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A Geração Z segundo O Clube das Babás

“Quando crianças te contam algo, acredite nelas.”

É o que Morbidda, ou melhor tia Esme (Karin Konoval), aconselha a todos os adultos quando a acusam de ser uma bruxa. Para ela, bruxas são “pessoas, predominantemente mulheres, que recusam-se a se conformar às expectativas da sociedade sobre quem elas devem ser”. Essa é a mensagem central que margeia a nova adaptação da Netflix de uma das maiores franquias dos anos 1990 para crianças e adolescentes, O Clube das Babás.

Ao escrever os primeiros livros de O Clube das Babás em meados de 1980, Ann M. Martin se inspirou em sua própria experiência ao viver sua juventude na época das manifestações pelos Direitos Iguais e a Libertação das Mulheres nos Estados Unidos na década anterior. Ann M. Martin estava focando em não apresentar garotas unidimensionais que caiam no estereótipos superficiais, preferindo focar nas inspirações e no ambiente que esteve enquanto crescia, sempre rodeada de figuras femininas fortes e independentes. Agora, 30 anos depois, as visões de mundo continuam mudando e a série vem com o desafio de ajustar a sua realidade com a realidade da nova geração Z.

O Clube das Babás não conta apenas a história de cinco garotas que, em conjunto, abrem um clube para cuidar das crianças da vizinhança da fictícia Stoneybrook, mas também reforça as mensagens positivas envolvendo a diversidade, sororidade, amizade e independência, sempre focando o público jovem.

O Clube das Babás

Atenção: este texto contém spoilers!

Tudo se inicia com Kristy Thomas (Sophie Grace), a única menina entre três irmãos, que tem a ideia d’O Clube das Babás após presenciar a crise que sua mãe solteira, Elizabeth (Alicia Silverstone), tem enquanto tenta encontrar uma babá de última hora para cuidar de seu irmão caçula. Kristy se auto rotula mandona e não leva desaforo para casa, e ao conhecê-la já sabemos que a menina se tornará uma grande vocalizadora de causas sociais ao crescer. Sendo criada por uma mãe solteira que a ensinou sempre a não depender de ninguém, Kristy não entende quando sua mãe anuncia o casamento com Watson (Mark Feuerstein): de alguma maneira, Kristy acredita que isso significa que sua mãe está abrindo mão do seu feminismo pelo amor, e entra em conflito com o casal.

O Clube das Babás se reúne no quarto da artística Claudia Kishi (Momona Tamada), o que a faz ganhar o cargo de vice-presidente do BSC (Baby-Sitters Club, em inglês). Com apenas 12 anos, Claudia surpreende nas artes, fazendo parte de grandes exposições, participando de aulas com modelos nus e desenvolvendo esculturas sobre menstruação. Apesar de se destacar entre suas amigas, em casa ela está em desvantagem ao ir mal na escola por focar no lado artístico e não na matemática como a sua irmã Janine (Aya Furukawa).

Melhor amiga de Kristy, Mary Anne Spier (Malia Baker), perdeu a mãe muito cedo e é criada pelo pai super protetor. Tímida e sensível, Mary Anne é leal às suas amigas, porém tem dificuldade de se impor e dizer o que quer. Aos doze anos, vendo suas amigas crescerem e se interessarem por outras coisas, ela ainda usa trancinhas, jardineiras e mochila de rodinhas para a escola, com medo de ter que conversar com seu pai sobre crescer. Uma das novatas é Stacey Abrams (Shay Rudolph), nova-iorquina que se muda com a família para Stoneybrook após um vídeo de Stacy durante uma crise, antes de ser diagnosticada com Diabetes Tipo 1, viralizar na internet. Agora, Stacey tem que lidar com um lugar novo, sua diabetes e a forma como a sua família escolhe lidar com a sua doença que, no caso, é escondendo de todos.

Após o divórcio de seus pais, Dawn Schafer (Xochitl Gomez) regressa da Califórnia para Stoneybrook com sua mãe, que cresceu na cidade. Logo no início vemos que Dawn é uma menina descolada com suas visões de mundo influenciada pelo ambiente em que vivia na Califórnia e pensa mais livremente do que as demais meninas; ao mesmo passo, ela precisa lidar com suas próprias batalhas, ao decidir se mudar com a mãe, que ela acredita não saber se virar sozinha, e o novo relacionamento a distância com o pai, que se assumiu gay.

o clube das babás

Quando foi publicado pela primeira vez, nos anos 1980, os telefones ainda tinham fios, a internet não estava a um toque de distância e a norma social estadunidense era que sábado à noite os adultos saíam e os jovens cuidavam das crianças de seus vizinhos. Como um seriado se passando nos tempos atuais consegue reproduzir a realidade de trinta anos atrás? Para contornar os empecilhos da atualidade com a parte que mais toca nos fãs de BSC, a produção encontrou obstáculos reais para trazer um pouco da inocência e aventura da série. Sendo crianças de 12 anos, elas não têm idade para entrar nas redes sociais, então o grupo decide fazer um divulgação boca-a-boca e com folhetos pela vizinhança; inspirada na história da mãe de Kristy, Claudia compra um telefone antigo na internet que se transforma no telefone oficial do Clube das Babás.

Logo no início percebemos como a série é uma revolução para a nova geração, mas também uma inspiração para todas as pessoas. Trazendo crianças como protagonistas, O Clube das Babás conversa sobre temas importantes sempre pelas perspectivas de suas jovens protagonistas e a visão delas de outros personagens. É comum vermos adultos questionarem a opinião de crianças por as acharem inocentes ou sem capacidade de terem opinião própria, porém a maior característica da geração Z é como as pessoas que fazem parte delas são atentas ao mundo e seus problemas.

