucky e Jack os conecta para além do sentimento que cresce entre eles, e é realmente interessante acompanhar como ambos se descobrem e redescobrem no período em que passam juntos. Assim como ocorre em Para Todos os Garotos que Já Amei, de Jenny Han, o que importa aqui é a representatividade e ver um casal não-branco protagonizando todas as cenas fofas que amamos das comédias românticas adolescentes faz toda a diferença.

Além do romance, das cenas de tensão sexual e dos flertes ora desajeitados, ora certeiros, outro ponto cativante de Um Lugar Só Nosso reside, como dito anteriormente, na imersão cultural proposta por Maurene Goo. Tudo o que conheço a respeito de k-pop é o que a internet e algumas amigas me proporcionam, então é realmente interessante mergulhar nesse universo e entender melhor o que significa ser uma idol na Coreia do Sul. Por meio da vivência de Lucky, o leitor pode entender melhor o que é ser uma celebridade da música dentro do k-pop, o treinamento árduo pelo qual esses artistas passam por muitos anos e como todos os aspectos possíveis de suas vidas passam a ser controlados pelas gravadoras sul-coreanas após a assinatura do contrato. Lucky fala sobre a saudade da família, das dietas que precisa fazer, sobre os ensaios exaustivos e como precisa dançar se equilibrando em saltos altíssimos e desconfortáveis apenas para atender a um padrão pré-estabelecido do que ela deve ser enquanto artista. Ainda que ame cantar e se apresentar, tocar as pessoas com suas músicas, o brilho no olhar que Lucky tinha no início da carreira não está mais lá devido a todas as regras que deve seguir. Não é raro aparecer notícias sobre como idols sofrem pressão extrema para serem sempre perfeitos, com lentes de aumento focando em todos os aspectos de sua vida, principalmente os pessoais, então é realmente importante que Maurene Goo coloque esse assunto em seu livro. Mesmo que a autora não aprofunde tanto na questão da pressão imposta a pessoas tão jovens e como isso pode desencadear distúrbios alimentares e danos na saúde mental deles, já é um ponto de partida sobre o qual debater.

Por meio de Lucky, a autora também toca no assunto dos estigmas em se falar sobre saúde mental e como a jovem deve manter em segredo a sua ansiedade. O gatilho para as crises de Lucky, por exemplo, são as multidões de fãs que a esperam em todos os lugares, o que mostra a dualidade de ser famoso: se são os fãs a base de trabalho de todo artista, como lidar com o fato de que mesmo eles podem te assustar, te ferir? A autora não envereda por essa reflexão em Um Lugar Só Nosso, mas não é difícil se colocar na pele de Lucky e imaginar o quão assustador deve ser se ver encurralada por pessoas gritando seu nome. O anseio de Lucky por um dia de anonimato reside muito na vontade de colocar um pouco de normalidade e controle na própria vida, algo que ela abriu mão quando decidiu ir em busca de realizar seu sonho de ser uma grande estrela da música.

“— Quer vir junto? — perguntei sem pensar, mas me arrependi de imediato. Ela inclinou a cabeça, acompanhando a minha. De forma precisa, como num movimento de dança. Então apontou o dedo delicado para mim.
— Isso. Me leva com você.”

Quanto à Jack, um anônimo, a vida também tem suas questões, e ele as trabalha enquanto passa o dia com Lucky, explorando Hong Kong e enxergando a cidade por meio dos olhos deslumbrados da jovem que nunca tem tempo de conhecer as cidades por onde sua turnê passa. Os pais de Jack se mudaram da Coreia do Sul para os Estados Unidos em busca de melhores oportunidades de vida; o pai de Jack deixou de lado sua carreira de escritor para trabalhar em um grande banco que o enviou de volta para a Coreia do Sul junto da família. É no banco em que o pai trabalha que Jack estagia, tentando cumprir com sua parte em troca de ter um ano sabático antes de iniciar a faculdade. Jack, porém, não quer seguir carreira no banco e sequer sabe se quer fazer uma faculdade — sua única certeza na vida é a fotografia. Passar um dia com Lucky, fotografando-a sem que ela perceba, preparando um furo de reportagem para o tabloide em que trabalha, pode ser a oportunidade que trará independência financeira a Jack, poupando-o de ter que fazer o que, na sua cabeça, seus pais esperam que ele faça.

Jack está encantado com Lucky muito antes de perceber que ela é a grande estrela do k-pop, então mesmo dando sequência ao seu plano ele tem uma série de sentimentos conflituosos. Enquanto tenta pensar em seu futuro, imaginando que aquele será apenas um dia e que nunca mais verá Lucky após isso, ele não consegue se desvencilhar dos sentimentos que começa a desenvolver pela garota. Mas Jack não é o patife que tenta parecer, muito pelo contrário, e a própria Lucky começa a ver as camadas que se escondem por baixo do sorriso carismático e do cabelo cheio e perfeito. A situação e o relacionamento entre eles se desenvolve com delicadeza e, mesmo em meio às mentiras que um conta para o outro, a cumplicidade que se desenrola entre eles é quase mágica, mas tanto Lucky quanto Jack precisarão colocar tudo em pratos limpos antes de ir adiante com qualquer que seja o sentimento que está crescendo entre eles.

Além do romance e do crescimento dos personagens, outro diferencial da trama de Um Lugar Só Nosso é justamente a cidade em que ela se desenvolve. Como arquiteta de formação, sou naturalmente deslumbrada pela arquitetura de Hong Kong de maneira geral, então foi realmente inspirador acompanhar o passeio de Lucky e Jack pela cidade, enxergando por meio deles um lugar que é ao mesmo tempo enorme e acolhedor, tecnológico e antigo — se alguém ainda não fez um roteiro inspirado em Um Lugar Só Nosso, está mais do que na hora disso acontecer. Todas as refeições que Lucky e Jack fazem durante o dia que passam juntos, os locais que exploram e descobrem, os pontos turísticos e cantinhos mais escondidos, tudo isso me fez desejar mais do que nunca conhecer Hong Kong. Maurene Goo é absolutamente fantástica ao nos fazer mergulhar nessa trama, mesmo que seja necessário relevar algumas (poucas) coisas durante o percurso.

“Eu gostava de preencher as lacunas a seu respeito, observando a formação de uma pessoa completa.”

Se você adora filmes como A Princesa e o Plebeu, curte k-pop e a cultura sul-coreana, esse livro é na medida para você. Um Lugar Só Nosso tem uma protagonista que é ao mesmo tempo divertida, sonhadora e persistente — embora ela possa parecer uma manic pixie dream girl no início da narrativa, isso logo é diluído por meio das reflexões e crescimento da personagem —, um interesse amoroso que é muito mais do que um rostinho perfeito e cabelo fantástico — embora isso conte muito pontos para Lucky — e todo o background cultural de uma Hong Kong que é ao mesmo tempo real e digna de um conto de fadas moderno. Se Lucky é a princesa do k-pop, Jack é o plebeu de bom coração e o resto é história.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Companhia das Letras no NetGalley.


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