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A pluralidade das Mulheres Apaixonadas de Manoel Carlos

Como um autor consegue exprimir tão bem as mazelas femininas ao mesmo tempo em que o faz em situações extremamente machistas é o grande mistério ambíguo de Manoel Carlos. Suas obras são cheias de situações corriqueiras da vida real, mas tão carregadas de uma carga patriarcal e condescendente em relação às personagens femininas que seu texto tem dificuldade em se adaptar às rápidas mudanças que vêm acontecendo nas últimas décadas em relação ao papel da mulher na sociedade. Ao revisitar suas novelas antigas, é possível observar que suas ideias, preconceitos e estereótipos já estavam presentes nos antigos sucessos. Fomos nós que evoluímos como todo, e as tramas, apesar de bem dialogadas, estão cheias de pensamentos degradantes e, sem outra palavra para exprimir com clareza, machistas, apenas.

Mulheres Apaixonadas, folhetim de 2003, não tem uma Helena muito destacada, marca registrada do autor em suas outras obras. A personagem de Christiane Torloni fica um tanto apagada — ou não tão em evidência — em um elenco principal múltiplo. Como o título sugere, essa é uma história de multinarrativas, em que várias personagens femininas apresentam suas alegrias e tristezas no seio da classe alta do Rio de Janeiro.

Com trama passando no decorrer de um ano, o colégio ERA foi o ponto de convergência de diversos núcleos, com inspiração clara no seriado-novela Malhação: em nenhuma outra novela de Manoel Carlos houver tantos jovens, tantos enredos com adolescentes em que suas histórias não só eram relevantes como compunham núcleos por si mesmas.

Mulheres Apaixonadas é também uma resposta clara do autor ao sucesso mundial do seriado Sex and the City, em que quatro mulheres solteiras de 30 e 40 e poucos anos conversavam e se aconselhavam sobre suas experiências romântico-sexuais na cidade de Nova York. Mas o Leblon é bem diferente do Upper West Side (bairro onde a personagem principal de Sex and the City morava) e Helena e suas amigas e irmãs já são mulheres formadas e casadas. O autor acerta em mostrar que a vida não termina no casamento: a mulher ainda é mulher depois de dizer o “sim”. Ele erra ao mostrar que só há um caminho a seguir depois dessa afirmação: trair e/ou ser traída.

Helena: a “não mãe”, mulher amante

Helena está em um casamento extremamente infeliz com Teo (Tony Ramos). Desgastado, em crise, e esperando o abate final. Ela sofre por não querer sair como a errada, como a que desistiu, a que não lutou pelos dois. Mãe de Lucas (Victor Cugula), um garoto que ela adotou sem saber ser filho biológico de seu marido com Fernanda (Vanessa Gerbelli), é uma das poucas, se não a única, Helena de Manoel Carlos a não ter sua existência ditada por ser mãe. A Helena de Torloni não tem problema algum para resolver com seu filho, muito menos vive apenas por ele. Ela é uma mulher que tem desejos sexuais marcados e marcantes, que não se reprime por ter junto a si o título de mãe.

Antes mesmo de terminar tudo com Teo, já está pensando em César (José Mayer), um antigo namorado que voltou a aparecer em sua vida. Helena quer ser feliz romântica e sexualmente, e não liga muito para as morais da classe alta a qual pertence. Ela trai Luciana (Camila Pitanga), a enteada, com César, assim como havia traído Teo com César no passado e vice-versa; não se importando em ficar num vai e vem entre o ex-marido e o atual amante até decidir com qual dos dois quer levar um relacionamento.

Helena pode ser considerada um tanto “agressiva” em suas abordagens passionais. A verdade é que Maneco troca os estereótipos folhetinescos masculinos e femininos entre Helena e César: é ela quem o procura incansavelmente, chegando até mesmo a encurralá-lo em seu escritório no capítulo 92, o beijando de um jeito típico de mocinhos de novela. Após o beijo, é César quem fica abobado, se escorando na parede, enquanto ela sai confiante, deixando-o mais uma vez para decidir se a aceita de volta ou não. Helena é o relacionamento tóxico de César, voltando à  vida do amante sempre que ele está em um momento estável e feliz.

A personalidade de César é suavizada ao longo de Mulheres Apaixonadas. No começo, traidor, autoritário, arrogante e um tanto narcisista, durante a trama vai sucumbindo às vontades de Helena e é possível perceber que suas atitudes iniciais nasciam do rancor que ele nutria pelas ideias de romance e relacionamento originado de seu grande amor. Por causa de Helena, César passava pelas mulheres com quem se relacionava procurando infligir a elas o que a ex havia feito com ele: as traindo, trocando uma pela outra, sempre as colocando em uma situação de rivalidade por sua atenção.

Apesar de infeliz no casamento, em nenhum momento passa pela cabeça de Helena a possibilidade de se separar de Teo e apenas ficar sozinha. Para Helena — e para seu criador — a felicidade da mulher só é alcançada pelo casamento. Mas essa é a busca da protagonista: ser amada; em suas próprias palavras. É isso que ela responde quando César pergunta “O que você quer mais?”

“Eu não quero mais nada! Aliás, eu quero sim. Eu quero ser respeitada, bem tratada, e principalmente amada, muito amada. E bem amada.”

A motivação de Helena é encontrar e viver um grande amor. É por isso que trai César com Teo e Teo com César: pois está sempre em busca da emoção da paixão. Egoísta, sim, não se importando muito com o que o outro lado sente ou deixa de sentir, se continua amando também ou não. “Para onde vai o amor quando um relacionamento acaba?”, Teo pergunta, fazendo menção ao fato de que ainda ama Helena — e ecoando Carrie Bradshaw, a protagonista de Sex and the City, em uma fala do último episódio da segunda temporada —, mesmo que ela não mais o ame. Helena ama, acima de todas as outras pessoas, a si mesma, e não se sente envergonhada ou inibida por esse amor. Não se diminui para conseguir o que quer, não se martiriza por nenhuma outra pessoa. É, talvez, a maior anti-heroína do autor e assim, sua Helena mais autoconfiante.

