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A saúde mental como entrelinha na música de Noah Cyrus

Desde que surgiu na mídia como cantora, Noah Cyrus tem colhido bons frutos de seu trabalho. Aos vinte e poucos anos, a artista é especialista em abordar os corações partidos, as frustrações e as angústias de uma geração que sente ao extremo e pior, como se a internet fosse um sujeito ativo de tudo isso.

Partindo dessa premissa, em 2016 é lançado o single “Make Me (Cry)’ (feat. Labrinth)”, no qual explora a dicotomia entre bem e mau de um relacionamento tóxico, tema que seguiria com a cantora até o EP Good Cry (2018). Com o primeiro single inspirado no fim, repleto de acusações em redes sociais, do namoro com Lil Xan, a balada “Mad at You (feat. Gallant)” tem no seu refrão um coro inspirado no estilo gospel, que dá peso a toda a intensidade jovem: há uma predileção em colocar a outra pessoa em primeiro lugar, criando um nada saudável sentimento de dependência.

É na faixa-título, porém, que Noah aborda abertamente sua batalha contra a depressão e ansiedade. “Good Cry” é absolutamente sobre si mesma e sobre buscar formas, ortodoxas ou não, de tentar se encontrar e aliviar o sentimento sufocante que vem com “uma realidade que bate como um trem”. Assim, é por se encontrar totalmente “sem amor” e “sem esperanças” devido a um tipo de dor que a deixa até embaraçada que é necessário se colocar de lado, entender esse momento e apenas… chorar. E quantos meninos e meninas, aos 18 anos, já não se sentiram da mesma forma?

Em entrevista à Paper Magazine, a cantora contou que “escrever é melhor jeito para conseguir clarear a mente. É também um bom jeito de explicar seu passado e o que você espera para o futuro”. Trata-se de um traço da arte de Noah compor e cantar sobre o que vive e, ainda que isso seja um escape e uma forma de melhor se expressar e autocompreender, não substitui a ajuda profissional.

Assim, enquanto em “Good Cry” ela simplesmente se rende, sem forças para lutar, em “Sadness” a Cyrus mais nova tenta fazer as pazes com seus demônios, explorando os altos e baixos de uma relação que só tem uma atriz. É Noah por ela mesma, mas admitindo que, mesmo após três anos de terapia, continua precisando de apoio emocional: “Então, estou tentando ser amiga da minha tristeza / bebendo com meus medos e maus hábitos” / Estamos todos juntos nisso / Nós sempre nos levantamos e caímos”.

Noah Cyrus

Durante o aniversário de dois anos de lançamento do EP, Noah falou um pouco sobre o projeto e o fato de entrar em uma turnê pelos Estados Unidos durante uma época em que a depressão era muito severa: “[…] todos os dias era como se tivesse que levantar 100 quilos apenas para sair da cama. A dor no meu peito era insuportável. Aos 18, eu não achava que estaria aqui para um aniversário de 20 anos — quase 21. Eu estava tão triste, tão machucada e assustada.”

Pesa para a cantora o fato de ter crescido sob tanta publicidade como irmã de um dos maiores fenômenos da música mundial, vinda de uma família com tanta tradição em Nashville, o berço do country americano e com um sobrenome que soa, inclusive, pesado para alguém que está tentando encontrar uma personalidade própria e autêntica em meio a tudo isso, especialmente quando é diretamente moldada por experiências que a maioria das pessoas não viveram e jamais irão, o que, de certa forma, a isola do mundo real.

Em 2020, a cantora já compreende que há momentos de progresso, mas também de regresso, ascensões e quedas com os quais têm de lidar, pois, às vezes, esse é um tipo de sentimento que deve ser sentido da forma certa. Por isso, em post no Instagram, ela continua: “[…] todos os dias é um esforço quando se trata de saúde mental e batalhas pessoais. Nem todos os dias serão um inferno e nem todos os dias serão perfeitos. Eu ainda estou lidando com isso. […] eu ainda preciso de um ‘bom choro’ de vez em quando […]”.

Para Noah, parte do processo de se encontrar está diretamente ligado à sua música. O EP The End of Everything encontra uma vertente musical completamente diferente do indie-pop de “Good Cry”. Inspirado por Bob Dylan, o projeto é centrado numa sonoridade mais folk e próxima de suas raízes inegavelmente country e explora temas que só poderiam ser destrinchados a partir de uma compreensão maior de mundo e de si mesma.

O trabalho parte de sua típica melancolia, mas mais madura, sendo impactado por atualidades como as mudanças climáticas em “I Got So High that I Saw Jesus” e até mesmo pela pandemia. Lançado em maio de 2020, o projeto cabe como uma luva numa época em que se valoriza cada vez mais o tempo em si mesmo e o tempo junto a quem se ama na iminência d’O Fim de Tudo aquilo que se conhece do jeito que costumava ser.

Para além das reflexões complexas sobre o tempo e o mundo, Noah não tem medo de se colocar recorrentemente como o eu-lírico direto de suas canções. Em entrevista à Forbes, ela conta que as influências musicais apresentadas por seu pai, especialmente Slow Tain Coming, álbum de Dylan de 1979, e Seasons In The Sun de Terry Jackson (1973), a moldaram como artista, complementando que é por esse motivo que não tem “receio de escrever canções que machucam”.