Quando Kristy é obrigada a escrever sobre decoro como castigo por questionar o professor, ela debate que o professor nunca iria mandar um menino escrever uma redação sobre o assunto e sua mãe concorda. Claudia precisa lidar com seus pais e irmã para seguir com o seu sonho de se tornar uma artista, ela tem coisas para expressar com a sua arte mesmo sendo jovem e sabe exatamente o que quer. Dawn defende aqueles que não têm as mesmas oportunidades que ela, querendo que todos tenham direitos iguais e é a primeira a comandar um protesto no Acampamento Moosehead.

o clube das babás

No terceiro episódio, descobrimos sobre a Diabetes Tipo 1 de Stacey, que causou sua mudança para Stoneybrook. Quando um vídeo seu é divulgado, o grupo tem a maturidade de acionar uma reunião com os pais clientes do Clube e explicar a situação, pois muitos estavam com medo de confiar seus filhos às babás. Mesmo sendo jovem, Stacey já tem consciência de seus atos e o que ela precisa fazer para administrar seus cuidados com a saúde e a tarefa de babá. O diálogo está sempre nela, lhe dando espaço para se defender enquanto os adultos atuam como ouvintes compreensivos.

Um marco da série está no episódio quatro, que tem Mary Anne como protagonista. Em um dia em que Mary Anne está de babá de Bailey (Kai Shappley), elas estão brincando de princesas quando Bailey derruba chá em seu vestido e precisa ser trocada. É enquanto procura algo para a menina vestir que Mary Anne descobre que a criança é uma menina trans. Bailey lhe mostra suas roupas novas, vestidos e saias, que fazem Mary Anne entender que o guarda-roupa da menina ajuda o mundo a vê-la como deseja ser vista, combinando o exterior e o interior de Bailey.

“Todos nós queremos que nossa aparência combine com o interior, certo?”

Em outro dia, Bailey apresenta uma febre que faz Mary Anne ligar para a emergência e ambas vão parar no hospital. Ao presenciar os médicos e enfermeiras chamando Bailey pelo gênero e pronome errado, Mary Anne enfrenta os adultos e exige que eles prestem atenção em Bailey e quem ela é de verdade, a defendendo dos adultos. Esse momento é crucial ao pensarmos que essa cena está sendo assistida por famílias, pais e crianças que talvez já tenham tido contato com uma pessoa trans. A mensagem também fica para aqueles que ainda encontraram pessoas trans. A presença de Bailey na série, a naturalidade e facilidade que Mary Anne teve de entender quem Bailey e aceitá-la, a forma como ela defendeu Bailey e todos entenderam o recado, fará a diferença na vida de centenas de crianças, tornando-as empáticas no presente e no futuro de suas vidas.

o clube das babás

O mesmo acontece alguns episódios depois, quando Stacey e Mary Anne são chamadas para serem babás da família Pike durante uma viagem para a praia. Enquanto Stacey se apaixona por um menino mais velho, Mary Anne encontra em Alex (David Raynolds) um amigo durante o feriado. Em um momento, Alex comenta que teve uma paquera em um menino de sua escola e isso não tem efeito nenhum na conversa. A normalização de pessoas LGBTQIA+ é muito significativa para a série e o que ela pode representar para uma nova geração. Isso não é randômico, uma vez que a própria criadora da série, Ann M. Martin, também faz parte da comunidade LGBTQIA+ e é uma das produtoras do seriado.

O Clube de Claudia Kishi

Junto com o lançamento do seriado, a Netflix lançou um documentário de 17 minutos chamado de O Clube de Claudia Kishi reunindo artistas nipo-americanos falando sobre a importância de Claudia Kishi quando eles estavam crescendo durante os anos 1980 e 1990.

Naquela época existiam poucas referências de personagens asiáticos na mídia e aqueles que existiam sempre vinham acompanhados de estereótipos e preconceitos, escritos por pessoas brancas com o objetivo de alívio cômico ou personagens que não agregam nada para a história principal. Claudia Kishi chega em um momento que praticamente não há uma representatividade autêntica de personagens asiáticos e revoluciona para milhares de crianças a visão de quem eles podem ser.

Apesar de Claudia ser escrita por uma mulher branca e ter muitas descrições estereotipadas e momentos problemáticos nos livros, Claudia se destaca por ir contra a corrente de personagens não-brancos sem narrativas nas histórias daquela época ao ser protagonista de seus livros e ter uma real personalidade que não depende das personagens brancas. Claudia Kishi é ousada e autêntica, ela gosta de se vestir para chamar atenção e sair do convencional, é descolada ao ponto de ter livros ocos em seu quarto onde ela esconde doces e cria arte que fala sobre quem ela é e o que ela acredita. Outro ponto importante na representatividade de Claudia é a sua família, principalmente Mimi, a avó de Claudia (que na série foi interpretada por Takayo Fischer), que a apoia nas suas paixões e no lado artístico da neta que é criticado pela família algumas vezes, por Claudia dar mais atenção para a arte do que para a escola.

O documentário nos ajuda a entender como a série de livros de O Clube das Babás revolucionou e mudou a vida de crianças e jovens pela perspectiva de Claudia Kishi. No seriado podemos enxergar como ele terá o mesmo fenômeno tanto com a personagem como com outras personagens que agora são interpretadas por pessoas negras e latinas, criando um ambiente mais diverso e representativo para a nova geração.

O Clube das Babás é com certeza um dos seriados juvenis do estilo feel good que mais me surpreenderam nos últimos anos, resgatando a essência daquilo que seus fãs sempre amaram e inserindo narrativas que as crianças de seus fãs de trinta anos atrás também vão amar, transformando-se em um atrativo para a família inteira. Uma promessa de que a nova geração realmente está vindo com tudo e nada poderá nos impedir de mudar o mundo para melhor.

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