“Talvez eu não tenha vocação para a fidelidade. Sou mesmo a anti-heroína, aquela que não dá lição de moral no final da história. E que é até capaz de alguns deslizes para ser feliz.”

Luciana: princesinha Zona Sul carioca

Se as outras Helenas de Manoel Carlos têm filhas que as antagonizam, rivalizam ou apenas causam problemas em suas pacatas vidas leblonianas, a Helena de Mulheres Apaixonadas, apesar de não ser marcada como mãe, tem em Luciana o estereótipo de sua rival. A filha de Teo é uma residente na clínica Moretti, uma moça que, por ter crescido entre Leblon e Barra, tendo tudo o que sempre quis, passa muitas vezes por mimada.

Luciana é quase uma Eduarda de Por Amor, embora sua trama amorosa remeta a Marcelo e Laura. Ela pouco sofreu na vida e nunca passou por grandes dificuldades ou traumas, tendo uma existência perfeita, sem grandes percalços — a não ser pela proibição do romance entre ela e o primo, que parece não ter tido tanta resistência assim por parte dos jovens. A grande diferença entre as duas, e mérito de Manoel Carlos, é que Luciana é negra. Ao contrário das outras personagens estereotipicamente racializadas em todas as outras novelas do autor e na própria trama, Luciana é uma médica negra, não sexualizada em momento algum e competente no que faz.

É também uma personagem prepotente, quase arrogante, que se acha dona da razão. Isso fica claro quando ela se mete nas decisões que Helena toma sobre Lucas: sai com o meio-irmão sem permissão de Helena mais de uma vez, deixando claro que não se importa com a autoridade da madrasta sobre o próprio filho.

Além disso, Luciana se envolve romanticamente com César. Mesmo sem saber, esse envolvimento gera mais uma oposição a Helena e, ao final da trama, se mistura ao desprezo que a moça sente em relação à autoridade de Helena, culminando numa rivalidade. Luciana só não vira uma vilã completa em Mulheres Apaixonadas porque o público tem contato com seu relacionamento com Diogo (Rodrigo Santoro) e sabe que Luciana e César não são um casal tão magnânimo como a moça acreditava ser.

Ao longo da trama, como talvez aconteça com a maioria dos enredos de Mulheres Apaixonadas devido à duração da novela e à quantidade de personagens, Luciana acaba por ficar em espera até se reunir novamente com Diogo. Diogo, ao contrário da própria Luciana, é um dos personagens que mais evoluiu durante o folhetim, mesmo aparecendo pouquíssimo (devido à carreira internacional de Rodrigo Santoro, que decolou justamente na época). Ele tenta ser um marido fiel, aguentando a falta de sossego das inseguranças de Marina (Paloma Duarte) até o final do casamento, e então, após o término, tenta focar em si mesmo, para só depois (re)começar um romance com a prima.

Ao final, Luciana fica com Diogo, agora sem oposição nenhuma da família. Vai para Nova York com o amado também sem muitas restrições. Afinal de contas, é uma princesinha carioca: tem tudo o que quer e mais um pouco. Apesar dos pais serem músicos, escolheu uma profissão oposta, com estabilidade, já entrando nela com grandes conexões familiares. Luciana passa pela novela traída, mas num relacionamento em que ela mesma já não via futuro, e termina a trama sem muitos arranhões.

Heloísa: homens desonestos fazem mulheres inseguras

Entre Marina e Heloísa (Giulia Gam) há um abismo criado pelo tratamento que seus respectivos maridos reservam a elas. Enquanto Diogo se esforça em se manter fiel, respeitando Marina, conversando com outras mulheres apenas trivialidades, Sérgio (Marcello Antony) faz questão de comentar insinuações sexuais com todas as mulheres que encontra em seu caminho. Já nos primeiros capítulos, vemos ele fazer piadinhas sexuais e até avanços com Estela (Lavínia Vlasak), prima de Helô, e Vidinha (Júlia Almeida), garota que viu crescer.

Esses comentários são feitos na frente da esposa, e também do concunhado, Leandro (Eduardo Lago), conversando sobre garotas jovens quando estão sozinhos jogando vôlei na praia. Vidinha e Dóris (Regiane Alves) dizem no capítulo 23 que “O Sérgio é fogo, né. Quando está longe da mulher é outro homem”, confirmando que Sérgio dava em cima de outras mulheres durante todo o relacionamento dos dois.

Após levar uma facada da esposa por ciúmes, Sérgio começa a repetir que nunca havia dado motivo para que ela desconfiasse dele, o que fica claro ser uma mentira. Não só ele como os outros personagens acham a reação de Helô desproporcional, porém, pode ser compreendida como uma reação extrema de sofrimento por alguém que está sofrendo um abuso psicológico do tipo gaslighting: quando o cônjuge faz algo, mas dissimula esse fato, fazendo o outro acreditar que não aconteceu de verdade, levando a vítima à loucura.

As atitudes machistas de Sérgio minam a confiança de Heloísa para com ele durante toda a extensão do casamento, e a negação de que ele realmente teve essas atitudes acaba por levá-la a desconfiar de tudo e todos até chegar numa paranoia clínica. O sistema social em que Sérgio está inserido permite que de abusador ele vire vítima, pois suas atitudes abusivas são vistas com naturalidade, como “homem é mulherengo mesmo”. Assim, para fugir de seu abuso psicológico, como uma forma de pedir ajuda, Heloísa inicia ela mesma um ciclo de abuso, tanto físico (a facada, cortar as roupas de Sérgio), quanto psicológico (perseguir o marido, fazer uma declaração romântica em público no capítulo 81, entre outros). O pedido de ajuda de Helô não é ouvido pelo marido, mas sim por Leila (Xuxa Lopes), que sugere que ela vá até o MADA, o grupo de apoio Mulheres que Amam Demais Anônimas.