Noah Cyrus

Por isso, em “Young & Sad” a cantora toca em uma de suas maiores feridas: a eterna e inevitável comparação com Miley Cyrus desde o início de sua carreira. A quarta faixa do disco é aberta com uma mensagem de voz de Billy Ray Cyrus afirmando que “ela não está sozinha” e “tudo vai ficar bem”, demonstrando o tom pessoal da composição onde, no segundo verso, ela entoa: “Minha irmã é como a luz do sol/ Sempre levando uma boa luz/ Para onde quer que ela vá/ E eu nasci de nuvens de chuva/ Quando eles apagaram a chama/ Abençoada na sombra dela”.

Ao mesmo tempo em que Noah desafia aqueles que esperam algo dela que seja parecido com Miley, também deixa claro como ambas não poderiam ser mais diferentes, tanto em personalidade quanto sonoramente, além de cantar sobre estar cansada de “tentar satisfazer alguém que não se importa [com] onde a mente dela está”, como se em algum momento realmente houvesse tentado “sorrir mais” ou “mostrar mais os olhos” quando isso não faz parte de quem é, embora tente lutar contra o clichê da geração: a juventude triste.  Foi por esse motivo que a cantora mudou a letra original da música de “I want to be young and sad” para “Don’t wanna be young and sad”:

 “Isso é o mais honesta que posso ser sobre minha real saúde mental. […] Eu estava tendo um momento difícil comigo mesma. Meu pai me ligou e ouvi-lo me dizer para colocar um sorriso no rosto realmente quebrou meu coração, por que eu não sentia que alguém realmente queria me ver sorrindo. Originalmente, quando eu escrevi a música, a letra seria ‘eu quero ser jovem e triste’. Mas não estava certo, porque eu não quero. Há essa coisa acontecendo na música [atualmente], onde a tristeza está se tornando um tema. Eu não estou tentando glorificar [a depressão]” — Noah Cyrus ao Apple Music (2020).

Apesar disso, dá verossimilhança ao que se conhece de Noah como artista e como uma pessoa que lida constantemente com depressão e ansiedade, que exista uma faixa no EP, onde a solidão seja abordada numa forma mais crua e pessimista. “Lonely” representa os dias de queda, onde a realidade não parece ter perspectiva e quando é necessário gritar por ajuda devido a essa impressão de estar sozinha demais. Como diversos outros artistas habituados a estarem rodeados de pessoas — entre equipe e público — a todo o instante, a mudança brusca pode soar assustadora e “solitária”, como é para Noah.

Faz parte da personalidade artística de Noah Cyrus explorar as várias vertentes para onde sua batalha por saúde mental a leva. É o que faz em “Ghost”, mas também na forma como decide abordar uma questão tão pessoal em cada uma de suas músicas: “E quando você está olhando no espelho/ Os demônios talvez estejam mais próximos do que aparentam/ Você pode chorar, sentar e encarar/ Ou tentar correr”.

Com o passar do tempo, Noah se viu cada vez mais confortável para usar seu espaço na mídia e nas redes sociais em nome do debate em torno da saúde mental, se abrindo sobre sua própria experiência de luta contra a ansiedade e depressão desde os 11 anos. À rádio Sirius XM, a cantora contou que tomou quase todo o ano de 2019 para fazer uma pausa. Por não se sentir confiante o suficiente e não querer estar na frente de ninguém, Noah não conseguiu lançar nenhuma canção e decidiu deixar de lado o ritmo de trabalho advindo de “Good Cry” e singles avulsos para cuidar de sua mente.

Em alguns momentos ela está tentando correr, em outros tentando fazer amizade com seus demônios para descobrir como pode lidar com eles e, por aceitar trabalhar isso da melhor maneira possível, decidiu que uma dessas formas seria pelo uso de medicamentos, que ocorreu após muitas discussões com sua psiquiatra. Porém, Cyrus também sabe que existe um estigma em torno do tratamento de questões mentais por meio de drogas farmacêuticas, tanto por remeter a um paralelo de loucura, que já não deve mais prevalecer, quanto pelo medo da dependência:

“[…] Eu sei que muita gente, às vezes, não quer medicação — e talvez isso não funcione para você. Mas, se está aberto a essa opção e se for [um caso] severo, pode mudar sua vida. Eu ainda tenho ansiedade e ataques de pânico, [mas a medicação] me ajuda a sair de casa, me ajuda a acordar de manhã e tipo… Ter vontade de ver a luz do dia, porque antes eu ficava no meu quarto e nem queria levantar da cama. Definitivamente abriu minha mente, eu estava perdendo tudo.” — Noah ao The Blue Boy Foundation: A Conversation on Mental Health (2019)

Em 2021, após indicação ao Grammy na categoria Best New Artist, em parceria com seu parceiro de composição, PJ Harding, a cantora lançou o EP People Don’t Change. E, embora deixe de lado a explicitude dos temas tão centrados em si mesma, se voltando àquele mais universal que se conhece — o amor e os relacionamentos líquidos de sua geração —, a saúde mental de Noah Cyrus soa como uma entrelinha permanentemente incorporada no lirismo da artista.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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