Categorias: LITERATURA

O Marido do Meu Irmão: uma história sobre homossexualidade e preconceito

A Panini Comics lançou no Brasil, em 2019, os dois primeiros volumes do mangá O Marido do Meu Irmão (no original: Otōto no Otto, 弟の夫), de Gengoroh Tagame. Desde seu lançamento no Japão, em 2015, e subsequente tradução ao inglês (My Brother’s Husband), em 2018, a obra tem chamado a atenção tanto dos fãs de quadrinhos japoneses, quanto do público leitor em geral, devido à sensível e inusitada abordagem de temas pouco explorados no mundo dos mangás: a homofobia e as diferenças culturais.

Apesar de no Japão haver um gênero focado apenas em histórias românticas entre homens (yaoi) e outro entre mulheres (yuri), ambos não costumam retratar exatamente a realidade vivida por pessoas LGBT no país, tocando apenas levemente na temática preconceito e da exclusão social, ou ignorando por completo os assuntos. Ao contrário da maioria dessas obras, O Marido do Meu Irmão entra de cabeça nessas questões e em outras ainda mais polêmicas, sempre de forma leve e doce, permitindo ao leitor refletir sobre os pré-conceitos que formamos com base em esteriótipos e desinformações relacionadas à sexualidade e à nacionalidade do outro.

Nesse mangá, somos apresentados ao canadense Mike, que viaja até o Japão para conhecer a família do seu falecido marido, Ryouji, de nacionalidade japonesa. Nessa viagem, Mike se hospeda por alguns dias na casa de Yaichi, o irmão gêmeo de Ryouji, e de sua filha pequena, Kana, únicos parentes vivos do marido.

No início, Yaichi mostra dificuldades em se relacionar com Mike, devido à sexualidade do canadense e também a suas diferenças culturais. Em alguns momentos, Yaichi chega a agir de forma agressiva contra o cunhado. Enquanto isso, Kana, ainda não contaminada com o preconceito dos adultos, se mostra encantada por possuir um tio canadense, sem se importar com o fato de ele ter sido casado com um homem. Desse modo, acompanhamos o desenvolvimento dessa família através das situações vividas após a chegada de Mike.

O marido do meu irmão - capas

Por que esse mangá vale ouro?

Há muitos motivos para a história retratada em O Marido do Meu Irmão ser tão encantadora. Para mim, o mais tocante foi o desenvolvimento de Yaichi, que muda da água para o vinho ao longo dos 4 volumes do mangá, e acaba se tornando meu personagem preferido. Apesar do tamanho da mudança pela qual o personagem passa, isso ocorre de maneira lenta, natural, e — acima de tudo — de forma crível.

Sua convivência com o gentil e amável canadense vai aos poucos modificando os pensamentos e opiniões de Yaichi e mostrando aos leitores, assim como mostrou ao personagem, como o preconceito é, muitas vezes, mais do que uma questão de maldade, tendo também um componente de pura ignorância, ou seja, de desconhecimento sobre algo ou alguém. A partir dessa perspectiva, parte do caminho de derrubada do preconceito envolve a disseminação de informação — afinal, somos todos moldados dentro dos valores da sociedade e ninguém nasce desconstruído.

Em O Marido do Meu Irmão, vemos que Yaichi nunca havia se aberto a ouvir e compreender seu irmão, uma vez que a imagem pré-concebida sobre a homossexualidade o fez se afastar de Ryouji e também de Mike. No entanto, ao ter a oportunidade de conviver com o canadense, mesmo que de forma forçada e mostrando resistência, ele passa aos poucos a enxergar Mike para muito além da sua sexualidade. No fim, Yaichi chega a se sentir envergonhado ao perceber os erros que cometeu, e o quão sem sentido era a forma como ele agia.

Além dessa trama central, o mangá também nos apresenta outros personagens que estão passando por momentos diferentes de aceitação de suas sexualidades. Assim, temos contato não só com a realidade de Mike, como um visitante estrangeiro, mas também com a de japoneses homossexuais que vivem no país. O Marido do Meu Irmão joga constantemente em nossa cara os preconceitos do dia a dia, as chamadas “microagressões”, que parecem tão inofensivos e “naturais” que por vezes nem percebemos que também são formas de violência. Vemos, ainda, o lado mais pesado da homofobia e da xenofobia, e como ela afeta e destrói a vida não só da vítima, mas das pessoas ao seu redor.

Incrivelmente, mesmo quando aborda assuntos pesados como esses, a história consegue, quase de forma milagrosa, se manter leve e divertida. O que só podemos atribuir a uma grande sensibilidade de seu autor.

O Marido do Meu Irmão é um mangá muito bonito e delicado, que precisa ser lido. Ele trata de assuntos sérios com o peso com que devem ser tratados, sem se tornar uma história dolorosa de ser lida. Ao contrário, é uma mangá que nos deixa com o coração quentinho e que nos faz ter um pouco de esperança na humanidade.


Em junho é comemorado o mês internacional do orgulho LGBTQIA+, em homenagem ao aniversário da Revolta de Stonewall, ocorrida em Nova York em 28 de junho de 1969, marco histórico da luta pelos direitos da população LGBTQIA+.


** A arte em destaque é de autoria da editora Paloma, a partir da capa do volume 2 da obra. 

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