Apesar de frequentar as reuniões do MADA e tentar ter um estilo de vida diferente, mesmo voltando com Sérgio, o relacionamento dos dois não evolui. Sérgio não muda suas atitudes quanto às outras mulheres, ao contrário, começa um estreitamento de laços com Vidinha, que também provoca Heloísa a todo o momento. É evidente que Sérgio não está mais junto a Helô. Ela está sozinha no casamento.

Ela nunca quis ter filhos, mas começa a voltar atrás pela pressão do marido — que sempre quis tê-los — e das pessoas ao redor. Algumas até a incentivam, dizendo que só um filho “seguraria” Sérgio junto a ela. Quando o relacionamento começa a ficar cada vez mais insustentável, com o marido nem olhando no rosto de Heloísa, ela pergunta se ele não quer mais ter filhos, ao que responde que Helô não é a única mulher no mundo, que ainda quer tê-los, mas não com ela. A partir dali, fica claro que apenas Heloísa quer que o casamento continue.

Heloísa é, para a trama e para os espectadores, quase uma vilã descontrolada. Uma egoísta psicótica, que chegou a fazer laqueadura em segredo para não ter que dividir o amor de seu marido. Quando revela a sua irmã sobre a laqueadura, enfim se entende porque manteve o fato em segredo: só falta Helena cuspir na caçula. Helena, que sempre quis filhos, mas nunca conseguiu engravidar, fica furiosa em saber que Heloísa não quer tê-los. Mais do que isso, julga a irmã de forma vil e cruel. Para Manoel Carlos e suas Helenas, sempre mães, as mulheres estão no mundo para se reproduzir. A maior alegria de uma mulher é (e deve ser) ser mãe. Não há escolha, e se há, é porque essa mulher não natural, monstruosa, sofre de alguma patologia psíquica, precisa de tratamento.

É a isso que Heloísa é relegada. Numa cena inconcebível atualmente, Helô é enviada a uma clínica à força, sedada, com a permissão de Helena. Ao final da novela, parecendo melhor, mais controlada, é possível sentir sutilmente que ainda tem esperanças de voltar com Sérgio. Não só isso, mas ele alimenta essa esperança flertando e se preocupando com ela quando conversam na formatura do ERA, mesmo estando ao lado de Vidinha, não sabemos em que tipo de relacionamento, se de amizade ou romântico-sexual.

Existem muitos paralelos que podem ser feitos entre Heloísa e Marcos (Dan Stulbach), o grande vilão de Mulheres Apaixonadas. Principalmente no âmbito da perseguição de seus cônjuges: Marcos surge na trama sem realmente aparecer, já perseguindo Raquel (Helena Ranaldi); Heloísa passa boa parte do folhetim querendo saber onde e com quem Sérgio está, até mesmo chegando a sofrer um grave acidente de carro por fantasiar que ele estaria com outra.

Apesar de claramente psicopata, dentro da trama não se questiona em nenhum momento o fato de Marcos “amar demais” Raquel. Helena, apesar de saber os abusos que a professora sofre, não faz nada além de dar conselhos bobos a ela. Heloísa por outro lado é repreendida por todos os personagens que cruzam seu caminho. Marcos passa por um homem apaixonado, mesmo quando sai perseguindo a esposa pelo corredor de um hotel com uma arma em mãos. Ninguém percebe o descontrole dele em momento algum, ao contrário do de Helô, que é questionada a todo momento por atos que podem até se justificar.

É necessário que Marcos seja preso por agressão para que tenha um tratamento parecido ao que Heloísa vive em Mulheres Apaixonadas. Mesmo assim, apesar de passar mais de ⅓ da novela perseguindo Raquel, sem nem um pingo da autoconsciência que Helô tem, sua única punição é ir à delegacia para responder aos inquéritos. Manoel Carlos, como sempre, erra e acerta na mesma proporção: os paralelos entre Marcos e Helô denunciam a nossa sociedade patriarcal, como a punição é desproporcional, como a mulher tem um estigma de loucura a sua volta, enquanto o homem passa despercebido e ileso, apesar de cometer diversos crimes.

Raquel: vítima e abusadora

A personagem mais equivocada de Mulheres Apaixonadas talvez seja Raquel, a professora de Educação Física do ERA. Já no primeiro momento em que aparece olha para um estudante de 17 anos dentro da piscina da escola e, sem conhecê-lo, fica obcecada por ele. Chega até a escrever o nome do garoto no vapor do espelho de seu banheiro, no melhor estilo menina apaixonada. Fica por dias em silêncio e à distância observando-o nadar na piscina ao som de I’m With You de Avril Lavigne.

Esse garoto é Fred (Pedro Furtado), menino doce e tímido, que viria a ser aluno de Raquel no ano letivo que se iniciava. Seus primeiros contatos com ele são marcados por frases dignas de abusadores e groomers: é ela quem inicia as conversas, diz que eles têm muitas coisas em comum, que também gosta de nadar, que os dois podem ser amigos e que podem nadar juntos. Raquel enfatiza muito a palavra “amigo”, utilizando dela por diversas vezes numa mesma frase.

Fred, um moço calado que não se mistura muito com o resto da turma, não vê problemas nem reticências em se relacionar com Raquel. Ao contrário, abraça essa amizade de forma furiosa, ávido pelo afeto vindo da professora. Filho de um divórcio intenso que acabou na mudança dele com a mãe para o Rio de Janeiro, vê em Raquel uma companhia que o entende, mesmo que sua mãe não veja essa amizade com bons olhos. Para Mulheres Apaixonadas, a mãe de Fred querer protegê-lo de Raquel a faz vilã: sua trilha sonora é a mesma destinada aos outros vilões da trama.

Raquel pode não perceber ou ter consciência, mas desde o início ela faz um grooming com Fred que culmina no ato de um relacionamento sexual entre os dois. Deixando de lado as legalidades da pedofilia, apenas a diferença de poder entre Fred e Raquel já configuraria um relacionamento abusivo. O encantamento do garoto pela professora pode até ser psicologicamente explicado, mas Raquel é uma adulta totalmente formada, dona de si, enquanto Fred é um garoto às voltas com a descoberta própria do mundo. Raquel não poderia, nem deveria, se encaixar nesse mundo.

Nessa desconexão entre Fred e Raquel, em um relacionamento que hoje em dia podemos ver como claramente abusivo, é que entra Marcos. Manoel Carlos já pensava em abordar na trama de Mulheres Apaixonadas um relacionamento com abuso físico. Helena Ranaldi questionou o motivo de Raquel se relacionar com Fred e sugeriu que ela tivesse tido algum tipo de trauma no passado. Para a atriz, não havia justificativa para uma professora estar tão obcecada por um aluno, a não ser que procurasse se relacionar com alguém que fosse o oposto de um ex. Marcos entra na história para ser esse trauma e tentar explicar Raquel e Fred. O público já está engajado quando é descoberto o motivo de Raquel ter se mudado para o Rio: estava fugindo de seu ex-marido. Para anunciar que a encontrou, Marcos começa uma perseguição psicológica com Raquel, ligando para ela e não dizendo nada, mas tocando no telefone a música que marcou o relacionamento dos dois.

Manoel Carlos é considerado um cronista do cotidiano e isso é ampliado em Mulheres Apaixonadas. Por medo de ser encontrada por Marcos, Raquel sai de seu apartamento apenas para alguns poucos lugares: a escola e o supermercado. É numa cena marcante ambientada nesse local que o público compartilha o desespero da professora. Ao pensar estar sendo seguida pelo ex, ela entra em pânico, abandona o carrinho de compras e sai do mercado às pressas, arrastando a empregada Yvone (Arlete Heringer). O jogo de câmeras, a respiração pesada de Raquel, seu olhar inquieto procurando algo que ela não sabe se está ali ou não, causa no público a empatia necessária para que se compadeça da personagem antes mesmo de conhecer a dimensão real do abuso a que era e irá continuar sendo submetida. Assim, quando Marcos finalmente surge, e quando a personagem tenta escapar de seus avanços, mas acaba se envolvendo em seus abusos psicológicos, já sabemos o que está acontecendo ali. Vai além: revisitando a trama quase vinte anos depois, sabemos que pouco mudou para mulheres que vivem relacionamentos abusivos hoje em dia.

Raquel tenta por diversas vezes terminar com Marcos, ameaça denunciá-lo. Ele, como um abusador típico, a manipula de todas as formas, inclusive fazendo perguntas hipotéticas que atualmente muitos ainda fazem às vítimas de relacionamentos abusivos: “por que não denunciou antes?”, “Viveu oito anos apanhando de um homem?”. Essas perguntas têm respostas simples (por amor, por promessas de que a pessoa amada mudaria etc.), mas são usadas para coagir vítimas de abuso a não denunciar seus agressores. Mais ainda, fazem com que essas vítimas se sintam responsáveis pelos abusos que sofrem, se envergonhem de não terem denunciado antes. Mas nunca é tarde demais para essa denúncia.

Ao final da trama, auxiliada por Helena após um abuso físico pesado de Marcos, Raquel junta forças para fazer um boletim de ocorrência na Delegacia da Mulher. E, assim, Mulheres Apaixonadas se insere na vida da sociedade brasileira de forma marcante: é a primeira novela a mostrar todo o processo de denúncia na Delegacia da Mulher, inclusive criticando a falta de rigidez das leis brasileiras de violência contra a mulher. Após o ambiente figurar no folhetim, foi observado aumento de denúncias e procura da delegacia.

Marcos acaba por não pagar nem a cesta básica de sua provável condenação: morre ao jogar seu carro de um penhasco. Sentado no passageiro estava Fred, que encontra o mesmo destino após ter relações sexuais com Raquel, que no último capítulo revela estar grávida do garoto. Assim, a personagem consegue figurar em duas tramas paralelas de abuso: tanto como vítima do abuso psicológico e físico do ex-marido, como abusadora groomer de Fred, chegando a ter até mesmo relações sexuais com o garoto. Erros grandes e acertos igualmente proporcionais em apenas uma das tramas das mulheres do título.

Dóris: grande vilã?

Concebida inicialmente como uma adolescente revoltada, Dóris é considerada uma das personagens mais cruéis de Manoel Carlos. Uma moça com 19, 20 anos, que carrega em si um desprezo grande por sua família, principalmente pelos avós paternos, que residem com eles. Durante a novela ela usa de gaslighting para roubar dinheiro dos idosos, age com grosseria, além de praticar um forte abuso psicológico para com eles; enquanto o casal de senhores é sempre amável e gentil com ela, demonstrando um amor genuíno para com a moça.

As atitudes de Dóris não condizem com sua idade, e por isso ela passa a mensagem de crueldade. A personagem teria sentido como adolescente, mas como jovem adulta em processo de amadurecimento, o tratamento que dá aos avós se desloca de suas interações com os outros personagens. Se comparada às outras moças de sua faixa etária, Edwiges e Vidinha, que apresentam uma postura condizente, essa concepção adolescente da personagem fica ainda mais evidente.

Ao longo da trama, com revelações sobre Carlão (Marcos Caruso), é possível entender cada vez mais a psicologia por trás de Dóris e o motivo pelo qual ela faz questão de antagonizar tanto os avós paternos. A primeira reação que o pai teve quando Irene (Marta Melinger) contou que estava grávida foi rejeitar o bebê e pedir para que fosse feito um aborto. Não só isso, mas após nascer, Dóris cresce sentindo essa rejeição constante por parte do pai. Porém, ao invés de desabafar e se enraivecer com seu progenitor, psicologicamente ela rivaliza com as pessoas com quem o pai mais ama: tanto seus avós, quanto o irmão mais novo. Essa rivalidade não inclui Irene pois a mãe sempre ficou ao lado da filha, inclusive validando o desprezo dela pelos sogros.

Essa psicologia não é endereçada durante a trama. A personagem é punida fisicamente algumas vezes pelo pai (as famosas “Surras de Dóris”), mas apenas uma delas ocorre pelo tratamento que dá aos avós. Nas outras “surras” que leva de Carlão, apanha por ser “promíscua”, sexualmente livre, comportamento que deveria ser naturalizado em uma jovem moça de 20 anos no início do século XXI. A motivação por trás das surras que leva é estritamente a liberdade sexual que Dóris apresenta.

Seus pais não parecem tomar consciência de nenhuma das ações que a personagem tem para com os outros, ignorando suas atitudes por boa parte de Mulheres Apaixonadas. Ao mesmo tempo que esses fatos são ignorados por seus pais, a menstruação da garota é controlada de perto tanto pela mãe quanto pelo pai. O atraso ou não do ciclo menstrual de Dóris é assunto comum dentro da casa, e controle/preocupação também de seus pais. Nem na concepção original da personagem isso faria sentido. A preocupação com uma possível gravidez é até plausível, mas não o controle da vida sexual de uma moça maior de idade.

Enquanto existe a tentativa de controlar Dóris sexualmente, chegando a um slut shaming pesado não só por parte dos pais mas também de outros personagens — como Eugênio (Sylvio Meanda), o secretário de Estela, que afirma que o único jeito para Dóris seria casar, mas que ela não pode pois é “rodadassa”, falando do fato dela ter relações sexuais com muito homens. Carlão é compreensivo com as vontades sexuais do filho Carlinhos (Daniel Zettel), chegando até a normalizar o assédio que o garoto faz com a empregada. Carlinhos espia a empregada nua pela fechadura e faz comentários indecentes constantemente, mas não leva sequer um tapa por isso.

Atrelar o conceito ultrapassado e perigoso de promiscuidade com uma personagem vilã como Dóris faz com que se coloque sexo em um patamar religioso de pecado que não pertence a nossa sociedade. Roubar e abusar de idosos é crime, uma moça maior de idade transar com quantas pessoas quiser não é.

Dóris ser livre sexualmente e ser vilã faz com que o assunto sexo seja atrelado a uma criminalidade que não cabe. Vira tabu, e assim não pode ser comentado, conversado. A falta de conhecimento e a desnaturalização do sexo fazem com que milhares de jovens não tenham a informação necessária para se proteger de doenças sexualmente transmissíveis, ou ainda de relacionamentos com pessoas abusivas que podem vir a pressionar por um início precoce de vida sexual, fazendo até uma espécie de grooming (o famoso “ensinar a transar”).

Tanto que é exatamente o que acontece com Dóris: ela é manipulada o tempo todo por Marcos, um abusador em série. Ao fazer o assunto sexo uma punição passível de linchamento público, Carlão não ajuda sua filha, mas a empurra para os braços de um relacionamento abusivo. Ao não ser aberto com Dóris, não aceitar que ela seja sexualmente ativa, ao fazer o sexo ser um tabu feminino dentro de casa — pois ele conversa sobre o assunto com Carlinhos —, acaba por fazer com que a moça não consiga identificar as pessoas que querem tirar vantagens dela (tanto Marcos como o homem que furta suas joias no quarto de hotel).

A mulher livre sexualmente é punida apenas por exercer sua vontade. Para Manoel Carlos, a mulher antes do casamento não pode falar, pensar e muito menos fazer sexo. As surras que Carlão dá em Dóris são porque ela dorme fora de casa, está “descontrolada”, tem muitos namorados. O linchamento público a que ela é submetida ao final da novela, sendo levada seminua pelos cabelos pelo próprio pai para ser humilhada no lobby do hotel, é talvez uma das cenas mais nojentas e equivocadas da teledramaturgia brasileira.

Ainda não estamos preparados para perdoar Dóris ou vê-la com outros olhos como fizemos com Eduarda de Por Amor. Mesmo que ela seja humilhada constantemente por seus erros e atitudes durante a novela, e pague por eles ao final, inclusive fisicamente. Mesmo que o próprio autor a perdoe, fazendo com que ela se arrependa no último capítulo de como tratou os avós, ainda assim dizemos que mereceu pouco, embora as humilhações que causou aos avós não tenham sido muito diferentes de como nosso país ainda hoje trata os idosos, e como muitos cidadãos que têm contato diário com a população mais velha os trata.

Talvez uma parte de Dóris seja o espelho de nossa sociedade, cultuando uma juventude efêmera, desprezando os mais velhos. E assim, não conseguimos perdoar o que vemos de pior nela, pois é, talvez, o que tenha sido incutido de pior em nós mesmos. Cada vez mais a popularização de filtros no Instagram, cremes de beleza, rotinas de skincare, nos levam a nos cercar dessa jovialidade sem rugas, descartando o que não nos serve. E Dóris agia igualmente assim, se cercando de Estela e Vidinha e repelindo qualquer afeto genuíno vindo de seus avós.

Ao final, Dóris tem uma redenção tímida em Mulheres Apaixonadas. Tirando o linchamento praticado pelo pai, não teve humilhações públicas de “pobreza” a lá Félix (Amor à Vida, 2013) e Josiane (A Dona do Pedaço, 2019). Apenas a consciência de que errou, vendo seus erros, caindo na real e se arrependendo, sem perder a essência ambiciosa de sua concepção. Algo bem mais vida real, o que não quer dizer que agradou o público, ao contrário. Para o público, Dóris sofreu pouco, foi pouco humilhada.

A ambição feminina, a vontade de se ter mais do que já se tem, são crimes passíveis de punição. Não existe mobilidade social por mérito no universo das novelas de Manoel Carlos, apenas por casamento. É necessário que o pobre seja humilde e saiba seu lugar, sem desejar ter mais do que “merece” (apenas quando Paulinha se torna mais “humilde” é que “ganha” algo: o prêmio de melhor aluna da sala. Uma bolsista que vivia tirando notas baixas e sendo cobrada por isso durante boa parte da trama). Maneco atribui às personagens outras características injustificáveis que ajudam a marcá-las como vilãs, para que não se tenha dúvida alguma na hora de seus julgamentos. Paulinha é homofóbica e odeia o pai e tudo que ele representa, Dóris abusa psicologicamente dos avós. Assim, as personagens são vilanizadas, odiadas pelo público, os outros personagens também se voltando contra elas, mesmo que nem todas as suas características necessitem de punição.

Estela, Edwiges e Gracinha: mulheres sexualmente ativas, um crime moral

No caminho oposto tanto de Dóris quanto de Paulinha, a milionária Estela resolve se desfazer de sua vida sexual e de seus bens materiais por sua paixão por um padre. É louvável que a moça tenha encontrado um caminho na vida, até porque diversas vezes ela mesma disse se sentir vazia e sem propósito. Porém, isso é expresso pela trama como uma grande redenção de Estela por sua luxúria do passado, por ter levado uma vida “desregrada” de sexo, festas e bebida.

Apesar de ir contra estereótipos de gênero enraizados em histórias de romance, Estela se tornar casta, se “regenerar” pelo amor a um homem “santo”, também mostra o forte machismo dos princípios “morais” de Manoel Carlos. Estela, uma mulher sexualmente livre, escolhe se abster pelo desejo sexual que sente por um padre. Ela também decide se desfazer de tudo o que tem, até modificando a forma de se vestir por causa de sua paixão por um homem. Ao final, Padre Pedro (Nicola Siri) cede aos desejos de Estela e a pede em casamento, convencido de que ela mudou. É pelo amor que Estela volta ao seu estado “natural” de mulher: um desejo sexual intenso apenas pelo seu marido, sem dinheiro próprio, sem luxos desnecessários, vestida de forma modesta, sem mostrar demais o corpo. Tudo para estar junto do homem que ama, se moldando aos desejos dele.

Da mesma forma, o impasse Edwiges (Carolina Dieckmann) versus Gracinha (Carol Castro) gira em torno da pureza de uma moça virgem e do maniqueísmo maléfico de uma jovem sexualmente ativa. Gracinha é, durante toda a trama, a moça que quer dar o golpe do baú, sempre presente na vida de Cláudio (Erik Marmo) esperando uma oportunidade para transar com ele. E basta uma vez para que seus planos deem certo: logo ela manipula também Edwiges para que se compadeça da gravidez indesejada. Em nenhum momento o moço é responsabilizado por essa gravidez, mesmo que ele tenha pressionado Edwiges durante todo o namoro para que transassem antes do casamento, o que a moça nunca quis. Apesar de também ter a liberdade de escolher não ser sexualmente ativa, Edwiges admira a “liberdade” de Gracinha. O autor não parece entender que a liberdade feminina está no poder de escolha da mulher, fazer ou não fazer não importa, e sim poder escolher qualquer uma das opções.

Gracinha não se sente humilhada por ser sexualmente ativa ou por já ter feito abortos, mesmo que os outros personagens tentem humilhá-la. Manoel Carlos não é totalmente consistente em seus julgamentos, ou não entende muito bem suas próprias personagens. Fernanda, ex-profissional do sexo, também não se deixa abalar ou ser humilhada em momento algum, nem por Teo, nem por Rafael (Cláudio Marzo), ambos sempre tentando lembrá-la em diversas oportunidades “de onde ela vem”. Mas Fernanda luta por um lugar para si mesma em um emprego que quer, sem perder seu orgulho. Por isso, por ter orgulho, por não se contentar com o lugar que a sociedade reserva a ela, tem como destino a morte. A única personagem que morre em Mulheres Apaixonadas, expiando seus pecados passados e suas características não condizentes com sua posição social (orgulho e ambição).

Clara e Rafaela: casal lésbico, mas sem beijo

Pensar em personagens abertamente LGBTQIA na teledramaturgia brasileira pode parecer algo comum para os últimos cinco anos, mas vinte anos atrás era algo raro. Quando esses personagens figuram nesse tipo de dramaturgia, ainda hoje, são muitas vezes estereotipados, caricaturas, motivo de comicidade. Ou ainda são vilanizados numa tentativa de ligar patologias à orientação sexual. Um casal abertamente LGBTQIA é ainda mais inédito. É possível contar nos dedos de uma mão os casais homoafetivos de telenovelas brasileiras.

Mulheres Apaixonadas conseguiu a façanha de trazer Clara (Alinne Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli) como um casal abertamente lésbico, mostrado em tela sem meias palavras. Mais que isso: elas não são e não tem tramas estereotipicamente homossexuais. Nem Clara nem Rafaela saem do armário, se “revelam” ou têm questões sobre suas orientações sexuais; ao contrário, do início ao final da novela suas lutas são externas, para si mesmas elas sabem quem são.

É surpreendente o quanto Manoel Carlos acerta com seu casal lésbico. No começo de Mulheres Apaixonadas, as duas vivem no mesmo apartamento e têm várias cenas juntas típicas de casal. Durante a evolução da trama, elas lidam com homofobias, inclusive da própria mãe de Clara, porém o maior inimigo do casal é mais a insegurança da garota do que qualquer outro: uma insegurança não de ser quem ela é, e muito menos de amar Rafaela, mas sim com aspectos mais materiais — não conseguir economizar dinheiro, não deixar de lado o cartão de crédito —, ou de autoestima — ela se deixa ser beijada por Rodrigo (Leonardo Miggiorin) não por considerá-lo romanticamente, mas porque tem dificuldade em dizer “não” para quem quer que seja. A homofobia que Clara e Rafaela sofrem por parte de Paulinha e da mãe de Clara escancaram a homofobia do próprio público da época. Apesar de terem morado sob o mesmo teto, e até mesmo aparecerem em uma cena tomando banho juntas, em momento algum foi permitido ao casal que se beijasse.

Do meio do folhetim para o final, a história das duas foi ficando mais forte, envolvendo até uma tentativa de atropelamento. Mas o relacionamento de Clara e Rafaela não se abalou em momento algum. Talvez tenha sido um dos únicos casais da novela que não se separa, não briga, ou tem dúvidas sobre o outro. Clara e Rafaela têm um relacionamento sólido, tanto que, assim que completa 18 anos, Clara se muda para o apartamento de Rafaela de vez. As duas até fazem piada sobre isso, dizendo que não estão evitando uma gravidez, o que alude ao fato de uma vida sexualmente ativa entre as duas.

Elas quase se beijam na festa a fantasia, comemoração da maioridade de Clara e Fred, mas a mãe de Clara chega no momento, interrompendo as duas. Ali o autor alfineta a homofobia do público do próprio folhetim, que apesar de torcer para que as duas continuassem juntas, não queria que elas se beijassem em rede nacional. O beijo aconteceu afinal na formatura, no último capítulo, mas dentro do contexto de uma cena da peça Romeu e Julieta que as duas encenaram, Clara como Julieta e Rafaela como Romeu. Artifício usado para dar as voltas no público, mas não menos marcante historicamente.

Mais mulheres apaixonadas: assuntos importantes que se perdem

Dentre tantos personagens e núcleos, Mulheres Apaixonadas acaba por deixar muitas abordagens em aberto ou tratadas de forma rasa e até vazia. A personagem Hilda fez de sua intérprete Maria Padilha uma figurante de luxo durante a maior parte da trama, não tendo conflito algum com nenhum dos outros personagens. Mais para o final da novela Hilda descobre ter câncer de mama, figurando numa campanha para conscientização da doença, porém suas cenas são didáticas demais, completamente deslocadas dos outros núcleos, sem conexão alguma com outros personagens. Hilda fica isolada interagindo pouco com os problemas dos outros.

Há uma pequena tentativa de abordar a carga mental, um conceito inédito na época, que o autor parece não ter muita consciência sobre o que está tratando. Assim como outros assuntos, o machismo estrutural de Manoel Carlos faz com que a abordagem sobre Hilda não ir a consultas frequentes ao médico não apareça como um sintoma da carga mental legada às donas de casa, mas sim um “desleixo”, “descuido” ou “despreocupação” das mulheres consigo mesmas. Na verdade, essas mulheres são inundadas pela carga mental de cuidar de filhos e marido. Elas é que têm que marcar médicos para filhos e maridos, pegar exames, providenciar remédios e lembrar da hora de tomá-los, trocar curativos, fazer canjas, etc. Quem cuida do cuidador? Aparentemente, no caso de Hilda e de milhares de mulheres, ela mesma, já que as pessoas à sua volta — suas irmãs, por exemplo — têm suas próprias preocupações.

Da mesma forma, Santana (Vera Holtz) passa o folhetim todo sofrendo por causa do alcoolismo, sendo humilhada dramática e comicamente em toda cena que aparece. As recaídas de Santana e sua resistência em procurar um tratamento adequado não são verdadeiramente abordados, na verdade é feito como um alívio cômico da trama, suas cenas inclusive virando diversos memes pela internet.

Sílvia (Natália do Vale) é a única mulher, além de Helena, sexualmente ativa e dona de si de Mulheres Apaixonadas que não é julgada. Ao contrário, é celebrada. Porém, suas cenas também parecem ter um certo ar cômico, de madame alienada. E sua obsessão pela empregada Shirley (Renata Pitanga) não é abordada além da exoticidade de um fetiche sexual pelo namorado da funcionária.

A falácia da ninfeta sedutora

Mulheres Apaixonadas é a novela de Manoel Carlos com mais jovens garotas envolvidas com homens formados por núcleo. Dentro da trama isso é normalizado e até exaltado. Ocorre uma conversa entre Helena e Raquel em que esse comportamento é comentado de uma forma normalizada dentro da escola. As duas reproduzem o pensamento equivocado de que alunas menores de idade provocam sexualmente professores e seus colegas. Também comentam de forma casual, colocando a culpa nessas alunas por abusos e estupros dentro da escola.

Parece que Manoel Carlos leu Lolita e não entendeu a mensagem que Nabokov quis passar. Além de Presença de Anita (minissérie de 2001 do autor baseada no livro Presença de Anita), muitas das “mulheres” apaixonadas são apenas garotas ou moças que se envolvem com homens muito mais velhos. Durante toda a trama esse comportamento é não só normalizado como celebrado. Vidinha e Sérgio, Dóris e Marcos, Luciana/Laura (Carolina Kasting) e César — ambas são inicialmente assistentes dele —, são alguns dos casais com diferença de poder da novela, com, claro, o homem com mais poder que sua contraparte feminina.

Porém, Maneco também aborda a mulher mais velha com um moço muito mais jovem. Além de Raquel e Fred, o primeiro casal a ser formado em Mulheres Apaixonadas é Lorena (Suzana Vieira) e Expedito (Rafael Calomeni). É um casal também com uma grande diferença de poder, mas dessa vez é a mulher que controla o relacionamento. O autor consegue abordar o machismo e o preconceito que esse tipo de casal desperta na sociedade no capítulo em que Lorena “debuta” seu namoro com Expedito. Rafael, seu ex-marido, comenta com desprezo: “Você está se expondo ao ridículo, Lorena”, ao que ela responde: “Ah é? Quer dizer que um homem de 50, 60, pode muito bem desfilar com uma mulher de 20, 30, e todo mundo acha natural, legal, bonito. Agora a mulher não, se a mulher faz isso ela é ridícula.” Mesmo assim, é Lorena quem sai traída da relação, humilhada por Expedito e a ex-nora Marina.

No balanço final de Mulheres Apaixonadas é possível ver a confusão de Manoel Carlos em relação às próprias opiniões. Maneco não se decidiu se acha mulheres sexualmente ativas e donas de si “empoderadas” ou “vagabundas”. É certo que há uma ambivalência entre esses dois estereótipos na trama. Para as casadas e separadas, um tratamento de liberdade, de liberação; podem trair e destrair o marido, ficar entre dois homens, ser amante do namorado da própria funcionária sem ela saber. Afinal, os maridos também as traem. Para as solteiras, o linchamento público. Esses dois pesos para a mesma medida não só confundem o espectador, mas fazem com que se crie a ideia que uma mulher só tem voz após se casar. Um conceito ultrapassado até mesmo para vinte anos atrás.

E após esses vinte anos é possível observar o quanto a novela teve um grande impacto. Por ter sido escrita quase em tempo “real” — na última parte, os capítulos eram escritos no dia em que eram gravados, os atores ensaiavam as cenas na hora —, Mulheres Apaixonadas é também um documento histórico. Por causa do núcleo de Dóris e seus avós foi aprovado o Estatuto do Idoso, que inclusive figura numa cena com Carlinhos comentando sobre ele. Os atores e seus personagens também participaram da passeata a favor do desarmamento, Brasil Sem Armas, a violência urbana sendo abordada no arco em que Teo e Fernanda são atingidos por balas perdidas durante uma perseguição policial.

Com a reexibição, fica clara a diferença grande entre Mulheres Apaixonadas e outras novelas do autor. Uma novela longa, sem um núcleo principal, em que as “mazelas” de Helena não são tão importantes ou instigantes quanto de suas homônimas de outros folhetins, talvez não se destaque tanto no rol de obras do autor. Talvez seja a obra de nossa teledramaturgia que se aproxime mais dos seriados estadunidenses dramáticos como Grey’s Anatomy ou as tranquilas séries do canal Hallmark, cheias de questões familiares.

No último capítulo, a história da Helena de Christiane Torloni não tem o sentimento de final, assim como nenhum dos outros núcleos. Tudo fica um pouco em aberto, pedindo uma continuação: mais traições, mais “barracos” em coberturas do Leblon, mais ricos gritando uns com os outros. Mulheres Apaixonadas é um perfeito exemplo do porquê Manoel Carlos ganhou o título de “cronista do cotidiano”. Por boa parte da novela, parece que nada acontece, mas é que na verdade tudo está acontecendo como na vida: de forma sutil e corriqueira.

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2 comentários

  1. As suas opiniões são tão confusas quanto a do Maneco. Fala mal da repressão da sexualidade feminina pelo autor, mas faz o mesmo julgando a relação da Raquel com o Fred. Uma relação complicada, complexa, mas bem a frente de seu tempo. O amor entre um jovem de 17 anos com uma mulher mais velha, nada fora da lei apesar de ser complexo, mas que até hoje enfrenta esse tipo de moralismo e preconceito. Além de reprimir a sexualidade do Sérgio por ele comentar sobre outras mulheres bonitas na praia, como se as pessoas morressem depois de casar. Compara Heloísa com o Marcos, mas acha ela dar uma facada no marido “justificável”, como se os ciúmes e sentimentos de posse fosse justificassem tentativa de assassinato do parceiro. Se fosse dessa forma as agressões do Marcos seriam justificadas? Isso seria uma absurdo de se dizer, certo? Pois é. De qualquer forma o texto é muito bom, apesar de tentar vitimizar todas as personagens femininas e demonizar todos os homens, isso fica bem raso, mas imaginei que fosse o tom que iria seguir no texto. De qualquer forma Maneco é genial nos contos do dia-a-dia mesmo e sabe definir as situações humanas com mais complexidade que uma simples de divisão entre “opressores” e “oprimidos”

  2. Eu assisti a reprise da novela no VIVA e nossa tudo que você falou foi muito bem colocado.

    De todos os núcleos, a abordagem do núcleo da Raquel foi a que mais me incomodou.

    Não falo só das agressões físicas e sexuais – o que por si só já causa um grande desconforto nos telespectadores – mas sim por colocarem um aluno MENOR DE IDADE para ser a imagem do seu protetor, do seu salvador. Essa relação fica ainda mais problemática nos últimos capítulos, quando o salvador da Raquel morre em um acidente de carro com Marcos, o agressor, no capítulo final a Raquel fala para o colégio todo que está grávida do seu ex aluno, menor de idade.

    O pior é que durante a novela falam várias vezes que a Raquel já se envolveu com outros alunos, ou seja, não foi a primeira vez que ela teve um relacionamento com um menor.

    Essas relações que ela teve não invalidam o impacto que a personagem teve na televisão brasileira, uma vez que em 2003 não era tão comum essa abordagem na mídia, ainda mais em uma novela do horário nobre. No mais, acho o texto de Manoel Carlos muito bonito, mas infelizmente um pouco datado.